sábado, 28 de março de 2026

Política em todo lugar, país em segundo plano

Como o ruído permanente da politicagem digital sequestra o debate público e impede o Brasil de discutir o que realmente importa



Índice

  1. Lide
  2. Quando a política vira inundação
    2.1. A origem de uma lógica de saturação
    2.2. Do debate ao bombardeio informacional
  3. O caso brasileiro: da praça pública ao grupo da família
    3.1. A expansão da política em aplicativos e redes
    3.2. Quem mais opera essa máquina de ruído
  4. O ruído como método político
    4.1. Excesso, indignação e fadiga
    4.2. A colonização emocional da vida cotidiana
  5. Como isso trava o desenvolvimento do Brasil
    5.1. Agenda pública capturada
    5.2. Desconfiança institucional e paralisia coletiva
    5.3. A substituição do projeto nacional pela guerra cultural
  6. O Brasil precisa de política, não de politicagem
  7. Conclusão
  8. Referências




Lide



O Brasil vive uma contradição corrosiva. Nunca se falou tanto de política, e talvez há muito tempo não se tenha discutido tão pouco o país de maneira séria. Da tela do celular ao almoço de família, do Instagram ao WhatsApp, do vídeo curto ao bar da esquina, o debate público foi tomado por uma lógica de saturação: opinião em excesso, conflito em tempo integral, escândalo em série, indignação em escala industrial. O resultado não é mais consciência cívica. É ruído. E ruído demais não ilumina: encobre. Quando tudo vira disputa política imediata, quase nada sobra para a conversa difícil, paciente e tecnicamente exigente sobre educação, produtividade, saúde, infraestrutura, segurança, ciência, indústria, inovação e futuro nacional.



Quando a política vira inundação




A origem de uma lógica de saturação



Há uma expressão que ajuda a compreender esse fenômeno. A fórmula “flood the zone with shit”, associada a Steve Bannon e popularizada como síntese do estilo comunicacional trumpista, descreve uma estratégia simples e brutal: inundar o espaço público com excesso, versões simultâneas, ruído, choque e desorientação. O objetivo não é apenas persuadir. É também embaralhar, cansar, deslocar o foco e destruir a hierarquia do relevante. Quando tudo parece urgente, nada realmente importante consegue permanecer no centro por tempo suficiente para ser compreendido. A própria Vox, ao analisar a frase, mostrou que a lógica consiste em neutralizar o escrutínio público por saturação informacional, e não por argumentação racional (Illing, 2020). 


Essa fórmula não pertence apenas aos Estados Unidos. Ela se tornou um modo de operar a comunicação política em vários contextos democráticos fragilizados. O excesso deliberado de mensagens, a explosão de versões contraditórias, a multiplicação de escândalos paralelos e a produção contínua de inimigos públicos formam um ecossistema no qual a verdade deixa de ser o eixo da política. O eixo passa a ser a ocupação emocional do ambiente. Não importa mais se uma informação é sólida; importa se ela circula, irrita, mobiliza, assusta ou tribaliza.



Do debate ao bombardeio informacional



A consequência mais grave desse método é a destruição do tempo da reflexão. Questões complexas exigem atenção, comparação, memória, nuance, capacidade de distinguir evidência de slogan. O ruído permanente faz exatamente o contrário: ele comprime o pensamento em impulsos. Em vez de deliberação, reação. Em vez de análise, pertencimento. Em vez de prioridade nacional, guerra diária de narrativas.


É por isso que a saturação política não deve ser confundida com vitalidade democrática. Uma democracia saudável não é aquela em que todo assunto vira munição. É aquela em que os conflitos públicos podem ser processados por instituições, informação confiável e argumentação minimamente comum. Quando o espaço público é tomado por uma enxurrada de barulho, a política deixa de organizar o dissenso e passa a explorá-lo como combustível.



O caso brasileiro: da praça pública ao grupo da família




A expansão da política em aplicativos e redes



No Brasil, essa lógica encontrou terreno especialmente fértil. Os aplicativos de mensagem e as plataformas sociais tornaram-se, ao mesmo tempo, fonte de informação, arena afetiva, corredor de boatos, palanque improvisado e fábrica de pertencimento. Um relatório do Aláfia Lab, em parceria com outras organizações, observou que, desde 2018, as eleições brasileiras vêm sendo marcadas pelo uso intenso de aplicativos de mensagens em um ambiente de crescente polarização. O estudo também chamou atenção para o papel central das mídias hiperpartidárias, veículos orientados não pelo equilíbrio informativo, mas pelo reforço de narrativas favoráveis a determinado espectro político (Aláfia Lab; coLab; Instituto Democracia em Xeque, 2025). 


Esse ponto é crucial. O problema já não é apenas a mentira frontal. Em muitos casos, o mecanismo opera por distorção, enquadramento emocional, títulos manipuladores, recortes enviesados e circulação massiva de conteúdo opinativo travestido de notícia. O mesmo relatório mostrou que, nos grupos analisados, havia desinformação relevante associada a temas como STF, economia e política nacional e internacional, além de registrar a centralidade de debates nacionais até mesmo em eleições municipais, um sinal eloquente de que o local foi sequestrado pelo conflito nacional permanente (Aláfia Lab; coLab; Instituto Democracia em Xeque, 2025). 


Não se trata, portanto, apenas de “as pessoas estarem discutindo política”. Trata-se de uma transformação mais profunda: a política deixou de ocupar espaços delimitados e passou a colonizar toda a vida cotidiana, quase sempre sob a forma de tensão, meme, denúncia instantânea, medo moral ou mobilização emocional.



Quem mais opera essa máquina de ruído



A pergunta inevitável é: quem mais faz isso no Brasil? A evidência disponível aponta, com bastante consistência, para o ecossistema bolsonarista da extrema direita como o polo de maior densidade, capilaridade e continuidade nessa forma de comunicação. Isso não significa que outros grupos sejam imunes à demagogia digital, ao oportunismo narrativo ou à manipulação retórica. Significa que, quando se procura escala, organização e aderência sistemática à política do ruído, é nesse campo que os estudos têm encontrado os sinais mais fortes.


Um levantamento da Agência Lupa, baseado no monitoramento de mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp entre julho de 2024 e julho de 2025, concluiu que os grupos de direita foram quase sete vezes mais numerosos que os de esquerda e concentraram a maior parte das mensagens supervirais encaminhadas. O estudo não retrata somente preferência ideológica; ele revela uma infraestrutura de circulação muito mais ampla e ativa em um dos ambientes decisivos da política brasileira contemporânea (Agência Lupa, 2025). 


Na mesma linha, análises do NetLab/UFRJ mostraram que o site Terra Brasil Notícias liderava a comunicação bolsonarista em compartilhamentos no WhatsApp e no Telegram, compondo uma rede de veículos hiperpartidários voltados à amplificação de narrativas favoráveis ao bolsonarismo. Isso reforça a ideia de que não se trata apenas de opinião espontânea ou militância dispersa, mas de um ecossistema com canais, repertórios e rotinas de propagação já bastante sedimentados (NetLab/UFRJ, 2024). 


Do ponto de vista partidário, esse ecossistema gravita fortemente em torno do PL, legenda que abriga Jair Bolsonaro como presidente de honra e concentra parte relevante de sua família política e parlamentar. Ainda assim, o fenômeno é mais amplo que a sigla: envolve influenciadores, perfis, canais, sites, redes de mensageria e comunidades digitais que operam de forma simultaneamente coordenada e descentralizada (PL, 2026). 



O ruído como método político




Excesso, indignação e fadiga



A eficácia desse sistema depende de três engrenagens. A primeira é o excesso. Não basta lançar uma narrativa; é preciso lançar muitas. Uma história falsa, uma meia-verdade, uma acusação lateral, um vídeo indignado, um recorte fora de contexto, um bordão, uma “denúncia” performática, um ataque à imprensa, outro às instituições, outro ao adversário. A abundância não é defeito. É método.


A segunda engrenagem é a indignação permanente. O conteúdo é produzido para ativar medo, raiva, nojo, escárnio ou ressentimento. Quanto mais intensa a emoção, maior a circulação. O debate sério, ao contrário, exige lentidão, verificação, contextualização. Em um ambiente governado pela recompensa da reação instantânea, a emoção vence a explicação quase sempre.


A terceira engrenagem é a fadiga cívica. E aqui está um efeito pouco percebido: o excesso de politização agressiva não gera apenas militantes mais intensos; gera também cidadãos comuns mais cansados, retraídos e silenciosos. Pesquisa divulgada pela Agência Brasil, com base em estudo sobre comunicação política em aplicativos, mostrou que 56% dos entrevistados disseram ter medo de emitir opinião sobre política no WhatsApp porque o ambiente se tornou muito agressivo. O dado é devastador: a retórica da hiperparticipação esconde um processo de silenciamento social (Agência Brasil, 2025). 



A colonização emocional da vida cotidiana



Essa agressividade muda a textura da convivência. O grupo da família deixa de ser espaço de afeto para virar trincheira. O amigo passa a ser testado politicamente. O colega de trabalho é enquadrado por sinais ideológicos. O bar, que antes era lugar de respiro, converte-se em extensão da guerra cultural. O país inteiro começa a respirar política, mas uma política empobrecida, nervosa, performática, repetitiva, contaminada por slogans.


A essa altura, o dano não é apenas informativo. É antropológico. A esfera pública perde densidade; a esfera privada perde paz. A convivência é corroída pelo imperativo da tomada de posição permanente. A cidadania madura cede espaço à vigilância tribal.



Como isso trava o desenvolvimento do Brasil




Agenda pública capturada



Nenhum país se desenvolve de modo consistente quando sua agenda pública é sequestrada pelo escândalo contínuo. Desenvolvimento exige capacidade de identificar prioridades, sustentar políticas de médio e longo prazo, qualificar o gasto público, melhorar a educação, ampliar infraestrutura, fortalecer ciência, elevar produtividade, induzir inovação e organizar pactos mínimos de coordenação nacional.


O ruído político faz o oposto. Ele captura a atenção social e desloca a energia pública para disputas incessantes que raramente produzem solução concreta. Em vez de debater seriamente reforma tributária, capacidade estatal, transição energética, industrialização avançada, educação básica, segurança pública baseada em evidência e inserção internacional do Brasil, o país passa dias inteiros discutindo a polêmica fabricada da vez. O efeito é semelhante ao de uma fumaça espessa: os problemas estruturais continuam onde sempre estiveram, mas a visibilidade coletiva sobre eles diminui.



Desconfiança institucional e paralisia coletiva



Há ainda um segundo dano: a corrosão da confiança. O DataSenado registrou que 81% dos brasileiros consideram que notícias falsas podem afetar significativamente os resultados eleitorais. Quando a própria cidadania percebe que o ambiente informacional está contaminado, instala-se um problema que vai além da eleição: a confiança em procedimentos, árbitros, dados e instituições passa a ser continuamente minada (DataSenado, 2024). 


Em nível internacional, estudo publicado no The International Journal of Press/Politics, cobrindo 26 países, concluiu que o fator mais fortemente associado à disseminação de desinformação por partidos não é simplesmente a posição ideológica ampla, mas o populismo de direita radical. A pesquisa sustenta que há relação particularmente intensa entre esse tipo de radicalismo e o uso político sistemático da desinformação, o que ajuda a interpretar o caso brasileiro em perspectiva comparada (Törnberg; Chueri, 2026). 


Quando instituições passam a ser tratadas apenas como inimigas a serem desacreditadas, e não como instâncias a serem criticadas e aperfeiçoadas, a democracia perde seu chão comum. Sem esse chão, a formulação de políticas públicas se torna mais instável, mais errática e mais refém do curto prazo.



A substituição do projeto nacional pela guerra cultural



O terceiro dano é talvez o mais profundo. A política do ruído substitui o projeto nacional pela mobilização identitária permanente. Em vez de perguntar que país produzir, que escola construir, que infraestrutura priorizar, que base tecnológica formar, que pacto federativo melhorar, o debate público passa a girar em torno do inimigo do dia, da frase do dia, da provocação do dia, da pauta moral do dia.


Esse desvio é fatal para um país periférico e desigual como o Brasil. Nações que ainda precisam enfrentar carências históricas em saneamento, alfabetização, produtividade, logística, pesquisa aplicada e industrialização não podem se dar ao luxo de viver em campanha eterna. O custo dessa distração não é abstrato. Ele aparece no atraso das reformas relevantes, na superficialidade da cobertura pública, na incapacidade de construir consensos mínimos e na transformação da energia social em espuma.


O próprio Ipea, em debate com a Cepal, destacou que polarização e desinformação ameaçam a coesão social e a democracia na América Latina. A advertência importa porque desenvolvimento não é apenas crescimento econômico; ele depende também de coesão social, estabilidade institucional e capacidade de coordenação coletiva. Um país permanentemente incendiado por ruído informacional torna-se menos apto a cooperar consigo mesmo (Ipea, 2025). 



O Brasil precisa de política, não de politicagem



É preciso separar duas coisas que a gritaria contemporânea tenta confundir. Política é a discussão séria do destino coletivo. Politicagem é a exploração oportunista do conflito para ocupação de espaço, excitação da base, fabricação de inimigos e produção de fumaça. A primeira é indispensável à democracia. A segunda a degrada.


O Brasil não sofre por falar demais sobre o país. Sofre por falar demais sobre versões, rótulos, afrontas, guerras simbólicas e escândalos industrializados. Sofre por trocar a deliberação pelo bombardeio. Sofre por transformar cada ambiente social em trincheira e cada rede em dispositivo de adrenalina política.


Reconhecer que o ecossistema bolsonarista da extrema direita foi, nos últimos anos, o principal operador dessa lógica não é partidarizar a análise. É nomear, com base em evidências, onde essa tecnologia política encontrou maior sistematicidade. Ignorar isso em nome de uma falsa simetria não esclarece o problema; apenas o protege.



Conclusão



A inundação do espaço público por ruído, excesso e conflito permanente não fortalece a democracia brasileira. Ela a desgasta por dentro. A política, quando reduzida a estímulo contínuo, deixa de organizar o país e passa a desorganizá-lo. Em vez de mobilizar inteligência coletiva para enfrentar os problemas reais do desenvolvimento, produz-se um ambiente de cansaço, agressividade, desconfiança e distração estrutural. O caso brasileiro mostra que essa máquina de saturação encontrou no bolsonarismo e em sua rede digital hiperpartidária sua forma mais intensa e eficaz. O dano, porém, ultrapassa um campo político específico: ele recai sobre a própria possibilidade de o Brasil voltar a discutir a si mesmo com seriedade. Um país que vive submerso em politicagem ruidosa perde a capacidade de pensar estrategicamente. E um país que perde essa capacidade não apenas fala mais alto; ele cresce menos, planeja pior e adia indefinidamente o seu futuro.



Referências



AGÊNCIA BRASIL. Brasileiro está falando menos de política no WhatsApp, mostra estudo. Agência Brasil, Brasília, 15 dez. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2025-12/brasileiro-esta-falando-menos-de-politica-no-whatsapp-mostra-estudo. Acesso em: 28 mar. 2026. 


AGÊNCIA LUPA. Direita é 7 vezes maior que a esquerda no WhatsApp, mostra estudo inédito. Agência Lupa, 3 nov. 2025. Disponível em: https://www.agencialupa.org/jornalismo/2025/11/03/direita-e-7-vezes-maior-que-a-esquerda-no-whatsapp-mostra-estudo-inedito/. Acesso em: 28 mar. 2026. 


ALÁFIA LAB; COLAB; INSTITUTO DEMOCRACIA EM XEQUE. Abaixo do radar: desinformação em grupos de extrema direita no WhatsApp e no Telegram nas eleições de 2024. Salvador: Aláfia Lab, 2025. Disponível em: https://alafialab.org/wp-content/uploads/2025/01/Abaixo-do-radar-Desinformacao-em-grupos-de-extrema-direita-no-WhatsApp-e-no-Telegram-nas-eleicoes-de-2024.pdf. Acesso em: 28 mar. 2026. 


DATASENADO. Para brasileiros, notícias falsas impactam eleições, revela DataSenado. Senado Notícias, Brasília, 23 ago. 2024. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/08/23/para-brasileiros-noticias-falsas-impactam-eleicoes-revela-datasenado. Acesso em: 28 mar. 2026. 


ILLING, Sean. “Flood the zone with shit”: how misinformation overwhelmed our democracy. Vox, 16 jan. 2020. Disponível em: https://www.vox.com/policy-and-politics/2020/1/16/20991816/impeachment-trial-trump-bannon-misinformation. Acesso em: 28 mar. 2026. 


INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (Ipea). Polarização e desinformação ameaçam coesão social e democracia na América Latina, alertam especialistas. Ipea, Brasília, 5 set. 2025. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/categorias/45-todas-as-noticias/noticias/16008-polarizacao-e-desinformacao-ameacam-coesao-social-e-democracia-na-america-latina-alertam-especialistas. Acesso em: 28 mar. 2026. 


NETLAB/UFRJ. Site campeão de compartilhamentos no WhatsApp e no Telegram lidera comunicação bolsonarista. NetLab/UFRJ, 8 fev. 2024. Disponível em: https://netlab.eco.ufrj.br/post/site-campe%C3%A3o-de-compartilhamentos-no-whatsapp-e-no-telegram-lidera-comunica%C3%A7%C3%A3o-bolsonarista. Acesso em: 28 mar. 2026. 


PARTIDO LIBERAL (PL). Arquivos Presidente de Honra do PL Jair Bolsonaro. PL 22, 2026. Disponível em: https://partidoliberal.org.br/tag/presidente-de-honra-do-pl-jair-bolsonaro/. Acesso em: 28 mar. 2026. 


PARTIDO LIBERAL (PL). Partido Liberal | PL 22. PL 22, 2026. Disponível em: https://partidoliberal.org.br/. Acesso em: 28 mar. 2026. 


TÖRNBERG, Petter; CHUERI, Juliana. When do parties lie? Misinformation and radical-right populism across 26 countries. The International Journal of Press/Politics, v. 31, n. 2, p. 367-386, 2026. DOI: 10.1177/19401612241311886. Disponível em: https://research.vu.nl/en/publications/when-do-parties-lie-misinformation-and-radical-right-populism-acr/. Acesso em: 28 mar. 2026. 



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