quinta-feira, 23 de abril de 2026

A política da destruição simbólica

Como a extrema direita converte Paulo Freire, o Papa e outras autoridades morais em alvos de guerra cultural para corroer a mediação institucional, sequestrar a atenção pública e governar pela indignação


Índice

  1. Lide
  2. Introdução: o poder que precisa destruir símbolos
  3. Nota conceitual I — o que é guerra cultural
  4. Paulo Freire como inimigo imaginário da extrema direita brasileira
  5. Nota conceitual II — populismo, antagonismo e líder carismático
  6. Trump, JD Vance e o esforço de rebaixar o Papa Leão XIV
  7. Nota conceitual III — tecnopolítica e gestão algorítmica do conflito
  8. As engrenagens da desconstrução retórica
  9. O ganho político imediato e o custo institucional duradouro
  10. Instituições federais e a urgência de uma defesa comunicacional republicana
  11. Conclusão
  12. Referências

Lide

A extrema direita contemporânea entendeu algo decisivo sobre o nosso tempo: destruir símbolos dá mais resultado político imediato do que disputar argumentos complexos. É mais simples chamar Paulo Freire de “energúmeno” do que estudar a crise estrutural da educação brasileira. É mais eficiente, para mobilizar paixões digitais, dizer que o Papa deve “ficar na moralidade” do que discutir eticamente guerras, bombardeios, migração forçada e sofrimento humano. O método é brutal, mas funcional: primeiro, rebaixa-se a pessoa; depois, esvazia-se o lugar institucional que ela representa; em seguida, transforma-se a agressão em espetáculo circulável nas redes. O alvo aparente é o indivíduo. O alvo real é a mediação que limita o poder.  


Introdução: o poder que precisa destruir símbolos

Toda ordem autoritária precisa resolver um problema fundamental: como governar sem aceitar freios morais, intelectuais ou institucionais? A resposta clássica foi a censura, a perseguição aberta, a violência estatal. A resposta contemporânea, mais sofisticada e muitas vezes mais eficaz, é a corrosão simbólica. Não é preciso prender Paulo Freire para tentar neutralizar sua influência; basta transformá-lo em caricatura. Não é necessário silenciar formalmente o Papa; basta empurrá-lo para o lugar do “líder religioso metido em política”, como se denunciar guerra e sofrimento não fosse precisamente matéria ética. O poder populista de extrema direita não quer apenas vencer eleições. Ele quer desmoralizar toda autoridade que possa lembrar à sociedade que o Estado não é dono da verdade, que a força não substitui o juízo moral e que a democracia exige instâncias de mediação.  

Essa dinâmica ficou evidente no Brasil com a transformação de Paulo Freire em inimigo ritual da direita radical, e reapareceu nos Estados Unidos em abril de 2026, quando Donald Trump e JD Vance reagiram ao Papa Leão XIV com a linguagem típica do rebaixamento simbólico. Nos dois casos, o roteiro é muito parecido. A figura de autoridade é deslocada do plano do pensamento, da ética ou da tradição institucional e lançada no plano rasteiro da suspeita moral, do insulto, da ridicularização e da disputa identitária. Não se debate a obra de Freire. Não se responde seriamente à doutrina social da Igreja. Fabricam-se inimigos convenientes.  

O ponto central deste artigo é simples e grave: a destruição de autoridades simbólicas não é excesso de linguagem; é técnica de poder. E, como toda técnica de poder, produz efeitos. Ela mobiliza bases, sequestra atenção, simplifica o mundo e cria um ambiente em que qualquer mediação crítica pode ser apresentada como sabotagem do “povo verdadeiro”. O preço, porém, é devastador: erosão institucional, empobrecimento do debate público, fragilização da gestão estatal e normalização de uma cultura política em que insultar vale mais do que argumentar.  


Nota conceitual I — o que é guerra cultural

“Guerra cultural” não é apenas divergência moral entre grupos da sociedade. O conceito, no uso contemporâneo, designa uma forma de disputa política em que valores, costumes, símbolos, narrativas históricas e referências intelectuais são convertidos em campo permanente de combate. Em vez de discutir somente orçamento, infraestrutura, política pública ou desenho institucional, a extrema direita desloca a arena para um terreno emocionalmente explosivo: família, religião, escola, sexualidade, patriotismo, história nacional, autoridade do professor, legitimidade da ciência, papel da arte, liberdade de expressão e suposta ameaça de elites culturais. A guerra cultural funciona porque muda o eixo da política. Em vez de perguntar “o que resolve?”, pergunta “de que lado você está?”.  

Nesse terreno, símbolos importam mais do que diagnósticos. Paulo Freire não é atacado porque seus detratores tenham estudado cuidadosamente sua pedagogia. Ele é atacado porque passou a condensar, para a imaginação reacionária, tudo aquilo que a extrema direita deseja denunciar como ameaça: crítica social, emancipação, diálogo, consciência histórica, leitura política da desigualdade. Do mesmo modo, o Papa não é rebaixado porque tenha perdido densidade teológica, mas porque encarna uma autoridade moral transnacional capaz de dizer que a violência do império não se torna justa só porque foi proclamada em nome da civilização, da segurança ou da pátria. A guerra cultural vive de condensações simbólicas. Ela fabrica atalhos emocionais para evitar o trabalho duro do pensamento.  

Há aqui uma lógica quase teatral. O conflito precisa ser visível, repetível e simplificável. Uma crise educacional de raízes históricas, federativas e socioeconômicas é difícil de explicar em um vídeo curto ou em uma postagem de alto engajamento. Já a frase “Paulo Freire destruiu a educação” cabe perfeitamente na gramática do ódio digital. Uma reflexão séria sobre guerra, ética, direito internacional e doutrina social cristã exige densidade. Já a acusação de que o Papa é “fraco” ou “político” cabe na economia afetiva das redes. A guerra cultural, portanto, não é só uma ideologia; é uma tecnologia narrativa adaptada às condições de circulação contemporânea.  


Paulo Freire como inimigo imaginário da extrema direita brasileira

Paulo Freire foi declarado Patrono da Educação Brasileira pela Lei nº 12.612, de 13 de abril de 2012. Sua obra ultrapassou amplamente as fronteiras nacionais e Pedagogia do Oprimido tornou-se uma das referências mais relevantes das ciências humanas no mundo. Isso não impediu — ao contrário, talvez tenha estimulado — sua transformação em alvo predileto da extrema direita brasileira. Em dezembro de 2019, Jair Bolsonaro chamou Freire de “energúmeno”, numa fala que condensa todo um método político: a troca do debate público pelo rebaixamento verbal. O insulto não buscava demonstrar nada; buscava produzir efeito. Era menos uma frase sobre educação do que uma senha de pertencimento para a base ideológica.  

É preciso insistir nisso: chamar Freire de “energúmeno” não é um deslize retórico lateral. É um ato de gestão simbólica. O governante não examina políticas de alfabetização, condições de trabalho docente, desigualdades regionais, subfinanciamento da educação básica, formação de professores, infraestrutura escolar ou efeitos da pobreza sobre a aprendizagem. Ele oferece ao público uma dramaturgia compensatória. A crise é personificada. O fracasso educacional, histórico e estrutural, passa a ter um culpado central, convenientemente morto e simbolicamente inflável. O que é complexo vira enredo moral. O que exigiria política de Estado vira culto à execração.  

A literatura sobre a circulação de Paulo Freire nas redes mostra precisamente esse processo de deslocamento. Sua imagem deixa de operar apenas como referência pedagógica e passa a funcionar como signo político-identitário. Ana Julia Guimarães Souza demonstrou como a representatividade de Freire foi reprocessada digitalmente, transformando-o em emblema de antagonismos que ultrapassam a leitura efetiva de sua obra. Isso ajuda a compreender um fenômeno curioso: quanto menos o pensamento freiriano é estudado em profundidade pelos seus detratores, mais ele é mobilizado como ameaça abstrata. O nome permanece, mas a obra desaparece. Em seu lugar entra um espantalho útil à guerra cultural.  

No caso de Abraham Weintraub, a radicalização desse procedimento tornou-se explícita. A posterior censura ética aplicada pela Comissão de Ética Pública da Presidência, em 2023, ligada a ofensas contra Paulo Freire e instituições de ensino superior, mostra que não se tratava apenas de bravata eleitoral ou de irreverência ministerial. Havia uma prática continuada de desmoralização de referências educacionais e acadêmicas. O que estava em jogo não era apenas o gosto pela polêmica, mas a tentativa de corroer a legitimidade de um campo inteiro de saber. Quando o patrono da educação é ridicularizado pelo próprio comando político do ministério, a mensagem enviada ao corpo institucional é clara: a técnica, a tradição intelectual e a história da área podem ser humilhadas em praça pública sem custo político relevante.  

O efeito dessa estratégia vai muito além da imagem de um autor. Ao atacar Freire, a extrema direita tenta desacreditar a própria ideia de que educação forma cidadania, consciência crítica e capacidade de leitura do mundo. O objetivo é rebaixar a escola a treinamento funcional, despolitizar a reflexão sobre desigualdade e substituir a pedagogia por disciplina social. Isso explica por que Freire incomoda tanto. Sua obra lembra que ensinar nunca foi apenas transmitir conteúdo; é também mediar a relação do sujeito com o mundo, com a linguagem, com o poder e com a possibilidade de transformar a realidade. Para projetos autoritários, essa lembrança é insuportável.  


Nota conceitual II — populismo, antagonismo e líder carismático

O conceito de populismo é disputado e não deve ser usado de modo preguiçoso. Há abordagens distintas, mas uma chave importante, presente tanto em leituras contemporâneas quanto em discussões sobre Laclau, Mouffe e Mudde, vê o populismo como forma de construção de fronteira política: de um lado, o “povo puro”; de outro, a “elite corrupta”, os inimigos internos, os traidores, os mediadores suspeitos, as instituições que supostamente sequestraram a vontade popular. O populismo, nesse sentido, não é mera grosseria. É uma lógica de simplificação antagonista do espaço político.  

Quando essa lógica se articula à extrema direita, ela ganha traços adicionais: nacionalismo excludente, moralização persecutória, política do ressentimento, autoritarismo cultural e culto ao líder que fala “diretamente” ao povo contra todos os filtros. A mediação institucional passa a ser tratada como fraude. O especialista vira cúmplice. O professor vira doutrinador. O jornalista vira militante. O juiz vira conspirador. O Papa vira político. O sentido do populismo de extrema direita, aqui, não é ampliar a democracia, mas estreitar o repertório de legitimidades aceitáveis. Só é legítimo aquilo que confirma a narrativa do líder e da sua comunidade afetiva.  

É por isso que o ataque a figuras simbólicas é tão central nesse tipo de política. O líder carismático precisa tornar-se a principal fonte de verdade emocional do seu campo. Para isso, autoridades concorrentes precisam ser rebaixadas. O patrono da educação, a universidade, a imprensa, a ciência, a Igreja, os organismos multilaterais, os tribunais: todos podem ser enquadrados como obstáculos ao “povo” sempre que não reforcem a fronteira amigo-inimigo montada pelo discurso populista. O que se procura não é coexistência de legitimidades, mas monopólio afetivo da lealdade política.  


Trump, JD Vance e o esforço de rebaixar o Papa Leão XIV

Em abril de 2026, os Estados Unidos forneceram um exemplo quase didático desse método. O Papa Leão XIV, primeiro pontífice norte-americano da história, passou a criticar a escalada militar envolvendo o Irã, condenou a lógica de conquista, retomou linguagem fortemente ética contra a guerra e não recuou diante da pressão política da administração Trump. Reuters e outros veículos registraram esse endurecimento do discurso papal, inclusive em sua viagem à África, quando o pontífice reforçou a condenação de conflitos e abusos de poder.  

A resposta de Trump e JD Vance não foi uma controvérsia teológica séria nem uma defesa intelectual consistente de uma doutrina de guerra justa. Veio na forma exata esperada pela gramática populista. Trump passou a retratar o Papa como “fraco” e “político”, enquanto Vance insistiu que o Vaticano deveria ficar no campo da moralidade, deixando a política pública aos governantes eleitos. A operação retórica aqui é cristalina: reduzir a autoridade moral do pontífice à condição de intrusão indevida. Em outras palavras, se o Papa fala de paz, bombardeio, sofrimento civil ou migração, ele é acusado de ter ultrapassado sua jurisdição simbólica.  

Mas o artifício é mais perverso do que parece. Dizer que o Papa deve cuidar “apenas” de moralidade é, na verdade, uma forma de esvaziar a própria moralidade. Afinal, de que matéria deveria falar uma ética pública consequente, senão de guerra, morte, deslocamento forçado, humilhação de povos, culto à força e indiferença diante do sofrimento? A tentativa de expulsar o Papa do debate geopolítico revela não um apreço pela separação entre Igreja e Estado, mas um desejo de blindar a ação estatal contra juízos morais incômodos. Não é secularismo republicano; é enclausuramento estratégico da crítica.  

O aspecto mais revelador desse episódio, porém, talvez esteja na inversão narcísica da legitimidade. Ao insinuar que Leão XIV só estaria no Vaticano porque Trump estava na Casa Branca, o presidente americano produziu uma fantasia de centralidade absoluta: o mundo institucional deveria orbitar o ego do líder. A Igreja, nesse delírio, não teria autonomia histórica, sucessão própria ou lógica interna; seria apenas resposta ao campo gravitacional do poder trumpista. Essa inversão é típica do populismo radicalizado: tudo é reordenado para caber no mito do líder como centro interpretativo do real.  


Nota conceitual III — tecnopolítica e gestão algorítmica do conflito

Falar em tecnopolítica não é apenas dizer que a política acontece na internet. É reconhecer que as infraestruturas digitais moldam os modos de visibilidade, circulação, legitimação e disputa simbólica no espaço público. A tecnopolítica envolve a forma como plataformas, redes, métricas, interfaces e lógicas algorítmicas reorganizam o que ganha atenção, como ganha atenção e com que intensidade afetiva circula. A extrema direita compreendeu isso cedo. Ela percebeu que o ambiente digital recompensa simplificação, antagonismo, espetáculo moral, escândalo e repetição. Não é um detalhe operacional. É parte da própria forma contemporânea da luta política.  

Nesse ambiente, o insulto é uma peça de alta performance. Ele é curto, memorizável, reproduzível e emocionalmente carregado. “Energúmeno” circula melhor do que uma análise de políticas educacionais. “Papa fraco” circula melhor do que uma reflexão teológica sobre guerra e paz. A tecnopolítica da extrema direita, portanto, não opera apesar da vulgaridade; opera por meio dela. O conteúdo agressivo não é um ruído lamentável num sistema sério. Ele é um ativo de circulação. O algoritmo não exige coerência epistemológica; exige retenção, clique, reação, partilha, comentário, choque.  

Esse ponto é decisivo para compreender por que tantas instituições reagem tarde ou mal. Universidades, institutos federais, centros de pesquisa, escolas e órgãos públicos foram construídos para outra ecologia comunicacional. Seu tempo é o do procedimento, da nota técnica, da fundamentação, do trâmite, da prova, da prudência. Já a tecnopolítica extremista vive do impacto. Enquanto a instituição formula resposta equilibrada, o dano simbólico já viralizou. O que se estabelece, então, é uma assimetria brutal entre a velocidade do ataque e a lentidão legítima da verificação. A consequência é que a verdade institucional passa a correr atrás da mentira mobilizadora.  


As engrenagens da desconstrução retórica

A primeira engrenagem é a aniquilação semântica. O alvo é reduzido verbalmente à condição de incapaz, ridículo, suspeito ou insignificante. Não se rebate a pedagogia de Freire; xinga-se Freire. Não se enfrenta a crítica moral do Papa; diminui-se o Papa. Esse rebaixamento serve para suspender a necessidade de argumentar. Uma vez degradada a pessoa, o conteúdo que ela enuncia já chega ao público contaminado pela caricatura.  

A segunda engrenagem é o confinamento do campo de fala. O adversário passa a ser advertido sobre onde deveria ou não deveria falar. O Papa pode falar de salvação, mas não de guerra. O educador pode falar de método, mas não de poder. O professor pode ensinar conteúdo, mas não formar consciência. O procedimento é autoritário porque tenta amputar a própria natureza das instituições. Educação sem crítica e moralidade sem mundo são apenas versões domesticadas do que essas esferas realmente significam.  

A terceira engrenagem é a inversão da legitimidade. O agressor se apresenta como revelador da fraude supostamente escondida por trás da autoridade do outro. Paulo Freire seria famoso não por sua obra, mas por um complô cultural da esquerda. O Papa seria relevante não por sua posição histórica, mas pela conjuntura política americana. Em vez de reconhecer instituições autônomas, o líder populista tenta convertê-las em sombras projetadas por seu próprio poder. É um narcisismo político de vocação totalizante.  

A quarta engrenagem é a algoritmização da indignação. O ataque não termina na fala original; ele é projetado para ser capturado, editado, recortado, compartilhado e metabolizado por comunidades digitais em busca de reafirmação identitária. A ofensa torna-se ritual. A repetição produz familiaridade. A familiaridade produz crença. E a crença, uma vez afetivamente estabilizada, passa a dispensar verificação. O insulto vira verdade comunitária.  


O ganho político imediato e o custo institucional duradouro

Do ponto de vista eleitoral e mobilizatório, esse método é eficiente. Ele cria clareza emocional onde a realidade oferece ambiguidade. Produz inimigos identificáveis. Mantém a base permanentemente excitada. Desvia o foco de fracassos administrativos concretos. Substitui debate difícil por guerra de sinais. Em termos de curto prazo, é uma máquina poderosa de coesão simbólica. O seguidor sente que participa de um combate histórico, mesmo quando o que efetivamente consome são slogans, vídeos curtos e performances de humilhação pública.  

Mas o preço cobrado às instituições é severo. A administração pública depende de confiança procedimental, memória técnica, estabilidade interpretativa e reconhecimento da autoridade profissional. Quando tudo isso é corroído por uma política de execração simbólica, instala-se um ambiente de medo, ressentimento e paralisia. Técnicos recuam. Especialistas são vistos como ameaça. Servidores evitam exposição. O saber deixa de ser patrimônio público e passa a ser risco reputacional. A gestão de longo prazo, que precisa de continuidade, cuidado e planejamento, fica prisioneira de um presente histérico.  

No caso da educação, isso é especialmente destrutivo. Não se desmoraliza Paulo Freire sem desmoralizar, ao mesmo tempo, a ideia de que aprender envolve pensamento crítico, linguagem, história e leitura do mundo. Não se humilha o patrono da educação sem produzir um efeito pedagógico regressivo sobre a própria sociedade: o ensinamento de que pensar demais é suspeito, problematizar é militância, e refletir sobre poder é ideologia. Trata-se, no fundo, de um projeto de estreitamento cognitivo do espaço público.  

No caso da Igreja e do Papa, o mesmo raciocínio vale. Quando o pontífice é ridicularizado por condenar guerras e abusos, não se ataca apenas uma pessoa ou uma confissão religiosa. Ataca-se a própria ideia de que existe um juízo moral superior ao cálculo geopolítico. O que se tenta consolidar é um mundo em que a força se legitima por si, o Estado responde apenas a si mesmo e a ética é tolerada apenas enquanto ornamento decorativo, jamais como crítica real do poder.  


Instituições federais e a urgência de uma defesa comunicacional republicana

As instituições federais brasileiras, sobretudo as de ensino e pesquisa, enfrentam um desafio novo em escala e intensidade. Foram estruturadas para produzir conhecimento, formar pessoas, prestar contas, respeitar a legalidade e operar segundo critérios de universalidade, impessoalidade e responsabilidade pública. Nada disso as preparou integralmente para um ambiente em que o ataque simbólico é contínuo, emocionalmente calibrado e tecnicamente favorecido pela infraestrutura digital. A velha crença de que a qualidade do trabalho fala por si já não basta. Hoje, trabalho excelente pode ser engolido por narrativas agressivas e simplificadoras.  

Isso não significa que instituições devam imitar a brutalidade do seu agressor. Significa que precisam abandonar a ingenuidade comunicacional. É possível ser republicano sem ser burocraticamente invisível. É possível ser impessoal sem ser anódino. É possível defender a verdade institucional sem cair em propaganda personalista. Para isso, será necessário desenvolver estratégias de tradução pública do valor institucional: humanização de resultados, comunicação pedagógica, narrativas socialmente ancoradas, resposta rápida a desinformação, formação tecnopolítica de gestores e fortalecimento de canais próprios de interlocução com a sociedade.  

Há aqui uma tarefa civilizatória. A extrema direita compreendeu que o combate não é apenas por votos, mas por imaginação pública. Quem define quais instituições merecem confiança, quais saberes merecem respeito e quais vozes podem falar com legitimidade já começou a moldar o futuro antes mesmo da próxima eleição. Se universidades, institutos federais, escolas e centros de pesquisa não aprenderem a defender sua verdade institucional em linguagem socialmente circulável, continuarão usando escudos de papel contra mísseis digitais.  


Conclusão

A desconstrução de Paulo Freire, do Papa Leão XIV e de outras figuras de autoridade moral ou intelectual não é acidente de percurso da extrema direita. É método. É governo do sensível. É política do rebaixamento. É pedagogia autoritária aplicada ao espaço público. Ao transformar referências complexas em caricaturas fáceis de odiar, a extrema direita consegue três coisas ao mesmo tempo: simplifica o mundo, concentra lealdade no líder e enfraquece as mediações que sustentam a vida democrática. Ela troca pensamento por instinto, responsabilidade por performance, debate por pertencimento agressivo.  

Por isso o problema é maior do que a grosseria de uma fala ou a indignação passageira de uma polêmica. O que está em disputa é a própria possibilidade de uma sociedade reconhecer autoridades legítimas que não coincidam com o poder do governante de turno. Quando o educador crítico, o pesquisador, o jornalista, a universidade, o professor e o líder religioso passam a ser vistos como suspeitos por definição, a democracia perde seus anticorpos. E quando a democracia perde seus anticorpos, o autoritarismo já não precisa chegar com botas; pode chegar em postagens, slogans, cortes de vídeo, insultos memoráveis e campanhas permanentes de destruição simbólica.  

Defender Paulo Freire, defender o direito do Papa de julgar moralmente a guerra e defender a legitimidade das instituições de ensino e pesquisa não é, nesse contexto, culto a personalidades. É defesa da mediação civilizatória. É defesa do direito de a sociedade não ser reduzida ao grito do líder mais barulhento. É defesa da política como espaço de argumentação e não como arena de humilhação ritual. E isso, no Brasil e fora dele, tornou-se uma urgência histórica.  


Referências

AZEVEDO, Fabio Palacio de. Três estratégias retóricas da extrema-direita em sua luta contra a democracia e a racionalidade pública. In: ENCONTRO NACIONAL DA ULEPICC-BRASIL, 10., 2024, São Cristóvão. Anais […]. São Cristóvão: ULEPICC-Brasil, 2024.

BRASIL. Lei nº 12.612, de 13 de abril de 2012. Declara o educador Paulo Freire Patrono da Educação Brasileira. Brasília, DF: Presidência da República, 2012.

BRASIL. Presidência da República. Comissão de Ética Pública. Nota Pública da 252ª Reunião Ordinária da CEP, de 29 de junho de 2023. Brasília, DF, 2023.

EGLER, Tamara Tania Cohen. Rede tecnopolítica de extrema direita e democracia no Brasil. Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 47, n. 2, 2024.

GUIMARÃES SOUZA, Ana Julia A. O. Para além da pedagogia: análise da representatividade política de Paulo Freire nas redes. Mosaico, Rio de Janeiro, v. 13, n. 20, 2021.

LAGE, Luiza; SARAIVA, Luiz Alex Silva. Ressentimento e guerra cultural no populismo de extrema direita. Eco-Pós, Rio de Janeiro, v. 24, n. 3, 2021.

MORAES, Lucas de Souza. Populismo como conceito: usos, disputas e delimitações analíticas. Revista Estudos de Conjuntura, 2024.

REUTERS. Pope Leo, newly forceful global voice, heads to Angola on Africa tour. London, 18 abr. 2026.

SOUZA, Marco Aurélio Dias de; FINGUERUT, Ariel. Guerras culturais, novas direitas e transposições de referências no Brasil contemporâneo. Trabalho apresentado no Encontro Anual da ANPOCS, 2024.

SPONHOLZ, Liriam; ÖZVATAN, Özgür. Cas Mudde: o termo populismo não é apenas um insulto. Mídia e Cotidiano, Niterói, 2023.



Irã entre repressão e geopolítica

Como um regime autoritário pode ser, ao mesmo tempo, agente de violência interna e alvo de agressões externas que embaralham a percepção do mundo


Introdução

Falar do Irã exige cuidado intelectual e honestidade política. Há leituras apressadas que transformam o país em um mal absoluto, como se toda complexidade histórica pudesse ser reduzida à caricatura de um inimigo civilizacional. Há, em sentido oposto, leituras que, diante das agressões promovidas por potências estrangeiras e por seus aliados regionais, terminam por suavizar a brutalidade do regime iraniano. Nenhuma dessas visões ajuda a compreender o problema. O que está em jogo é mais difícil: reconhecer que o Irã combina autoritarismo doméstico, forte repressão político-religiosa e uso estratégico de redes armadas regionais, ao mesmo tempo em que também ocupa, em determinados episódios, a posição de país agredido, cercado ou instrumentalizado no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio (Freedom House, 2025; Reuters, 2024a).

Esse é o ponto decisivo. Um regime não deixa de ser opressor porque foi atacado; uma agressão externa não se torna legítima porque o alvo é autoritário. Quando o debate público perde essa dupla exigência moral, ele deixa de fazer análise e passa a reproduzir propaganda. O desafio é resistir aos slogans fáceis. O Irã não pode ser compreendido nem como herói anti-imperialista, nem como entidade demoníaca abstrata. É preciso observá-lo como estrutura política concreta, marcada por contradições internas profundas e por inserção regional altamente conflitiva (OHCHR, 2025a; Reuters, 2024b).


1. O poder no Irã: religião de Estado, tutela política e limitação da soberania popular

O sistema político iraniano nasceu da Revolução de 1979 e consolidou uma forma singular de organização institucional: uma república com mecanismos eleitorais submetida à supremacia de uma autoridade religiosa. Na prática, isso significa que o sufrágio existe, mas não é soberano no sentido pleno. O Líder Supremo concentra poderes determinantes sobre as Forças Armadas, o Judiciário, a radiodifusão estatal e o direcionamento geral do Estado, enquanto o Conselho dos Guardiões controla quem pode ou não disputar o poder político. O resultado é uma arquitetura institucional em que a participação popular é admitida, mas rigidamente moldada por filtros ideológicos e clericais (Freedom House, 2025; Freedom House, 2026).

Essa configuração torna inadequada qualquer leitura que enxergue o Irã como simples democracia defeituosa. O que existe ali é um arranjo teocrático autoritário, no qual a legitimidade do poder não deriva apenas do voto, mas de uma concepção religiosa de tutela sobre a vida política. Em vez de soberania popular irrestrita, há uma soberania condicionada. Em vez de pluralismo aberto, há seleção prévia do dissenso aceitável. Em vez de competição livre, há permissão controlada. Isso ajuda a explicar por que tantas tensões sociais no país não se resumem a disputas partidárias, mas assumem a forma de conflitos sobre liberdade, autonomia individual, costumes, direitos civis e capacidade de contestar a própria ordem instituída (Freedom House, 2025).

Esse caráter autoritário não é detalhe periférico; ele é parte constitutiva do regime. Quando uma ordem política reivindica fundamento sagrado e se apresenta como guardiã da verdade moral da sociedade, a divergência deixa de ser apenas oposição e passa a ser tratada como desvio, ameaça ou impiedade. Em regimes assim, a repressão não aparece somente como mecanismo policial, mas como instrumento de preservação de uma visão oficial do bem. O problema é justamente esse: o Estado deixa de apenas administrar conflitos e passa a decidir quais modos de vida merecem reconhecimento e quais devem ser contidos. No caso iraniano, essa lógica tem pesado historicamente sobre opositores, minorias, mulheres e dissidentes em geral (OHCHR, 2025b; Freedom House, 2026).


2. Pena de morte, repressão e o uso político do medo

Poucos elementos revelam com tanta clareza a dureza do regime iraniano quanto o recurso continuado à pena de morte. Em janeiro de 2025, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos informou que ao menos 901 pessoas haviam sido executadas no Irã ao longo de 2024, número descrito como profundamente alarmante. Pouco depois, relatório apresentado no sistema da ONU e repercutido internacionalmente apontou ao menos 975 execuções no mesmo ano, o maior total desde 2015, incluindo quatro execuções públicas (OHCHR, 2025a; Associated Press, 2025).

Esses números já são suficientemente graves por si sós. Não há necessidade de recorrer a dados inflados ou imagens retóricas imprecisas para demonstrar a violência estatal iraniana. O verdadeiro escândalo está na normalização de um aparelho punitivo que preserva a morte judicial como instrumento ordinário de governo. Em vez de ser exceção extrema, a execução permanece como ferramenta de intimidação, punição exemplar e demonstração de força. O efeito político é claro: o Estado comunica à sociedade que não apenas vigia e pune, mas pode eliminar legitimamente, em nome da ordem, da moral ou da segurança (OHCHR, 2025a).

Há ainda um aspecto menos visível, mas decisivo. A pena de morte, em contextos autoritários, não atua apenas sobre o condenado; atua sobre todos os que observam. Ela produz pedagogia do medo. Faz com que a repressão extrapole o caso individual e se transforme em mensagem coletiva. O castigo deixa de ser resposta penal e se converte em linguagem de poder. Quando isso se combina com restrições à liberdade de imprensa, perseguição a opositores e vigilância ideológica, o medo deixa de ser efeito colateral e passa a ser tecnologia de governo (OHCHR, 2025b).

Sob esse ponto de vista, a violência do regime iraniano não se limita à contagem de mortos. Ela também se expressa na produção de uma atmosfera política em que discordar pode significar desaparecer socialmente, ser enquadrado judicialmente ou perder as condições mínimas de segurança. Toda ditadura precisa de instrumentos materiais de coerção, mas também precisa de um imaginário de temor. O Irã contemporâneo mostra como esse imaginário pode ser sustentado por instituições legais, justificativas religiosas e uma máquina estatal disposta a transformar punição em espetáculo disciplinador, ainda que as execuções públicas sejam numericamente poucas em comparação com o total anual (Associated Press, 2025; OHCHR, 2025a).


3. Projeção regional, guerra por procuração e a lógica da dissuasão indireta

O poder iraniano não se organiza apenas dentro de suas fronteiras. Ao longo de décadas, Teerã construiu uma rede de alianças, apoios e vínculos armados com grupos atuantes no Líbano, no Iraque, na Síria, no Iêmen e nos territórios palestinos. A imprensa internacional e a literatura geopolítica têm descrito esse arranjo como “Eixo da Resistência”, uma constelação de atores que se apresentam como força de oposição a Israel e à influência dos Estados Unidos no Oriente Médio. A Reuters descreveu essa rede como resultado de anos ou décadas de apoio iraniano, incluindo Hezbollah, Houthis e grupos armados xiitas no Iraque e na Síria (Reuters, 2024b; Reuters, 2024c).

Não se trata, propriamente, de “guerrilha” no sentido clássico da palavra. O conceito mais adequado é o de guerra por procuração, influência indireta ou projeção regional assimétrica. O Irã não depende apenas de confronto militar convencional para afirmar presença estratégica. Ele opera por meio de capilaridade, financiamento, treinamento, convergência ideológica e apoio a parceiros regionais que ampliam sua capacidade de pressão. Essa forma de agir responde a uma lógica de sobrevivência: um país submetido a sanções, cercado por adversários e sem equivalência militar direta com grandes potências procura compensar sua vulnerabilidade por meios não convencionais (Reuters, 2024b).

Isso não significa romantizar o método. A atuação por procuração contribui para prolongar conflitos, difundir instabilidade e ampliar o alcance da violência regional. Contudo, compreender a racionalidade dessa estratégia é diferente de absolvê-la. Estados não agem apenas por irracionalidade ou fanatismo; agem também por cálculo de risco, percepção de ameaça e tentativa de produzir dissuasão. O que o Irã buscou, em grande medida, foi construir profundidade estratégica sem ter de travar, em condições desfavoráveis, uma guerra frontal contínua contra adversários mais poderosos (Reuters, 2025; Reuters, 2024c).

Esse aspecto é fundamental para escapar de leituras moralistas demais e analíticas de menos. A política externa iraniana não pode ser reduzida a mera exportação ideológica, embora o elemento ideológico seja relevante. Ela é, também, um dispositivo de segurança nacional ampliada. O problema é que, ao se apoiar em grupos armados e estruturas transnacionais de conflito, o regime transforma a própria região em campo prolongado de tensão. Em outras palavras, tenta se proteger e se afirmar, mas o faz por meios que alimentam ciclos adicionais de instabilidade. A contenção de ameaças externas acaba se confundindo com reprodução permanente de guerra indireta (Reuters, 2025).


4. Quando a agressão externa reconfigura o enquadramento moral do conflito

Em abril de 2024, a destruição do complexo consular iraniano em Damasco, atribuída por Teerã a Israel, marcou um dos episódios mais sensíveis da escalada regional. A Reuters registrou que se tratou de um ataque raro a instalações diplomáticas e que a ação recebeu rápida condenação de atores internacionais, incluindo Nações Unidas e União Europeia. O episódio foi visto por analistas como escalada significativa de uma campanha mais ampla voltada a reduzir a influência iraniana na Síria (Reuters, 2024d).

É nesse tipo de acontecimento que a percepção internacional sofre deslocamento. O centro do debate deixa de ser, por um momento, a opressão cotidiana praticada pelo regime e passa a ser a violação de sua soberania ou de seus interesses estatais. A pergunta muda. Em vez de “como esse governo trata seu povo?”, entra em cena “quem atacou esse país e com que legitimidade?”. O resultado simbólico é poderoso: um Estado repressivo pode aparecer, na conjuntura, como parte ofendida, humilhada ou agredida. Não porque sua natureza interna tenha mudado, mas porque a cena internacional reorganizou o foco (Reuters, 2024a; Reuters, 2024d).

Esse mecanismo é antigo na política mundial. A agressão externa funciona, muitas vezes, como dispositivo involuntário de reabilitação simbólica de regimes problemáticos. O governo criticado internamente passa a vestir a linguagem da pátria cercada, da dignidade nacional ofendida e da resistência contra a ingerência estrangeira. Isso produz coesão interna, reduz espaço para o dissenso e oferece ao regime uma oportunidade de se reapresentar não como opressor, mas como defensor da nação. Em sociedades submetidas a forte nacionalismo político, esse efeito tende a ser ainda mais intenso (Reuters, 2024a).

A consequência é grave: o mundo pode esquecer, ou pelo menos colocar entre parênteses, aquilo que antes parecia inaceitável. Mulheres reprimidas, dissidentes perseguidos, minorias acuadas, execuções em massa e controle teocrático da vida pública deixam de ocupar o centro do debate porque a gramática da urgência foi alterada. O campo moral é sequestrado pela guerra. O agressor tenta justificar seus atos em nome da segurança; o agredido converte sua dor geopolítica em escudo para encobrir sua violência doméstica. A verdade política se fragmenta entre propaganda militar e autopreservação autoritária (OHCHR, 2025b; Reuters, 2024d).


5. O perigo das narrativas binárias

A pior forma de compreender o Irã é aceitá-lo dentro de uma narrativa binária. De um lado, uma retórica ocidental que o apresenta como foco absoluto da barbárie regional, como se seus adversários operassem sempre em nome da civilização, da legalidade e da paz. De outro, uma retórica reativa que transforma qualquer país em alvo do imperialismo em símbolo automático de resistência legítima. Ambas simplificam o real e empobrecem a reflexão.

A primeira narrativa costuma servir à naturalização da força. Se o regime é visto como intrinsecamente monstruoso, então quase tudo passa a parecer permitido contra ele: sanções devastadoras, sabotagens, operações encobertas, assassinatos seletivos, bombardeios localizados, cercos diplomáticos. A violência deixa de ser percebida como problema porque foi moralmente terceirizada para a figura do inimigo absoluto. O direito internacional se torna flexível, aplicado conforme a conveniência estratégica dos mais fortes (Reuters, 2024d; Reuters, 2024a).

A segunda narrativa, embora se apresente como crítica, também pode ser intelectualmente preguiçosa. Ao denunciar corretamente a seletividade moral das grandes potências, corre o risco de dissolver a responsabilidade do regime iraniano e de tratá-lo como simples reação defensiva a uma ordem injusta. Com isso, mulheres que protestam, opositores que sofrem repressão e condenados pela máquina penal iraniana desaparecem atrás da abstração geopolítica. A denúncia do imperialismo, quando perde o vínculo com os direitos concretos das pessoas, pode terminar servindo como álibi para autoritarismos locais (Freedom House, 2026; OHCHR, 2025a).

O desafio, portanto, não é escolher entre duas propagandas concorrentes. O desafio é sustentar simultaneamente duas críticas: a crítica ao autoritarismo iraniano e a crítica à violência seletiva de potências e aliados que se arrogam o direito de disciplinar o Oriente Médio conforme seus próprios interesses estratégicos. Essa dupla recusa exige mais rigor, mais paciência e menos paixão tribal. Exige pensar politicamente, e não apenas reagir ideologicamente.


6. O que realmente precisa ser lembrado

O regime iraniano não se torna menos autoritário quando é atacado por fora. Sua estrutura de poder continua baseada em tutela religiosa, restrição do pluralismo e uso contínuo de mecanismos repressivos. Sua prática punitiva continua marcada por números alarmantes de execuções. Sua projeção regional continua ligada a redes armadas e a uma lógica de influência indireta que ajuda a perpetuar conflitos (Freedom House, 2025; OHCHR, 2025a; Reuters, 2024b).

Ao mesmo tempo, operações externas contra instalações diplomáticas, campanhas de pressão militar e escaladas conduzidas por atores mais poderosos não podem ser tratadas como eventos neutros ou moralmente transparentes. Elas também reorganizam violências, multiplicam riscos regionais e fornecem ao regime um repertório simbólico de vitimização nacional. A geopolítica, nesse ponto, é cruel: o sofrimento real de uma população pode ser instrumentalizado tanto pelo governo que a controla quanto pelos adversários que a atacam (Reuters, 2024a; Reuters, 2024d).

É por isso que a reflexão madura precisa resistir à anestesia do simplismo. Sempre que o debate se divide entre “civilização” e “barbárie”, “eixo do mal” e “resistência heroica”, “guerra justa” e “defesa sagrada”, perde-se justamente o mais importante: a vida concreta das pessoas submetidas, ao mesmo tempo, à repressão interna e à instabilidade geopolítica. E não é isso, no fim das contas, o que mais importa? De que serve uma análise internacional que escolhe seus indignados conforme a conveniência do bloco ideológico ao qual pertence?


Conclusão

Pensar o Irã com seriedade exige rejeitar tanto a indulgência quanto a demonização simplista. O país abriga um regime teocrático autoritário, com forte limitação das liberdades, concentração real de poder em instituições não eleitas e uso continuado da pena de morte em escala alarmante. Também desenvolveu uma estratégia regional baseada em alianças armadas e influência indireta, ampliando seu alcance geopolítico por meios assimétricos. Nada disso deve ser relativizado. Mas tampouco se pode ignorar que agressões externas, ataques a interesses diplomáticos e políticas seletivas de força contribuem para transformar esse mesmo regime em vítima aparente no teatro internacional.

A reflexão crítica começa justamente onde termina a preguiça moral. Não basta repetir que o Irã é violento; é preciso perguntar por que, sempre que a violência externa entra em cena, parte do mundo passa a esquecê-la. Não basta denunciar o imperialismo e a seletividade das grandes potências; é preciso perguntar quem se beneficia quando essa denúncia serve para apagar a opressão cotidiana vivida dentro do próprio país. O pensamento sério não escolhe entre uma cegueira e outra. Ele insiste em ver as duas faces do problema ao mesmo tempo.

Num tempo em que a propaganda disputa a consciência coletiva em escala global, defender a complexidade é quase um dever ético. O Irã não é inocente. Seus agressores também não são. Reduzir esse quadro a uma torcida organizada da geopolítica talvez seja confortável, mas certamente não é honesto. E sem honestidade intelectual, toda análise internacional se transforma em apenas mais uma arma de guerra.


Referências

ASSOCIATED PRESS. Iran executed at least 975 people last year, the highest number since 2015, UN report says. 2025. Disponível em: https://apnews.com/article/542ecde4a51d6dacb401c32c06ab2ecf. Acesso em: 22 abr. 2026.

FREEDOM HOUSE. Iran: country profile. 2026. Disponível em: https://freedomhouse.org/country/iran. Acesso em: 22 abr. 2026.

FREEDOM HOUSE. Iran: Freedom in the World 2025. 2025. Disponível em: https://freedomhouse.org/country/iran/freedom-world/2025. Acesso em: 22 abr. 2026.

FREEDOM HOUSE. Iran: Freedom in the World 2026. 2026. Disponível em: https://freedomhouse.org/country/iran/freedom-world/2026. Acesso em: 22 abr. 2026.

OFFICE OF THE UNITED NATIONS HIGH COMMISSIONER FOR HUMAN RIGHTS. Iran: rise in executions deeply troubling, UN Human Rights Chief says. 2025a. Disponível em: https://www.ohchr.org/en/press-releases/2025/01/iran-rise-executions-deeply-troubling-un-human-rights-chief. Acesso em: 22 abr. 2026.

OFFICE OF THE UNITED NATIONS HIGH COMMISSIONER FOR HUMAN RIGHTS. Special Rapporteur on Iran presents first report to UN Human Rights Council. 2025b. Disponível em: https://www.ohchr.org/en/press-releases/2025/03/special-rapporteur-iran-presents-first-report-un-human-rights-council. Acesso em: 22 abr. 2026.

REUTERS. Iran vows revenge on Israel after Damascus embassy attack. 2024a. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/iran-says-it-will-retaliate-israels-attack-its-damascus-consulate-2024-04-02/. Acesso em: 22 abr. 2026.

REUTERS. What is Iran’s “Axis of Resistance”? 2024b. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/what-is-irans-axis-resistance-2024-08-05/. Acesso em: 22 abr. 2026.

REUTERS. What is Iran’s “Axis of Resistance”? 2024c. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/what-is-irans-axis-resistance-which-groups-are-involved-2024-01-29/. Acesso em: 22 abr. 2026.

REUTERS. Iran embassy strike shows Israel’s growing reach as Mideast boils. 2024d. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/iran-embassy-strike-shows-israels-growing-reach-mideast-boils-2024-04-04/. Acesso em: 22 abr. 2026.

REUTERS. How Iran’s network of Middle East power faded. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/how-irans-network-middle-east-power-faded-2025-06-12/. Acesso em: 22 abr. 2026.