sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Berrante, trompete e “vida de gado”: quando a política vira adestramento e a pedagogia vira luto cívico

 O episódio do “berrante” e do trompete tocando “Marcha Soldado” na BR-040, durante a caminhada liderada por Nikolas Ferreira rumo a Brasília, funciona menos como anedota e mais como radiografia: a política aparece como coreografia de identidade, disputa de humilhação pública e produção de obediência. A cena explicita um adestramento social que troca criticidade por pertencimento e cidadania por performance.



1. O fato e o que ele revela


1.1 O incidente como “cena” (e não como debate)


A provocação do militante conhecido como “TromPetista” — primeiro com o berrante, depois com o trompete executando a melodia infantil de “Marcha Soldado”, sob chuva, no trajeto da caminhada — não vale apenas pelo folclore. Ela vale porque opera como dispositivo de enquadramento: rebaixa um ato político (já organizado como ritual público) a uma peça curta de escárnio, pronta para circular em rede, com alto potencial de viralização e baixíssimo custo cognitivo.


Nesse registro, o conteúdo do protesto e seus fundamentos são deslocados para fora do foco. Entra em primeiro plano a dramaturgia: o gesto, a trilha, a humilhação, o recorte. A política passa a existir menos como disputa de argumentos e mais como disputa de imagens vencedoras.


1.2 A rodovia como palco e o algoritmo como plateia


A rodovia é um cenário ideal para o populismo performático: dá “caminho”, dá distância, dá chuva, dá sacrifício, dá narrativa de heroísmo. É o teatro do mérito corporal — “olhem o esforço” — substituindo o mérito institucional (deliberação, construção de maioria, fiscalização, política pública, prestação de contas).


O algoritmo atua como plateia e diretor: seleciona o que choca, o que ridiculariza, o que confirma crenças. O recorte viral vale mais do que o processo político real. E, quando isso vira regra, não se debate o país; disputa-se o controle do imaginário.



2. A chave “vida de gado”: rebanho, marca e felicidade performada


2.1 Do aboio à timeline: a metáfora que não envelhece


A imagem cultural sintetizada pela expressão “vida de gado” descreve um paradoxo político persistente: a submissão pode ser vivida como virtude; a marca pode virar pertencimento; a felicidade pode ser exibida como prova de lealdade. Não se trata de um “diagnóstico moral” sobre indivíduos isolados, mas de uma descrição de mecanismos de massa: como pessoas, em contextos de insegurança e polarização, passam a preferir a proteção do grupo à inquietação do pensamento.


O berrante aciona exatamente essa metáfora: rebanho, condução, obediência. Mas há um detalhe decisivo: quando essa metáfora vira apenas insulto (“gado”), tende a reforçar o fechamento identitário. O grupo atacado reage como se a agressão fosse a prova definitiva de perseguição. A humilhação vira cimento.


2.2 Rebanho como tecnologia de pertencimento


A lógica do rebanho, aqui, não é apenas “manipulação”. É pertencimento. Funciona como tecnologia social:

  • obediência como conforto (alguém decide, alguém simplifica);
  • repetição como identidade (o slogan substitui o argumento);
  • agressão como cola (o inimigo comum organiza a tribo);
  • moralização como atalho (o “bem” dispensa política pública).


Essa tecnologia não é monopólio de um campo ideológico. O que a cena evidencia é como ela se torna mais eficiente quando o debate é trocado por clipe, e o clipe vira uma forma de “verdade emocional”.



3. Adestramento disciplinar e docilidade política


3.1 Corpos dóceis: marcha, obediência e prova moral


A disciplina moderna não precisa apenas proibir: ela forma comportamentos. Foucault descreveu esse processo como produção de “corpos dóceis” — úteis, treinados, previsíveis (FOUCAULT, 1987). No espetáculo político, a disciplina não aparece com a farda explícita do quartel; aparece como ritual voluntário: marcha, fila, cântico, estética de sacrifício, prova moral.


Quando a política se converte em “prova de virtude”, a ação institucional vira acessório. A marcha passa a ensinar, de modo tácito, que democracia é resistência física performada, e não disputa de ideias, construção de normas e cobrança de resultados. Aprende-se a suportar desconforto como credencial de pureza; desaprende-se a pensar a política como trabalho.


3.2 Panoptismo digital: vigiar, filmar, engajar, repetir


O panoptismo clássico dependia de vigilância institucional. O panoptismo digital se estrutura por uma multidão conectada: cada um grava, publica, cobra, acusa incoerência, pune dúvida, premia repetição. A disciplina circula como estética: o militante aprende o que rende aplauso e o que rende ostracismo.


Nesse circuito, instrumentos viram comandos. O berrante e o trompete não “refutam” — eles reduzem. E a redução é funcional para a rede: cabe em poucos segundos, gera riso, dispara compartilhamento. A política deixa de ser processo e vira reflexo.



4. Infantilização e militarização lúdica


4.1 “Marcha Soldado” como rebaixamento simbólico


A melodia infantil de “Marcha Soldado” atua como semiótica de rebaixamento: sugere “brincar de guerra”, heroísmo teatral, maturidade cívica ausente. A escolha musical não pretende conversar; pretende envergonhar.


O problema é que esse rebaixamento ajuda a consolidar o jogo do espetáculo: a política vira ringue de símbolos, e não arena de argumentos. Troca-se a discussão do país por uma disputa de status emocional: quem ridiculariza melhor, quem viraliza mais, quem humilha com mais eficiência.


4.2 O “brincar de guerra” que forma adultos obedientes


Adorno e Horkheimer mostraram como a cultura de massa pode produzir conformismo, repetição e adesão automática a padrões (ADORNO; HORKHEIMER, 1985). No ambiente digital, esse mecanismo acelera. A estética marcial, simplificada e infantilizada, funciona como atalho para organizar afetos e disciplinar condutas: reduz ambivalências, expulsa dúvidas, e transforma divergência em deslealdade.


Nesse cenário, a política se torna uma educação informal permanente — só que uma educação para o reflexo, não para a consciência.



5. Economia política do espetáculo


5.1 “Pão simbólico”: moralização barata, agenda material ausente


O espetáculo político distribui um “pão simbólico”: pertencimento, superioridade moral, catarse. Em troca, desloca o essencial para fora do foco: salário, custo de vida, orçamento, serviços públicos, infraestrutura, produtividade, desenho institucional. A agenda material perde centralidade; a agenda moral-identitária assume o comando.


A consequência é previsível: amplia-se o engajamento, mas empobrece-se a política. O conflito deixa de ser sobre soluções e passa a ser sobre quem merece desprezo.


5.2 O mandato como cenografia e a política como mercado de atenção


O mandato representativo, que exige trabalho cotidiano e frequentemente invisível, é reconfigurado como cenografia de “guerra cultural”. A política vira evento. O evento vira mercadoria. A mercadoria vira métrica. E a métrica vira objetivo.


Quando isso ocorre, prestação de contas e governança ficam subordinadas à estética do “ato”. A pergunta “o que mudou?” é substituída por “quantas visualizações deu?”. O país vira audiência.



6. Tristeza pedagógica e erosão da criticidade


6.1 Quando a cidadania vira torcida


Há uma tristeza pedagógica objetiva nesse tipo de cena: ela ensina que política é seguir ou zombar. Em ambos os casos, a criticidade se dissolve. Em lugar do sujeito cidadão, emerge o sujeito torcedor: aquele que não avalia políticas, mas defende identidades; que não cobra resultados, mas protege símbolos.


Esse é um dano formativo: o hábito de perguntar é trocado pelo hábito de reagir. E reação é sempre mais rápida do que reflexão — exatamente por isso, mais compatível com o ritmo das redes.


6.2 O que a escola tenta construir e o espetáculo desfaz


Uma formação cidadã minimamente séria depende de três capacidades:

  1. formular problemas (qual é o conflito real?);
  2. diferenciar fato de narrativa (o que ocorreu e como foi enquadrado?);
  3. avaliar meios e fins (quais soluções são legítimas e eficazes?).


O espetáculo desfaz as três:

  • troca problema por personagem;
  • troca fato por clipe;
  • troca solução por catarse.


O resultado é um tipo de obediência modernizada: não a obediência do medo, mas a obediência do pertencimento.



7. Saídas possíveis: alfabetização política contra o adestramento


7.1 Perguntas que furam o transe


A primeira vacina contra o adestramento é a pergunta que não vira meme:


  • Qual é o objetivo institucional concreto desse ato?
  • Quem ganha com a atenção gerada?
  • Que pauta material desapareceu enquanto o público assistia ao espetáculo?
  • Que decisão pública muda depois do vídeo?
  • Se não houvesse câmera, a ação seria a mesma?


Essas perguntas reintroduzem causalidade, responsabilidade e consequência — três coisas que o espetáculo tenta expulsar.


7.2 Do “seguir” ao “deliberar”


Democracia não exige genialidade; exige método. Exige que divergências sejam processadas por argumentos e instituições, e que representantes sejam cobrados por resultado e coerência pública, não por teatro.


Alfabetização política envolve:


  • leitura crítica de mídia e enquadramentos;
  • noções básicas do processo legislativo e das competências reais;
  • cultura de prestação de contas (voto como contrato, não como devoção).


Sem isso, a política se consolida como aquilo que o berrante e o trompete ilustram: uma disputa de humilhação com trilha infantil, na qual adultos se comportam como plateia e líderes se comportam como influenciadores.



Conclusão


O episódio do berrante e do trompete tocando “Marcha Soldado” não é um detalhe pitoresco, mas um emblema do estágio atual da política como adestramento. A marcha, quando organizada como prova moral e narrativa de sacrifício, converte o corpo em argumento e a rodovia em palco; a provocação, quando reduz a disputa a humilhação viral, transforma crítica em meme e meme em arma. No centro, a cidadania se empobrece: sai a pergunta, entra o reflexo; sai a deliberação, entra a torcida; sai o conflito programático, entra a guerra de símbolos. Por isso, a chave interpretativa de “vida de gado” reaparece com força: ela descreve uma docilidade produzida não apenas por coerção, mas por pertencimento, recompensa e repetição — hoje amplificados pelo panoptismo digital e pela indústria da atenção. A tristeza pedagógica, nesse quadro, não é retórica: é constatação de que a política, que poderia funcionar como escola pública de responsabilidade coletiva, vem sendo rebaixada a circo de gestos, melodias e insultos, onde coragem é confundida com marcha, liberdade com idolatria e criticidade com deboche.


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Nota Conceitual 

Como nota conceitual, aboio designa o canto entoado por vaqueiros para conduzir o gado, um chamado rítmico que orienta o deslocamento do rebanho e, por extensão simbólica, remete a práticas de condução coletiva pela repetição e pela obediência ao comando sonoro; já panoptismo, na leitura de Michel Foucault, refere-se a um modelo de poder disciplinar inspirado no Panóptico de Bentham, em que a possibilidade permanente de estar sendo observado induz à autocensura e à auto-organização do comportamento (FOUCAULT, 1987). No ambiente digital, essa lógica se atualiza como panoptismo digital: uma vigilância difusa em que todos filmam, comentam, recompensam e punem, transformando a exposição contínua e as métricas de engajamento em mecanismos de disciplina social, reforçando a repetição de gestos, slogans e identidades como forma de pertencimento.


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Referências


ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

RAMALHO, Zé. Admirável gado novo. In: RAMALHO, Zé. Zé Ramalho 2. Rio de Janeiro: [Gravadora], 1979.

ITATIAIA. “TromPetista” aparece tocando berrante próximo à caminhada de Nikolas; veja vídeo. Belo Horizonte: Rádio Itatiaia, 23 jan. 2026. Acesso em: 23 jan. 2026.

CORREIO BRAZILIENSE. TromPetista toca berrante em caminhada de Nikolas: “gado solto na pista”. Brasília: Correio Braziliense, 23 jan. 2026. Acesso em: 23 jan. 2026.

ESTADO DE MINAS. “Gado na pista”: homem toca berrante para caminhada de Nikolas. Belo Horizonte: Estado de Minas, 23 jan. 2026. Acesso em: 23 jan. 2026.

TERRA. Trompetista toca berrante para manifestantes em marcha de Nikolas Ferreira: “gado na pista”. São Paulo: Terra, 23 jan. 2026. Acesso em: 23 jan. 2026.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Artigo 2 - Criador e Criatura: Linha do Tempo do Racha e os Sinais Públicos da Disputa após a Queda do Centro

 Condenação, prisão, sucessão “autorizada”, agendas canceladas e testes de fidelidade — o que cada gesto comunica e por que não existe lealdade por concupiscência.


A crise de liderança aberta pela condenação e pelo encarceramento de um ex-chefe do Executivo reordenou o campo da direita de massas no Brasil: o centro simbólico permaneceu ativo, mas a capacidade operacional foi comprimida. Nesse vácuo, sinais públicos — agendas canceladas, declarações de herdeiros, exigências de alinhamento — passaram a funcionar como testes de fidelidade. A pergunta decisiva não é se a criatura “deve” submissão eterna ao criador; é se um movimento construído no carisma tolera sucessão sem controle.



O que está em jogo


A metáfora do “criador” e da “criatura” descreve um fenômeno recorrente em política de massas: um líder (criador) produz quadros e candidaturas (criaturas) por meio de transferência de prestígio, linguagem e base militante; e, depois, reivindica soberania sobre o destino dessas figuras como se fossem extensão de sua vontade.


Quando o criador perde liberdade e poder de articulação direta, o conflito se agrava: a criatura precisa governar, negociar e estabilizar; o criador precisa preservar a coesão simbólica e impedir que a marca se dilua.



Cronologia dos sinais públicos


Setembro de 2025 — condenação e sentença longa

Um painel do Supremo condenou o ex-presidente por participação em trama para reverter resultado eleitoral, fixando pena de 27 anos e 3 meses. (REUTERS, 2025).  


Novembro de 2025 — prisão preventiva e endurecimento do controle

O ex-presidente foi colocado sob prisão preventiva e levado a instalações da Polícia Federal em Brasília; relatos oficiais destacaram tentativa de violação/alteração do monitoramento eletrônico e fundamentos ligados a risco processual. (AGÊNCIA BRASIL, 2025).  

Em paralelo, a dinâmica de recursos e o ambiente de “fidelidade em estado de cerco” começaram a reconfigurar a disputa sucessória. (REUTERS, 2025).  


Dezembro de 2025 — disputa explícita pela sucessão “autorizada”

Um filho senador declarou publicamente que foi escolhido para representar o grupo político na eleição de 2026; analistas e fontes registraram reação negativa de mercado e a preferência anterior de setores econômicos por uma alternativa mais moderada. (ASSOCIATED PRESS, 2025; REUTERS, 2025; FINANCIAL TIMES, 2025).  

A defesa do ex-presidente, já encarcerado, insistiu em pedidos de saída para procedimentos médicos e prisão domiciliar, reforçando o elemento “humanitário” como frente narrativa e jurídica. (AGÊNCIA BRASIL, 2025).  


Janeiro de 2026 — saúde, liturgia de lealdade e cancelamentos

O ex-presidente saiu temporariamente do local de custódia para exames médicos após queda, retornando em seguida; o episódio alimentou simultaneamente pauta humanitária e mobilização simbólica do grupo. (ASSOCIATED PRESS, 2026).  

O governador do maior estado do país adiou/desmarcou visita ao ex-presidente preso; reportagem apontou que a decisão ocorreu após declarações públicas do filho senador, interpretadas como pressão interna e risco de constrangimento (“bronca”) no encontro. (CNN BRASIL, 2026).  

No dia seguinte, a agenda do governador registrou apenas despachos internos, sem compromissos públicos, enquanto fontes e bastidores mantiveram a leitura de que a disputa sucessória havia subido de patamar. (INFOMONEY, 2026).  



Leitura hard news dos “sinais”: o que cada gesto comunica


1) A condenação não encerrou o poder do criador; ela o reconfigurou


A sentença longa retirou o criador do plano executivo, mas elevou sua centralidade simbólica: o campo político passou a operar com duas moedas simultâneas — governabilidade e fidelidade. (REUTERS, 2025).  


2) A prisão preventiva funcionou como “mecanismo de disciplina”


Quando a custódia se torna centro do noticiário, o movimento tende a se fechar: divergência vira suspeita; moderação vira “fraqueza”; e a criatura, sobretudo se governa, passa a ser cobrada por gestos ritualizados. (AGÊNCIA BRASIL, 2025).  


3) A sucessão “autorizada” virou linha oficial — e o resto virou teste


A partir do momento em que a família e o núcleo duro publicizam a escolha do herdeiro, a criatura que poderia representar uma rota alternativa passa a ser enquadrada: apoiar não é apenas estratégia; é certificado de pertencimento. (ASSOCIATED PRESS, 2025; FINANCIAL TIMES, 2025).  


4) O cancelamento de visita não é detalhe de agenda; é evento político


Em movimentos carismáticos, presença e ausência são linguagem. Adiar um encontro pode significar: (i) evitar humilhação pública; (ii) escapar de compromisso explícito; (iii) recusar subordinação ritual; ou (iv) ganhar tempo para negociar com outras forças. A reportagem que relaciona o adiamento às falas do herdeiro sugere exatamente isso: o ato foi lido como proteção reputacional e recusa de uma armadilha simbólica. (CNN BRASIL, 2026).  



Traição política ou autonomia legítima?


A resposta depende de qual “contrato” se considera válido.


Traição, no sentido do criador


Para o criador, “traição” é a quebra da soberania pessoal: a criatura foi criada para expandir o alcance do líder e, portanto, deve permanecer órbita e instrumento. Nesse enquadramento, autonomia é ingratidão.


Autonomia, no sentido institucional


Para a democracia, o mandato e a gestão pública não podem ser propriedade de um indivíduo. Quando a criatura assume função executiva, ela passa a responder por serviços, estabilidade e alianças — e pode ser obrigada a moderar discurso e ampliar coalizões. Nesse enquadramento, autonomia não é pecado: é requisito de governabilidade.



Não existe lealdade por concupiscência


O que “concupiscência” significa politicamente


No vocabulário moral clássico, concupiscência é o desejo que busca satisfação imediata — não o bem comum. Em política, o termo pode ser traduzido como apetite por poder, cargo, acesso, proteção e recursos: a fidelidade que nasce do benefício esperado, não de princípios, programa ou compromisso institucional.


O sentido político: lealdade concupiscente é instável por definição


Lealdade fundada em concupiscência dura enquanto o fluxo de vantagens dura. Ela é, portanto, instrumental e condicional:

Se o criador distribui “marca” e acesso, a base obedece.

Se o criador perde capacidade de entregar, a base procura novo polo.

Se a criatura entende que pode sobreviver sem a marca, a ruptura se torna racional.


A crise recente expôs esse mecanismo com nitidez: a disputa pela sucessão, os recados públicos, e a pressão sobre a criatura para não “sair da linha” demonstram que parte relevante do controle é exercida por incentivos e punições simbólicas, não por consenso programático. (FINANCIAL TIMES, 2025; CNN BRASIL, 2026).  


A conclusão operacional


Quando a lealdade é concupiscente, ela não é virtude; é transação. E transação não cria soberania moral. Cria dependência. Por isso, ao primeiro choque — prisão, sucessão familiar, risco eleitoral, pressão de mercado — a “lealdade” vira disputa aberta pelo controle da marca. (REUTERS, 2025; ASSO. PRESS, 2025).  



Conclusão


No modelo criador–criatura típico de lideranças carismáticas, “traição” é frequentemente o nome moral dado àquilo que, institucionalmente, se chama autonomia. A cronologia recente mostra que a perda de liberdade do criador não encerrou o comando simbólico; ao contrário, intensificou o policiamento interno, acelerou a sucessão “autorizada” e transformou gestos mínimos — como uma visita cancelada — em atos políticos de alto risco. Nesse ambiente, a criatura só tem duas saídas: aceitar a soberania pessoal do criador (e operar como extensão da marca) ou construir autonomia suficiente para governar e disputar futuro político sem tutela. A decisão é menos sobre ética individual e mais sobre estrutura: movimentos que vivem de carisma exigem obediência; democracias exigem responsabilidade. E onde a lealdade é concupiscente, o controle é sempre temporário.


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Este texto integra uma série de duas leituras complementares sobre a dinâmica “criador–criatura” na política de massas: aqui está a análise conceitual dos mecanismos de soberania simbólica, controle, lealdade e autonomia; a segunda publicação organiza a cronologia dos sinais públicos e fatos recentes que tensionam essa relação.

Leitura 1 (análise): [https://brasilesferapublica.blogspot.com/2026/01/artigo-1-criador-e-criatura-soberania.html?m=1].

Leitura 2 (linha do tempo): [https://brasilesferapublica.blogspot.com/2026/01/artigo-2-criador-e-criatura-linha-do.html?m=1].

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Referências


AGÊNCIA BRASIL. Matéria sobre manutenção de prisão preventiva e fundamentos do caso. 2025.  

AGÊNCIA BRASIL. Matéria sobre pedidos da defesa por saída para cuidados médicos e prisão domiciliar. 2025.  

ASSOCIATED PRESS. Matéria sobre exames médicos após queda durante cumprimento de pena. 2026.  

ASSOCIATED PRESS. Matéria sobre anúncio de sucessão e candidatura de herdeiro político. 2025.  

CNN BRASIL. Matéria sobre adiamento de visita e bastidores de pressão interna. 2026.  

FINANCIAL TIMES. Matéria sobre reação de mercados e escolha do herdeiro como líder do campo político. 2025.  

INFOMONEY. Matéria sobre cancelamento de visita e agenda restrita do governador. 2026.  

REUTERS. Matéria sobre condenação e fixação de pena de 27 anos e 3 meses. 2025.  

REUTERS. Matéria sobre dinâmica pós-recursos e execução do cumprimento de pena. 2025.