Por que me parece cada vez mais difícil separar uma coisa da outra
Índice
- Introdução: o nome do problema
- A extrema direita como método político
- O fascismo como lógica de poder
- Onde extrema direita e fascismo se encontram
- Educação, ciência e pensamento crítico como inimigos
- O falso povo contra as instituições
- Conclusão
Lide
A extrema direita contemporânea nem sempre veste uniforme, nem sempre marcha em praça pública, nem sempre declara abertamente sua filiação ao fascismo histórico. Mas ela frequentemente reproduz sua lógica: culto ao líder, desprezo pela democracia, fabricação de inimigos, ódio ao pensamento crítico, militarização da linguagem, ataque às universidades, à ciência, aos professores, às minorias e às instituições de controle. Por isso, quando digo que extrema direita e fascismo me parecem quase a mesma coisa, não estou fazendo apenas uma provocação. Estou tentando nomear uma continuidade política perigosa.
1. Introdução: o nome do problema
Há palavras que assustam. “Fascismo” é uma delas. Quando alguém usa esse termo, logo aparece quem diga: “calma, não exagere”. Mas há momentos em que o verdadeiro exagero está em suavizar o que está diante dos olhos.
É claro que nem toda direita é fascista. A direita democrática existe, disputa eleições, aceita regras institucionais, reconhece adversários como legítimos e convive com a pluralidade. O problema começa quando a política deixa de ser disputa de projetos e passa a ser guerra moral contra inimigos internos.
A extrema direita contemporânea opera exatamente nesse terreno. Ela não discute apenas economia, segurança pública ou costumes. Ela cria uma visão de mundo em que alguns grupos são apresentados como ameaça à nação, à família, à religião, à propriedade ou à ordem. O adversário deixa de ser alguém com quem se debate; torna-se alguém a ser eliminado simbolicamente, juridicamente, socialmente ou politicamente.
É aí que a semelhança com o fascismo se torna incontornável.
O fascismo histórico foi mais do que um regime autoritário. Foi uma pedagogia da obediência, uma estética da força, uma política do ressentimento e uma máquina de produzir inimigos. A definição clássica envolve ultranacionalismo, autoritarismo, militarismo, rejeição ao pluralismo, oposição à igualdade e desprezo pela democracia liberal.
A extrema direita atual muitas vezes não copia literalmente o fascismo do século XX. Ela o atualiza. Troca a farda pela live. Troca o partido único pela rede digital. Troca a censura oficial pela intimidação em massa. Troca a marcha organizada pelo linchamento virtual. Mas a estrutura mental permanece parecida: medo, ódio, pureza, líder forte, inimigo comum e desprezo pelo pensamento crítico.
2. A extrema direita como método político
A extrema direita não é apenas uma posição mais conservadora dentro do espectro político. Ela é um modo de organizar afetos sociais. Trabalha com medo, ressentimento, nostalgia e raiva.
Ela diz ao cidadão comum: “você perdeu algo”. Depois aponta um culpado: o professor, o cientista, o artista, o imigrante, o indígena, o comunista imaginário, a imprensa, o Judiciário, a universidade, a escola pública, os movimentos sociais.
Essa operação é poderosa porque simplifica o mundo. Em vez de explicar desigualdade, crise ambiental, precarização do trabalho, concentração de renda, violência urbana e colapso institucional, ela oferece uma narrativa fácil: há um inimigo sabotando o país.
O fascismo também faz isso. Ele transforma frustrações sociais reais em ódio politicamente dirigido. A pessoa sofre por causas econômicas e históricas complexas, mas é ensinada a odiar quem menos tem poder.
O resultado é perverso: o trabalhador ataca o professor; o pobre ataca o serviço público; o pequeno produtor defende o bilionário; o cidadão precarizado aplaude quem destrói direitos sociais.
3. O fascismo como lógica de poder
Robert Paxton propõe compreender o fascismo menos como doutrina fechada e mais como comportamento político: obsessão com decadência, humilhação coletiva, culto à unidade, pureza, energia e colaboração entre movimentos autoritários e elites tradicionais.
Isso é fundamental. O fascismo não precisa começar com campos, tanques e ditaduras formais. Ele começa antes, no vocabulário. Começa quando a violência vira solução. Começa quando o adversário vira inimigo. Começa quando a democracia passa a ser tratada como obstáculo. Começa quando conhecimento vira ameaça.
A extrema direita contemporânea pode não ser sempre fascismo plenamente realizado, mas muitas vezes é fascismo em estado de preparação cultural. Ela vai acostumando a sociedade à brutalidade.
Primeiro, ridiculariza o professor. Depois, ataca a universidade. Depois, desconfia da ciência. Depois, acusa a imprensa. Depois, desacredita a eleição. Depois, pede “intervenção”. Depois, naturaliza a violência.
O fascismo não nasce pronto. Ele é cultivado.
4. Onde extrema direita e fascismo se encontram
Há cinco pontos em que a extrema direita contemporânea toca diretamente a tradição fascista.
Primeiro: o culto ao líder. A política deixa de ser institucional e vira devoção. O líder não erra; é traído. Não governa mal; é sabotado. Não mente; revela “verdades ocultas”.
Segundo: a fabricação do inimigo interno. O país não tem problemas estruturais; tem traidores. Essa linguagem é perigosa porque transforma divergência em crime moral.
Terceiro: o desprezo pela democracia. A extrema direita aceita eleição quando vence, mas questiona o sistema quando perde. Democracia, para ela, não é regra comum; é instrumento provisório.
Quarto: a guerra contra o conhecimento. Professor, universidade, ciência e pesquisa incomodam porque ensinam mediação, complexidade e dúvida. O autoritarismo odeia a dúvida. Ele precisa de certezas brutas.
Quinto: a estética da força. A violência passa a ser confundida com coragem. A brutalidade vira autenticidade. A ignorância vira “sinceridade”. O despreparo vira “fala do povo”.
É nesse ponto que extrema direita e fascismo quase se confundem. Ambos desprezam a delicadeza democrática, porque a democracia exige escuta, limite, argumento e reconhecimento do outro.
5. Educação, ciência e pensamento crítico como inimigos
Como professor, esse ponto me parece central. Nenhum projeto autoritário convive bem com a educação crítica.
A escola pública ensina algo profundamente subversivo: ninguém nasce condenado ao lugar social que ocupa. A educação diz ao filho do trabalhador que ele pode compreender o mundo, disputar o mundo e transformar o mundo. Isso ameaça quem precisa de uma sociedade obediente.
Por isso o professor vira alvo. Não porque ganha muito, não porque domina o Estado, não porque controla consciências. O professor vira alvo porque representa mediação racional em um tempo de fanatismo.
A ciência também incomoda. Ela não pergunta se uma verdade é conveniente. Pergunta se há evidência. Isso fere profundamente a política baseada em mito, boato e ressentimento.
O fascismo precisa de massas mobilizadas emocionalmente. A educação crítica produz sujeitos capazes de perguntar: “quem se beneficia com esse ódio?”
Essa pergunta é devastadora.
6. O falso povo contra as instituições
A extrema direita costuma dizer que fala em nome do povo. Mas, na prática, ela frequentemente reduz o povo a uma massa homogênea, obediente e ressentida.
O povo real é plural: tem professor, agricultor, estudante, indígena, trabalhador urbano, servidor público, empresário, mulher, jovem, idoso, religioso, ateu, conservador, progressista. O fascismo não suporta essa pluralidade. Ele inventa um “povo verdadeiro” e exclui todos os demais.
Quem discorda deixa de ser povo. Vira inimigo do povo.
Essa é uma das operações mais perigosas da política autoritária. Em nome do povo, destrói-se a própria diversidade popular. Em nome da liberdade, ataca-se a liberdade dos outros. Em nome da ordem, legitima-se a violência. Em nome da nação, entrega-se a nação aos interesses mais predatórios.
7. Conclusão
Quando afirmo que extrema direita e fascismo me parecem a mesma coisa, não estou dizendo que todo conservador é fascista. Isso seria intelectualmente errado e politicamente injusto. O que digo é mais preciso: quando a extrema direita abandona a democracia, cultua líderes autoritários, transforma adversários em inimigos, ataca professores, ciência, imprensa e instituições, naturaliza a violência e vende um passado mítico como salvação, ela deixa de ser apenas uma posição política dura. Ela passa a operar dentro da gramática do fascismo.
O fascismo não retorna necessariamente com o mesmo rosto. Ele retorna como linguagem, como afeto, como meme, como pânico moral, como desprezo pelo conhecimento, como ódio ao professor, como culto à ignorância agressiva. Por isso, combatê-lo exige mais do que indignação. Exige educação, memória histórica, coragem institucional e compromisso radical com a democracia.
Porque, no fim, a pergunta decisiva não é apenas se a extrema direita é ou não fascista. A pergunta é: quantos elementos fascistas uma sociedade está disposta a tolerar antes de perceber que sua democracia já começou a adoecer?
Referências
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
ECO, Umberto. O fascismo eterno. Rio de Janeiro: Record, 2018.
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Porto Alegre: L&PM, 2018.
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