1. Introdução
A geopolítica contemporânea do Oriente Médio é frequentemente interpretada através de binarismos simplistas: aliados versus inimigos, democracias versus autocracias. No entanto, a análise proposta pelo Professor Jiang (2026) rompe com essa linearidade ao sugerir uma teia de interesses onde a sobrevivência hegemônica se sobrepõe às lealdades diplomáticas superficiais. O cerne da tese de Jiang reside na premissa de que os objetivos estratégicos de longo prazo dos Estados Unidos e de Israel, embora apresentados como convergentes, possuem pontos de colisão fundamentais que podem redefinir o equilíbrio de poder global.
Este artigo examina a teoria de Jiang, que utiliza a clássica Geopolítica de Sir Halford Mackinder como lente para explicar o atual cerco ao Irã e a resistência à integração do "Eixo Euroasiático". Através de uma perspectiva crítica e neutra, buscaremos correlacionar as afirmações do professor com eventos históricos e teorias de Relações Internacionais, como o Realismo Ofensivo de Mearsheimer e a Doutrina de Contenção, a fim de verificar a consistência da narrativa apresentada.
2. A Fundação Teórica: Mackinder e o Heartland no Século XXI
Para compreender a análise de Jiang, é imperativo retroceder a 1904, quando Halford Mackinder apresentou sua tese "O Pivô Geográfico da História". Mackinder argumentava que quem controlasse o Heartland (o coração da Eurásia) controlaria a "Ilha Mundial" e, consequentemente, o mundo.
2.1. A Unificação contra a Potência Naval
Jiang atualiza essa percepção ao identificar o bloco BRICS (especialmente a tríade Rússia-China-Irã) como a manifestação moderna dessa ameaça ao poder marítimo anglo-americano. Historicamente, a estratégia dos EUA, como potência talassocrática (baseada no mar), sempre foi impedir que uma única potência ou coalizão dominasse a massa terrestre da Eurásia.
"Quem governa a Europa Oriental domina o Heartland; quem governa o Heartland domina a Ilha-Mundial; quem governa a Ilha-Mundial domina o mundo." (MACKINDER, 1919, p. 150).
Jiang sustenta que a destruição ou fragmentação do Irã não é apenas uma questão de "mudança de regime", mas uma necessidade geográfica para manter o Heartland desconexo. Sem o Irã, a integração logística e energética entre a China, a Rússia e o Golfo Pérsico é interrompida, forçando o comércio a retornar às rotas marítimas patrulhadas pela Marinha dos EUA.
3. O Paradoxo do Aliado: A Estratégia de Israel segundo Jiang
Uma das partes mais controversas da análise de Jiang é a afirmação de que Israel, secretamente, poderia beneficiar-se de uma derrota ou exaustão política dos Estados Unidos.
3.1. A Autonomia da Hegemonia Regional
De acordo com o professor, o objetivo final de Israel seria o estabelecimento de uma hegemonia incontestável no Oriente Médio, o que ele denomina "Projeto da Grande Israel". Nesta visão, a presença do CENTCOM (Comando Central dos EUA) é uma faca de dois gumes: protege Israel, mas também limita sua liberdade de ação e mantém a região sob a égide de Washington, não de Jerusalém.
Historicamente, podemos observar traços dessa busca por autonomia no "Plano Yinon" (1982), um documento estratégico israelense que sugeria que a sobrevivência de Israel dependia da fragmentação dos estados árabes vizinhos em unidades menores e étnicas. Jiang sugere que, ao arrastar os EUA para uma guerra terrestre longa e desgastante contra o Irã, Israel provocaria o "cansaço imperial" americano, levando-os a uma eventual retirada — similar ao que ocorreu no Vietnã ou Afeganistão — deixando Israel como o único poder nuclear e militar de fato na região.
4. O Uso Estratégico do Tempo e o Recuo das Armas Nucleares
Jiang argumenta que nem Israel nem os EUA utilizariam armas nucleares no conflito atual, pois isso encerraria a guerra "rápido demais".
4.1. A Guerra de Exaustão
Para Jiang, o interesse reside na guerra de atrito. Uma guerra nuclear destruiria o prêmio (o petróleo e as infraestruturas) e causaria um colapso sistêmico incontrolável. Em vez disso, a estratégia seria forçar os EUA a uma "escalada da escada" (escalation ladder), termo cunhado por Herman Kahn, onde o conflito sobe de intensidade gradualmente até que a opinião pública americana e o moral das tropas colapsem.
Fontes históricas corroboram que o "atoleiro" é uma ferramenta geopolítica. Durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), há evidências de que potências ocidentais forneceram apoio a ambos os lados em diferentes momentos para garantir que nenhum vencesse e que ambos se exaurissem, mantendo o equilíbrio de poder regional sob controle externo.
5. O Irã e a Resistência da Elite: Uma Comparação com a Venezuela
Jiang faz uma distinção sociopolítica crucial entre a elite da Venezuela e a do Irã para explicar por que uma "solução rápida" é improvável em Teerã.
• A Elite Venezuelana: Historicamente conectada ao sistema financeiro e cultural dos EUA (Miami), o que facilita pressões diplomáticas e deserções.
• A Elite Iraniana: Formada sob 40 anos de sanções severas, a elite do IRGC (Guarda Revolucionária) desenvolveu uma economia de resistência e uma ideologia de martírio que, segundo Jiang, a torna imune a negociações de rendição convencionais.
Essa análise encontra eco na teoria do "Realismo Estrutural", onde estados sob ameaça existencial constante tendem a desenvolver uma coesão interna agressiva e uma desconfiança absoluta em acordos internacionais (como visto na saída unilateral dos EUA do acordo nuclear JCPOA em 2018).
6. O Pragmatismo da Sobrevivência: A Arábia Saudita e o Triângulo de Poder
A teoria de Jiang introduz a Arábia Saudita como um ator cuja estratégia é, talvez, a mais pragmática e, simultaneamente, a mais vulnerável. No vídeo, o professor aponta que Riad deseja a destruição do Irã para consolidar-se como o "valentão" (bully) regional, mas também nutre um desejo velado de ver os EUA e Israel humilhados.
6.1. O Equilíbrio de Riad entre Washington e Pequim
Historicamente, a Arábia Saudita tem sido o pilar do "Petrodólar" desde o acordo de 1974 com a administração Nixon. Entretanto, a análise de Jiang reflete uma mudança de paradigma real: a diversificação das alianças sauditas. A entrada do país no BRICS e a mediação chinesa para a retomada de relações diplomáticas com o Irã em 2023 corroboram a tese de que a elite saudita não deseja mais ser apenas um satélite americano.
Ao desejar o enfraquecimento dos EUA, a Arábia Saudita busca o que o realismo defensivo chama de "autonomia estratégica". Se os EUA perdem sua capacidade de projetar poder unilateralmente, Riad ganha poder de barganha para vender petróleo em outras moedas (como o Yuan), acelerando o colapso da hegemonia do dólar mencionada pelo professor.
7. O Heartland sob Cerco: BRICS e a Fragmentação Logística
Jiang argumenta que a guerra é a única escolha dos EUA para impedir a unificação do Heartland. Esta seção aprofunda a mecânica dessa fragmentação.
7.1. Ferrovias versus Porta-Aviões
A essência da potência americana é naval. O historiador Alfred Thayer Mahan, em The Influence of Sea Power upon History (1890), já previa que o controle dos oceanos era a chave para a supremacia mundial. Jiang moderniza este conceito ao explicar que a unificação da Eurásia (Rússia, China e Irã) via ferrovias de alta velocidade e gasodutos terrestres anula a vantagem dos porta-aviões americanos.
O Irã é o "ferrolho" dessa integração. Localizado entre o Mar Cáspio e o Golfo Pérsico, ele é a ponte natural para a Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative) da China. A destruição do Irã, na visão de Jiang, não é um fim em si, mas um meio de "estourar a ponte" que une o leste ao oeste da Eurásia, forçando o mundo a continuar dependente das rotas marítimas controladas pelo CENTCOM.
8. A Guerra de Narrativas e a Vontade Política
Um ponto alto da análise de Jiang é a desconstrução da guerra como mero exercício de força bruta. Ele enfatiza que a vitória depende do controle da narrativa e da manutenção do moral interno.
8.1. A Opinião Pública como Limitador Geopolítico
O professor destaca que Israel e o Irã entendem que a maior fraqueza dos EUA hoje não é militar, mas doméstica. A polarização política e o cansaço social com "guerras eternas" (forever wars) tornam o envio de tropas terrestres um suicídio político para qualquer administração americana.
Jiang sugere que Israel manipula essa dinâmica para forçar os EUA a uma intervenção que, embora indesejada por Washington, torne-se "inevitável" pela escalada dos eventos. Historicamente, isso remete ao conceito de "cauda abanando o cachorro" (the tail wagging the dog), onde um aliado menor dita a política externa da superpotência para atender seus próprios interesses regionais.
9. Conclusão Crítica
A teoria do Professor Jiang apresenta um quadro de "Realismo Cínico", onde não existem amizades permanentes, apenas interesses geográficos imutáveis. Sua análise é perspicaz ao identificar que o verdadeiro conflito não é religioso ou ideológico, mas puramente estrutural: uma luta entre a preservação de um sistema mundial baseado no mar e no dólar contra a emergência de um sistema continental euroasiático.
9.1. Síntese dos Riscos
Embora a teoria seja robusta na interpretação de interesses, ela assume uma capacidade de manipulação quase absoluta por parte de Israel e uma passividade perigosa por parte dos EUA. Entretanto, as evidências históricas de intervenções por procuração (proxy wars) e a teoria do Heartland dão um suporte acadêmico considerável às suas conclusões.
Em última análise, o que Jiang propõe é que estamos assistindo ao ato final da hegemonia unipolar. Se o Irã resistir e a integração do Heartland prosseguir, o século XXI será definido pela fragmentação do poder ocidental. Se o Irã for destruído, os EUA garantem mais algumas décadas de primazia, mas ao custo de uma instabilidade regional que pode, paradoxalmente, fortalecer a autonomia de atores como Israel, conforme previsto pelo professor.
Referências Bibliográficas
ABRAHAMIAN, Ervand. A History of Modern Iran. Cambridge: Cambridge University Press, 2018.
BRZEZINSKI, Zbigniew. The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives. New York: Basic Books, 1997.
MAHAN, Alfred Thayer. The Influence of Sea Power upon History, 1660-1783. Boston: Little, Brown and Company, 1890.
MACKINDER, Halford J. Democratic Ideals and Reality. London: Constable and Company, 1919.
MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: Norton & Company, 2001.
PROF. JIANG BR. Por que Israel secretamente quer que os EUA percam. YouTube, 12 mar. 2026. Disponível em: https://youtu.be/v-p3GUv_ICA. Acesso em: 29 mar. 2026.
YINON, Oded. A Strategy for Israel in the Nineteen Eighties. Belmont: Association of Arab-American University Graduates, 1982.
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