sábado, 25 de abril de 2026

Cisne Negro no Brasil

Choques internos, contágio externo e a possibilidade de uma ruptura capaz de atingir dólar, inflação, juros, investimento e emprego na economia brasileira contemporânea


Índice

  1. Lide
  2. Introdução
  3. O que seria um Cisne Negro no Brasil
  4. O Brasil de 2026: mais preparado do que no passado, mas ainda vulnerável
  5. Dois caminhos para um Cisne Negro brasileiro
    1. Choque interno extremo
    2. Contágio vindo de fora
  6. Cinco gatilhos plausíveis no contexto atual
    1. Ruptura geopolítica global
    2. Colapso financeiro internacional
    3. Choque súbito no petróleo
    4. Travamento abrupto do crédito global
    5. Fuga internacional de capitais de mercados emergentes
  7. Como o choque chegaria ao Brasil
    1. Dólar
    2. Bolsa
    3. Juros e dívida
    4. Inflação
    5. Investimento e emprego
  8. Quando o externo vira crise interna
  9. Como reduzir o dano
  10. Conclusão
  11. Referências


Lide

O Brasil não precisa ser o centro de uma crise internacional para sofrer seus efeitos com intensidade. Basta estar ligado, como está, a um sistema mundial marcado por guerra, volatilidade financeira, fluxos de capitais altamente sensíveis e cadeias de preços que reagem em alta velocidade. Em 2026, o próprio Banco Central reconhece maior incerteza externa por causa do acirramento geopolítico, enquanto o FMI descreve a economia global como operando “à sombra da guerra” (Banco Central do Brasil, 2026a; International Monetary Fund, 2026a). Nessa conjuntura, um evento de tipo Cisne Negro pode atingir o Brasil por duas rotas centrais: por um choque interno extremo ou pelo contágio vindo de fora. Quando isso acontece, a pressão tende a se espalhar por várias frentes ao mesmo tempo: o dólar sobe, a bolsa cai, o custo da dívida aumenta, a inflação piora, o investimento recua e o emprego sofre (Banco Central do Brasil, 2026a; Reuters, 2026a).


Introdução

A expressão Cisne Negro, consagrada por Nassim Nicholas Taleb, descreve eventos raros, de grande impacto e que, depois de ocorrerem, são frequentemente reinterpretados como se fossem mais previsíveis do que realmente eram. Trazido para o caso brasileiro, o conceito não deve ser usado como metáfora vazia, mas como instrumento de análise estrutural. O Brasil dispõe de amortecedores relevantes, como regime de câmbio flutuante e reservas internacionais robustas, e o próprio governo brasileiro destacou ao FMI que a posição externa do país permanece ancorada nesses fatores (International Monetary Fund, 2026b). Ainda assim, isso não elimina a vulnerabilidade a choques abruptos. Apenas amplia a capacidade de absorver parte deles.

Essa distinção é decisiva. O país não está à beira de um colapso automático, mas também não pode ser tratado como imune. O Banco Central afirmou, em março de 2026, que o ambiente externo se tornou mais incerto por causa do acirramento dos conflitos geopolíticos, sobretudo no Oriente Médio, com reflexos sobre condições financeiras globais (Banco Central do Brasil, 2026b). Em abril, dirigentes da autoridade monetária voltaram a sinalizar cautela diante das incertezas relacionadas ao conflito envolvendo o Irã e seus desdobramentos sobre preços, mercado e política monetária (Reuters, 2026b; Reuters, 2026c).

Por isso, discutir o risco de um Cisne Negro no Brasil não é exercício de alarmismo. É reconhecer que uma economia emergente integrada aos fluxos globais pode ser atingida por eventos extremos que escapam ao comportamento ordinário do mercado. Nessas situações, não se trata apenas de uma oscilação cambial passageira ou de uma revisão pontual de expectativas. Trata-se da possibilidade de ruptura simultânea em canais centrais da economia: preços, financiamento, confiança e atividade (Banco Central do Brasil, 2026a).


O que seria um Cisne Negro no Brasil

No caso brasileiro, um Cisne Negro seria um evento extremo, de baixa previsibilidade prática para a maioria dos agentes econômicos, capaz de desorganizar rapidamente variáveis centrais do sistema macroeconômico. Não se fala aqui de inflação mensal ligeiramente acima da projeção, nem de volatilidade usual nos ativos. Fala-se de algo que force reprecificação abrupta do risco Brasil, altere o custo do dinheiro, pressione o câmbio, contamine a inflação e paralise decisões de investimento e contratação (Banco Central do Brasil, 2026a).

A literatura recente e a cobertura econômica internacional ajudam a entender por que emergentes são particularmente sensíveis a esse tipo de ruptura. Reportagem da Reuters baseada em análise do FMI mostrou, em abril de 2026, que a participação de investidores de portfólio na dívida de mercados emergentes subiu fortemente nas últimas décadas, aumentando o risco de movimentos bruscos de saída, desvalorização cambial e elevação dos spreads soberanos (Reuters, 2026d). Em linguagem mais simples: parte do financiamento que circula por economias como a brasileira está cada vez mais nas mãos de capitais que se movem rápido e fogem rápido.

É exatamente nesse ponto que o Cisne Negro se torna relevante. Um evento extremo não precisa começar no Brasil para gerar turbulência sistêmica no Brasil. Basta que ele ative mecanismos de fuga, aversão a risco, encarecimento do crédito e repasse cambial. O que em tempos normais seria suportável, em situação extrema pode se transformar em círculo vicioso.


O Brasil de 2026: mais preparado do que no passado, mas ainda vulnerável

O ponto de partida brasileiro em 2026 é ambíguo. De um lado, há certo grau de resiliência. O governo brasileiro informou ao FMI projeção de crescimento de 2,3% para o ano, com reservas elevadas e posição externa considerada sólida em comparação histórica (International Monetary Fund, 2026b). De outro, a inflação segue sensível a choques, o Banco Central mantém discurso cauteloso e o ambiente internacional continua carregado de riscos geopolíticos e financeiros (Banco Central do Brasil, 2026a; Reuters, 2026b).

A inflação de março, por exemplo, veio acima do esperado, pressionada por custos maiores de transporte, especialmente gasolina, em meio à incerteza ligada ao conflito envolvendo o Irã, segundo reportagem da Reuters (Reuters, 2026a). Além disso, a própria equipe econômica brasileira revisou levemente para cima a projeção inflacionária de 2026 por causa da volatilidade do petróleo (Reuters, 2026e). Esses movimentos mostram que a economia brasileira continua reagindo com sensibilidade a choques de energia e a tensões externas.

Portanto, o quadro atual pode ser resumido assim: o Brasil está mais protegido do que em momentos históricos de forte fragilidade externa, mas continua profundamente exposto a eventos extremos que afetem petróleo, crédito, capitais e confiança global. Em outras palavras, há amortecedores, mas não blindagem.


Dois caminhos para um Cisne Negro brasileiro

Choque interno extremo

O primeiro caminho é um choque interno extremo. Isso poderia ocorrer por combinação excepcional de crise político-institucional, desarranjo fiscal abrupto, colapso localizado com contágio financeiro, evento climático devastador com impacto sobre energia e alimentos, ou qualquer ruptura severa que leve os agentes a reavaliar rapidamente a solvência, a previsibilidade e a estabilidade do país. Embora o debate atual esteja mais concentrado no ambiente externo, a experiência de economias emergentes mostra que crises domésticas também podem adquirir caráter sistêmico quando afetam financiamento, confiança e preços simultaneamente (Reuters, 2026d).


Contágio vindo de fora

O segundo caminho, hoje mais plausível no curto prazo, é o contágio vindo de fora. Nesse caso, o Brasil não produz o choque inicial, mas importa suas consequências por meio de câmbio, juros, petróleo, fluxo de capitais, bolsa e crédito. O Banco Central vem destacando justamente esse vetor, ao afirmar que o cenário externo mais incerto exige cautela para economias emergentes, especialmente num contexto de conflito geopolítico ampliado (Banco Central do Brasil, 2026b). O FMI, por sua vez, reforça a leitura de que a economia mundial segue operando sob forte pressão da instabilidade geopolítica (International Monetary Fund, 2026a).


Cinco gatilhos plausíveis no contexto atual

Ruptura geopolítica global

O primeiro gatilho plausível é uma ruptura geopolítica global. Esse risco já está colocado no horizonte concreto. O FMI intitulou sua edição de abril de 2026 do World Economic Outlook como a economia global “à sombra da guerra”, e o Banco Central brasileiro explicitou que o acirramento dos conflitos no Oriente Médio aumentou a incerteza com efeitos sobre as condições financeiras globais (International Monetary Fund, 2026a; Banco Central do Brasil, 2026b). Uma escalada mais ampla pode afetar fretes, seguros, cadeias logísticas, energia e confiança internacional quase ao mesmo tempo.

Colapso financeiro internacional

O segundo gatilho é um colapso financeiro internacional. Ele não precisa assumir a forma clássica de quebra bancária sistêmica para produzir danos. Pode emergir de mercados menos transparentes, como segmentos de crédito privado, fundos altamente alavancados ou estruturas frágeis de financiamento. A Reuters mostrou, em abril de 2026, que tensões no mercado de private credit já haviam levado fundos a impor limites a resgates e bancos a apertar crédito para o setor (Reuters, 2026f). Em ambiente mais agudo, isso pode contaminar mercados maiores e reduzir drasticamente o apetite por ativos de risco.


Choque súbito no petróleo

O terceiro gatilho é um choque súbito no preço do petróleo. Esse é particularmente relevante para o Brasil porque combustíveis seguem com peso importante sobre inflação e custos de transporte. Em abril, a Reuters reportou que a inflação brasileira de março acelerou em parte por custos maiores de gasolina, em meio à guerra envolvendo o Irã (Reuters, 2026a). O Banco Mundial, embora projete queda média das commodities em seu cenário-base para 2026, reconhece que tensões geopolíticas podem alterar drasticamente esse quadro (World Bank, 2026a; World Bank, 2025). Isso significa que um salto forte e inesperado no petróleo teria precisamente a cara de ruptura extrema em relação ao cenário central atualmente desenhado.


Travamento abrupto do crédito global

O quarto gatilho é o travamento abrupto do crédito global. Quando bancos, fundos e investidores se retraem ao mesmo tempo, empresas e governos enfrentam encarecimento do financiamento e dificuldade para rolar obrigações. A Reuters já mostrou sinais de nervosismo nesse campo em abril de 2026, com aperto de condições em mercados de crédito privados (Reuters, 2026f). Em cenário mais severo, esse problema alcançaria também o financiamento comercial, corporativo e soberano.


Fuga internacional de capitais de mercados emergentes

O quinto gatilho é a fuga internacional de capitais de mercados emergentes. Esse talvez seja o canal mais rápido de contágio para o Brasil. Segundo análise do FMI reportada pela Reuters, a dominância crescente do “dinheiro quente” no financiamento dos emergentes amplia o risco de saídas bruscas, desvalorização cambial e aumento dos custos soberanos (Reuters, 2026d). Quando o capital internacional decide correr para segurança, o impacto sobre moedas e ativos de países como o Brasil pode ser imediato, mesmo sem deterioração doméstica inicial.


Como o choque chegaria ao Brasil

Dólar

O primeiro canal é o dólar. Em um Cisne Negro global, o investidor foge para segurança, e moedas de emergentes tendem a sofrer. Isso pressionaria o real, elevaria a volatilidade cambial e criaria repasses para preços internos. O alerta do FMI sobre desvalorizações súbitas em emergentes quando o capital de portfólio recua reforça esse ponto (Reuters, 2026d).


Bolsa

O segundo canal é a bolsa. Em ambiente de pânico ou forte aversão ao risco, ativos de mercados emergentes costumam ser vendidos em bloco. Isso atinge empresas expostas ao ciclo doméstico, pressiona expectativas e piora o ambiente de investimento. Em cisnes negros financeiros, a correlação entre ativos cresce e a queda tende a ser generalizada, não setorial.


Juros e dívida

O terceiro canal é o custo da dívida. Se spreads soberanos se ampliam e a percepção de risco piora, o financiamento do Estado e das empresas encarece. Isso pode pressionar a trajetória da dívida pública, dificultar emissões e manter o custo do dinheiro elevado por mais tempo. A Reuters, com base em análise do FMI, destacou precisamente esse elo entre saída de capitais, abertura de spreads e vulnerabilidade soberana em emergentes (Reuters, 2026d).


Inflação

O quarto canal é a inflação. No Brasil, choques de câmbio e de petróleo costumam chegar rapidamente a combustíveis, transporte, fretes e, depois, contaminar outros preços. Foi o que já se observou em março de 2026, segundo a Reuters, com pressão de gasolina e transporte em meio à incerteza geopolítica (Reuters, 2026a). Se o choque for mais violento, a inflação pode piorar justamente num contexto em que a atividade já se enfraquece, criando combinação particularmente desconfortável para a política econômica.


Investimento e emprego

O quinto canal é a atividade real. Com mais incerteza, crédito mais caro, câmbio pressionado e juros altos, empresas adiam projetos, famílias retraem consumo de maior valor e o mercado de trabalho tende a perder tração. O Banco Mundial já trabalha com cenário global de crescimento mais fraco, tensões comerciais e condições financeiras apertadas para 2026 (World Bank, 2026a). Em caso de Cisne Negro, esse enfraquecimento seria mais rápido e mais intenso.


Quando o externo vira crise interna

Um choque externo se transforma em problema sistêmico interno quando deixa de ser apenas turbulência financeira e passa a alterar, simultaneamente, inflação, juros, crédito, investimento e confiança. O Brasil consegue administrar volatilidade moderada. O risco maior aparece quando os canais se somam: petróleo sobe, dólar dispara, spreads abrem, crédito trava e empresas revisam planos ao mesmo tempo. Nesse momento, a economia deixa o campo da oscilação ordinária e entra em lógica defensiva.

Há um elemento adicional importante. O Banco Mundial trabalha hoje com cenário-base de preços de commodities mais comportados em 2026, inclusive com tendência de baixa média para energia (World Bank, 2025). Isso significa que um choque altista forte e duradouro no petróleo seria ainda mais desorganizante porque romperia não apenas preços, mas o próprio cenário central usado como base por governos, empresas e analistas.


Como reduzir o dano

O Brasil não controla sozinho a guerra, o petróleo ou a liquidez internacional. Mas pode reduzir sua vulnerabilidade. O FMI enfatiza que instituições fortes, reservas adequadas e dívida sustentável ajudam emergentes a enfrentar volatilidade (Reuters, 2026d). O governo brasileiro, ao FMI, ressaltou exatamente a importância de reservas robustas e do câmbio flutuante como amortecedores (International Monetary Fund, 2026b).

Na prática, isso significa quatro linhas de defesa: política monetária crível, gestão fiscal mais previsível, sistema financeiro sólido e comunicação econômica rápida e coordenada. Em eventos extremos, confiança institucional importa tanto quanto reservas. Se agentes econômicos percebem comando disperso, comunicação contraditória ou hesitação excessiva, o choque se amplia. Se percebem coordenação e previsibilidade, parte do dano pode ser contido.


Conclusão

O Brasil pode sofrer um Cisne Negro de duas formas: por um choque interno extremo ou, de forma hoje mais plausível, por contágio vindo de fora. O contexto atual já oferece gatilhos reais: guerra no Oriente Médio, incerteza sobre petróleo, nervosismo em segmentos do crédito, maior fragilidade potencial de emergentes diante do capital de portfólio e crescimento mundial sob pressão geopolítica (International Monetary Fund, 2026a; Reuters, 2026d).

Se um evento dessa natureza se materializar, o impacto tende a ser simultâneo: dólar mais alto, bolsa mais fraca, dívida mais cara, inflação pressionada, investimento adiado e emprego sob estresse. A prudência, portanto, não está em prever com precisão o próximo choque extremo, mas em compreender seus canais e fortalecer os mecanismos de defesa do país. O Brasil tem instrumentos para amortecer crises, mas não dispõe do luxo de subestimar o improvável.


Referências

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Política Monetária. Brasília: BCB, mar. 2026a. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/content/ri/relatorioinflacao/202603/rpm202603p.pdf. Acesso em: 25 abr. 2026.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Política Monetária: apresentação de 26 de março de 2026. Brasília: BCB, 2026b. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/conteudo/home-ptbr/TextosApresentacoes/RPM_2026_1T.pdf. Acesso em: 25 abr. 2026.

INTERNATIONAL MONETARY FUND. World Economic Outlook: Global Economy in the Shadow of War. Washington, DC: IMF, abr. 2026a. Disponível em: https://www.imf.org/-/media/files/publications/weo/2026/april/english/text.pdf. Acesso em: 25 abr. 2026.

INTERNATIONAL MONETARY FUND. IMFC Statement by Dario Durigan, Minister of Finance, Brazil. Washington, DC: IMF, abr. 2026b. Disponível em: https://meetings.imf.org/-/media/amsm/files/sm2026/imfc/brazil.pdf. Acesso em: 25 abr. 2026.

REUTERS. Brazil’s 12-month inflation rises in March on fuel price pressures amid Iran war uncertainty. Reuters, 10 abr. 2026a. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/brazil-annual-inflation-accelerates-march-fuel-price-pressures-2026-04-10/. Acesso em: 25 abr. 2026.

REUTERS. Brazil central bank’s caution has paid off amid rising uncertainties, director says. Reuters, 15 abr. 2026b. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/brazil-central-banks-caution-has-paid-off-amid-rising-uncertainties-director-2026-04-15/. Acesso em: 25 abr. 2026.

REUTERS. Brazil central bank cautious amid uncertainties over Iran conflict, official says. Reuters, 16 abr. 2026c. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/final-size-interest-rate-calibration-brazil-is-open-official-says-2026-04-16/. Acesso em: 25 abr. 2026.

REUTERS. Hot money increasingly dominates emerging markets financing, raising risks, IMF says. Reuters, 7 abr. 2026d. Disponível em: https://www.reuters.com/business/hot-money-increasingly-dominates-emerging-markets-financing-raising-risks-imf-2026-04-07/. Acesso em: 25 abr. 2026.

REUTERS. Brazil sees slightly higher inflation this year after oil shock. Reuters, 13 mar. 2026e. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/brazil-sees-slightly-higher-inflation-this-year-after-oil-shock-2026-03-13/. Acesso em: 25 abr. 2026.

REUTERS. Private credit strains ripple through Wall Street as investors grow wary. Reuters, 2 abr. 2026f. Disponível em: https://www.reuters.com/business/finance/private-credit-strains-ripple-through-wall-street-investors-grow-wary-2026-04-02/. Acesso em: 25 abr. 2026.

WORLD BANK. Global Economic Prospects. Washington, DC: World Bank, jan. 2026a. Disponível em: https://openknowledge.worldbank.org/entities/publication/bb904ec6-730f-4dd9-b1af-ad3153ee1616. Acesso em: 25 abr. 2026.

WORLD BANK. Commodity Markets Outlook. Washington, DC: World Bank, out. 2025. Disponível em: https://www.worldbank.org/en/news/press-release/2025/10/28/commodity-markets-outlook-october-2025-press-release. Acesso em: 25 abr. 2026.



Artigo 5: Smith vs. Fiori: O Leviatã Digital entre a Mão Invisível e a Acumulação de Poder



Introdução


Para entender o mundo digital, costumamos recorrer a manuais de tecnologia ou direito. No entanto, as chaves para decifrar o domínio das Big Techs e a crise da soberania nacional podem estar em dois pensadores cujas obras distam séculos e perspectivas: Adam Smith e José Luís Fiori. O fenômeno que chamamos de "Leviatã Digital" — esse sistema onipresente de dados e algoritmos — habita o centro de uma tensão fundamental. Seria ele o ápice da eficiência de mercado prevista por Smith ou a ferramenta definitiva de dominação geopolítica descrita por Fiori? Este artigo final sintetiza nossa série, confrontando a "Mão Invisível" com a "Acumulação de Poder".


A Mão Invisível foi Capturada?


Adam Smith (2003), em A Riqueza das Nações, propôs que o mercado, movido pelo interesse individual, levaria ao bem-estar coletivo através de uma "mão invisível". Para Smith, a livre concorrência entre muitos produtores era a garantia contra a tirania.

No entanto, no Leviatã Digital, a "mão" não é mais invisível, mas codificada em algoritmos proprietários. O que Smith chamaria de um "monopólio perigoso" que distorce o mercado é hoje a realidade das plataformas. O Leviatã Digital subverteu a lógica de Smith: ele não facilita a concorrência; ele a engole. Quando uma única empresa controla a infraestrutura onde todos os outros competem, a "liberdade" de mercado torna-se uma concessão do dono da plataforma.


O Leviatã como Sucesso da Acumulação


Onde a teoria de Smith encontra limites para explicar a concentração de poder, a tese de José Luís Fiori (2007) brilha com clareza. Para Fiori, o Leviatã Digital não é uma "falha" do livre mercado, mas o resultado vitorioso de uma estratégia de poder.

Fiori argumenta que o capital e o Estado operam em simbiose. Sob esta ótica, as gigantes digitais não são apenas empresas globais; são os novos "navios de guerra" das potências centrais. Elas expandem o território de influência de suas metrópoles sem disparar um único tiro, capturando a esfera pública, a economia e a subjetividade das nações periféricas. Enquanto o discurso smithiano de "eficiência" justifica a presença dessas empresas, a lógica fioriana revela sua função real: garantir que o centro do sistema continue acumulando riqueza e poder enquanto a periferia permanece como mera fornecedora de dados.


A Divisão do Trabalho na Era Algorítmica


Smith celebrou a divisão do trabalho como motor da produtividade. Contudo, a correlação com Fiori nos mostra o lado sombrio dessa especialização na era digital.

O Comando: Fica retido nos centros de poder que dominam a IA e o hardware avançado.

A Execução: É delegada aos países periféricos, que se tornam exportadores de dados brutos e consumidores de serviços digitais.


Essa nova divisão internacional do trabalho, sob o manto do Leviatã Digital, cristaliza o que discutimos no Artigo 3: o bloqueio ao desenvolvimento. O sistema usa a retórica de Smith sobre "vantagens comparativas" para convencer países como o Brasil de que é mais eficiente importar tecnologia do que desenvolvê-la, garantindo assim a dependência descrita por Fiori.


Conclusão: Além da Escolha Binária


O embate entre Smith e Fiori nos revela que o Leviatã Digital é um híbrido: ele usa a linguagem da liberdade e da eficiência de mercado (Smith) para realizar o projeto mais ambicioso de expansão de poder estatal-capitalista da história (Fiori).

Para o Brasil e para a Esfera Pública, a lição é clara: não basta "regular" o mercado como se estivéssemos na Inglaterra do século XVIII. É preciso reconhecer o Leviatã como uma força geopolítica. Superar a submissão digital exige retomar a função do Estado proposta por Smith — a proteção de "obras públicas" (como a infraestrutura de dados) — imbuída da "vontade de poder" e soberania defendida por Fiori. O futuro da nossa democracia depende da nossa capacidade de deixar de ser apenas um "mercado" para nos tornarmos, novamente, uma Nação.


Referências Bibliográficas


FIORI, José Luís. Uma teoria do poder global. Rio de Janeiro: Record, 2007.

SMITH, Adam. A riqueza das nações. São Paulo: Martins Fontes, 2003 [1776].


Artigo 4: O Leviatã Digital sob a Ótica de Fiori: Poder, Dados e a Nova Ordem Mundial



Introdução


Nas três primeiras partes desta série, exploramos como o poder global exige expansão constante, como o Estado e o Mercado operam em simbiose e por que o sistema internacional bloqueia a ascensão de novos atores. Agora, convergimos esses conceitos para um fenômeno que define o nosso tempo: o surgimento do Leviatã Digital. Longe de ser apenas um avanço técnico ou um dilema de privacidade, o Leviatã Digital é a forma mais sofisticada de controle e acumulação de poder já registrada. Sob a ótica de José Luís Fiori, ele representa a fusão final entre a soberania política e a infraestrutura tecnológica de dados.


O Leviatã como Instrumento de Expansão


Para Fiori (2007), o sistema interestatal é movido por Estados que buscam projetar sua vontade para além de suas fronteiras. O Leviatã Digital — composto por redes de cabos submarinos, constelações de satélites, datacenters e algoritmos de Inteligência Artificial — é a ferramenta contemporânea dessa projeção.

Diferente dos impérios do passado, que precisavam de ocupação física permanente, o Leviatã Digital permite uma "ocupação imaterial". Ele captura a esfera pública de outras nações, moldando o comportamento de seus cidadãos, controlando seus fluxos financeiros e extraindo sua riqueza informacional em tempo real. Como Fiori argumenta, a expansão do poder exige sempre uma nova base técnica; hoje, essa base é a codificação da própria vida social.


A Simbiose Algorítmica: Estado e Big Tech


Se no Artigo 2 discutimos a simbiose entre Estado e Mercado, o Leviatã Digital é a prova cabal dessa tese. Não há autonomia real entre o governo de uma grande potência e suas gigantes tecnológicas. As Big Techs fornecem a infraestrutura de inteligência e vigilância que o Estado necessita, enquanto o Estado oferece a proteção diplomática, jurídica e militar para que essas empresas dominem os mercados globais.

Sob a perspectiva de Fiori, o Leviatã Digital não é um ente privado que desafia o Estado, mas sim um braço do poder estatal das grandes potências. Quando uma plataforma digital decide o que pode ou não ser dito na esfera pública de um país como o Brasil, ela está exercendo uma forma de jurisdição extraterritorial. É o "Poder Soberano" exercido através de termos de uso e algoritmos opacos.


O "Digital" como Muralha ao Desenvolvimento


Para a periferia do sistema, o Leviatã Digital aprofunda o dilema discutido no Artigo 3. A concentração de dados e de capacidade computacional nas mãos de pouquíssimos atores cria uma barreira de entrada quase intransponível.

Segundo a lógica de Fiori, o sistema é desenhado para que os novos atores sejam apenas "usuários" da infraestrutura alheia. Ao aceitarmos o Leviatã Digital estrangeiro como a base da nossa governança, educação e economia, estamos, na prática, terceirizando a nossa soberania. A "Soberania Digital" deixa de ser um tema técnico e passa a ser uma luta pela sobrevivência política: sem o controle sobre o próprio Leviatã (ou a capacidade de resistir ao alheio), um país deixa de ser um sujeito da história para se tornar um mero conjunto de dados a ser processado.


Conclusão: O Desafio da Esfera Pública Brasileira


A série dedicada à obra de José Luís Fiori nos conduz a uma conclusão inevitável: o poder global é um jogo de soma zero onde a passividade equivale à submissão. O fenômeno do Leviatã Digital nos mostra que a disputa pelo controle dos dados e da inteligência artificial é a disputa pelo controle do próprio futuro das nações.

Para o Brasil, o desafio é hercúleo. Requer superar a ingenuidade de acreditar que a tecnologia é um campo neutro e entender que a construção de uma esfera pública verdadeiramente soberana exige autonomia técnica, capacidade industrial e, acima de tudo, uma "vontade de poder" que não se curve às pressões do sistema internacional. O Leviatã Digital já está entre nós; a pergunta que fica é se seremos seus súditos ou se teremos a coragem de construir nossas próprias ferramentas de liberdade.


Referências Bibliográficas


FIORI, José Luís. Uma teoria do poder global. Rio de Janeiro: Record, 2007.

FIORI, José Luís. O poder global e a nova estratégia das nações. Rio de Janeiro: Boitempo, 2003.

SCHWAB, Klaus; MALLERET, Thierry. O Grande Recomeço (The Great Reset). Genebra: World Economic Forum, 2020. (Para contextualização da governança digital global).


Artigo 3: O Dilema do Desenvolvimento: Por que o Sistema Bloqueia Novos Atores?



Introdução


Por que o Brasil, apesar de sua dimensão e potencial, enfrenta tantas barreiras para se tornar uma potência tecnológica e industrial? A resposta convencional costuma apontar para "erros internos": falta de reformas, carga tributária ou baixa instrução. No entanto, a teoria de José Luís Fiori oferece uma explicação muito mais desconfortável. O sistema internacional não é uma escada livre onde todos podem subir se "fizerem o dever de casa"; é um campo de forças onde as potências que já estão no topo agem ativamente para impedir a ascensão de novos competidores. No jogo do poder global, o desenvolvimento de um país da periferia é visto como uma ameaça ao equilíbrio de quem detém o comando.


O Sistema é um Clube Fechado


A premissa central de Fiori (2007) é que a "hierarquia de poder" é a espinha dorsal do sistema mundial. Para que existam Estados que comandam, é necessário que existam Estados que obedeçam ou que, no mínimo, não contestem a hegemonia estabelecida. O autor argumenta que as grandes potências não exportam as ferramentas que as tornaram poderosas; elas exportam as "regras" que mantêm os outros países em uma posição de subordinação produtiva.

Dessa forma, o desenvolvimento econômico de um país como o Brasil não é apenas uma questão de PIB, mas uma questão de soberania. Quando tentamos avançar em setores estratégicos — como o aeroespacial, o nuclear ou o de semicondutores — esbarramos não apenas em dificuldades técnicas, mas em "muralhas" diplomáticas, sanções veladas e pressões de instituições internacionais que visam preservar o monopólio tecnológico do centro.


A Armadilha da Especialização e a Dependência Digital


Fiori destaca que o sistema incentiva a periferia a se especializar em setores de baixo valor agregado e baixa complexidade tecnológica. Na era digital, isso se traduz em um novo tipo de dependência. Enquanto os polos de poder (EUA e China) disputam a inteligência artificial e a infraestrutura 5G, incentiva-se o Sul Global a ser um "usuário eficiente" e um exportador de commodities para financiar a importação de bens de alta tecnologia.

Sob a ótica de Fiori, essa especialização é uma forma de "vassalagem moderna". Ao não produzirmos nossa própria tecnologia e ao não protegermos nossa indústria nacional, permitimos que a riqueza gerada em nosso território seja drenada para os centros de poder, alimentando o ciclo de expansão deles e aprofundando o nosso hiato de soberania. O desenvolvimento, portanto, exige uma "vontade de poder" que o mercado sozinho, sem o Estado, não consegue articular.


O Brasil e a Necessidade de um Projeto de Poder


Para o Brasil, a lição de Fiori é clara: o desenvolvimento não virá por convite ou por inércia de mercado. Ele requer uma estratégia de Estado que entenda que a economia está subordinada à geopolítica. O país enfrenta o que Fiori chama de "bloqueio estrutural": as potências centrais têm interesse em que o Brasil continue sendo um grande mercado consumidor e um fornecedor de recursos, mas nunca um competidor na fronteira tecnológica.

Superar esse dilema exige mais do que políticas econômicas; exige um projeto nacional que vincule a defesa da base industrial à defesa da soberania política. Sem o domínio das tecnologias de ponta, o Brasil permanecerá na periferia da "esfera pública" global, reagindo a decisões tomadas em Washington, Pequim ou Bruxelas.


Conclusão


O desenvolvimento é uma luta contra a inércia de um sistema desenhado para ser desigual. Compreender o "bloqueio" descrito por Fiori é o primeiro passo para parar de buscar soluções mágicas em manuais estrangeiros e começar a construir um caminho próprio. Agora que entendemos como o poder se acumula (Artigo 1), como o Estado e o Mercado se fundem (Artigo 2) e como o sistema resiste a novos atores (Artigo 3), estamos prontos para o capítulo final desta série: a análise do Leviatã Digital, a forma mais sofisticada de controle e acumulação de poder já criada na história humana.


Referências Bibliográficas


FIORI, José Luís. Uma teoria do poder global. Rio de Janeiro: Record, 2007.

FIORI, José Luís. O poder global e a nova estratégia das nações. Rio de Janeiro: Boitempo, 2003.