Entre Freud, o imaginário messiânico e a tentação do salvador da pátria
A espera do “mito”, do “messias” ou do “salvador da pátria” não é um acidente periférico da vida coletiva. Ela toca um núcleo profundo da experiência humana: a dificuldade de sustentar a insegurança, o conflito, a frustração e a incompletude sem converter tudo isso em desejo de encarnação num líder. É exatamente aí que o texto de Freud sobre a psicologia das massas se torna decisivo. Para ele, a massa não é apenas um ajuntamento de pessoas; é uma formação psíquica em que o indivíduo enfraquece sua crítica, intensifica seus afetos e se liga ao líder e aos demais por laços de identificação e investimento afetivo. A vida psíquica individual, lembra Freud, já é desde o início atravessada pelo outro como modelo, objeto, auxiliador ou adversário. Por isso, a massa não cria do nada uma nova alma: ela amplia e reorganiza mecanismos que já existiam na subjetividade individual.
Quando esse esquema é deslocado para a política e para a religião, surge um fenômeno recorrente: a procura de uma figura que concentre proteção, ordem, sentido, reparação, justiça e destino. Em linguagem religiosa, isso assume a forma do messias; em linguagem política, a do herói, do pai, do restaurador, do “homem providencial”, do “mito”, do “ungido”, do “salvador da nação”. O nome muda; a estrutura psíquica permanece surpreendentemente estável. A figura esperada aparece como aquela que virá pôr fim ao caos, purificar os corruptos, restaurar a comunidade, reconciliar o povo consigo mesmo e devolver grandeza histórica a uma coletividade ferida.
1. Freud e a base psíquica da espera por um salvador
Freud desmonta a ideia de que a massa se organiza por um simples “instinto gregário” misterioso. Seu argumento é mais fino: a coesão grupal depende de laços afetivos. A massa, diz ele, mantém-se por Eros, isto é, por ligações libidinais; no interior dela, o indivíduo aceita a sugestão, enfraquece sua singularidade e se identifica com os outros porque todos compartilham uma ligação comum com o líder. A fórmula central de Freud é fortíssima: a massa primária é composta por indivíduos que colocaram um mesmo objeto no lugar de seu Ideal do Eu e, por isso, se identificaram uns com os outros.
Aqui está uma chave crucial para entender o “mito” político-religioso. O líder não é importante apenas porque comanda. Ele é importante porque ocupa o lugar de instância normativa e desejável. Ele se torna aquilo que os indivíduos gostariam de ser, aquilo a que gostariam de se conformar, aquilo que autoriza suas emoções, seus julgamentos e seus impulsos. Quando o líder ocupa o lugar do Ideal do Eu, a crítica enfraquece. A massa já não pergunta: “isso é verdadeiro?”, “isso é justo?”, “isso é legal?”. Ela passa a perguntar, ainda que inconscientemente: “isso vem dele?”, “isso corresponde ao que ele encarna?”, “isso confirma nosso pertencimento?”.
Freud observa, ainda, que nas massas há intensificação afetiva, rebaixamento da capacidade crítica, sugestionabilidade elevada, poder mágico das palavras e atração por imagens simples, fortes e repetidas. A massa tende a extremos, ama a autoridade, quer força, deseja ser dominada e teme seus senhores. Isso ajuda a explicar por que a figura do salvador raramente se apresenta como mediadora banal. Ela tende a aparecer como exceção, como encarnação do destino, como aquele que “fala como ninguém”, “enxerga o que ninguém vê”, “tem coragem de fazer o que ninguém fez”.
Em outras palavras: o salvador da pátria não nasce apenas de programas políticos. Ele nasce de carências afetivas socialmente amplificadas.
2. O messias na religião: redenção, restauração e fim do tempo comum
Historicamente, a ideia de messias está ligada à expectativa de um redentor. Na tradição judaica, “messias” designa o ungido esperado, associado à restauração de Israel e à superação de um tempo de opressão; mais amplamente, o termo passou a nomear figuras ou expectativas de redenção escatológica da humanidade. A própria Encyclopaedia Britannica destaca que a expectativa messiânica ganhou força quando a realidade histórica frustrou a esperança depositada nos reis concretos, fazendo com que o ideal de restauração fosse projetado para o futuro.
Isso é decisivo. O messianismo floresce quando o presente se mostra insuficiente. Não é o tempo satisfeito que espera um messias; é o tempo ferido. Quando a ordem vigente produz humilhação, perda de soberania, decadência moral, desorientação econômica ou sensação de abandono, a imaginação coletiva tende a transcender o presente e a buscar uma figura de restauração. O messias, nesse sentido, não é apenas um personagem teológico. Ele é a forma simbólica assumida pela esperança sob condições de sofrimento histórico.
No cristianismo, esse motivo foi transformado profundamente. A Britannica observa que, ao ser identificado com Jesus, o motivo messiânico perde parte de suas implicações nacionalistas estritamente judaicas e assume uma formulação universal e religiosa própria do cristianismo. Ao mesmo tempo, no ambiente do judaísmo do Segundo Templo coexistiam expectativas de um messias político e de uma figura celestial que inauguraria uma nova era. Ou seja: desde cedo, o imaginário messiânico já oscilava entre libertação política concreta e redenção transcendente.
É precisamente essa oscilação que torna o messianismo tão potente. Ele pode se espiritualizar sem desaparecer. Pode se secularizar sem perder sua estrutura. Pode mudar de vocabulário e continuar operando.
3. Da teologia à política: quando o messias se seculariza
Uma das passagens mais importantes para essa discussão está em Freud quando ele afirma que, em certos casos, a massa pode ter o líder substituído por uma ideia, por uma abstração, ou por uma causa. Isso significa que o vínculo de massa não depende apenas da presença física de um chefe; ele pode se condensar em símbolos, slogans, imagens de pátria, glória, redenção nacional ou missão histórica.
É aí que a espera do messias entra na política moderna. A política passa a oferecer o que antes muitas vezes era prometido pela religião: salvação coletiva, purificação moral, reconciliação nacional, renascimento histórico, restauração da ordem e derrota definitiva do mal. O problema é que a política, diferentemente da escatologia religiosa, opera no mundo concreto da pluralidade, da lei, do conflito legítimo, da negociação e da limitação institucional. Quando ela é forçada a carregar expectativas salvíficas absolutas, tende ao colapso ou ao autoritarismo.
Max Weber ajuda a compreender esse ponto ao distinguir a autoridade carismática da tradicional e da legal-racional. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, a legitimidade carismática depende da capacidade de o líder persuadir seus seguidores de suas qualidades extraordinárias e, assim, receber devoção pessoal e seguimento emotivo. A Britannica vai na mesma direção ao afirmar que a base da autoridade carismática é emocional, não racional: ela repousa sobre confiança e fé, que podem ser cegas e acríticas.
Note-se a convergência impressionante com Freud. O líder carismático weberiano e o líder freudiano da massa ocupam posições diferentes em teorias diferentes, mas partilham um mesmo núcleo: ambos organizam adesões que não são explicáveis apenas por cálculo racional. Há entrega, fascínio, crença, devoção, identificação e suspensão parcial da crítica.
Quando isso se mistura à linguagem nacional, o salvador da pátria deixa de ser somente um governante forte. Ele vira o ponto de condensação de ansiedades difusas: medo do futuro, ressentimento social, nostalgia de grandeza, desejo de punição, busca de pureza moral e necessidade de pertencimento. A “pátria”, então, deixa de ser apenas território. Passa a significar família simbólica, identidade moral, ordem social, prosperidade econômica, fé religiosa, segurança cultural e destino histórico.
4. O “salvador da pátria” como sintoma social
A espera do salvador não revela força cívica; em regra, revela fragilidade institucional e sofrimento coletivo mal elaborado.
Sociedades que apostam reiteradamente em redentores costumam apresentar algumas marcas: desconfiança nas instituições, descrédito na mediação política, baixa paciência com processos, fome de simplificação moral, intolerância à ambiguidade e tendência a imaginar que o mal social tem rosto único e solução única. Nesses contextos, a pluralidade democrática parece lenta demais, a técnica parece fria demais e a lei parece fraca demais. O imaginário então pede um corpo que concentre a decisão: alguém que fale sem hesitar, prometa sem mediação e puna sem demora.
Freud ajuda a explicar por que isso seduz. A massa quer proteção e redução da angústia. Quando o líder parece forte, a dispersão interna diminui. Quando ele parece amar igualmente “o povo”, forma-se uma comunidade de irmãos. Quando ele nomeia inimigos, organiza-se uma identidade. Quando ele promete restauração, o sofrimento ganha narrativa. E quando ele se apresenta como exceção providencial, a massa pode se sentir novamente orientada.
Mas essa promessa contém uma armadilha. O que parece solução para a angústia frequentemente é apenas seu deslocamento. A sociedade deixa de enfrentar suas contradições estruturais e as projeta num teatro redentor. Em vez de reforma tributária, desenvolvimento produtivo, educação de qualidade, fortalecimento institucional, planejamento urbano, justiça social e pactos democráticos duráveis, oferece-se uma mística. O redentor toma o lugar do projeto.
É por isso que o “salvador da pátria” é menos uma resposta do que um sintoma. Ele sinaliza que a esfera pública foi colonizada por expectativas de salvação incompatíveis com a complexidade real do político.
5. Religião, política e a transferência do sagrado
A força do salvador político cresce quando a política se sacraliza e a religião se politiza. Nessas situações, o líder não é apenas admirado; ele é ungido imaginariamente. A discordância com ele já não é vista como divergência legítima, mas como heresia, traição ou blasfêmia cívica.
Freud percebe algo fundamental ao analisar a Igreja: a comunidade se organiza em torno da ilusão de um chefe supremo que ama todos igualmente. Esse amor funda o vínculo horizontal entre os membros. O problema surge quando essa estrutura é transposta para a política sem as limitações institucionais próprias do Estado moderno. O governante passa a ser visto como pai, pastor, juiz e redentor ao mesmo tempo. A esfera pública perde sua secura republicana e se converte em arena de fé.
A própria história religiosa mostra a plasticidade do messianismo. A Britannica observa que o termo se expandiu para designar, em sentido amplo, qualquer figura redentora ou expectativa de melhoria escatológica do mundo; também registra a centralidade do Mahdi no imaginário escatológico xiita. Isso mostra que a estrutura da espera salvífica atravessa tradições distintas, ainda que com teologias diferentes.
Quando esse esquema entra na política, tende a produzir três efeitos.
O primeiro é a simplificação moral. O mundo passa a ser dividido entre salvos e perdidos, puros e corruptos, patriotas e inimigos.
O segundo é a personalização extrema do poder. A confiança deixa de repousar em regras e instituições e se concentra na pessoa providencial. A Britannica lembra que cultos de personalidade são desenhados precisamente para magnificar o líder, ampliar sua ideologia e legitimar seu poder.
O terceiro é a imunização contra a crítica. Se o líder é imaginado como salvador, toda crítica parece sabotagem da própria redenção coletiva.
6. O caso brasileiro: messianismo, carisma e “salvador da pátria”
O Brasil conhece há muito tempo formas políticas e religiosas de messianismo. A bibliografia nacional registra desde os messianismos sertanejos até releituras contemporâneas do tema. Em estudo clássico na SciELO, Negrão revisita o messianismo no Brasil e discute como esse imaginário se inscreve em processos sociais e políticos concretos, e não apenas em delírios marginais.
Também há trabalhos recentes que mostram como a linguagem do “salvador da pátria” permanece ativa na política brasileira. Um artigo na Revista Brasileira de Ciência Política observa a permanência da demanda por um líder com perfil de “salvador da pátria”, capaz de conduzir e coordenar a coletividade. Já textos mais recentes em bases SciELO analisam explicitamente a presença de elementos messiânicos em discursos políticos contemporâneos e a construção de lideranças apresentadas como “ungidas” ou redentoras.
Isso não significa que todo carisma seja necessariamente antidemocrático. Significa, sim, que a carência social por reparação e ordem pode ser capturada por narrativas de exceção. Em países marcados por desigualdade profunda, promessas frustradas de modernização, corrupção sistêmica, baixa confiança institucional e intensas mediações religiosas no espaço público, o terreno para o salvacionismo é particularmente fértil. O líder aparece como atalho afetivo diante de problemas que exigiriam construção histórica lenta.
O nome “salvador da pátria”, no Brasil, portanto, não é simples metáfora. Ele carrega uma gramática teológico-política. “Pátria” aí significa, ao mesmo tempo, economia, moralidade pública, segurança, identidade cultural, religião, dignidade nacional e futuro das famílias. Quem promete salvá-la promete mais que governar: promete redimir.
7. “Mito” e “messias”: a diferença entre símbolo e idolatria política
Nem toda liderança forte é messiânica. Nem toda esperança coletiva é irracional. Nem todo símbolo nacional é patológico. O problema começa quando o símbolo deixa de mediar e passa a substituir a realidade.
O “mito”, nesse sentido, é a forma degradada do símbolo político. Em vez de abrir reflexão, ele a fecha. Em vez de orientar ação institucional, ele pede adesão total. Em vez de representar um projeto, ele se torna o próprio projeto. É como se a sociedade, cansada da dureza do real, trocasse a arquitetura por um rosto.
Freud fornece a lógica interna desse processo: quanto mais a massa coloca o objeto no lugar do Ideal do Eu, mais a crítica se cala e mais o líder se torna medida do justo, do verdadeiro e do desejável. Weber descreve a forma sociológica disso: devoção pessoal e seguimento emotivo baseados na crença em qualidades extraordinárias. A história do messianismo mostra a matriz mais antiga: a esperança de que uma figura singular suspenda o tempo ordinário e inaugure um novo mundo.
Por isso a política messiânica é sempre tentadora e sempre perigosa. Tentadora porque consola. Perigosa porque infantiliza.
8. O que a democracia exige contra a tentação salvífica
A maturidade democrática começa quando uma sociedade aceita que não será salva por uma pessoa.
Isso não é cinismo; é civilização política. Nenhum governante, nenhum pastor, nenhum general, nenhum juiz, nenhum líder partidário, nenhum “mito” pode concentrar sozinho as funções de pai, profeta, guerreiro, terapeuta, legislador e redentor. Quando isso acontece, a comunidade transfere ao líder uma carga impossível e, ao mesmo tempo, autoriza sua hipertrofia.
A democracia não pede ausência de líderes. Pede dessacralização da liderança. Pede que governantes sejam responsáveis, não adorados; criticáveis, não ungidos; substituíveis, não providenciais. Pede que a esperança coletiva seja depositada em instituições, pactos, políticas públicas, cultura cívica e capacidade de correção histórica, e não em fantasias de redenção imediata.
Em termos freudianos, isso equivale a recusar a regressão da massa à dependência fascinada. Em termos políticos, equivale a trocar fé personalista por confiança institucional. Em termos culturais, equivale a abandonar a infância do salvador e aceitar a adultez do conflito democrático.
Conclusão
A espera do “mito” ou do “messias” salvador da política e da religião é uma forma poderosa de organizar afetos coletivos, especialmente em tempos de crise, humilhação e desordem. Freud mostrou que a massa não se une apenas por interesse, mas por laços afetivos, identificações e idealizações que colocam o líder no lugar do Ideal do Eu. A história das religiões mostra que o messias nasce justamente quando o presente falha e o sofrimento exige uma promessa de restauração. A sociologia do carisma demonstra que a autoridade extraordinária opera menos pela razão que pela fé, pela devoção e pela emoção. Reunidos, esses elementos explicam por que o “salvador da pátria” continua a seduzir.
Mas explicá-lo não é legitimá-lo. Ao contrário: quanto mais se compreende sua estrutura, mais nítido fica seu risco. O salvador promete resolver num corpo aquilo que só pode ser enfrentado por uma coletividade politicamente madura. Ele promete encurtar a história, abolir a mediação, simplificar o conflito e restaurar a totalidade. É por isso que, na religião, o messianismo pode operar como esperança escatológica; já na política, quando absolutizado, costuma operar como tentação autoritária. A sociedade que troca instituições por unção, cidadania por devoção e projeto por idolatria não encontra redenção: encontra regressão.
Referências essenciais
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 15: Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras.
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ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Charisma. Encyclopaedia Britannica, 2026.
STANFORD ENCYCLOPEDIA OF PHILOSOPHY. Max Weber. Stanford University.
NEGRÃO, Lísias Nogueira. Revisitando o messianismo no Brasil e profetizando seu futuro. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 2001.
ORTUNES, Leandro. Lideranças políticas no Brasil. Revista Brasileira de Ciência Política, 2019.
BRITO, C. L. de. Elementos de messianismo em pronunciamentos de Jair Bolsonaro. DELTA, 2023.
RIVAS, E. “Novos” messianismos. Perspectiva Teológica, 2020.
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