Do domínio norte-americano pós-1991 à articulação do Sul Global na construção de uma nova ordem internacional
Índice
- Introdução: por que discutir BRICS+ é discutir o poder mundial
- O que é unipolaridade: o mundo depois de 1991
- A hegemonia norte-americana: força militar, dólar, tecnologia e cultura
- Da unipolaridade à multipolaridade: uma transição ainda inconclusa
- Multipolaridade não significa igualdade entre potências
- Multipolaridade hierarquizada: vários polos, mas poder desigual
- Estados Unidos, China e Rússia: três cálculos estratégicos diferentes
- O BRICS+ como articulação do Sul Global
- O que o BRICS+ é — e o que ele não é
- Desdolarização: entre a ruptura imaginada e a diversificação possível
- O Brasil como potência média na multipolaridade
- África, União Europeia, Japão e Coreia do Sul na nova ordem
- A questão do poder em todas as esferas dos países
- Os limites internos do BRICS+
- Conclusão: o BRICS+ não governa o mundo, mas disputa quem escreve suas regras
- Referências
Lide
O BRICS+ tornou-se uma das expressões mais visíveis da transição da ordem unipolar, consolidada após o fim da Guerra Fria, para uma ordem internacional mais complexa, fragmentada e multipolar. Mas é preciso evitar simplificações: o BRICS+ não é uma aliança militar, não possui instrumentos de defesa coletiva, não tem moeda comum, não é uma federação de países e tampouco forma um bloco homogêneo contra o Ocidente. Sua importância está em outro lugar: ele funciona como uma articulação político-diplomática e econômico-financeira do Sul Global para ampliar a capacidade de negociação dos países emergentes em um sistema internacional ainda fortemente marcado pela centralidade dos Estados Unidos, do dólar, das instituições financeiras ocidentais e das grandes alianças estratégicas lideradas por Washington.
Introdução: por que discutir BRICS+ é discutir o poder mundial
Discutir o BRICS+ não é apenas discutir um grupo de países. É discutir a transformação da arquitetura do poder mundial. É perguntar quem decide, quem financia, quem impõe sanções, quem controla moedas, quem domina tecnologias, quem escreve regras comerciais, quem define padrões ambientais e quem tem voz nas instituições internacionais.
O debate sobre o BRICS+ só faz sentido quando colocado dentro de uma questão maior: o mundo ainda vive sob uma ordem unipolar liderada pelos Estados Unidos ou caminha para uma multipolaridade real? A resposta exige cuidado. Não estamos mais no mundo de 1991, quando a queda da União Soviética deixou os Estados Unidos em uma posição de supremacia quase incontestada. Mas também não estamos em uma multipolaridade plenamente equilibrada, na qual vários polos possuem capacidades semelhantes de influência.
Vivemos uma fase intermediária. Os Estados Unidos continuam sendo a principal potência militar, financeira e tecnológica do planeta. A China tornou-se o principal desafiante econômico e industrial da hegemonia norte-americana. A Rússia preserva influência militar, energética e nuclear. A Índia cresce como potência demográfica, tecnológica e diplomática. A União Europeia continua relevante como mercado, potência normativa e regulatória. O continente africano ganha importância estratégica por sua população, seus recursos e sua presença institucional crescente. Países como Brasil, Indonésia, Turquia, Arábia Saudita, África do Sul e México buscam ampliar suas margens de autonomia.
Nesse cenário, o BRICS+ aparece como uma plataforma de articulação. Não é uma nova ordem mundial pronta. É uma tentativa de disputar a forma da nova ordem mundial.
O que é unipolaridade: o mundo depois de 1991
A unipolaridade é uma forma de organização do sistema internacional na qual uma única potência concentra capacidade superior nas principais dimensões do poder: militar, econômica, financeira, tecnológica, diplomática, institucional e cultural.
Durante a Guerra Fria, o mundo era organizado em torno de uma lógica bipolar. De um lado estavam os Estados Unidos e seus aliados, representando o bloco capitalista ocidental. De outro, a União Soviética e sua área de influência, representando o bloco socialista. A disputa não era apenas militar. Era ideológica, econômica, tecnológica, científica, cultural e geopolítica.
Com a dissolução da União Soviética, em 1991, a estrutura bipolar desapareceu. Os Estados Unidos emergiram como a única superpotência global. Esse momento foi descrito por Charles Krauthammer como “momento unipolar”, isto é, um período em que Washington passou a ocupar uma posição sem rival sistêmico equivalente (KRAUTHAMMER, 1990).
A unipolaridade pós-1991 não significava que os Estados Unidos controlavam todos os países como um império clássico. Significava algo mais sofisticado: os EUA possuíam capacidade desproporcional de influenciar as regras do jogo internacional. Estavam à frente no poder militar, no sistema financeiro, nas instituições multilaterais, na tecnologia, na cultura de massas, nas universidades, na indústria do entretenimento e na organização da globalização neoliberal.
A década de 1990 foi marcada pela ideia de que a democracia liberal e a economia de mercado haviam vencido a grande disputa histórica do século XX. Francis Fukuyama chegou a formular a conhecida tese do “fim da história”, segundo a qual a democracia liberal teria se tornado o horizonte final da evolução política moderna (FUKUYAMA, 1992). Ainda que essa tese tenha sido bastante criticada posteriormente, ela expressava bem o clima intelectual da época: havia uma sensação de triunfo do Ocidente.
Mas a história não terminou. Ela apenas mudou de forma.
A hegemonia norte-americana: força militar, dólar, tecnologia e cultura
A liderança norte-americana depois de 1991 apoiou-se em várias camadas de poder. A primeira delas foi o poder militar. Os Estados Unidos consolidaram uma presença global por meio de bases militares, alianças estratégicas e capacidade de projeção de força em diferentes regiões. A OTAN permaneceu como principal aliança militar do Ocidente, mesmo após o fim da União Soviética. A Guerra do Golfo, em 1991, demonstrou a capacidade norte-americana de liderar coalizões militares internacionais.
A segunda camada foi o poder financeiro. O dólar continuou sendo a principal moeda de reserva, de comércio internacional e de liquidação de transações globais. Isso deu aos Estados Unidos uma vantagem extraordinária: o país emite a moeda mais importante do sistema mundial. O dólar não é apenas uma moeda; é uma infraestrutura de poder. Quem controla a moeda dominante possui capacidade de influenciar pagamentos, reservas, crédito, dívida, sanções e fluxos financeiros.
A terceira camada foi institucional. Organizações como Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio foram profundamente marcadas pela lógica da ordem liberal liderada pelos EUA e pela Europa. Essas instituições não pertencem exclusivamente aos Estados Unidos, mas foram moldadas em um contexto histórico no qual Washington e seus aliados tinham peso decisivo.
A quarta camada foi tecnológica. A economia digital do final do século XX e início do XXI foi fortemente marcada por empresas norte-americanas. Google, Microsoft, Apple, Amazon, Meta e outras corporações passaram a controlar partes essenciais da vida informacional contemporânea. No século XXI, poder tecnológico não é acessório: é poder político, econômico e cultural.
A quinta camada foi simbólica. Hollywood, universidades, língua inglesa, redes de comunicação, cultura pop, publicidade, música, moda, plataformas digitais e modelos de consumo projetaram o que Joseph Nye chamou de soft power, isto é, a capacidade de influenciar os outros pela atração, pela legitimidade e pela construção de imaginários (NYE JR., 2004).
Portanto, a unipolaridade não funcionava apenas pela força. Funcionava pela combinação entre força, dinheiro, instituições, tecnologia e desejo. Os Estados Unidos não apenas impunham regras; também produziam sonhos.
Da unipolaridade à multipolaridade: uma transição ainda inconclusa
A transição para a multipolaridade não aconteceu de uma vez. Ela foi sendo construída por transformações econômicas, políticas e tecnológicas.
A ascensão da China foi o elemento mais importante. Desde as reformas iniciadas no final da década de 1970, a China combinou abertura econômica seletiva, planejamento estatal, industrialização acelerada, integração às cadeias globais e forte investimento em infraestrutura. Com sua entrada na Organização Mundial do Comércio em 2001, sua integração à economia global se intensificou. Em poucas décadas, tornou-se fábrica do mundo, grande potência comercial e desafiante tecnológico dos Estados Unidos.
A Rússia, após a crise dos anos 1990, reconstruiu parte de sua capacidade estatal sob Vladimir Putin. Embora sua economia seja muito menor que a dos Estados Unidos e da China, Moscou preservou atributos essenciais de grande potência: arsenal nuclear, recursos energéticos, capacidade militar e disposição de contestar a ordem ocidental em seu entorno estratégico.
A Índia também ganhou relevância. Com população imensa, crescimento econômico, setor tecnológico dinâmico e tradição diplomática de autonomia estratégica, Nova Délhi passou a ocupar posição cada vez mais importante. A Índia coopera com os Estados Unidos em alguns temas, participa do BRICS, mantém vínculos históricos com a Rússia e busca evitar subordinação completa a qualquer bloco.
Além disso, o mundo viu o crescimento da importância de potências médias e regionais. Brasil, Indonésia, Turquia, Arábia Saudita, África do Sul, México, Nigéria, Egito e outros países passaram a ter mais espaço de barganha em uma ordem menos rígida.
Contudo, é importante dizer: multipolaridade não significa harmonia. Pelo contrário. Um mundo com vários polos pode ser mais instável, porque há mais centros de decisão, mais interesses concorrentes, mais disputas regionais e mais dificuldade de construir consensos.
Multipolaridade não significa igualdade entre potências
Um erro frequente é imaginar que multipolaridade significa igualdade entre países. Não significa. A multipolaridade indica a existência de vários polos de poder, mas esses polos possuem capacidades muito diferentes.
Os Estados Unidos continuam tendo presença militar global, capacidade tecnológica avançada, centralidade financeira e ampla rede de alianças. A China possui extraordinária capacidade industrial, comercial, demográfica e tecnológica, mas ainda enfrenta limitações no campo financeiro e militar global. A Rússia tem força militar e nuclear, mas limitações econômicas profundas. A Índia cresce, mas ainda enfrenta desafios internos gigantescos. A União Europeia é poderosa como mercado e reguladora, mas frágil como potência militar unificada.
Assim, o mundo multipolar não é uma mesa redonda perfeita. É uma mesa desigual, onde alguns têm cadeiras maiores, outros têm voz crescente, e muitos ainda lutam para serem ouvidos.
Nesse sentido, a multipolaridade contemporânea pode ser chamada de multipolaridade assimétrica ou hierarquizada. Existem vários polos, mas eles não possuem o mesmo peso.
Multipolaridade hierarquizada: vários polos, mas poder desigual
A ideia de multipolaridade hierarquizada ajuda a compreender o presente. O mundo já não é unipolar como nos anos 1990, mas ainda conserva estruturas de poder herdadas da hegemonia norte-americana.
O dólar continua dominante nas reservas internacionais. As grandes instituições financeiras globais ainda refletem a arquitetura do pós-1945. A OTAN continua sendo a principal aliança militar do mundo. As maiores plataformas digitais ocidentais continuam exercendo influência global. O sistema acadêmico e científico internacional ainda é profundamente marcado por centros norte-americanos e europeus.
Ao mesmo tempo, a China disputa padrões tecnológicos, financia infraestrutura, amplia presença na África e na América Latina, fortalece sua marinha, desenvolve inteligência artificial e busca internacionalizar gradualmente o yuan. A Rússia tenta romper o cerco ocidental e preservar sua influência estratégica. A Índia busca autonomia e protagonismo. O Sul Global exige mais voz.
A multipolaridade hierarquizada, portanto, pode ser resumida assim: há vários polos, mas um deles — os Estados Unidos — ainda tenta preservar a função de principal organizador das regras internacionais.
Estados Unidos, China e Rússia: três cálculos estratégicos diferentes
A multipolaridade não é interpretada da mesma forma por todos. Estados Unidos, China e Rússia possuem cálculos estratégicos distintos.
Para os Estados Unidos, a multipolaridade é ao mesmo tempo risco e oportunidade. É risco porque reduz a margem de comando unilateral de Washington. Mas pode ser oportunidade se os EUA conseguirem organizar uma rede de aliados e parceiros capaz de conter adversários, dividir custos e preservar sua liderança em uma ordem mais distribuída. Em outras palavras, os Estados Unidos não desejam uma multipolaridade plenamente autônoma contra eles. Desejam uma multipolaridade administrada, na qual existam vários polos, mas Washington continue sendo o principal articulador das regras.
Para a China, a multipolaridade representa oportunidade de ascensão. Pequim não deseja necessariamente caos global, pois depende do comércio, de mercados, de rotas marítimas e de estabilidade para continuar crescendo. Mas deseja reduzir a centralidade dos Estados Unidos, ampliar sua influência sobre cadeias produtivas, disputar padrões tecnológicos e aumentar sua voz na governança internacional. A China fala em mundo multipolar, mas seu projeto também envolve ampliação de sua própria centralidade.
Para a Rússia, a multipolaridade tem sentido mais defensivo e confrontacional. Moscou utiliza essa linguagem para contestar a ordem ocidental, resistir à expansão da OTAN, reduzir isolamento diplomático e preservar sua esfera de influência. A Rússia não possui o mesmo dinamismo econômico da China, mas possui poder nuclear, energia e capacidade militar suficiente para ser ator estratégico.
A síntese é clara: a China quer reformar a ordem para ganhar centralidade; a Rússia quer romper a dominação ocidental sobre a segurança internacional; os Estados Unidos querem reorganizar a ordem sem perder o comando principal.
O BRICS+ como articulação do Sul Global
É nesse cenário que entra o BRICS+. O grupo surgiu como uma articulação entre grandes economias emergentes: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Com a ampliação recente, incorporou novos membros e passou a ser chamado informalmente de BRICS+.
A importância do BRICS+ não está em ser uma aliança militar ou um bloco econômico consolidado. Sua importância está em funcionar como plataforma de coordenação política, diplomática e econômica de países que desejam ampliar a influência do Sul Global.
O Sul Global não é uma categoria geográfica perfeita. Não significa simplesmente “países do hemisfério sul”. Trata-se de uma categoria política que reúne países historicamente marcados por colonialismo, dependência econômica, desigualdade internacional e menor influência nas estruturas de governança global. Brasil, Índia, África do Sul, Indonésia, Egito e Etiópia fazem parte desse campo ampliado de reivindicação por maior voz internacional.
O BRICS+ tenta dizer ao mundo: as decisões globais não podem continuar concentradas em poucas potências ocidentais. A governança global precisa refletir a realidade do século XXI, não apenas a correlação de forças de 1945.
O que o BRICS+ é — e o que ele não é
Uma das maiores confusões do debate público é tratar o BRICS+ como se fosse um bloco rígido. Não é.
O BRICS+ não é uma OTAN do Sul Global. Não possui cláusula de defesa coletiva. Se um país membro for atacado, os demais não têm obrigação jurídica de defendê-lo. Também não possui exército comum, comando militar integrado ou doutrina de segurança coletiva.
O BRICS+ também não é uma União Europeia. Não possui parlamento comum, cidadania comum, banco central comum, orçamento comum nem legislação supranacional. Nenhum país do BRICS+ transfere soberania para uma autoridade superior.
O BRICS+ tampouco é uma união monetária. Não existe moeda comum dos BRICS. As discussões sobre moedas locais, mecanismos de pagamento e redução da dependência do dólar não significam criação imediata de uma moeda única.
Portanto, o BRICS+ é melhor definido como uma articulação intergovernamental flexível. Seus membros cooperam onde há convergência e preservam autonomia onde há divergência.
Essa flexibilidade é sua força e sua fraqueza. É força porque permite reunir países muito diferentes. É fraqueza porque dificulta consensos profundos.
Desdolarização: entre a ruptura imaginada e a diversificação possível
A desdolarização é um dos temas mais sensíveis da multipolaridade. O dólar é uma das principais bases da hegemonia norte-americana. Reduzir a dependência do dólar significa reduzir uma parte importante da capacidade dos Estados Unidos de influenciar o sistema financeiro internacional.
Mas é preciso separar retórica de realidade. O BRICS+ não tem condições de substituir o dólar no curto prazo. O dólar continua dominante como reserva internacional, moeda de comércio, unidade de precificação de commodities e instrumento de segurança financeira. O euro aparece em segundo lugar, mas ainda distante. O yuan chinês cresce lentamente, mas está longe de rivalizar plenamente com o dólar.
Assim, a desdolarização promovida pelo BRICS+ é parcial, seletiva e gradual. Ela ocorre por meio de comércio em moedas locais, financiamentos do Novo Banco de Desenvolvimento, acordos bilaterais, sistemas de pagamento alternativos e mecanismos de redução de vulnerabilidade a sanções.
Também é importante notar que os membros do BRICS+ não têm o mesmo interesse na desdolarização. Rússia, China e Irã tendem a desejar uma redução mais forte da dependência do dólar. A Rússia e o Irã sofrem sanções ocidentais. A China quer internacionalizar gradualmente sua moeda e reduzir vulnerabilidades estratégicas.
Já Brasil, Índia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Egito, Etiópia e Indonésia tendem a ser mais pragmáticos. Eles podem apoiar o uso de moedas locais e mecanismos alternativos, mas não desejam necessariamente uma ruptura brusca com o dólar. Afinal, o dólar ainda oferece liquidez, confiança e aceitação global.
A questão central é: muitos países querem depender menos do dólar, mas poucos querem viver sem ele amanhã.
O Brasil como potência média na multipolaridade
O Brasil ocupa uma posição singular. Não é superpotência, mas também não é país irrelevante. É uma potência média com atributos estratégicos: território continental, população numerosa, produção agrícola, matriz energética relevante, Amazônia, biodiversidade, reservas de água doce, presença diplomática histórica e capacidade de diálogo com diferentes polos.
Na multipolaridade, o Brasil tenta ampliar sua autonomia. Isso significa evitar alinhamento automático com qualquer centro de poder. O país negocia com os Estados Unidos, mantém forte relação comercial com a China, participa do BRICS+, dialoga com a União Europeia, busca liderança regional na América do Sul e tenta fortalecer sua presença no G20 e na ONU.
Essa postura pode ser chamada de autonomia estratégica ou diplomacia de equilíbrio. O Brasil procura aumentar sua margem de manobra sem se transformar em satélite de Washington, Pequim, Moscou ou Bruxelas.
Mas há uma questão incômoda: o Brasil só será potência média efetiva se transformar sua diplomacia em capacidade interna. Não basta ter boa tradição diplomática. É preciso ter indústria, ciência, tecnologia, infraestrutura, defesa, educação de qualidade, estabilidade institucional e projeto nacional.
Sem isso, o Brasil corre o risco de ser apenas território de disputa entre potências maiores: fornecedor de commodities para a China, parceiro político ocasional dos EUA, mercado para empresas europeias e reserva ambiental pressionada por todos.
O desafio brasileiro é transformar recursos em soberania, e soberania em projeto.
África, União Europeia, Japão e Coreia do Sul na nova ordem
O continente africano tornou-se central na multipolaridade. Durante muito tempo, a África foi tratada como objeto da política internacional: território colonizado, explorado, dividido e disputado. Hoje, continua sendo disputada, mas também busca se afirmar como sujeito político.
A África possui recursos estratégicos fundamentais para a transição energética e tecnológica: cobalto, lítio, cobre, níquel, grafite, terras raras, gás, petróleo e imenso potencial solar. Além disso, possui população jovem e mercado consumidor em expansão. A entrada da União Africana no G20 fortaleceu sua presença institucional na governança global.
A União Europeia, por sua vez, entra na multipolaridade como potência econômica, normativa e regulatória. A UE não possui a mesma capacidade militar dos Estados Unidos, nem a centralização estatal da China. Mas possui enorme poder de mercado. Suas regras ambientais, digitais, comerciais e regulatórias influenciam empresas e países ao redor do mundo. É uma potência que governa muito por normas.
Japão e Coreia do Sul são potências tecnológicas e industriais avançadas, mas fortemente integradas à arquitetura estratégica dos Estados Unidos no Indo-Pacífico. O Japão amplia sua capacidade militar e revê gradualmente limites do pacifismo pós-Segunda Guerra. A Coreia do Sul é potência em semicondutores, eletrônicos, baterias, indústria naval, automóveis e cultura pop. Mas ambos dependem fortemente da aliança com Washington, especialmente diante da China e da Coreia do Norte.
Esses casos mostram que o poder na multipolaridade não é uniforme. Há poder militar, financeiro, tecnológico, regulatório, energético, cultural, alimentar e ambiental.
A questão do poder em todas as esferas dos países
A multipolaridade não é apenas uma disputa entre países. É uma disputa entre formas de poder.
O poder militar continua relevante. Quem possui armas, bases, alianças, indústria de defesa e capacidade nuclear impõe limites aos demais. Nesse campo, Estados Unidos, Rússia, China, Índia, OTAN, Japão e Coreia do Sul ocupam posições importantes.
O poder econômico também é decisivo. Quem controla mercados, crédito, investimento, comércio, cadeias produtivas e moedas influencia decisões políticas. O dólar, o FMI, o Banco Mundial, o comércio chinês, o Novo Banco de Desenvolvimento e os fundos soberanos do Golfo fazem parte dessa disputa.
O poder tecnológico tornou-se central. Inteligência artificial, semicondutores, satélites, cabos submarinos, computação em nuvem, plataformas digitais e dados são hoje infraestrutura de soberania. Um país que não domina tecnologia crítica perde autonomia.
O poder energético e ambiental ganhou centralidade. Petróleo, gás, urânio, lítio, cobalto, água, alimentos e biodiversidade tornaram-se elementos estratégicos. Por isso, Amazônia, África, Oriente Médio e América Latina ganharam novo peso.
O poder cultural e simbólico continua moldando percepções. Mídia, cinema, música, religião, universidades, redes sociais, língua e narrativas influenciam como as sociedades interpretam o mundo.
O poder institucional define regras. Quem tem influência na ONU, no FMI, no Banco Mundial, na OMC, no G20, na OTAN, no BRICS+ e em tribunais internacionais participa da escrita das normas globais.
Por fim, existe o poder interno dos Estados. Um país só atua com força no mundo se tiver base doméstica sólida: Estado funcional, economia produtiva, coesão social, educação, ciência, infraestrutura, estabilidade política e capacidade de planejamento.
Sem poder interno, a política externa vira discurso sem sustentação.
Os limites internos do BRICS+
A ampliação do BRICS+ aumentou sua relevância, mas também criou novos problemas internos. Quanto mais membros entram, maior o peso político do grupo. Mas também maior a dificuldade de produzir consenso.
China e Índia possuem rivalidades estratégicas. Irã e Arábia Saudita têm histórico de tensões regionais. Brasil e Índia não querem que o BRICS+ se transforme em instrumento de hegemonia chinesa. A Rússia vê o grupo como forma de reduzir isolamento provocado por sanções ocidentais. Emirados e Arábia Saudita querem diversificar parcerias, mas preservam relações relevantes com os Estados Unidos.
Além disso, os países do BRICS+ não possuem o mesmo regime político, a mesma estrutura econômica, as mesmas prioridades diplomáticas ou a mesma visão sobre o Ocidente. Alguns querem confrontar mais diretamente a ordem liderada pelos EUA. Outros querem apenas reformá-la. Outros querem usar o grupo como instrumento de barganha.
Essa diversidade impede que o BRICS+ seja tratado como bloco consolidado. Ele é uma coalizão de conveniência estratégica. Coopera onde há convergência; silencia ou diverge onde há conflito.
Sua força está em dizer “a ordem atual é concentrada demais”. Sua fragilidade está em responder “qual ordem colocaremos no lugar?”.
Conclusão: o BRICS+ não governa o mundo, mas disputa quem escreve suas regras
A passagem da unipolaridade para a multipolaridade é uma das grandes transformações do século XXI. O mundo que emergiu em 1991, marcado pela supremacia norte-americana, já não existe da mesma forma. Mas a hegemonia dos Estados Unidos também não desapareceu. Ela se adapta, se reorganiza e tenta preservar sua centralidade em meio à ascensão de outros polos.
O BRICS+ entra nesse processo como uma articulação do Sul Global. Não é bloco militar, não é união econômica, não é aliança de defesa, não é moeda comum, não é governo mundial alternativo. É uma plataforma política e diplomática que busca ampliar a capacidade de negociação de países emergentes.
Sua função mais importante é transformar peso disperso em voz coletiva. Países que isoladamente teriam menos influência conseguem, juntos, pressionar por reformas na governança global, por maior participação no FMI e no Banco Mundial, por financiamento ao desenvolvimento, por comércio em moedas locais, por redução da dependência exclusiva do dólar e por maior reconhecimento político do Sul Global.
Mas o BRICS+ também carrega contradições profundas. Seus membros não têm os mesmos interesses. A China quer ascender. A Rússia quer resistir ao Ocidente. A Índia quer autonomia. O Brasil quer margem diplomática. O Irã quer escapar de sanções. Os países do Golfo querem diversificação estratégica. Os países africanos querem desenvolvimento, infraestrutura e voz institucional.
Por isso, o BRICS+ não deve ser romantizado. Ele não é a solução automática para as desigualdades internacionais. Mas também não deve ser desprezado. Ele é um dos sinais mais claros de que a ordem mundial está em disputa.
A questão central não é se o BRICS+ substituirá os Estados Unidos. Essa pergunta está mal formulada. A questão real é: até que ponto o BRICS+ conseguirá impedir que um único centro de poder continue escrevendo sozinho as regras do mundo?
Em última instância, a multipolaridade não é apenas uma redistribuição de força entre Estados. É uma disputa sobre quem terá o direito de definir o futuro: quem financiará o desenvolvimento, quem controlará tecnologias, quem regulará dados, quem estabelecerá padrões ambientais, quem comandará moedas, quem terá voz nas instituições e quem será tratado apenas como fornecedor de matérias-primas.
O BRICS+ não governa o mundo. Mas disputa a mesa onde o mundo é governado.
E isso, por si só, já altera profundamente a política internacional contemporânea.
Referências
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FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
KRAUTHAMMER, Charles. The Unipolar Moment. Foreign Affairs, New York, v. 70, n. 1, p. 23-33, 1990.
MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton, 2001.
NEW DEVELOPMENT BANK. NDB at the 17th BRICS Summit. Shanghai: NDB, 2025.
NYE JR., Joseph S. Soft Power: The Means to Success in World Politics. New York: PublicAffairs, 2004.
WALLERSTEIN, Immanuel. Análise dos sistemas-mundo: uma introdução. Petrópolis: Vozes, 2006.
WOODS, Ngaire. The Globalizers: The IMF, the World Bank, and Their Borrowers. Ithaca: Cornell University Press, 2006.
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