terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Quem Assina o Texto Quando É a IA Que Escreve?

 No Brasil do WhatsApp, da escola improvisada e do balcão do serviço público, a IA generativa virou um jeito elegante de ninguém responder por nada — e isso dá ruim mais rápido do que parece.


Você abre o WhatsApp e tem uma mensagem do colégio do seu filho: “Professor faltou, a aula vai ser remota. Segue aqui um resumo do conteúdo e os exercícios”. A mensagem está bem escrita, organizada, com aquele tom “neutro” que parece padrão. Só tem um detalhe: ninguém sabe direito quem escreveu. A coordenação jogou a tarefa num modelo generativo, o professor deu uma revisada rápida entre uma turma e outra, e o texto foi. No fim da tarde, seu filho chega com uma dúvida simples, e você percebe que o resumo “bonito” pulou a parte mais importante. Aí começa a dança: professor culpa a coordenação, coordenação culpa “o sistema”, e você fica com a conta da bagunça — tempo perdido, aprendizado capenga, estresse em casa.


Esse tipo de cena não é futurismo. É uma versão bem brasileira do que já está acontecendo quando texto vira produto sob demanda e ninguém quer ficar com o peso de assinar o que foi dito. E isso importa porque o Brasil já vive em plataformas e serviços digitais o tempo todo: o WhatsApp virou infraestrutura social; o GOV.BR já atende mais da metade do país em algum nível; e a adoção de IA em organizações cresceu rápido (IBGE, 2025; Governo do Brasil, 2025; Forbes Brasil, 2025). Não é conversa de “tecnófilo” nem de “tecnófobo”. É rotina.


O objetivo deste texto é simples e bem prático: discutir, no contexto brasileiro, duas coisas que estão ficando confusas com modelos generativos — quem é o autor e quem responde quando dá errado. A metodologia aqui é direta: leitura crítica de obras de filosofia da técnica e teoria crítica (Heidegger, 2007; Han, 2015; Horkheimer; Adorno, 1985; Adorno, 1996; Bostrom, 2014), cruzada com dados públicos recentes sobre digitalização e uso de IA no Brasil (IBGE, 2025; CGI.br, 2024; Governo do Brasil, 2025) e exemplos concretos de trabalho, escola, serviços públicos e pequenos negócios. Não tem “laboratório”, não tem jargão desnecessário. Tem o que interessa: vida real e consequência.


A posição defendida aqui é clara: toda vez que um modelo generativo entra numa decisão, num atendimento ou numa comunicação que afeta alguém, tem que existir um autor humano identificável e uma responsabilidade institucional explícita — sem “foi o algoritmo” como desculpa. Isso não é frescura. É higiene básica de vida pública e de relações de trabalho.





Quando “autor” vira “quem apertou enviar”, o Brasil vira terra sem assinatura



No Brasil, a maior parte da comunicação que manda na vida cotidiana não vem de “sites oficiais”. Vem do WhatsApp. É grupo de condomínio, grupo de igreja, grupo da escola, grupo do trabalho, grupo da família, grupo de bairro. A depender do lugar, WhatsApp é quase o “protocolo” da cidade. Não é exagero dizer que ele funciona como infraestrutura social, porque ele organiza avisos, horários, cobranças, pedidos e até disputa política. E o tamanho disso é gigante: o Brasil é um dos maiores mercados do app, com centenas de milhões de usuários e presença diária quase universal entre quem está conectado (Forbes Brasil, 2025).


Agora coloca modelos generativos nesse circuito. O que acontece com “autoria”?


Antes, autoria era uma coisa meio óbvia no dia a dia: alguém escreveu, alguém falou, alguém assinou. Mesmo quando a mensagem vinha “pela empresa” ou “pela escola”, tinha um rosto mais ou menos claro: a secretária, o coordenador, o RH, o gerente. Você sabia pra quem reclamar, e a própria pessoa sabia que ia levar cobrança se a informação estivesse errada.


Com texto gerado por IA, aparece uma tentação bem brasileira: “deixa o robô escrever, fica mais arrumado e rápido”. Aí a autoria vira uma soma de pequenos empurrões: alguém manda um prompt, outro copia e cola, outro dá uma revisada de 10 segundos e pronto. É como se o autor fosse “o grupo”. Só que “o grupo” não responde. “O grupo” some.


Na prática, você vê isso em quatro lugares que o brasileiro conhece bem:


No trabalho, especialmente em escritório, loja maiorzinha, clínica, empresa de logística e setor financeiro local, virou comum usar IA pra redigir e-mail, proposta, resposta a cliente, anúncio, contrato “modelo”. Só que tem diferença entre usar como rascunho e usar como assinatura. Quando o vendedor de uma loja de móveis manda um orçamento com condições erradas porque “a IA montou” e ele só repassou, quem é o autor do compromisso? Ele? A loja? O sistema? O consumidor não quer saber da engenharia. O consumidor quer o preço e o prazo que recebeu.


Na escola, o risco é mais feio porque envolve formação. O professor usa IA pra montar exercício, atividade, resumo. A coordenação usa pra produzir comunicado, circular, texto de projeto. A família recebe o material com cara “técnica”, bem formatado, e assume que aquilo foi pensado. Só que o pensamento — o trabalho de escolher o que importa, o que é prioridade, o que é perigoso simplificar — é justamente a parte que você não pode terceirizar sem critério. Adorno chamaria isso de um caminho rápido para “semiformação”: muito material, pouca compreensão (Adorno, 1996). Não é falta de conteúdo; é perda de profundidade e de responsabilidade.


Nos serviços públicos, a coisa escala. Se o GOV.BR já concentra milhares de serviços e dezenas ou centenas de milhões de usuários (Governo do Brasil, 2025), qualquer texto automatizado que apareça ali — instrução, aviso, justificativa de indeferimento, orientação de benefício — tem efeito enorme. Quando um cidadão tem um pedido negado e recebe uma resposta “bonita”, mas genérica, sem explicar o motivo real e sem apontar quem responde, ele fica preso num labirinto. E o labirinto é um jeito de governar sem assumir que está governando. Bostrom, mesmo vindo de outra linha, acerta numa coisa: quando sistemas entram como infraestrutura decisória, o problema não é “se eles escrevem bem”. É a governança de objetivos e a imputação de responsabilidade quando o sistema erra ou quando é usado como escudo (Bostrom, 2014).


Nas pequenas empresas, o caso é mais cotidiano e menos teórico: salão, barbearia, pet shop, oficina, loja de roupa, lanchonete. IA entrou como “marketing rápido”: legenda pronta, card, resposta automática no WhatsApp Business, script de atendimento. E o dono pensa: “isso me ajuda”. Ajuda, sim. Mas a autoria da comunicação vira uma coisa estranha: o cliente conversa com “a empresa” e não sabe se está falando com alguém que entendeu o pedido ou com um texto padrão. Aí o erro vem com aquele cheiro conhecido de “mal-entendido” brasileiro: pedido errado, horário errado, condição errada. No fim, a pequena empresa que achou que ia economizar tempo perde reputação.


O ponto filosófico aqui é bem simples de dizer sem firula: autor não é quem mexe no teclado; autor é quem assume o sentido do que foi dito e aceita responder por isso. Quando a cultura aceita que autoria é “enviar mensagem”, você cria um mundo sem assinatura. E mundo sem assinatura vira mundo sem vergonha.


Heidegger diria, em outra linguagem, que isso é um efeito do enquadramento (Gestell): a técnica passa a organizar o mundo como estoque disponível, e o humano vira operador do dispositivo (Heidegger, 2007). Traduzindo pro português de rua: a pessoa deixa de escrever e vira “usuária de texto”. A linguagem vira peça pronta, e ninguém se vê como responsável pelo que circula.





“Foi o algoritmo”: o jeitinho perfeito para não responder por nada



O Brasil já tem um problema velho: a dificuldade de responsabilizar alguém quando a coisa dá errado em cadeia — repartição, empresa grande, terceirizada, call center. Todo mundo conhece o roteiro: você liga, passa por quatro atendentes, cada um joga pra um setor, e ninguém resolve. O que a IA pode fazer é dar uma camada nova de maquiagem nesse velho problema: a desculpa técnica.


“Foi o algoritmo” tem cara de frase neutra, mas funciona como truque. Ela transforma uma escolha humana (usar um sistema, aceitar uma resposta, decidir um indeferimento, mandar uma orientação) num evento natural, como se fosse chuva. E isso é perigoso porque, no Brasil, o uso de sistema vira rapidamente uma forma de poder: quem controla a regra, controla a vida do outro — ainda mais quando o outro depende de serviço público ou de trabalho precarizado.


Han ajuda a entender por que essa desculpa pega. A sociedade do desempenho adora terceirizar angústia: se a decisão vem “do sistema”, você reduz o peso moral de decidir e de se explicar (Han, 2015). No cotidiano brasileiro, isso aparece em frases como “o sistema não deixa”, “o aplicativo não permite”, “a plataforma bloqueou”. Agora imagine isso com texto gerado automaticamente: o sistema não só bloqueia; ele explica o bloqueio com um texto convincente. A pessoa lê, cansa e desiste.


Aí entra a diferença entre responsabilidade e culpa, que muita gente mistura. Responsabilidade não é “quem é o vilão”. Responsabilidade é quem tem dever de corrigir, de reparar, de explicar e de evitar repetição. E isso, com IA, precisa ser desenhado, porque o risco é criar uma “névoa de agência”: muita gente participa, mas ninguém responde.


No Brasil, essa névoa tende a ficar bem concreta em três situações.



Atendimento automatizado que decide a vida de alguém


Pensa numa unidade de saúde municipal onde a recepção vive lotada e a equipe está exausta. Alguém decide usar uma triagem “inteligente” em tablet ou totem pra organizar fila. O sistema faz perguntas, classifica prioridades, imprime senha. Se ele errar a prioridade, o prejuízo não é “um erro administrativo”. É sofrimento real. E quando a família reclama, a equipe pode dizer: “foi o sistema”.


Aqui a responsabilidade tem que ter nome e cargo: quem escolheu o sistema, quem configurou critérios, quem audita os erros, quem atende reclamação. Sem isso, você cria uma gestão que se esconde atrás de uma tela. E aí a tecnologia vira instrumento de desumanização, não porque “é malvada”, mas porque permite que ninguém olhe no olho.



Escola usando IA para produzir avaliação e comunicação


No Brasil, muita escola (pública e privada) vive sob pressão: metas, prova, pai cobrando, professor sobrecarregado. A IA entra como “atalho”. Só que avaliação e comunicação escolar não são meras burocracias. Elas mexem com trajetória de aluno, autoestima, reprovação, encaminhamento. Se um exercício vem com erro, se um texto de orientação vem enviesado, se um comunicado cria pânico, o dano é concreto.


Quando ninguém assina, a responsabilidade evapora. E isso é o oposto do que educação deveria ensinar. Adorno chamaria isso de formação para a heteronomia: o aluno aprende que texto é algo que aparece pronto e que ninguém precisa responder por ele (Adorno, 1996). É um treino de obediência ao “conteúdo”, não de pensamento.



Pequeno comércio automatizando conversa e promessa


Imagina uma loja de celular de bairro que usa IA para responder orçamento no WhatsApp Business. O cliente pergunta: “Troca tela de iPhone 11? Quanto? Tem garantia?” A IA responde bonito, promete prazo, fala de garantia, passa valor. O dono chega depois, vê a conversa e pensa: “depois eu ajusto”. Só que o cliente já veio, já organizou dinheiro, já pegou ônibus.


Quando dá errado, o dono diz: “foi mensagem automática”. O cliente escuta como “problema seu”. E vira briga. Responsabilidade aqui não é filosofia abstrata: é regra simples de comércio. Se você automatiza promessa, você automatiza também o conflito.


O que a teoria crítica joga na mesa é um ponto desconfortável: tecnologia não entra no mundo “neutra”. Ela entra por interesses e por pressões. E, na lógica da razão instrumental, o que vale é eficiência, escala, redução de custo — mesmo que a consequência seja empurrar erro para o lado mais fraco (Horkheimer; Adorno, 1985). No Brasil, o lado mais fraco costuma ser quem depende de serviço, quem depende de fila, quem depende de salário.





Por que “autor identificável” e “responsabilidade explícita” é o mínimo aceitável



Defender autor identificável e responsabilidade explícita não é pedir “certificação internacional”. É pedir duas coisas bem básicas, do tipo que qualquer brasileiro entende quando está do lado prejudicado:


  1. Quem assina o que me foi dito?
  2. Quem resolve se estiver errado?



Aí alguém responde: “mas isso é burocracia, vai travar tudo”. Esse é o argumento clássico contra qualquer regra de responsabilização. Só que ele se sustenta mal no Brasil porque a ausência de regra já “trava tudo” de outro jeito: trava no retrabalho, na judicialização, na perda de confiança, no conflito, no improviso.


E tem um dado que joga contra a desculpa do “não dá”: a adoção de IA já está avançando, inclusive em ambientes organizacionais. O IBGE registrou crescimento forte no uso de IA em empresas industriais, chegando a 41,9% em 2024, com salto grande em relação a 2022 (IBGE, 2025). Ou seja: o país está correndo com IA. O mínimo é correr também com mecanismo de responsabilidade.


O que isso significaria, na prática brasileira, sem virar um manual interminável?


Significaria, por exemplo, que um comunicado escolar feito com auxílio de IA vem com uma frase curta e honesta: “Texto revisado por [nome], coordenação”. Não é para “pedir desculpa por usar IA”. É para dizer: existe alguém que respondeu pelo conteúdo.


Num serviço público, significaria que uma resposta automatizada que indeferiu um pedido vem com indicação de base legal, canal de recurso e setor responsável, e não só um texto genérico que parece “educado”, mas não resolve nada.


Numa pequena empresa, significaria que mensagens automáticas não podem prometer preço, prazo e garantia como se fossem contrato, sem revisão humana. Se quiser automatizar, automatize a triagem (“vou verificar e te respondo em X horas”), não a promessa.


É aqui que a distinção entre autor e responsabilidade fica bem clara.


Autor é quem assume o sentido e coloca o próprio nome, o próprio cargo, a própria cara.

Responsabilidade é o dever de reparar, explicar e corrigir, que pode ser do autor e também da instituição.


No Brasil, a gente precisa das duas juntas, porque só autoria sem responsabilidade vira “assinatura decorativa” (a pessoa assina e some), e só responsabilidade sem autoria vira “responsabilidade abstrata” (um setor genérico que nunca atende).


Bostrom coloca isso num nível macro quando fala de alinhamento e controle: sistemas poderosos precisam de governança e accountability, senão a sociedade perde capacidade de corrigir rota (Bostrom, 2014). Traduzindo: quando o sistema vira desculpa, o erro vira destino.


Han coloca isso no nível micro: se a cultura se acostuma a delegar decisão e linguagem para ferramentas, o sujeito se torna menos capaz de sustentar conflito e justificar escolhas (Han, 2015). Traduzindo: vira gente que só repete “o sistema fez” e dorme em paz.


Heidegger aponta o pano de fundo: o perigo não é a máquina “pensar”, mas o humano se reduzir a operador do dispositivo e aceitar que o mundo só aparece como algo gerenciável (Heidegger, 2007). Traduzindo: a pessoa não escreve mais; ela “executa texto”.


E Adorno dá o alerta social: quando a cultura vira produção de conteúdo padronizado, a crítica enfraquece, a autonomia murcha e a vida pública se torna administrada (Horkheimer; Adorno, 1985; Adorno, 1996). Traduzindo: tudo parece funcionar, mas ninguém pensa — e quem sofre é quem não tem como fugir do sistema.





Um ataque direto ao argumento “a IA só ajuda”: ajuda quem? e em que custo?



Aqui entra uma parte que muita gente não gosta: no Brasil, “ajudar” quase sempre significa “tirar tempo de alguém que já está sem tempo”. E isso é real. Professor está sobrecarregado. Servidor está sobrecarregado. Dono de pequeno negócio faz tudo. Atendente aguenta fila e grito. IA vira muleta.


O problema é que muleta tem preço quando vira substituição de perna.


Quando a IA “ajuda” a escola a produzir mais material, isso pode parecer bom. Só que o aluno não precisa de mais PDF. Precisa de clareza, sequência, feedback. Se a IA aumenta volume e reduz responsabilidade, ela não ajudou: ela barateou aparência de trabalho.


Quando a IA “ajuda” o serviço público a responder mais rápido, isso pode parecer bom. Só que resposta rápida e vazia é só um jeito elegante de empurrar o problema. O cidadão perde tempo igual, só que com um texto mais polido.


Quando a IA “ajuda” o pequeno negócio a vender mais por WhatsApp, isso pode ser ótimo. Mas se ela aumenta ruído e promessa furada, ela transforma rotina urbana em atrito: cliente indo e voltando, cancelando, reclamando, falando mal no bairro.


O argumento “só ajuda” costuma esconder uma coisa: ajuda quem manda a mensagem, não quem recebe. E, em país desigual, essa diferença pesa.


O Brasil tem outro agravante: conectividade desigual e qualidade de acesso ainda é desafio; não basta dizer “todo mundo está online”. A própria TIC Domicílios aponta avanço grande, mas também aponta que “conectividade significativa” não é universal (CGI.br, 2024). Ou seja: o sistema automatiza e presume letramento digital e tempo de navegação que muita gente não tem. Aí a IA vira mais uma camada de exclusão, porque quem tem menos recurso sofre mais com texto genérico e processo confuso.





Uma crítica possível à posição defendida aqui — e a resposta



A crítica mais comum vai ser esta: “Se exigir autor identificável e responsabilidade explícita, vai virar caça às bruxas. O professor vai ficar com medo de usar. O servidor vai ser responsabilizado por coisa que veio de cima. O pequeno empresário vai ser punido por erro que nem entendeu.”


Essa crítica tem um fundo legítimo, porque o Brasil adora resolver problema estrutural jogando culpa no indivíduo mais fraco da cadeia. Isso acontece com professor, com servidor de ponta, com atendente, com terceirizado. Então, sim: dá para usar “responsabilização” como arma de perseguição.


Só que essa crítica não derruba a posição. Ela só obriga a deixar claro o desenho correto:


Autor identificável não é “bode expiatório”. É ponto de contato.

Responsabilidade institucional não é “lavar as mãos”. É dever de governança.


Na prática, isso significa que escola precisa ter regra interna: o professor assina o que é conteúdo pedagógico; a coordenação assina o que é política e comunicado institucional; a mantenedora assina o que é diretriz. Se der problema, não é “pega o mais fraco”. É segue a cadeia de decisão.


No serviço público, isso significa que o servidor da ponta não pode virar o culpado porque “o sistema indeferiu”. Quem responde pela regra é quem definiu a regra; quem responde pelo canal é quem administra o canal; quem responde pela correção é quem tem poder de corrigir. O cidadão precisa saber quem é quem.


No pequeno negócio, isso significa uma coisa bem simples: se automatizou, tem que configurar para não prometer o que não controla. Não precisa virar lei. Precisa virar prática básica. Quem não consegue fazer isso hoje, vai pagar com reputação amanhã — e não é um “amanhã otimista”. É só a realidade chata do bairro: cliente some e fala mal.


Então, sim: existe risco de responsabilização injusta. A resposta não é abandonar responsabilidade. A resposta é organizar responsabilidade para não virar violência administrativa.





O que isso tem a ver com “sermos dados” e com a perda da imaginação



Quando alguém diz “a IA só reorganiza o passado”, a provocação não é técnica; é cultural. A IA faz texto “parecido” com o que já circula. E isso tem um efeito curioso no Brasil: ela tende a reforçar o tom burocrático, o “português padrão de aviso”, a comunicação que não diz nada, mas soa correta.


É aí que autoria e responsabilidade voltam como antídoto. Porque a saída gerada pode até ser polida, mas quem assina tem que perguntar: isso está claro para quem recebe? Isso resolve ou enrola? Isso empurra o problema? Isso muda a vida de alguém?


Sem autoria, ninguém faz essas perguntas. Sem responsabilidade, ninguém paga pelo estrago.


E o estrago aqui não é abstrato. É aprendizado ruim, atendimento ruim, promessa ruim, conflito urbano bobo que vira briga grande, processo que vira judicialização, cidadão que desiste. O país já é bom em cansar gente. IA pode virar máquina de cansar em escala.




O teste prático: três perguntas que deveriam existir em qualquer uso de IA no Brasil


Não é para virar cartilha. É só um jeito de cortar o autoengano.


Quando um texto ou decisão envolve IA, deveria existir, no mínimo, a capacidade de responder:


Quem assina isso?


Se estiver errado, quem corrige e como?


Esse texto foi feito para ajudar quem recebe ou para livrar quem envia?


Se a resposta é “não sei”, a organização está usando IA do jeito mais brasileiro possível: para ganhar tempo agora e empurrar dano para depois.



Encerramento


Se um comunicado, um indeferimento ou uma promessa vier “do sistema” e ninguém topar colocar nome e cargo embaixo, não é tecnologia avançada. É só covardia automatizada — e isso o Brasil já conhecia antes do prompt.

Referências


ADORNO, Theodor W. Teoria da semiformação. In: ADORNO, Theodor W. Educação e emancipação. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.


BOSTROM, Nick. Superintelligence: paths, dangers, strategies. Oxford: Oxford University Press, 2014.


CGI.br. Em duas décadas, proporção de lares urbanos brasileiros com Internet passou de 13% para 85%, aponta TIC Domicílios 2024. Comitê Gestor da Internet no Brasil, 31 out. 2024. Disponível em: https://www.cgi.br/noticia/releases/em-duas-decadas-proporcao-de-lares-urbanos-brasileiros-com-internet-passou-de-13-para-85-aponta-tic-domicilios-2024/. Acesso em: 24 fev. 2026.


FORBES BRASIL. O que fez do WhatsApp um fenômeno das mensagens? O Brasil é a resposta. Forbes Brasil, 2 maio 2025. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-tech/2025/05/o-que-fez-do-whatsapp-um-fenomeno-das-mensagens-o-brasil-e-a-resposta/. Acesso em: 24 fev. 2026.


GOVERNO DO BRASIL. Número de contas Ouro no GOV.BR cresce 142% entre 2022 e 2025. Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, 18 dez. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/gestao/pt-br/assuntos/noticias/2025/dezembro/numero-de-contas-ouro-no-gov-br-cresce-142-entre-2022-e-2025. Acesso em: 24 fev. 2026.


HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Âyiné, 2015.


HEIDEGGER, Martin. A questão da técnica. In: HEIDEGGER, Martin. Ensaios e conferências. Petrópolis: Vozes, 2007.


HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.


IBGE. De 2022 a 2024, percentual de empresas industriais utilizando inteligência artificial subiu de 16,9 para 41,9. Agência de Notícias IBGE, 24 set. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44551-de-2022-a-2024-percentual-de-empresas-industriais-utilizando-inteligencia-artificial-subiu-de-16-9-para-41-9. Acesso em: 24 fev. 2026.


A Política como Tribunal Moral: Como o “combate à corrupção”, a moralidade, a religião e a família viram uma máquina eleitoral — e por que esse arranjo costuma favorecer a extrema direita no Brasil

Há uma diferença decisiva entre tratar corrupção, moralidade, religião e família como temas legítimos do debate público — com políticas, evidências e regras — e transformá-los em linguagem de cruzada, onde a política vira tribunal, o adversário vira inimigo e a exceção passa a parecer virtude. A proposta do artigo é destrinchar, em eixos, como essa gramática opera historicamente no Brasil, por que ela se torna tão eficaz em períodos de crise e como, ao acoplar indignação moral, pânico cultural e promessa de “limpeza total”, tende a favorecer projetos de extrema direita sem precisar se declarar como tal. Ao final, o texto também delimita um ponto essencial: é possível combater corrupção e defender valores sem desmontar o pluralismo democrático — desde que se recuse a lógica da purificação e se retome a política como método, e não como guerra moral.



Índice

  1. Lide

  2. O que está em jogo quando a campanha vira tribunal

  3. Eixo 1 — Anticorrupção moralizante

  4. Eixo 2 — Moralidade pública e “bons costumes”

  5. Eixo 3 — Religião como autoridade política

  6. Eixo 4 — “Valores da família” como fronteira identitária

  7. Eixo 5 — Inimigo interno e anticomunismo reconfigurado

  8. Eixo 6 — Lei e ordem e o punitivismo como política

  9. Eixo 7 — Antipolítica e anti-institucionalismo

  10. Eixo 8 — Salvacionismo e culto ao “purificador”

  11. O “combo” eleitoral: quando os eixos se acoplam

  12. Como desarmar a máquina moral sem relativizar corrupção

  13. Conclusão

  14. Referências (ABNT NBR 6023)


Lide

No Brasil, em momentos de crise, campanhas deixam de ser disputa de projetos e passam a operar como liturgia: há pecadores, há puros, há “ameaças” e há um eleito para “limpar tudo”. O discurso anticorrupção, quando moralizado; a moralidade, quando armada como guerra cultural; a religião, quando convertida em autoridade política; e a “família”, quando usada como fronteira de pertencimento, compõem um modelo recorrente. Ele não cria sozinho a extrema direita, mas frequentemente reduz o custo social de aceitá-la como “remédio”. A história brasileira mostra as engrenagens dessa máquina — do udenismo no pós-1945 às coalizões morais do ciclo 2013–2018.


O que está em jogo quando a campanha vira tribunal

Campanhas podem falar de valores, fé e corrupção sem cair em autoritarismo. O problema começa quando esses temas deixam de ser objetos de política pública (regras, instituições, prevenção, responsabilização) e viram código moral de guerra, com uma lógica simples:

  • se o adversário é “corrupto”, não é adversário: é inimigo;

  • se a política é “imoral”, a mediação institucional é “conivência”;

  • se há “ameaça à família”, o pluralismo vira “perigo”;

  • se “Deus” legitima um lado, o outro não é só errado: é profano.

Esse deslocamento muda o jogo: a democracia, que depende de conflito regulado e reconhecimento recíproco, passa a ser pressionada por uma retórica de purificação — e purificações políticas raramente são delicadas.


Eixo 1 — Anticorrupção moralizante

O que é

Não é “combater corrupção”. É outra coisa: é converter corrupção em explicação total e em marcador de pureza. A corrupção deixa de ser um problema institucional com causas e soluções e vira o pecado original da política.

Como funciona (mecanismo)

  1. Totalização: “tudo é corrupção”.

  2. Personalização: “o problema são pessoas/partidos” (e não arranjos).

  3. Punitivismo: “só punição resolve”.

  4. Exceção: “o normal é lento; precisamos de medidas duras”.

Esse padrão aparece cedo no Brasil republicano recente com o udenismo, em que moralismo e anticorrupção se consolidam como linguagem política de oposição (Benevides, 1980).

Raiz histórica (atalhos do passado)

  • 1945–1964: a UDN e a gramática udenista exploram moralização como arma recorrente (Benevides, 1980).

  • 1989: o “caçador de marajás” cristaliza o anticorrupção como identidade eleitoral (CNN Brasil, 2025).

  • Ciclo 2013–2018: ativismos e enquadramentos anticorrupção ganham forma de ecossistema social e comunicacional (Montevechi, 2021).

Por que tende a favorecer a extrema direita

Porque moralizar corrupção costuma abrir três portas:

  • porta do “salvador” (quem promete limpeza total);

  • porta da exceção (quem promete “fazer sem freios”);

  • porta da eliminação simbólica do adversário (inimigo moral).

Em contextos assim, a democracia passa a ser tratada como obstáculo — e não como método.


Eixo 2 — Moralidade pública e “bons costumes”

O que é

É a transformação da esfera pública em catecismo: disputa política vira debate sobre “decência”, “vergonha”, “família”, “tradição” — mas, sobretudo, sobre quem é digno de pertencimento.

Como funciona

  • Desloca o foco: políticas públicas complexas viram slogans morais.

  • Produz hierarquias: há “gente de bem” e “gente desviada”.

  • Legitima controle: censura social e política de costumes se tornam “proteção”.

A moralidade, quando politizada como ferramenta de exclusão, cria a estética da “normalidade ameaçada”. Em tempos de crise, isso vira combustível.

O “cidadão de bem” como peça retórica

A figura do “cidadão de bem” opera como totalidade homogênea: um “povo puro” contraposto a uma elite “corrupta” ou a inimigos culturais. Há pesquisas e ensaios críticos que mostram como essa categoria funciona como estratégia ideológica de simplificação e polarização (Castro, 2023).

Por que favorece radicalização

Porque moralidade, quando vira fronteira, passa a exigir “punição” para quem está do outro lado. E punir “imorais” parece, para muitos, mais urgente do que deliberar políticas.


Eixo 3 — Religião como autoridade política

O que é

Não é religiosidade — que é componente legítimo da vida social. É a transferência de legitimidade política para autoridade religiosa: em vez de debate público, a decisão política ganha selo de “verdade moral” transcendental.

Como funciona

  1. Sacralização do conflito: política vira guerra entre bem e mal.

  2. Blindagem discursiva: crítica vira “perseguição”.

  3. Infraestrutura comunitária: redes religiosas funcionam como canais de confiança, mobilização e disciplina.

Evidência histórica e institucional

  • 1964: a Marcha da Família com Deus pela Liberdade é analisada como expressão plural da organização das direitas no período e como parte do repertório político que antecede o golpe (Cordeiro, 2021).

  • Brasil contemporâneo: estudos sobre o novo ativismo político evangélico mostram que a presença evangélica na política não é “nova”, mas há novidades no padrão de atuação e na densidade institucional (Guadalupe; Carranza, 2020).

Por que pode favorecer a extrema direita

Porque a extrema direita costuma operar bem em ambientes de lealdade moral, dicotomias e autoridade carismática. Quando o debate político vira disputa de salvação, o pluralismo vira heresia.


Eixo 4 — “Valores da família” como fronteira identitária

O que é

“Família” é um valor amplo. O uso político que interessa aqui é quando “família” vira arma de fronteira: define quem pertence e quem ameaça; quem é “normal” e quem é “perigo”.

Como funciona

  • Crianças como dispositivo moral: toda disputa vira “proteção das crianças”.

  • Pânico moral: ameaça difusa, sempre urgente, sempre total.

  • Simplificação: direitos, educação, saúde, cultura são reduzidos a “ataques à família”.

Continuidade histórica

Em 1964, “família” aparece explicitamente como eixo mobilizador, articulado à ideia de liberdade e à legitimação de um campo político conservador (Cordeiro, 2021).
No ciclo recente, “família” se acopla a religião e antipetismo na formação de preferências eleitorais (Luz, 2025).

Por que favorece a extrema direita

Porque “defender a família” é frase incontestável — e exatamente por isso pode ser usada como cheque em branco para políticas de exclusão, censura e disciplinamento social.


Eixo 5 — Inimigo interno e anticomunismo reconfigurado

O que é

É o mecanismo mais perigoso: a construção de um inimigo interno que ameaça a nação, a fé, a família ou a liberdade. Historicamente, o anticomunismo foi uma das formas mais eficazes dessa operação.

Como funciona

  • Desumanização simbólica: o adversário é apresentado como traidor.

  • Urgência permanente: não há tempo para debate, só para “reagir”.

  • Normalização da exceção: medidas extraordinárias parecem razoáveis.

Evidência histórica

A mobilização de 1964 se articula em torno de repertórios de ameaça, participação das direitas e crise política que culmina no golpe (Cordeiro, 2021).
No ciclo pós-2013, pesquisas sobre redes sociais mostram o acirramento de disputas políticas e morais e o papel das redes no processo (Machado et al., 2019).

Por que favorece a extrema direita

Porque a extrema direita prospera quando o conflito é existencial. Se o outro “ameaça tudo”, qualquer meio vira justificável.


Eixo 6 — Lei e ordem e o punitivismo como política

O que é

Não é segurança pública; é punitivismo como estética de governança: a crença de que endurecer penas, militarizar linguagem e prometer punição total substitui políticas sociais, prevenção, investigação qualificada e governança.

Como funciona

  • Medo como capital: medo vira moeda eleitoral.

  • Punição como espetáculo: o castigo “prova” que o governo age.

  • Populismo punitivo: decisões penais moldadas por clamor e narrativa.

Há discussões no Brasil sobre “populismo punitivo/penal” como reconfiguração do poder de punir e sua relação com mídia e demanda social por punição (Gaio, 2011).

Acoplamento com anticorrupção

A Lava Jato, enquanto operação e fenômeno político-cultural, reforçou a centralidade do tema corrupção e seu impacto na administração pública e no imaginário social (Gonçalves et al., 2019).
Quando anticorrupção se mistura com punitivismo e exceção, o resultado é um senso comum: “o problema do país é falta de punição”. E aí o terreno fica fértil para projetos de força.


Eixo 7 — Antipolítica e anti-institucionalismo

O que é

É a ideia de que instituições (partidos, parlamento, imprensa, tribunais, regras) são essencialmente corruptas e inúteis. A política vira “lodo”; a solução vira “alguém de fora”.

Como funciona

  • Deslegitimação da mediação: negociar vira “conchavo”.

  • Personalização do poder: “só um líder resolve”.

  • Hostilidade ao contraditório: crítica vira ataque ao “povo”.

No pós-2013, a crise de representação e a dinâmica digital contribuíram para ampliar disputas políticas e morais, com efeitos duradouros (Machado et al., 2019).

Por que favorece a extrema direita

Porque a extrema direita costuma se apresentar como “anti-sistema”, mesmo quando opera para capturar o sistema. Antipolítica é a ante-sala da política autoritária: primeiro destrói confiança; depois oferece obediência.


Eixo 8 — Salvacionismo e culto ao “purificador”

O que é

É a figura do líder como detergente histórico: “eu vou limpar”. Não há programa; há promessa de purificação. A política vira narrativa épica: missão, inimigos, redenção.

Como funciona

  • Carisma como método: a credibilidade do líder substitui instituições.

  • Lealdade como virtude: discordar vira traição.

  • Verdades simples: problemas complexos recebem slogans curtos.

O caso Collor em 1989 é didático para compreender a força do discurso moralizante contra corrupção como identidade eleitoral (CNN Brasil, 2025).

Por que favorece a extrema direita

Porque salvacionismo costuma caminhar junto com:

  • linguagem de guerra,

  • eliminação simbólica do adversário,

  • desprezo por limites.

Quando a política vira religião, o líder vira sacerdote — e a democracia vira rito incômodo.


O “combo” eleitoral: quando os eixos se acoplam

O ponto decisivo não é um eixo isolado, mas o acoplamento:

  1. Anticorrupção moralizante (tudo é podridão)

  2. Moralidade e família (há puros e impuros)

  3. Religião como selo (um lado fala por Deus)

  4. Inimigo interno (o outro destrói a nação)

  5. Lei e ordem punitiva (solução é punição e força)

  6. Antipolítica (instituições não servem)

  7. Salvacionismo (só o líder resolve)

Esse “combo” aparece, com variações históricas, do moralismo udenista (Benevides, 1980) à mobilização de 1964 (Cordeiro, 2021) e à recomposição político-eleitoral do ciclo 2013–2018, em que religião, ideologia e antipetismo estruturam apoio e coalizões (Luz, 2025; Guadalupe; Carranza, 2020).


Como desarmar a máquina moral sem relativizar corrupção

A crítica ao modelo não pode virar cinismo (“corrupção não importa”). Importa — e muito. O ponto é como combater corrupção e governar valores sem destruir a democracia. Três chaves:

  1. Trocar “pureza” por institucionalidade
    Anticorrupção sério é governança: transparência, controles, auditoria, integridade, responsabilização com devido processo. Não é cruzada; é método.

  2. Trocar “guerra cultural” por políticas de proteção social concretas
    Família se protege com renda, saúde, escola, cuidado, segurança alimentar e acesso a direitos — não com pânico moral permanente.

  3. Trocar “autoridade” por esfera pública plural
    Religião pode existir na vida pública, mas não pode sequestrar o Estado. A democracia exige que ninguém tenha monopólio do bem.

Em resumo: quando o país troca política por tribunal, não fica mais “moral”; fica mais vulnerável ao autoritarismo.


Conclusão

Campanhas fortemente centradas na corrupção, na moralidade, nos princípios religiosos e nos valores da família corroboram com a extrema direita.” A frase é forte e, como síntese, aponta para um padrão histórico real — mas precisa ser lida com precisão para não virar slogan. Corrupção existe e deve ser combatida; valores e fé são parte legítima da vida social. O problema começa quando esses elementos deixam de ser tratados como políticas públicas e debate democrático e passam a operar como máquina de purificação: constroem um “povo puro”, inventam inimigos internos, deslegitimam instituições, naturalizam a exceção e pedem um salvador. A história brasileira — do udenismo do pós-1945 à gramática moral-religiosa que antecede 1964, e ao ciclo digital-punitivo pós-2013 — mostra que essa combinação não é acidente: é tecnologia política recorrente. Democracia não é ausência de valores; é a disciplina de não transformar valores em licença para esmagar o outro. Quando a política vira catecismo e a corrupção vira pecado metafísico, o voto deixa de escolher projetos e passa a escolher “purificadores”. E purificações, na experiência histórica, quase sempre cobram um preço alto — em direitos, em pluralismo e em futuro.


Referências (ABNT NBR 6023)

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BENEVIDES, Maria Victória de Mesquita. A UDN e o udenismo: ambiguidades do liberalismo brasileiro (1945–1965). [PDF]. Disponível em: https://marxismo21.org/wp-content/uploads/2015/04/A-UDN-e-o-Udenismo-M-Victoria-Benevides.pdf. Acesso em: 24 fev. 2026.

CORDEIRO, Janaína Martins. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade em São Paulo: direitas, participação política e golpe no Brasil, 1964. Revista de História, São Paulo, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rh/a/N3y4qtLG8XkgR3gKP9yvwBm/. Acesso em: 24 fev. 2026.

CNN BRASIL. “Caçador de marajás”: Collor foi eleito em 1989 com discurso contra a corrupção. São Paulo: CNN Brasil, 25 abr. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/cacador-de-marajas-collor-foi-eleito-em-1989-com-discurso-contra-corrupcao/. Acesso em: 24 fev. 2026.

GAIO, André Moysés. O populismo punitivo no Brasil. CSOnline – Revista Eletrônica de Ciências Sociais, ano 5, ed. 12, abr./jul. 2011. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/csonline/article/view/17184/8695. Acesso em: 24 fev. 2026.

GONÇALVES, Vanessa Brasil et al. Um estudo de caso da Operação Lava Jato: a corrupção na administração pública brasileira. Revista de Administração Pública, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rap/a/FrdM7VyfbYxywNW3zyG3KMq/. Acesso em: 24 fev. 2026.

GUADALUPE, José Luis Pérez; CARRANZA, Brenda (org.). Novo ativismo político no Brasil: os evangélicos do século XXI. Rio de Janeiro: Konrad Adenauer Stiftung, 2020. Disponível em: https://www.al.sp.gov.br/repositorio/bibliotecaDigital/24396_arquivo.pdf. Acesso em: 24 fev. 2026.

LUZ, Leonardo Neves. Religião, ideologia e antipetismo nas eleições presidenciais brasileiras de 2018. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, 2025. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rsocp/a/kwdSbPsdggtStNdXXqZnR7d/. Acesso em: 24 fev. 2026.

MACHADO, Jorge et al. Das jornadas de junho à cruzada moral: o papel das redes sociais no acirramento de disputas políticas e morais no Brasil desde 2013. Saúde e Sociedade, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sant/a/q8zsjyJYW3Jf3DBFSzZJPBg/. Acesso em: 24 fev. 2026.

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