sexta-feira, 13 de março de 2026

Terras raras, riqueza bruta e dependência tecnológica

O Brasil corre o risco de repetir, no século XXI, a velha lógica colonial: exportar recursos estratégicos em estado bruto e importar tecnologia, valor agregado e poder de decisão.



A nova corrida global por poder já não se organiza apenas em torno do petróleo. Ela passa, cada vez mais, pelos chamados minerais críticos, entre eles as terras raras, indispensáveis para ímãs permanentes, motores elétricos, turbinas eólicas, eletrônica avançada e diferentes aplicações de defesa. A Agência Internacional de Energia registra que a demanda por terras raras cresceu entre 6% e 8% em 2024, impulsionada sobretudo por tecnologias ligadas à transição energética e à infraestrutura industrial contemporânea. Ao mesmo tempo, a cadeia global segue fortemente concentrada, especialmente nas etapas de processamento e refino. 


Esse quadro reabre uma pergunta decisiva para o Brasil: o país será apenas fornecedor de matéria-prima estratégica ou conseguirá transformar sua base mineral em capacidade industrial, tecnológica e geopolítica? A questão é central porque o Brasil figura entre os países com maiores reservas de terras raras do mundo, ao mesmo tempo em que ainda busca construir, de forma consistente, instrumentos para organizar essa cadeia com processamento nacional, inovação e agregação de valor. O próprio governo federal vem reconhecendo esse desafio ao estruturar estudos para uma Estratégia Nacional de Terras Raras e ao apoiar projetos voltados à transformação de minerais estratégicos. 


A discussão, portanto, não é meramente mineral. É histórica. É econômica. É política. E, acima de tudo, é civilizatória.



O retorno do velho padrão colonial em nova embalagem


O problema brasileiro nunca foi apenas a escassez de recursos. Em muitos momentos da história nacional, o país teve abundância de ativos valiosos, mas careceu de um projeto capaz de converter riqueza natural em densidade produtiva, inovação e autonomia estratégica. A lógica colonial clássica era simples: a periferia exportava o bruto; o centro industrial transformava, patenteava, financiava, armava e lucrava. No fim da cadeia, quem tinha a mina não era necessariamente quem tinha o poder.


A tragédia brasileira é que essa engrenagem não desapareceu; ela apenas mudou de linguagem. Hoje, em vez de açúcar, ouro ou borracha, discute-se lítio, grafita, níquel, nióbio e terras raras. Em vez de impérios marítimos, entram em cena cadeias globais de suprimento, fundos de investimento, acordos tecnológicos e disputas entre potências. Mas o mecanismo de fundo continua reconhecível: quem controla a tecnologia, o refino, o financiamento e a indústria captura a parte mais nobre do valor.


É por isso que a simples notícia de que o Brasil possui grandes reservas não deveria produzir euforia automática. Riqueza mineral sem política industrial pode ser apenas uma promessa vazia. Pior: pode ser um atalho para uma nova rodada de especialização regressiva, em que o país se acomoda como exportador de insumos, enquanto outros concentram as etapas mais sofisticadas da cadeia.



Terras raras: o mineral invisível que sustenta o mundo visível


O nome “terras raras” engana. Não se trata apenas de um tema técnico para geólogos ou engenheiros de materiais. Trata-se de um componente silencioso, porém decisivo, da infraestrutura material do século XXI. Esses elementos entram em produtos que sustentam a eletrificação, a digitalização, a automação e a defesa. O que parece abstrato no noticiário se torna concreto no mundo real: turbinas, veículos elétricos, sistemas eletrônicos, redes energéticas, satélites, sensores e equipamentos militares dependem, em maior ou menor medida, desses insumos. 


Mas possuir o minério não equivale a dominar a cadeia. O ponto nevrálgico está no processamento, no refino e na manufatura de componentes avançados, especialmente ímãs permanentes. É justamente aí que a concentração internacional se torna mais delicada. Relatórios recentes apontam o peso dominante da China no refino de minerais críticos e, em particular, na cadeia das terras raras. Isso explica por que o debate sobre minerais estratégicos saiu do campo estritamente econômico e entrou de vez no vocabulário da segurança energética, industrial e geopolítica. 


Em outras palavras, a disputa não é apenas por quem extrai. É por quem transforma, certifica, financia, industrializa e impõe padrões. A mina, sozinha, não garante soberania.



O Brasil entre a abundância mineral e a fragilidade produtiva


O país chega a esse novo ciclo global em posição ambígua. De um lado, dispõe de base mineral robusta e de crescente atenção internacional. De outro, carrega as marcas de uma longa desarticulação industrial. A série histórica do Banco Mundial mostra que a participação do valor adicionado da manufatura no PIB brasileiro encolheu muito em relação aos níveis alcançados no auge da industrialização do século XX. Não se trata de nostalgia vazia, mas de um dado estrutural: economias que perdem densidade manufatureira tendem a perder também capacidade de inovação, encadeamentos produtivos e autonomia tecnológica. 


Esse processo não decorre de uma causa única. Houve mudanças tecnológicas globais, financeirização, abertura mal calibrada, reprimarização exportadora, fragilização da política industrial e dificuldades crônicas de coordenação estatal. Mas o resultado está à vista: o Brasil tornou-se mais vulnerável à armadilha de extrair muito e transformar pouco.


É nesse ponto que a discussão sobre terras raras ganha densidade estratégica. O país pode repetir a velha trajetória de embarcar minério e importar conhecimento embutido em máquinas, componentes e sistemas. Ou pode tentar romper esse ciclo, construindo capacidade interna de processamento, pesquisa aplicada, engenharia de materiais, formação de pessoal, financiamento de longo prazo e articulação entre Estado, universidades, empresas e centros tecnológicos.



Interesse nacional não é submissão a Washington nem a Pequim


Uma das armadilhas mais comuns do debate público brasileiro é imaginar que soberania signifique escolher um tutor externo. Troca-se a dependência de um polo pela dependência de outro e se chama isso de pragmatismo. Não é.


A nova geopolítica dos minerais críticos pressiona o Brasil a negociar com grandes potências e grandes mercados. Isso é inevitável. O que não é inevitável é aceitar acordos em que o país entra apenas com subsolo, água, energia e passivo ambiental, enquanto o exterior concentra tecnologia, propriedade intelectual e comando da cadeia. Uma estratégia séria de interesse nacional exige negociar com diferentes parceiros sem se converter em apêndice automático de ninguém.


Essa distinção é crucial. O debate não deve ser conduzido em termos infantis, como se a única escolha possível fosse “alinhamento aos Estados Unidos” ou “alinhamento à China”. Um país continental como o Brasil precisa operar com racionalidade estratégica, não com reflexo ideológico. Seu objetivo deveria ser simples de formular, ainda que difícil de executar: firmar parcerias que ampliem a capacidade nacional de decidir, produzir, pesquisar e agregar valor em território brasileiro.


Sem isso, “inserção internacional” vira apenas nome elegante para dependência atualizada.



O extrativismo moderno fala a linguagem da transição verde


Há ainda uma ironia que precisa ser exposta. Parte relevante da demanda por minerais críticos vem da chamada transição energética. Em tese, trata-se de uma agenda associada à descarbonização e ao futuro sustentável. Mas, quando observada do ponto de vista da periferia, essa transição pode reproduzir padrões bastante antigos: territórios do Sul global fornecem recursos; centros industriais e financeiros do Norte concentram conhecimento, patentes, poder de compra e as etapas de maior rentabilidade.


Isso significa que o problema não está na transição em si, mas em sua arquitetura geoeconômica. Um mundo que substitui dependência do petróleo por dependência concentrada de minerais críticos, sem democratizar tecnologia e valor agregado, não supera a hierarquia internacional; apenas a reorganiza.


Para o Brasil, isso exige lucidez. Não basta celebrar o fato de que o país “tem o que o mundo precisa”. Essa frase pode soar grandiosa, mas também pode esconder um risco. Muitos países já tiveram exatamente “o que o mundo precisava” e nem por isso saíram da periferia. A pergunta relevante não é se o mundo precisa do Brasil. A pergunta é se o Brasil será capaz de precisar menos do modelo que o condena a vender barato e comprar caro.



Reindustrializar a cadeia mineral é mais importante do que apenas ampliar a extração


Nos últimos meses, o Estado brasileiro passou a dar sinais de que compreendeu parte desse desafio. O Ministério de Minas e Energia iniciou estudos para a construção de uma Estratégia Nacional de Terras Raras. BNDES e Finep, por sua vez, lançaram e selecionaram projetos voltados à transformação de minerais estratégicos, com ênfase em cadeias como lítio, grafite, níquel, silício e terras raras. Essas iniciativas apontam para uma direção correta: o foco não pode ser apenas abrir mina, mas transformar mineral em indústria. 


O salto necessário, porém, é maior do que editais isolados. Ele pressupõe visão sistêmica. Terras raras não podem ser tratadas como um setor desconectado do restante da economia. A agenda exige infraestrutura energética, logística, política científica, refinamento regulatório, capacidade ambiental, compras públicas estratégicas, formação de engenheiros e técnicos, além de estabilidade institucional para investimento de longo prazo.


Não se trata de defender um Estado inchado e disperso, mas um Estado capaz de coordenar, induzir e selecionar prioridades. Países que hoje lideram cadeias industriais complexas não chegaram a essa posição por espontaneidade pura de mercado. Chegaram porque articularam poder público, planejamento, financiamento e tecnologia.



A soberania começa no processamento


Há uma ilusão recorrente no debate nacional: a de que soberania se mede apenas por discurso inflamado ou por demonstrações ocasionais de independência diplomática. Não. Soberania materializa-se na capacidade de fazer. Ela passa por laboratórios, refinarias, plantas industriais, centros de pesquisa, universidades, financiamento, engenharia, inteligência logística e domínio de etapas-chave da cadeia produtiva.


Nesse sentido, a questão das terras raras serve como teste. O país continuará aceitando o lugar histórico de exportador de potencial ou assumirá o custo de construir capacidade real? Porque capacidade real custa. Exige coordenação. Exige tempo. Exige política de Estado. E exige, sobretudo, romper com a mentalidade rentista que prefere o ganho rápido da extração ao trabalho paciente da transformação produtiva.


O debate sobre minerais críticos, portanto, deveria funcionar como espelho de uma pergunta mais profunda: o Brasil quer apenas participar do mercado mundial ou quer disputar, dentro dele, espaços mais altos de poder econômico e tecnológico?



O risco de perder a janela histórica


Toda janela estratégica tem prazo. À medida que as grandes potências reorganizam cadeias, assinam memorandos, financiam projetos, consolidam fornecedores e erguem barreiras tecnológicas, o espaço para movimentos tardios tende a diminuir. A recente aproximação entre Brasil e Índia em torno de terras raras e minerais críticos mostra que o tema já entrou, de forma concreta, no radar da política internacional brasileira. Mas acordos diplomáticos, sozinhos, não bastam. Sem base industrial e científica nacional, a diplomacia corre o risco de negociar ativos que o país ainda não controla plenamente. 


O Brasil vive, assim, uma situação paradoxal. Tem recursos estratégicos, atenção internacional e necessidade histórica de reindustrialização. Ao mesmo tempo, ainda enfrenta as consequências de décadas de fragilidade produtiva, dependência tecnológica e baixa coordenação entre mineração, indústria e ciência. Essa combinação pode gerar dois desfechos opostos: ou o país transforma a nova geopolítica mineral em plataforma de desenvolvimento, ou repete, em linguagem contemporânea, a velha condição de periferia extrativa.



Conclusão


O verdadeiro debate sobre terras raras não é mineralógico; é nacional. O ponto central não está apenas no subsolo, mas no projeto de país que se pretende construir sobre ele. Se o Brasil se limitar a ampliar a extração e celebrar sua abundância natural, poderá enriquecer poucos e fortalecer cadeias produtivas alheias. Se, porém, conseguir articular mineração, processamento, ciência, tecnologia e reindustrialização, terá a chance de converter recurso em poder produtivo e poder produtivo em soberania concreta.


A escolha histórica está colocada com nitidez rara. Em um mundo que reorganiza suas hierarquias em torno de minerais críticos, o Brasil pode voltar a cumprir o papel passivo de fornecedor de riqueza bruta para centros de decisão externos. Ou pode, enfim, aprender a transformar patrimônio natural em inteligência nacional. O nome dessa escolha não é ideologia. É interesse nacional.



Referências


AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA. Executive summary: Global Critical Minerals Outlook 2025. Paris: IEA, 2025. 


AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA. Global Critical Minerals Outlook 2025. Paris: IEA, 2025. 


BANCO MUNDIAL. Manufacturing, value added (% of GDP) - Brazil. Washington, DC: World Bank, 2026. 


BNDES. Com R$ 5 bi, BNDES e Finep apoiarão projetos para transformação de minerais estratégicos. Rio de Janeiro: BNDES, 2025. 


BNDES. BNDES e Finep concluem avaliação de propostas de chamada pública de projetos com foco em minerais estratégicos. Rio de Janeiro: BNDES, 2025. 


BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Minerais estratégicos para transição energética. Brasília: MME, 2025. 


BRASIL. Ministério de Minas e Energia. MME inicia estudos para construção da Estratégia Nacional de Terras Raras. Brasília: MME, 2026. 


BRASIL. Casa Civil. Estudo detalha panorama do potencial de minerais estratégicos no Brasil. Brasília: Casa Civil, 2026. 


FINEP. Com R$ 5 bi, Finep e BNDES apoiarão projetos para transformação de minerais estratégicos. Rio de Janeiro: Finep, 2025. 


FINEP. Finep e BNDES concluem avaliação de propostas da chamada de projetos de transformação de minerais estratégicos. Rio de Janeiro: Finep, 2025. 


IPEA. Brasil detém amplas reservas de minerais estratégicos, mas há espaço para expandir a produção. Brasília: Ipea, 2025. 


PWC BRASIL. Brazil in the age of critical minerals: a new energy order. São Paulo: PwC Brasil, 2025. 


ASSOCIATED PRESS. Brazil and India agree to boost cooperation on rare earths. 2026. 



Institutos Federais não são “pequenas universidades”: o erro conceitual, legal e político da crítica fiscalista

Reduzir os IFs a uma caricatura administrativa é desconhecer a lei, apagar sua função territorial e ignorar evidências concretas de transformação social no Brasil interior



No debate público brasileiro, há um vício recorrente: analisar instituições educacionais complexas como se fossem apenas centros de custo. Quando isso acontece, a planilha passa a valer mais do que a realidade, e a abstração fiscal passa a falar mais alto do que a vida concreta dos territórios. Foi exatamente esse o problema das declarações de Marcos Mendes sobre os Institutos Federais, feitas no contexto da proposta de ampliação de vagas para docentes e técnicos administrativos. Ao classificar os IFs como “pequenas universidades” — formulação que motivou reação pública do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif) —, o economista errou juridicamente, conceitualmente e simbolicamente. O próprio Conif afirmou que “declarações imprecisas não contribuem para a construção de soluções para o país” e ressaltou que os Institutos Federais transformam vidas e fortalecem o desenvolvimento econômico e social do Brasil (Conif, 2026). 


O ponto de partida da crítica precisa ser claro: não há problema algum em discutir gasto público, eficiência administrativa ou prioridades orçamentárias. O problema começa quando o debate abandona os fatos. E, nesse caso, os fatos são incômodos para qualquer leitura apressada. A Lei nº 11.892, de 29 de dezembro de 2008, que institui a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica e cria os Institutos Federais, não deixa margem para a tese de que os IFs sejam universidades em escala reduzida. A lei lhes atribui finalidades e características próprias: ofertar educação profissional e tecnológica em todos os níveis e modalidades; desenvolver a educação profissional e tecnológica como processo educativo e investigativo; promover integração entre educação básica, educação profissional e educação superior; orientar sua oferta formativa em benefício dos arranjos produtivos, sociais e culturais locais; e constituir-se como centros de excelência na oferta de ciências e de formação de professores (Brasil, 2008). 


Esse ponto é decisivo. Os Institutos Federais não foram pensados para imitar o desenho universitário clássico. Foram concebidos como instituições de educação profissional, científica e tecnológica, de base multicampi, capilaridade territorial e forte compromisso com a verticalização do ensino. A própria lei estabelece, no art. 8º, uma obrigação objetiva: no mínimo 50% das vagas devem ser destinadas à educação profissional técnica de nível médio, preferencialmente na forma integrada, e no mínimo 20% devem ser reservadas a cursos de licenciatura e programas especiais de formação pedagógica, com ênfase na formação de professores para a educação básica, especialmente nas áreas de ciências e matemática (Brasil, 2008). 


Portanto, chamar Instituto Federal de “pequena universidade” não é uma provocação inteligente. É uma definição tecnicamente errada. O erro não é meramente semântico. Quem define mal uma instituição, diagnostica mal sua função. E quem diagnostica mal sua função tende a propor soluções inadequadas para seus desafios.


Há ainda um segundo equívoco: tratar a ampliação de vagas para docentes e técnicos administrativos como se fosse, por definição, sinal de inchaço irracional. Em março de 2026, o Ministério da Educação informou que a Rede Federal conta atualmente com 686 unidades, incluindo 14 polos de inovação, oferta cerca de 10,1 mil cursos e atende 1,9 milhão de matrículas. O mesmo balanço registra um quadro de 43,3 mil docentes da carreira EBTT e 32.743 técnicos-administrativos em educação, além da expansão e consolidação da rede com 112 novos campi e centenas de obras de infraestrutura (MEC, 2026). 


Esses números, por si só, desmontam a crítica rasa. Não se trata de uma rede marginal, redundante ou ornamental. Trata-se de uma das principais estruturas públicas de formação técnica, científica e tecnológica do país. Em redes dessa dimensão, discutir vagas de docentes e técnicos não é falar apenas de folha de pagamento; é falar de funcionamento de laboratórios, atendimento estudantil, assistência, bibliotecas, setores de ensino, extensão, pesquisa aplicada, acessibilidade, planejamento, compras, infraestrutura, supervisão acadêmica e permanência estudantil. A figura do “gasto com pessoal”, isolada do cotidiano real da instituição, produz uma visão contábil mutilada da educação pública.


Esse reducionismo se agrava quando se ignora a dimensão territorial dos Institutos Federais. A política de expansão da Rede Federal não nasceu de capricho burocrático. Ela foi pensada para interiorizar oportunidades educacionais, reduzir desigualdades regionais e aproximar a formação profissional das necessidades locais. Estudo do Ipea sobre a expansão dos IFs mostrou que a política teve impactos estatisticamente significativos, sobretudo em municípios com menos de 70 mil habitantes. Entre os efeitos identificados, aparecem salário médio maior, menor taxa de desocupação, maior percentual de trabalhadores com nível superior e maior IDH. O estudo também encontrou, nos municípios pequenos que receberam campus, impacto da ordem de 28% de aumento do PIB per capita ao longo da década, além de efeito positivo sobre salários em campi mais amadurecidos no tempo (Faveri; Petterini; Barbosa, 2018). 


Esses dados não autorizam romantização. Mas também não permitem desprezo. Eles mostram que a presença de um Instituto Federal altera a dinâmica local. Em muitos municípios do interior, o campus não representa apenas mais um prédio público. Representa circulação de renda, atração de profissionais qualificados, elevação do capital humano, formação de professores, acesso a laboratórios, projetos de extensão, produção de soluções tecnológicas, estímulo ao empreendedorismo e ampliação concreta do horizonte de vida de jovens que, sem essa rede, estariam muito mais distantes de oportunidades educacionais de qualidade.


É justamente por isso que a fala também erra no plano simbólico. Quando uma figura pública com visibilidade nacional reduz os Institutos Federais a uma caricatura fiscal, não está apenas emitindo uma opinião discutível. Está ajudando a produzir deslegitimação social de uma política pública estratégica. A linguagem importa. No Brasil, desidratar uma instituição muitas vezes começa pelo vocabulário: primeiro se ridiculariza, depois se simplifica, em seguida se corta, e por fim se apresenta o sucateamento como prova de que a estrutura não funcionava. Ao falar dos IFs como se fossem uma deformação universitária ou um luxo administrativo, o discurso ajuda a corroer, no imaginário social, a legitimidade de uma rede que ampliou o acesso à educação pública federal em regiões historicamente negligenciadas.


Essa distorção fica ainda mais evidente quando se observa a própria natureza legal dos Institutos Federais. A lei de criação lhes atribui, simultaneamente, ensino, pesquisa aplicada e extensão, mas sempre sob a lógica da educação profissional e tecnológica, da verticalização e da vinculação territorial. A lei também lhes confere papel ativo no desenvolvimento local e regional, na produção e transferência de tecnologias sociais e na formação de professores. Não se trata, portanto, de uma instituição desenhada para competir simbolicamente com a universidade federal tradicional. Trata-se de uma arquitetura institucional distinta, voltada para integrar formação humana, trabalho, ciência e território (Brasil, 2008). 


Nesse contexto, a crítica de Marcos Mendes sofre de um problema de formação de objeto. Seu currículo mostra trajetória sólida em economia do setor público, finanças públicas, política fiscal e relações federativas, com graduação e mestrado pela Universidade de Brasília, doutorado pela USP, atuação na Consultoria Legislativa do Senado e vínculo com o Insper como pesquisador associado em políticas públicas (Mendes, s.d.). 


Isso merece reconhecimento. Mas precisamente por isso convém estabelecer os limites da especialidade. Formação robusta em economia fiscal não equivale a domínio sobre educação profissional e tecnológica, institucionalidade da Rede Federal, pedagogia da verticalização, papel territorial dos campi ou impactos socioterritoriais da interiorização da EPT. São campos relacionados, mas não idênticos. Um economista fiscal pode e deve opinar sobre gasto educacional; o que não pode fazer sem custo intelectual é transformar uma lente especializada em chave exclusiva de interpretação da realidade. Quando isso ocorre, a análise passa a enxergar somente despesa onde existem também funções públicas, externalidades territoriais, inclusão educacional e efeitos de desenvolvimento.


Dizer isso não é desqualificar sua trajetória. É apenas recordar um princípio elementar da honestidade intelectual: especialização não dispensa conhecimento do objeto específico. A crítica aos IFs, para ser séria, precisa considerar sua natureza jurídica, sua missão legal, sua composição social, sua presença territorial e as evidências empíricas já produzidas sobre seus efeitos. Sem isso, a análise se converte em opinião fiscalista aplicada a um campo que ela não estudou suficientemente.


É evidente que os Institutos Federais não são isentos de problemas. Em algumas regiões, há críticas legítimas quanto ao risco de afastamento da missão originária, excesso de valorização simbólica do ensino superior em detrimento da centralidade da educação técnica integrada, tensões internas sobre distribuição de carga docente e disputas institucionais de identidade. Esses debates são reais e precisam ser enfrentados com seriedade. Mas justamente por existirem questões internas complexas, torna-se ainda mais inadequado resumir toda a Rede a uma fórmula depreciativa. Onde houver desvio de foco, a resposta correta é recondução à lei e fortalecimento da identidade institucional — não a banalização do papel histórico dos IFs.


No fundo, o que está em disputa não é apenas a quantidade de vagas para docentes e técnicos administrativos. O que está em disputa é a própria ideia de Estado educador no interior do país. Há uma concepção segundo a qual instituições públicas só se justificam se couberem confortavelmente numa lógica de contenção fiscal de curto prazo. E há outra concepção, mais ampla, que reconhece que determinados investimentos públicos geram retornos que não podem ser medidos apenas no balanço anual, porque aparecem sob a forma de mobilidade social, desenvolvimento regional, formação cidadã, qualificação técnica, inovação territorial e redução de desigualdades.


Os Institutos Federais pertencem claramente a esse segundo campo. Eles não são perfeitos. Mas foram, e seguem sendo, uma das mais relevantes experiências de interiorização qualificada da educação pública federal no Brasil contemporâneo. Por isso, antes de classificá-los com fórmulas apressadas, seria mais prudente estudá-los. E antes de tratá-los como problema de folha, seria mais honesto reconhecê-los como parte da solução nacional para um país profundamente desigual.


A crítica pública precisa de rigor. Quando lhe falta conhecimento do objeto, sobra simplificação. E simplificar os Institutos Federais é errar o país.



Referências



BRASIL. Lei nº 11.892, de 29 de dezembro de 2008. Institui a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, cria os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2008. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11892.htm. Acesso em: 13 mar. 2026. 


CONIF. Conif esclarece informações sobre os Institutos Federais após declarações em programa da GloboNews. Brasília, DF: Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, 12 mar. 2026. Disponível em: https://portal.conif.org.br/geral/conif-esclarece-informacoes-sobre-os-institutos-federais-apos-declaracoes-em-programa-da-globonews. Acesso em: 13 mar. 2026. 


FAVERI, Dinorá Baldo de; PETTERINI, Francis Carlo; BARBOSA, Marcelo Ponte. Uma avaliação do impacto da política de expansão dos Institutos Federais nas economias dos municípios brasileiros. Brasília, DF: Ipea, 2018. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/items/68aaae41-f3aa-41e2-bd6a-01a9bffbc724. Acesso em: 13 mar. 2026. 


MEC. MEC destaca ações estratégicas para Rede Federal. Brasília, DF: Ministério da Educação, 4 mar. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2026/marco/mec-destaca-acoes-estrategicas-para-rede-federal. Acesso em: 13 mar. 2026. 


MENDES, Marcos. Bio. [S. l.]: Marcos Mendes, [s.d.]. Disponível em: https://sites.google.com/view/marcosmendes/bio. Acesso em: 13 mar. 2026.