terça-feira, 31 de março de 2026

A Construção Interrompida: O Diagnóstico de Furtado e Tavares sobre o Brasil


O Brasil é um país que caminha em círculos ou uma nação que teve seu projeto de desenvolvimento deliberadamente sabotado? Esta é a pergunta que ecoa ao assistirmos ao debate histórico entre Celso Furtado e Maria da Conceição Tavares, realizado no Instituto de Economia da Unicamp em meados da década de 1980. No epicentro da "década perdida", os dois gigantes da economia brasileira dissecaram as entranhas de um modelo que gerou crescimento industrial, mas falhou em produzir soberania e justiça social.

Quarenta anos depois, o diagnóstico permanece dolorosamente atual. A "construção interrompida", título de uma das obras fundamentais de Furtado, parece não ter sido retomada, mantendo o país em uma armadilha de baixo crescimento e profunda desigualdade.

1. A Modernização Dependente e o "Bovarismo" das Elites

A tese central de Celso Furtado no debate reside na distinção entre crescimento econômico e desenvolvimento. Para Furtado, o Brasil realizou uma "modernização dependente". O país sofisticou seus padrões de consumo — mimetizando o estilo de vida das nações desenvolvidas — sem, contudo, internalizar o progresso técnico necessário para sustentar essa modernização de forma autônoma.

Furtado utiliza o termo "bovarismo" para descrever a elite brasileira: um grupo que dá as costas ao povo e olha obsessivamente para o exterior. Segundo o autor:

> "Nosso século XIX é, na verdade, o século em que as elites se voltam para a Europa e dão costas totalmente ao povo [...] esse bovarismo marcou profundamente a nossa evolução cultural" (FURTADO, 1985).

Essa característica reflete-se na economia atual através da desindustrialização precoce. Enquanto o mundo avança na fronteira tecnológica da Inteligência Artificial e da transição energética, o Brasil recua para uma pauta exportadora baseada em commodities (soja, minério e petróleo), reafirmando sua posição de "subsidiário" no sistema de divisão internacional do trabalho.

2. A Financeirização e a Paralisia do Investimento

Maria da Conceição Tavares, com sua verve característica, trouxe para o debate a urgência da crise financeira. Ela expôs como o endividamento externo e a inflação transformaram a economia brasileira em um mecanismo de transferência de renda para o setor financeiro.

Ao analisar a postura dos credores internacionais, Tavares e Furtado convergem na denúncia de uma "depredação" institucionalizada. Furtado cita o exemplo do Citibank que, na época, retirava do Brasil 20% de seus lucros mundiais com apenas 5% de suas aplicações totais no país.

Na realidade contemporânea, essa lógica se manifesta na dominância financeira. O orçamento público brasileiro é fortemente comprometido pelo pagamento de juros da dívida pública, limitando a capacidade do Estado de realizar investimentos em infraestrutura e inovação. A "paralisia" mencionada por Tavares nos anos 80 metamorfoseou-se em um teto de gastos e regras fiscais que, embora busquem estabilidade, muitas vezes sufocam o crescimento produtivo em favor da rentabilidade de curto prazo do mercado financeiro.

3. A Dívida Social e a Cultura de Sobrevivência

Um dos pontos mais emocionantes do debate é a análise de Conceição Tavares sobre a dualidade brasileira. Ela aponta que o Brasil possui uma "cultura de sobrevivência" no povo — que "dá um jeito" e "ri da própria miséria" — confrontada por uma elite predatória e sem projeto nacional.

> "A vontade coletiva de sobrevivência há no povo. Vontade coletiva de criar uma nova situação [...] Por que não resolvemos? Não temos potencial produtivo? [...] Nós estamos atrasados produtivamente? Não" (TAVARES, 1985).

A correlação com o Brasil de 2026 é direta. O país ostenta uma das maiores produções de alimentos do mundo, enquanto milhões de cidadãos ainda enfrentam a insegurança alimentar. A incapacidade do modelo econômico em absorver a força de trabalho de forma qualificada gera um exército de trabalhadores precarizados (uberização), que sobrevivem na informalidade, à margem dos avanços tecnológicos que Furtado tanto insistia em internalizar.

4. Tecnologia e Soberania: O Espaço do Poder

Furtado encerra suas reflexões discutindo a estrutura de poder mundial. Ele defende que a soberania depende do controle de quatro elementos: informação, finanças, tecnologia e mercados.

Ele cita a experiência da Índia, que na época sofreu menos com a crise global por ter preservado sua autonomia tecnológica e reservado seu mercado interno. No Brasil atual, a discussão sobre a "Lei do Bem", os incentivos à indústria de semicondutores e a exploração do Pré-sal são os campos de batalha dessa mesma soberania. Sem o domínio técnico, o Brasil permanece um "comprador de progresso" alheio, vulnerável às decisões tomadas em Washington, Pequim ou Bruxelas.

Conclusão: Retomar a Construção

Assistir ao debate de Furtado e Tavares é compreender que o subdesenvolvimento não é uma etapa, mas um processo político. A "construção interrompida" do Brasil decorre da falta de um pacto social que coloque a redução da desigualdade e a autonomia tecnológica como motores do crescimento.

A correlação com o presente nos mostra que os sintomas mudaram de face — da dívida externa para a dominância financeira, da inflação galopante para a precarização do trabalho —, mas a causa raiz permanece: a ausência de uma elite dirigente comprometida com um projeto de nação. O desafio proposto por esses dois gigantes continua sendo a tarefa urgente das novas gerações: transformar a criatividade popular em poder político para, finalmente, concluir a construção do Brasil.

Referências Bibliográficas

FURTADO, Celso; TAVARES, Maria da Conceição. Debate histórico sobre a construção interrompida. Campinas: Instituto de Economia da Unicamp, 1985. Disponível em: https://youtu.be/zuwwbUBoCvg. Acesso em: 30 mar. 2026.

FURTADO, Celso. A Construção Interrompida. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

TAVARES, Maria da Conceição. Poder e Dinheiro: uma economia política da globalização. Petrópolis: Vozes, 1997.


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