quarta-feira, 25 de março de 2026

Entre o ultimato e o blefe: Por que a rejeição iraniana ao plano de 15 pontos expõe os limites da diplomacia coercitiva de Trump, as ambições estratégicas de Israel e a racionalidade defensiva de Teerã



Índice

  1. Lide
  2. O que se sabe, de fato, sobre a proposta americana
  3. Por que o Irã rejeitou o plano publicamente
  4. Donald Trump e a diplomacia do fato consumado
  5. Israel quer acordo ou quer prolongar a guerra?
  6. O cálculo estratégico do Irã
  7. Petróleo, opinião pública e custo político interno nos EUA
  8. O que está confirmado e o que ainda é hipótese
  9. Conclusão
  10. Referências




Lide



A recusa iraniana ao plano de 15 pontos apresentado pelos Estados Unidos não deve ser lida como simples irracionalidade diplomática, nem como prova de que não exista negociação em curso. O episódio revela algo mais profundo: a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã não é travada apenas com mísseis, drones e ameaças, mas também com narrativas, cronogramas e tentativas de enquadrar o adversário como derrotado antes mesmo do desfecho real do conflito. Washington tenta converter pressão militar em capitulação política; Teerã rejeita a submissão pública e preserva canais indiretos; Israel, por sua vez, demonstra pouca disposição para um encerramento rápido que interrompa sua vantagem operacional. O centro da crise, portanto, não está apenas no conteúdo do plano, mas na disputa sobre quem terá o poder de definir os termos da paz. 



1. O que se sabe, de fato, sobre a proposta americana



Até 25 de março de 2026, está solidamente reportado que os Estados Unidos enviaram ao Irã uma proposta de 15 pontos para encerrar o conflito, utilizando intermediários — com o Paquistão aparecendo em múltiplos relatos como um dos canais dessa transmissão. Também está confirmado que Donald Trump passou a afirmar publicamente que havia “pontos importantes de acordo” e que existiam conversas em andamento, enquanto Teerã negou negociações diretas e reagiu com forte hostilidade verbal à narrativa americana. 


O elemento decisivo, porém, é outro: o conteúdo integral dos 15 pontos não foi oficialmente divulgado pela Casa Branca. Em outras palavras, a existência do plano está confirmada, mas a descrição completa de cada item ainda depende de vazamentos, reconstruções jornalísticas e fontes com acesso indireto às negociações. Isso impõe um limite analítico importante. Não se pode tratar como documento plenamente público aquilo que, por ora, permanece parcialmente opaco. 


Esse detalhe muda muito a interpretação. Quando um plano existe, mas não é tornado público, ele cumpre dupla função: serve como instrumento diplomático real e, ao mesmo tempo, como artefato de pressão psicológica. A proposta deixa de ser apenas uma base de negociação e passa a operar como mensagem estratégica: “há uma saída disponível, mas sob os nossos termos”. É exatamente esse tipo de formulação que ajuda a explicar por que a resposta iraniana foi tão dura. 



2. Por que o Irã rejeitou o plano publicamente



A resposta oficial iraniana foi, no plano discursivo, inequívoca. Autoridades e veículos estatais afirmaram que não caberia aos Estados Unidos determinar quando e como a guerra terminaria; classificaram a iniciativa como excessiva, unilateral e, em certo sentido, enganosa; e sustentaram que Washington estaria “negociando consigo mesmo”. Essa linguagem não é casual. Ela busca impedir que a aceitação de qualquer canal indireto seja interpretada como rendição política. 


Há aqui uma lógica de soberania e de sobrevivência do regime. Para Teerã, aceitar publicamente um cronograma desenhado pela Casa Branca seria admitir inferioridade estratégica em plena guerra. Em regimes sob pressão militar, a forma da negociação importa quase tanto quanto o conteúdo. Não basta saber o que está sendo oferecido; importa quem aparece mandando, quem parece ceder e quem preserva a imagem de força diante da população, das Forças Armadas e dos aliados regionais. 


Ao mesmo tempo, a rejeição pública não significa necessariamente encerramento absoluto dos contatos. Pelo contrário: o próprio fato de autoridades iranianas responderem à existência de uma proposta sugere que houve recepção da mensagem e análise de seus termos. O que parece ocorrer é uma separação deliberada entre discurso externo e cálculo interno: em público, negação; nos bastidores, avaliação fria das alternativas. 



3. Donald Trump e a diplomacia do fato consumado



A conduta de Trump, nesse episódio, repete um traço já conhecido de sua atuação política: anunciar progresso, acordo ou convergência antes que esses elementos estejam plenamente consolidados. Trata-se de uma diplomacia de imposição narrativa, em que a fala presidencial tenta produzir a realidade que ainda não existe. Em vez de comunicar um acordo concluído, antecipa-se o acordo como mecanismo de pressão sobre aliados, adversários e mercados. 


Essa tática funciona melhor quando o outro lado está isolado, fragmentado ou militarmente colapsado. O problema para Washington é que o Irã, ao menos neste momento, não se percebe nessas condições. Mesmo sob forte ataque, Teerã parece acreditar que ainda tem capacidade de impor custos: pode prolongar o conflito, acionar milícias e aliados, atingir infraestrutura sensível e manter o risco permanente sobre energia e navegação regional. Um ator que ainda se julga capaz de punir o adversário tende a rejeitar negociações sob moldura de humilhação. 


Por isso, a fala de Trump pode ser lida menos como evidência de avanço diplomático e mais como instrumento de guerra política. Ao afirmar que há entendimento e que o Irã “quer muito fazer um acordo”, a Casa Branca tenta reduzir a margem iraniana de negação, acalmar mercados e apresentar liderança ao público interno americano. O problema é que, quando essa antecipação não encontra confirmação do outro lado, ela pode enfraquecer o próprio emissor e tornar o blefe visível. 



4. Israel quer acordo ou quer prolongar a guerra?



O ponto mais sensível da crise talvez esteja aqui. Fontes reportadas pela Reuters indicam que autoridades israelenses consideram improvável o sucesso das negociações, mesmo reconhecendo que Trump parece desejar um acordo. Mais do que isso: há sinais de que Israel foi surpreendido pelo envio do plano e não compartilha, no mesmo ritmo, a pressa americana por uma acomodação diplomática. 


A razão é estratégica. Para Israel, uma guerra interrompida cedo demais pode significar perda de oportunidade histórica para degradar capacidades militares, nucleares e políticas do Irã. Em linguagem simples: se Tel Aviv entende que ainda há alvos estratégicos relevantes a destruir, um cessar-fogo rápido pode parecer prematuro. Já os Estados Unidos, embora também pressionem militarmente, precisam calcular custos globais mais amplos: preço do petróleo, presença de tropas, estabilidade do Golfo e impacto político doméstico. 


Isso não significa ruptura entre Washington e Tel Aviv. Significa, antes, diferença de horizonte. Israel olha a guerra com foco prioritário na degradação do inimigo. Os Estados Unidos olham a guerra também como problema de gestão sistêmica: energia, alianças, mercados e eleições. A aliança existe, mas não elimina divergências sobre o momento exato de transformar vantagem militar em barganha diplomática. 



5. O cálculo estratégico do Irã



Teerã joga um jogo difícil, mas não irracional. Seu objetivo imediato não é “vencer” os Estados Unidos ou Israel em termos clássicos, e sim impedir que o conflito produza uma capitulação política visível. Em guerras assimétricas e prolongadas, resistir já é uma forma de poder. O Irã tenta demonstrar que ainda pode retaliar, manter linhas de pressão regionais e elevar o preço de qualquer tentativa de submissão. 


Além disso, o país sabe que o tempo pode trabalhar a seu favor em dois níveis. No plano regional, a continuidade do conflito amplia o desgaste humanitário, econômico e diplomático da guerra. No plano internacional, mantém viva a ameaça sobre cadeias energéticas e sobre o Estreito de Ormuz, convertendo geografia em instrumento político. Quando um país não consegue impor sua vontade pela superioridade absoluta, ele tenta impedir que o adversário encerre a guerra em condições confortáveis. É isso que Teerã parece fazer. 



6. Petróleo, opinião pública e custo político interno nos EUA



Nenhuma guerra no Golfo é apenas regional. O mercado de energia reage quase instantaneamente a cada sinal de escalada ou de descompressão. Reuters reportou oscilações fortes no petróleo conforme surgiam falas de Trump sobre possível acordo e, em seguida, negativas iranianas. Isso confirma que a diplomacia da guerra tem hoje um termômetro imediato: o preço da energia. 


Esse ponto é crucial para a política interna americana. Uma pesquisa Reuters/Ipsos publicada em 24 de março mostrou queda de aprovação de Trump para 36%, associada ao encarecimento dos combustíveis em meio ao conflito. Em levantamento anterior da mesma série, embora republicanos demonstrassem apoio relevante à linha dura contra o Irã, uma parcela expressiva já indicava menor disposição para sustentar a campanha caso ela implicasse mais baixas americanas. Em outras palavras: o apoio existe, mas não é infinito; ele depende do custo. 


É justamente por isso que a Casa Branca precisa vender força e promessa de solução ao mesmo tempo. Trump não pode parecer fraco diante do Irã, mas também não pode deixar que a guerra se converta em inflação energética, desgaste militar e punição eleitoral. Daí a oscilação entre ultimato e oferta: ameaça-se mais violência enquanto se apresenta um plano de encerramento. A contradição é apenas aparente; na verdade, faz parte do mesmo método de coerção. 



7. O que está confirmado e o que ainda é hipótese



O que está confirmado é o seguinte: houve uma proposta americana de 15 pontos; ela foi encaminhada por canais indiretos; o Irã rejeitou publicamente a narrativa de negociação direta; Washington insiste em apresentar a proposta como base possível para o fim da guerra; Israel não demonstra otimismo com uma solução rápida; e os EUA, simultaneamente, ampliam sua presença militar na região. 


O que ainda permanece no campo da hipótese ou da reconstrução jornalística é: o texto integral dos 15 pontos; o grau real de disposição iraniana para uma contraproposta; a extensão exata das divergências entre Washington e Tel Aviv; e a capacidade da guerra de reordenar, de forma duradoura, o apoio eleitoral a Trump e ao Partido Republicano. Esses elementos são plausíveis, alguns até prováveis, mas ainda não estão fechados documentalmente. 



Conclusão



A crise aberta pelo plano de 15 pontos mostra que o problema central não é apenas militar, mas político-simbólico. Os Estados Unidos tentam impor a paz como continuação da guerra por outros meios: primeiro pressionam, depois oferecem saída, mas querem preservar o direito de definir o momento e o formato do desfecho. Israel parece considerar que ainda não chegou a hora de parar, porque interromper a campanha agora pode significar deixar objetivos estratégicos inacabados. Já o Irã rejeita o enquadramento da derrota e aposta que resistir, prolongar custos e negar a submissão pública é sua melhor forma de preservar margem de manobra.


No fundo, o impasse revela três racionalidades distintas. Washington quer encerrar sem parecer derrotado pelo preço da guerra. Tel Aviv quer explorar ao máximo a vantagem militar antes de qualquer acomodação. Teerã quer evitar que a mesa de negociação seja apenas o nome diplomático da capitulação. Por isso, a proposta americana não fracassa apenas pelo seu conteúdo possível, mas pela arquitetura de poder que a sustenta. Em conflitos desse tipo, paz imposta demais parece ultimato; recusa absoluta demais parece encenação; e negociação real só começa quando nenhum dos lados consegue mais transformar narrativa em vitória.



Referências



REUTERS. Trump cites progress with Iran, US proposes plan to end war. 24 mar. 2026. 


REUTERS. Iran says it is reviewing US proposal but has no interest in holding talks. 25 mar. 2026. 


REUTERS. Trump says US has ‘major points of agreement’ in talks with Iran. 23 mar. 2026. 


REUTERS. Trump wants a deal with Iran but success of talks unlikely, Israeli officials say. 24 mar. 2026. 


REUTERS. Trump to hit Iran harder if Tehran does not accept defeat, White House says. 25 mar. 2026. 


REUTERS. US expected to send thousands more soldiers to Middle East, sources say. 24 mar. 2026. 


REUTERS. Oil pares gains after reports of US plan aimed at ending the Middle East war. 24 mar. 2026. 


REUTERS. Oil prices drop 2% as Iran considers US proposal to end war. 24 mar. 2026. 


REUTERS. Exclusive: Trump’s approval hits new 36% low as fuel prices surge amid Iran war, Reuters/Ipsos poll finds. 24 mar. 2026. 


REUTERS. Just one in four Americans say they back US strikes on Iran, Reuters/Ipsos poll finds. 1 mar. 2026. 


PRESS TV. Iran rejects Trump’s claim, confirms no talks held with US amid ongoing war. 23 mar. 2026. 


ABC NEWS AUSTRALIA. Trump administration offers 15-point ceasefire plan to Iran. 25 mar. 2026. 



Trump, Ormuz e a ilusão da vitória - O comentário de Lawrence O’Donnell acerta no essencial: sem estratégia, bravata militar não produz paz, nem poder duradouro

 


Índice

  1. Lide
  2. O ponto central da crítica de Lawrence O’Donnell
  3. O que está confirmado, o que é interpretação e o que ainda é disputa narrativa
  4. O Estreito de Ormuz: a guerra para “controlar” o que já estava aberto
  5. Irã não é teatro de operação simples
  6. O erro clássico: confundir ação tática com resultado estratégico
  7. Mercado, petróleo e política doméstica: a guerra também passa por Wall Street
  8. A retórica de vitória como técnica de recuo
  9. Conclusão
  10. Referências



Lide


A análise apresentada por Lawrence O’Donnell sobre Donald Trump e o conflito com o Irã é dura, mas toca num ponto que a história militar e a geopolítica conhecem bem: guerras podem começar com slogans, porém não terminam por marketing. Nas últimas semanas, Trump alternou ameaças, anúncios de ultimato, alegações de que o Irã “quer acordo” e, depois, insinuações de que já teria alcançado algum tipo de êxito. Enquanto isso, Teerã negou tratativas em vários momentos, o Estreito de Ormuz virou foco de tensão global e o mercado de energia reagiu de forma imediata à possibilidade de escalada ou distensão. O núcleo da crítica de O’Donnell, portanto, não está no tom televisivo de sua fala, mas numa questão mais profunda: quando falta estratégia política, até mesmo ganhos militares pontuais podem se transformar em derrota histórica. 



O ponto central da crítica de Lawrence O’Donnell



A parte mais consistente da leitura de O’Donnell está na denúncia de uma contradição: Trump tenta vender a imagem de comandante absoluto do cenário, mas os fatos recentes mostram uma postura oscilante, reativa e politicamente pressionada. O próprio ecossistema da MSNBC resumiu esse enquadramento ao apresentar um segmento em que O’Donnell descreve Trump como alguém tentando sair de uma guerra que afirma já ter vencido, soando como uma figura “mimada” e incoerente diante do problema que ajudou a criar. Ainda que esse enquadramento tenha carga opinativa, ele coincide com a sequência factual registrada por Reuters e Associated Press: ameaças máximas, prazo para reabrir Ormuz, adiamento de escalada contra infraestrutura iraniana e afirmações públicas de que haveria conversas que o Irã, por sua vez, negou. 


Em outras palavras, O’Donnell pode exagerar no estilo, mas acerta no diagnóstico estrutural: a comunicação de Trump sobre o conflito não transmite doutrina estratégica; transmite improviso. E improviso, em guerra, custa caro. Quando a mensagem oscila entre “estou vencendo”, “o inimigo quer negociar”, “vou dar mais cinco dias” e “recebi um presente maravilhoso”, a liderança deixa de parecer calculada e passa a parecer dependente do noticiário do dia e da reação dos mercados. Reuters relatou exatamente esse nexo entre a fala de Trump, a expectativa de talks e a forte correção nos preços do petróleo. 



O que está confirmado, o que é interpretação e o que ainda é disputa narrativa



Convém separar três planos.


O primeiro plano é o dos fatos amplamente reportados: houve escalada militar; o Estreito de Ormuz tornou-se eixo central da crise; Trump afirmou publicamente que o Irã queria acordo; autoridades iranianas desmentiram, ao menos em parte, a existência ou a sinceridade dessas tratativas; e o mercado de petróleo reagiu imediatamente a cada sinal de guerra ou de recuo. Isso está bem documentado por Reuters e AP. 


O segundo plano é interpretativo: dizer que Trump age como “criança mimada”, “desesperado por qualquer vitória” ou “mentindo para justificar retirada” é comentário político, não dado empírico fechado. Pode ser uma inferência plausível, mas continua sendo inferência. O jornalismo opinativo tem o direito de fazê-la; o leitor rigoroso, porém, deve distingui-la do fato verificável. 


O terceiro plano é o da disputa narrativa. Trump tenta enquadrar qualquer recuo como parte de uma inteligência superior de negociação. O Irã, por sua vez, busca demonstrar que não aceita que Washington dite o ritmo nem os termos do encerramento do conflito. Nesse ponto, a informação não é apenas descrição do real; ela já faz parte da própria guerra. Quem anuncia conversa tenta sinalizar controle. Quem desmente conversa tenta sinalizar soberania. Não se trata apenas de diplomacia: trata-se de dramaturgia geopolítica. 



O Estreito de Ormuz: a guerra para “controlar” o que já estava aberto



Aqui está talvez a ironia mais poderosa captada por O’Donnell. O Estreito de Ormuz é uma das passagens marítimas mais estratégicas do mundo para o fluxo de petróleo e gás. Antes da escalada, a questão central não era “conquistar” uma via inexistente, mas preservar a navegabilidade de uma rota vital para a economia global. A guerra, portanto, não abriu um corredor bloqueado; ao contrário, transformou uma passagem funcional em um gargalo de alto risco. É exatamente isso que aparece no noticiário recente: ameaças iranianas de fechamento completo, tentativas americanas de montar coalizão para policiar a área e forte nervosismo nos mercados energéticos. 


Daí a força do argumento: se o resultado prático da ofensiva é tornar instável uma rota que já era estratégica e operacional, a ação não pode ser automaticamente narrada como êxito. Ela pode, na verdade, representar o oposto: a produção artificial de um problema cuja “solução” passa a ser vendida como vitória. Esse é um mecanismo clássico de liderança personalista: criar o incêndio, depois posar como bombeiro. 


Rachel Maddow, em outra análise recente, resumiu esse mesmo eixo ao afirmar que o “fast talk” e o gaslighting de Trump não mudam a realidade do caos que ele ajudou a produzir em Ormuz. Ainda que venha de um espaço opinativo, a formulação ajuda a explicar por que a retórica de controle não elimina o dado material: a crise da rota marítima é, em grande medida, produto da própria escalada. 



Irã não é teatro de operação simples



Outro aspecto relevante da fala de O’Donnell é o alerta contra fantasias de vitória rápida. O Irã não é um ator pequeno, periférico ou militarmente irrelevante. O país tinha população de 91,6 milhões em 2024, segundo o Banco Mundial, e a estimativa do UNFPA para 2025 o coloca em torno de 92,4 milhões. Trata-se de um Estado territorialmente amplo, demograficamente expressivo e dotado de forças armadas numerosas. O IISS, por meio do The Military Balance 2025, aponta cerca de 610 mil militares ativos iranianos; análises recentes baseadas nesse mesmo relatório repetem ordem de grandeza semelhante. 


Ao mesmo tempo, é preciso corrigir uma simplificação comum no debate televisivo. Comparar o efetivo iraniano apenas com o U.S. Army pode distorcer o quadro, porque o poder dos EUA não se resume ao Exército terrestre. Dados compilados a partir do DMDC mostram cerca de 1,32 a 1,34 milhão de militares da ativa nas Forças Armadas dos Estados Unidos em 2025, além de componentes da reserva e guarda nacional. Isso não anula o ponto central de O’Donnell; apenas o torna mais preciso. O problema não é que os EUA “tenham menos gente” em termos absolutos. O problema é outro: transformar superioridade tecnológica e capacidade global em controle político sustentável sobre um país do porte do Irã é tarefa muito mais difícil do que a retórica de campanha sugere. 


A história militar recente reforça essa cautela. O Vietnã permanece como lembrança incômoda de que superioridade material não garante submissão política do adversário. Não é que Irã e Vietnã sejam casos idênticos; não são. O ponto é mais sóbrio: guerras assimétricas e conflitos prolongados humilham a arrogância das potências quando objetivos políticos são mal definidos. O’Donnell recorre a essa memória precisamente para desmoralizar a fantasia de vitória automática. E, nesse aspecto, sua crítica tem fundamento histórico, ainda que formulada em linguagem televisiva. 



O erro clássico: confundir ação tática com resultado estratégico



Esse é o coração do problema. Guerra não é soma de explosões. Guerra é relação entre meios militares e fins políticos. A frase atribuída ao general James Mattis — de que a escolha de alvos não compensa a falta de estratégia — circula amplamente no debate, embora eu não tenha localizado, nesta checagem, a fonte primária exata dessa formulação. Ainda assim, a ideia em si é correta e clássica: acertar alvos não responde, por si, às perguntas decisivas. Qual é o objetivo político final? Reabrir Ormuz? Derrubar o regime? Forçar rendição? Destruir capacidade militar específica? Imponer dissuasão? Sair preservando prestígio doméstico? Sem resposta clara, o poder de fogo vira ruído caro. 


É aqui que a crítica de O’Donnell ultrapassa a persona Trump e toca um problema mais profundo da política externa americana contemporânea: a tentação de substituir pensamento estratégico por performance. A operação militar vira espetáculo; a diplomacia vira anúncio; a vitória vira narrativa antes de virar realidade. Só que navios, preços, alianças, opinião pública e capacidade de resistência do inimigo não obedecem ao ciclo das redes sociais. A materialidade da geopolítica é menos maleável do que o marketing eleitoral. 



Mercado, petróleo e política doméstica: a guerra também passa por Wall Street



O’Donnell também sugere que Trump moderou o discurso porque sabe que mercado, petróleo e eleitores não querem guerra longa. Essa inferência é plausível e encontra eco no comportamento observado dos preços. Reuters registrou queda expressiva do petróleo depois que Trump adiou ataques contra infraestrutura energética iraniana e falou em conversas para resolver as hostilidades. O mercado leu recuo, não triunfo. E essa diferença é decisiva: enquanto a retórica política tenta enquadrar o momento como força, os preços muitas vezes revelam que os agentes econômicos estão precificando alívio diante da possibilidade de desescalada. 


Num conflito como esse, petróleo não é detalhe; é termômetro e motor. Se o preço dispara, pressiona inflação, afeta combustível, frete, cadeias produtivas e humor do eleitorado. Se cai por sinal de negociação, o sistema político percebe rapidamente. Isso ajuda a entender por que a linguagem presidencial, em tais crises, raramente é apenas militar. Ela é também financeira, eleitoral e comunicacional. O presidente não fala apenas para generais e chanceleres; fala para investidores, consumidores e para o cidadão comum que vai sentir o preço na bomba e no supermercado. 



A retórica de vitória como técnica de recuo



Há um padrão recorrente em lideranças personalistas: quando escalar demais se torna arriscado, a saída preferida é declarar vitória antes que a realidade imponha o reconhecimento do impasse. Isso não é exclusividade de Trump, mas nele o mecanismo parece particularmente visível. Reuters e AP registraram o movimento simultâneo de ameaça, postergação, insinuação de talks e autodescrição de progresso. O gesto político é transparente: reembalar o recuo como triunfo tático. 


Lawrence O’Donnell, nesse ponto, faz uma leitura mordaz, mas intelectualmente defensável. Quando um líder precisa transformar a passagem de um petroleiro, uma janela de cinco dias ou uma conversa não confirmada em prova grandiosa de êxito, talvez não esteja acumulando vitórias reais, e sim buscando símbolos mínimos que o protejam da imagem de fracasso. Em política, isso pode funcionar por algum tempo. Em estratégia internacional, raramente funciona por muito. A realidade volta: o estreito continua vulnerável, o adversário continua existindo, a coalizão continua incerta e o custo econômico continua pesando. 



Conclusão



A análise de Lawrence O’Donnell não deve ser lida como relatório militar, mas como crítica político-estratégica. E, nesse terreno, ela acerta mais do que erra. O’Donnell exagera no retrato psicológico de Trump, mas identifica corretamente a contradição fundamental do momento: uma liderança que quer parecer onipotente, embora esteja presa aos limites concretos da geografia, da demografia, da energia, dos mercados e da própria história das guerras mal planejadas. O Estreito de Ormuz sintetiza esse impasse de forma quase didática. Não se trata de conquistar um vazio; trata-se de restaurar a normalidade de uma rota cuja estabilidade foi corroída pela própria escalada. O Irã, por sua vez, não cabe em slogans de vitória instantânea. É grande demais, complexo demais e estrategicamente denso demais para ser reduzido à lógica simplista do anúncio presidencial.


No fim, a crítica mais séria não é moral nem temperamental. É estratégica. Trump pode proclamar controle, progresso ou vitória. Mas, sem objetivo político coerente, sem coalizão robusta, sem definição clara do que seria “vencer” e sob pressão permanente do petróleo, do mercado e do eleitorado, a retórica transforma-se em substituto precário da estratégia. E quando a retórica substitui a estratégia, a potência continua armada, mas deixa de parecer no comando da história.



Referências



ASSOCIATED PRESS. Trump says that he’s asked ‘about 7’ countries to join coalition to police Iran’s Strait of Hormuz. AP News, 16 mar. 2026. Disponível em: AP News. Acesso em: 25 mar. 2026. 


ASSOCIATED PRESS. Iran threatens to ‘completely’ close Strait of Hormuz and hit power plants after Trump ultimatum. AP News, 22 mar. 2026. Disponível em: AP News. Acesso em: 25 mar. 2026. 


ASSOCIATED PRESS. Trump says Iran is eager for a deal to end the war. AP News, 23 mar. 2026. Disponível em: AP News. Acesso em: 25 mar. 2026. 


ASSOCIATED PRESS. Trump’s changing course on Strait of Hormuz strategy. AP News, 22 mar. 2026. Disponível em: AP News. Acesso em: 25 mar. 2026. 


INTERNATIONAL INSTITUTE FOR STRATEGIC STUDIES. The Military Balance 2025. Londres: IISS, 2025. Disponível em: IISS. Acesso em: 25 mar. 2026. 


MS NOW. The Last Word. 2026. Disponível em: MS NOW. Acesso em: 25 mar. 2026. 


PEW RESEARCH CENTER. 6 facts about the U.S. military. Washington, 6 jun. 2025. Disponível em: Pew Research Center. Acesso em: 25 mar. 2026. 


REUTERS. Oil prices rise after US-Iran threaten hit energy targets; later plunge on talks signal. Reuters, 22-23 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 25 mar. 2026. 


REUTERS. US and Iran give conflicting messages on talks after Trump postpones threatened bombing of power grid. Reuters, 23 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 25 mar. 2026. 


REUTERS. Trump cites progress with Iran, US proposes plan to end war. Reuters, 24 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 25 mar. 2026. 


REUTERS. Trump says Iran made a major energy-related gift to the US. Reuters, 24 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 25 mar. 2026. 


REUTERS. US weighs military reinforcements as Iran war enters possible new phase. Reuters, 18-19 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 25 mar. 2026. 


UNFPA. Iran, Islamic Republic of Population 2025. 2025. Disponível em: UNFPA. Acesso em: 25 mar. 2026. 


USAFacts. How many troops are in the US military? Atualizado em 5 mar. 2026. Disponível em: USAFacts. Acesso em: 25 mar. 2026. 


WORLD BANK. Iran, Islamic Rep.: Population, total. 2024. Disponível em: World Bank Data. Acesso em: 25 mar. 2026.