sábado, 13 de junho de 2026

A Pobreza é Fabricada: por isso também pode ser desmontada

Como impostos, trabalho, dívida, serviços públicos e poder político produzem desigualdade — e por que erradicar a pobreza exige mais do que crescimento econômico


Índice

  1. Introdução: a história de João e a pergunta que o país evita
  2. Lide
  3. A tese central: pobreza não é acidente, é construção institucional
  4. O que diz o relatório Roadmap for Eradicating Poverty Beyond Growth
  5. Por que o crescimento econômico não basta
  6. Como a pobreza é fabricada
  7. Piketty: riqueza, herança e concentração patrimonial
  8. Stiglitz: mercados capturados e desigualdade produzida
  9. Amartya Sen: pobreza como privação de capacidades
  10. Keynes: Estado, emprego e proteção social
  11. Hayek e Friedman: liberdade econômica e os limites do mercado
  12. Marx: exploração, propriedade e estrutura de classe
  13. O Brasil diante da pobreza fabricada
  14. Conclusão crítica
  15. Cinco pontos relevantes
  16. Cinco perguntas comuns
  17. Três livros indicados
  18. Referências em ABNT

1. Introdução: a história de João e a pergunta que o país evita

João acordou às 4h40 da manhã, antes mesmo do despertador tocar. Não porque tivesse dormido bem, mas porque o corpo de quem vive no limite aprende a antecipar o susto. O ventilador estava parado desde a madrugada. A energia havia caído outra vez no bairro. Na cozinha, a esposa separava o café: pão amanhecido, margarina e um pouco de café requentado do dia anterior.

Ele trabalhava como auxiliar de serviços gerais em uma empresa terceirizada. Ganhava pouco mais que um salário mínimo, mas o dinheiro já nascia comprometido. Aluguel, água, luz, gás, transporte, remédio da mãe, material escolar da filha, prestação atrasada da geladeira. Quando o salário caía na conta, João não sentia alívio. Sentia apenas que começava uma corrida contra boletos mais rápidos que ele.

No ônibus lotado, olhou pela janela e viu uma propaganda enorme de um condomínio de luxo: “viva com segurança, conforto e liberdade”. João achou curioso. A palavra liberdade estava ali, brilhando no outdoor, mas parecia pertencer a outro idioma. Para ele, liberdade era conseguir comprar gás sem parcelar. Era levar a filha ao dentista sem escolher entre consulta e mercado. Era não ter medo de adoecer.

Naquele mesmo dia, no noticiário, um comentarista dizia que o Brasil precisava crescer. Crescer, crescer, crescer. João ouviu aquilo com atenção. O país já havia crescido em outros momentos, mas a vida dele continuava apertada. As empresas cresciam, os bancos lucravam, os supermercados aumentavam preços, os aluguéis subiam, e ele seguia contando moedas.

Então uma pergunta simples, quase proibida, apareceu em sua cabeça:

crescer para quem?

Essa pergunta, que nasce no corpo cansado de milhões de brasileiros, é o ponto de partida deste artigo.

2. Lide

A pobreza costuma ser tratada como destino, fracasso individual ou efeito inevitável da economia. Mas essa leitura é confortável demais para quem se beneficia da desigualdade. O relatório internacional Roadmap for Eradicating Poverty Beyond Growth, associado ao debate promovido por Olivier De Schutter, Thomas Piketty, Joseph E. Stiglitz e outros pesquisadores, sustenta uma tese incômoda: pobreza e desigualdade não são fenômenos naturais. Elas resultam de escolhas políticas sobre impostos, salários, serviços públicos, dívida, propriedade, crédito, trabalho e poder. Se a pobreza é fabricada por instituições humanas, também pode ser desmontada por instituições humanas.

3. A tese central: pobreza não é acidente, é construção institucional

A pobreza não é apenas ausência de dinheiro. É ausência de proteção, tempo, segurança, moradia digna, educação de qualidade, saúde acessível, transporte decente, poder político e reconhecimento social.

Quando uma pessoa trabalha o mês inteiro e continua pobre, não estamos diante de uma falha moral individual. Estamos diante de uma engrenagem social. A pobreza, nesse caso, é fabricada por uma economia que naturaliza salários insuficientes, precarização do trabalho, tributação regressiva, serviços públicos frágeis e concentração patrimonial.

A tese defendida aqui é direta: a pobreza é uma construção política e econômica, não um fenômeno natural.

Ela nasce de decisões sobre quem paga impostos, quem recebe subsídios, quem tem acesso a crédito, quem controla terras, quem define juros, quem recebe proteção pública e quem é abandonado à própria sorte.

É claro que indivíduos fazem escolhas. Mas ninguém escolhe livremente dentro de uma estrutura que distribui oportunidades de maneira brutalmente desigual. Falar em mérito sem falar em ponto de partida é como organizar uma corrida em que alguns começam cem metros à frente, outros largam descalços e ainda há quem carregue peso nas costas.

4. O que diz o relatório

Roadmap for Eradicating Poverty Beyond Growth

O relatório Roadmap for Eradicating Poverty Beyond Growth propõe uma mudança profunda na forma como governos pensam pobreza e desenvolvimento. Em vez de apostar apenas no aumento do Produto Interno Bruto, o documento defende políticas centradas em direitos humanos, bem-estar, justiça social, sustentabilidade ecológica e redistribuição de poder.

Sua crítica principal é que o crescimento econômico, sozinho, não elimina a pobreza. Pode haver crescimento com fome, crescimento com informalidade, crescimento com destruição ambiental, crescimento com concentração de renda e crescimento com serviços públicos degradados.

O relatório afirma que é necessário atacar as estruturas que produzem pobreza: sistemas tributários injustos, mercados de trabalho precarizados, endividamento público sufocante, políticas fiscais regressivas, desigualdades de gênero, dependência econômica internacional, baixa proteção social e ausência de participação das populações pobres nas decisões que afetam suas vidas.

Essa é uma mudança decisiva. O pobre deixa de ser visto como objeto de caridade e passa a ser reconhecido como sujeito de direitos. A erradicação da pobreza deixa de ser uma promessa moral abstrata e passa a ser tratada como tarefa institucional.

5. Por que o crescimento econômico não basta

Durante décadas, repetiu-se uma espécie de dogma: primeiro o país cresce, depois a riqueza “escorre” para os pobres. Essa ideia ficou conhecida como lógica do “trickle-down”, ou seja, a crença de que enriquecer os de cima acabaria beneficiando os de baixo.

O problema é que a história recente mostrou algo diferente. A riqueza pode se acumular no topo sem produzir melhoria proporcional para a base. Empresas podem aumentar lucros reduzindo direitos. Bancos podem bater recordes enquanto famílias se endividam. O PIB pode subir enquanto a população segue insegura, exausta e mal remunerada.

Por isso, a pergunta correta não é apenas: quanto a economia cresceu?

A pergunta correta é: quem se apropriou do crescimento?

Ele virou salário, escola, hospital, saneamento, moradia e transporte? Ou virou dividendos, juros, especulação, herança e patrimônio concentrado?

O crescimento econômico não é irrelevante. Países pobres precisam produzir mais, ampliar infraestrutura, gerar emprego, desenvolver tecnologia e elevar produtividade. Mas crescimento sem redistribuição pode apenas modernizar a desigualdade.

Uma economia pode crescer e continuar injusta. Pode produzir mais bens e manter vidas precárias. Pode construir prédios inteligentes e deixar crianças sem saneamento. Pode exportar commodities, movimentar bolsas e enriquecer rentistas, enquanto milhões de famílias seguem presas à insegurança alimentar.

O crescimento, portanto, não deve ser tratado como finalidade última. Ele deve ser subordinado a uma pergunta ética e política: crescer para garantir vida digna ou crescer para concentrar riqueza?

6. Como a pobreza é fabricada

A pobreza é fabricada quando o sistema tributário cobra proporcionalmente mais dos pobres do que dos ricos.

Ela é fabricada quando alimentos, energia, transporte e consumo básico são pesadamente tributados, enquanto patrimônio, lucros, dividendos, heranças e grandes fortunas recebem tratamento privilegiado.

A pobreza é fabricada quando o trabalhador recebe salário insuficiente para viver com dignidade.

É fabricada quando se naturaliza a informalidade, a terceirização predatória, a uberização, o trabalho sem proteção, o bico permanente e a aposentadoria impossível.

É fabricada quando serviços públicos são sucateados.

Quando a escola pública é frágil, a pobreza se reproduz. Quando o posto de saúde não atende, a pobreza adoece. Quando o transporte é caro e ruim, a pobreza perde tempo de vida. Quando não há saneamento, a pobreza entra pela água, pelo esgoto e pelo corpo.

A pobreza é fabricada pelo endividamento.

Famílias pobres pagam juros altos para comprar o básico. Governos endividados, especialmente nos países periféricos, muitas vezes sacrificam investimento social para cumprir compromissos financeiros. A dívida, quando mal organizada, vira mecanismo de transferência de recursos dos vulneráveis para os credores.

A pobreza é fabricada pela concentração de propriedade.

Terra, imóveis, crédito, tecnologia, dados, plataformas digitais, infraestrutura e capital financeiro não estão distribuídos igualmente. Quem controla ativos controla oportunidades. Quem não possui patrimônio depende da venda do próprio tempo.

A pobreza é fabricada pela ausência de poder político.

Quando os pobres não participam das decisões, políticas públicas são feitas sobre eles, não com eles. E quem não participa da mesa geralmente aparece no cardápio.

7. Piketty: riqueza, herança e concentração patrimonial

Thomas Piketty contribui para esse debate ao demonstrar que a desigualdade não é um desvio passageiro do capitalismo, mas uma tendência recorrente quando a rentabilidade do capital supera o crescimento da economia.

Em termos simples: quem já possui patrimônio tende a enriquecer mais rapidamente do que quem depende apenas do trabalho. A herança, os ativos financeiros, os imóveis, as ações e os rendimentos do capital funcionam como máquinas de reprodução da desigualdade.

Isso desmonta a fantasia de que a sociedade é composta apenas por indivíduos competindo em condições semelhantes. Não é.

Há pessoas que herdam patrimônio, redes de contato, proteção familiar, acesso a escolas melhores e tempo livre para estudar. Outras herdam dívida, insegurança alimentar, moradia precária e urgência.

Piketty é importante porque recoloca a tributação no centro da democracia. Impostos sobre renda, patrimônio, herança e grandes fortunas não são punições contra o sucesso. São instrumentos civilizatórios para impedir que a riqueza acumulada capture o Estado e transforme a democracia em fachada.

Sem regulação democrática da riqueza, o dinheiro vira poder político. Financia campanhas, compra influência, molda leis, pressiona governos, controla narrativas e define prioridades públicas.

Quando isso acontece, a desigualdade deixa de ser apenas econômica. Torna-se desigualdade de voz, de presença, de influência e de futuro.

8. Stiglitz: mercados capturados e desigualdade produzida

Joseph Stiglitz critica a ideia de que os mercados, deixados a si mesmos, produzem eficiência e justiça. Para ele, os mercados reais são atravessados por assimetria de informação, poder corporativo, captura regulatória, monopólios, lobby e privilégios.

A desigualdade, portanto, não resulta apenas de diferenças de talento ou esforço. Ela também nasce de regras feitas sob medida para proteger quem já tem poder econômico.

Quando bancos são salvos em crises, mas famílias endividadas são abandonadas, há uma escolha política.

Quando empresas recebem benefícios fiscais sem contrapartidas sociais, há uma escolha política.

Quando o Estado corta investimento social, mas mantém privilégios financeiros, há uma escolha política.

Stiglitz ajuda a entender que a pobreza é fabricada também pela forma como o Estado é capturado. O Estado não desaparece no neoliberalismo. Ele apenas muda de lado: torna-se mínimo para proteger os pobres e máximo para salvar os poderosos.

A retórica do “Estado mínimo” costuma esconder uma prática seletiva: pouco Estado para políticas sociais, muito Estado para garantir contratos, juros, isenções, subsídios, resgates financeiros e proteção patrimonial.

9. Amartya Sen: pobreza como privação de capacidades

Amartya Sen amplia o conceito de pobreza ao afirmar que ela não pode ser medida apenas pela renda. Pobreza é privação de capacidades. Ou seja, é a impossibilidade concreta de realizar aquilo que uma vida humana digna exige.

Uma pessoa pode ter alguma renda e ainda assim ser pobre se não tem acesso à saúde, educação, segurança, saneamento, alimentação adequada, participação política e liberdade real.

Essa abordagem é essencial para o Brasil.

Não basta perguntar quanto uma família ganha. É preciso perguntar: ela mora onde? Tem água tratada? Tem escola próxima? Tem internet? Tem transporte? Tem atendimento médico? Tem tempo para cuidar dos filhos? Tem proteção contra violência? Tem voz nas decisões públicas?

Sen nos ajuda a perceber que pobreza é estreitamento do futuro. É quando a vida vira sobrevivência e o horizonte se reduz ao próximo boleto, à próxima refeição, ao próximo ônibus.

O pobre não perde apenas renda. Perde possibilidade. Perde tempo. Perde saúde. Perde expectativa. Perde a liberdade concreta de escolher caminhos.

Por isso, políticas contra pobreza não podem ser apenas transferência monetária, embora ela seja necessária. Precisam envolver escola, saúde, moradia, saneamento, transporte, segurança alimentar, cuidado, cultura, tecnologia e participação política.

10. Keynes: Estado, emprego e proteção social

Keynes entra nesse debate como o pensador que compreendeu que o mercado pode falhar de maneira sistêmica. Crises econômicas não são apenas ajustes naturais. Elas produzem desemprego, sofrimento social e destruição de capacidades humanas.

A resposta keynesiana é afirmar o papel ativo do Estado: investimento público, política fiscal, geração de emprego, proteção social e regulação econômica.

Em uma sociedade desigual, o Estado não pode ser mero espectador. Quando o Estado se omite, ele não fica neutro. Ele apenas permite que a força dos mais poderosos organize a vida coletiva.

No Brasil, isso é decisivo. Investimento em educação, saúde, ciência, infraestrutura, moradia, saneamento e assistência social não deve ser visto como gasto improdutivo. É condição para o desenvolvimento real.

A austeridade, quando aplicada de modo cego, pode aprofundar pobreza. Cortar investimento público em sociedades marcadas por desigualdade não é apenas decisão contábil. É decisão sobre vidas.

Keynes ajuda a lembrar que emprego, renda e demanda não são milagres espontâneos. Dependem de coordenação, planejamento, investimento e capacidade pública.

11. Hayek e Friedman: liberdade econômica e os limites do mercado

Hayek e Friedman representam uma tradição liberal que desconfia fortemente da intervenção estatal. Para eles, a liberdade econômica é condição essencial da liberdade individual, e o planejamento estatal pode gerar autoritarismo, ineficiência e perda de autonomia.

Essa crítica não deve ser ignorada. Estados podem ser burocráticos, clientelistas, autoritários e ineficientes. Políticas públicas mal desenhadas podem desperdiçar recursos e produzir dependências ruins.

Mas o limite dessa visão aparece quando ela transforma o mercado em juiz supremo da vida social.

O mercado não distribui dignidade. Distribui poder de compra. Quem não tem renda suficiente simplesmente fica fora.

A liberdade de escolher entre produtos não substitui a liberdade de ter moradia, saúde, educação e alimentação. Uma criança pobre não é livre porque existe concorrência entre escolas privadas. Ela é livre quando tem uma escola pública excelente.

Portanto, a crítica liberal ao Estado precisa ser equilibrada por uma crítica democrática ao mercado. Estado sem controle social pode oprimir. Mercado sem regulação pode excluir.

O desafio não é escolher entre Estado absoluto e mercado absoluto. O desafio é submeter ambos à democracia e aos direitos humanos.

12. Marx: exploração, propriedade e estrutura de classe

Marx oferece a crítica mais estrutural. Para ele, a pobreza não é apenas falha de política pública, mas resultado da própria organização capitalista da produção, baseada na exploração do trabalho e na apropriação privada do excedente.

Mesmo quando o trabalhador recebe salário, ele não recebe tudo aquilo que produz. Parte do valor gerado pelo trabalho é apropriada pelo capital. Essa dinâmica cria acumulação de um lado e dependência do outro.

Marx ajuda a compreender que a pobreza não é apenas falta de inclusão no sistema. Muitas vezes, ela é produto do funcionamento normal do sistema. O trabalhador pobre não está fora da economia; está dentro dela, sustentando-a com trabalho barato.

A limitação de parte das propostas contemporâneas é tentar corrigir os efeitos da desigualdade sem enfrentar suficientemente as relações de propriedade, poder e classe.

Ainda assim, políticas redistributivas podem reduzir sofrimento, ampliar direitos e abrir caminho para transformações mais profundas.

Marx nos obriga a fazer a pergunta mais incômoda: quem controla os meios de produção, a terra, o crédito, a tecnologia, os dados e o excedente social?

Enquanto essa pergunta permanecer escondida, a pobreza será tratada como falha técnica, não como expressão de poder.

13. O Brasil diante da pobreza fabricada

No Brasil, a pobreza tem cor, território, gênero e história. Ela está ligada à escravidão, à concentração fundiária, à urbanização excludente, ao racismo estrutural, à informalidade, à baixa progressividade tributária e à precarização dos serviços públicos.

A desigualdade brasileira não é uma cicatriz pequena. É uma estrutura.

O país convive com condomínios de luxo ao lado de favelas, agronegócio bilionário ao lado de insegurança alimentar, bancos altamente lucrativos ao lado de famílias endividadas.

Erradicar a pobreza no Brasil exige enfrentar cinco eixos.

Primeiro, uma reforma tributária progressiva, que tribute mais renda, patrimônio, lucros, dividendos, heranças e grandes fortunas, e alivie o peso sobre consumo e salários.

Segundo, valorização real do trabalho, com salário digno, formalização, proteção previdenciária, combate à terceirização predatória e fortalecimento da negociação coletiva.

Terceiro, universalização de serviços públicos de qualidade: saúde, educação, assistência social, saneamento, transporte, moradia e conectividade.

Quarto, política econômica voltada ao pleno emprego, à industrialização inteligente, à transição ecológica e à soberania produtiva.

Quinto, democratização do poder político, porque enquanto os pobres forem apenas objeto de campanha eleitoral e não sujeitos de decisão, a pobreza continuará sendo administrada, não erradicada.

A pergunta brasileira não é apenas “como crescer?”. É “como desmontar a máquina que transforma crescimento em privilégio para poucos?”.

14. Conclusão crítica

A pobreza é fabricada quando uma sociedade aceita que alguns nasçam cercados de proteção e outros nasçam cercados de risco. É fabricada quando o trabalho não garante dignidade. É fabricada quando o Estado cobra proporcionalmente mais dos pobres do que dos ricos. É fabricada quando serviços públicos são tratados como favor, e não como direito. É fabricada quando a economia é julgada pelo PIB, mas não pela vida concreta das pessoas.

A grande contribuição do relatório Roadmap for Eradicating Poverty Beyond Growth é deslocar o debate. Ele nos obriga a abandonar a pergunta preguiçosa — “quando o crescimento resolverá a pobreza?” — e enfrentar a pergunta difícil: quais estruturas produzem pobreza todos os dias?

Piketty mostra a força da herança e da concentração patrimonial. Stiglitz revela os mercados imperfeitos e capturados. Sen amplia a pobreza para além da renda. Keynes lembra que o Estado precisa agir contra crises e desemprego. Hayek e Friedman alertam para os riscos do Estado excessivo, mas não resolvem o drama da exclusão produzida pelo mercado. Marx, por sua vez, nos leva ao núcleo duro da questão: a relação entre trabalho, propriedade e exploração.

No fim, a pobreza não é uma fatalidade. É uma escolha social repetida, institucionalizada e normalizada.

Se foi construída por leis, políticas, impostos, salários, dívidas e privilégios, pode ser desconstruída por outras leis, outras políticas, outros impostos, outros salários, outra economia e outra democracia.

O Brasil não precisa apenas crescer. Precisa decidir para quem cresce, com quem cresce e contra quais estruturas precisa crescer. Porque crescimento sem justiça é apenas a expansão organizada da desigualdade.

15. Cinco pontos relevantes

  1. A pobreza deve ser entendida como resultado de estruturas políticas e econômicas, não como fracasso individual.
  2. O crescimento do PIB não garante, sozinho, redução da pobreza.
  3. Tributação progressiva, trabalho digno e serviços públicos universais são instrumentos centrais de erradicação da pobreza.
  4. A desigualdade brasileira tem raízes históricas profundas, especialmente na escravidão, na concentração de terra e na exclusão educacional.
  5. Erradicar a pobreza exige redistribuir renda, patrimônio, tempo, poder e oportunidades.

16. Cinco perguntas comuns

1. Crescimento econômico não é importante?
É importante, mas não suficiente. O problema é crescer sem redistribuir.

2. A pobreza pode realmente ser erradicada?
Pode ser drasticamente reduzida quando há políticas estruturais consistentes, proteção social e distribuição de oportunidades.

3. Programas sociais resolvem tudo?
Não. Eles são necessários, mas precisam vir junto com trabalho digno, educação, saúde, moradia, saneamento e reforma tributária.

4. Taxar os ricos prejudica a economia?
Não necessariamente. Sistemas tributários progressivos podem financiar direitos sociais e reduzir concentração extrema de riqueza.

5. O mercado pode resolver a pobreza sozinho?
Não. O mercado responde ao poder de compra, não à dignidade humana.

17. Três livros indicados

  1. PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
  2. SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
  3. STIGLITZ, Joseph E. O preço da desigualdade. Lisboa: Bertrand, 2014.

18. Referências em ABNT

DE SCHUTTER, Olivier; PIKETTY, Thomas; STIGLITZ, Joseph E. La pobreza se fabrica: también puede erradicarse. El País, Madrid, 11 jun. 2026.

FRIEDMAN, Milton. Capitalismo e liberdade. São Paulo: LTC, 2014.

HAYEK, Friedrich August von. O caminho da servidão. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.

KEYNES, John Maynard. A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.

NEEP. Roadmap for Eradicating Poverty Beyond Growth. 2026.

PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

STIGLITZ, Joseph E. O preço da desigualdade. Lisboa: Bertrand, 2014.


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