domingo, 29 de março de 2026

Inteligência Artificial e eleições de 2026: a nova fronteira da manipulação política no Brasil

Entre deepfakes, segmentação algorítmica e opacidade das plataformas, a democracia brasileira entra na campanha sob o risco de uma erosão silenciosa da autonomia do voto



Há momentos em que uma democracia não começa a se perder no ato visível da ruptura, mas no gesto quase imperceptível da deformação. Não é o colapso barulhento que chega primeiro. É a corrosão silenciosa do ambiente em que as pessoas pensam, sentem, escolhem e julgam. A eleição brasileira de 2026 se aproxima exatamente sob esse signo. O país continua com urnas eletrônicas robustas, rito institucional consolidado e Justiça Eleitoral experiente. Mas a pergunta decisiva já não está apenas na segurança da apuração. Ela está, cada vez mais, na integridade invisível da formação da vontade política.


A Inteligência Artificial transformou esse problema em algo mais agudo, mais veloz e mais sofisticado. Pela primeira vez, o Brasil entra em um ciclo eleitoral no qual sistemas de geração sintética, segmentação automatizada, otimização de linguagem e amplificação algorítmica deixam de ser apenas ferramentas periféricas e passam a compor o centro da disputa política. Não se trata de futurismo. O próprio Tribunal Superior Eleitoral regulamentou, em março de 2026, o uso de IA no processo eleitoral, publicou as resoluções do pleito e reconheceu, em termos institucionais, que a tecnologia já se tornou variável central da integridade democrática. O Senado também apresentou material explicativo sobre as novas regras, e o Conselho de Comunicação Social anunciou debate específico sobre desinformação e IA nas eleições deste ano (Brasil, 2026a; Brasil, 2026b; Brasil, 2026c).


O ponto central, porém, é que o problema não se resume aos deepfakes mais caricatos, aos vídeos fraudulentos ou às montagens mais escandalosas. Esse é o lado chamativo do fenômeno, mas não necessariamente o mais perigoso. O risco mais profundo é estrutural. Está na capacidade crescente de sistemas digitais organizarem atenção, refinarem narrativas, testarem estímulos emocionais, personalizarem mensagens e produzirem ambientes perceptivos diferentes para públicos distintos. Em vez de uma mentira única lançada para todos, surge uma arquitetura de persuasão calibrada para muitos. Em vez do panfleto grosseiro, entra em cena a engenharia fina da influência.


É aí que o debate precisa amadurecer. A ameaça democrática contemporânea já não está apenas na falsidade explícita. Ela está na customização da realidade política. Está na distribuição desigual de estímulos, medos, ressentimentos e crenças. Está na possibilidade de que grupos diferentes passem a viver campanhas distintas, recebendo versões igualmente funcionais, mas politicamente assimétricas, do mundo comum. Quando isso acontece, a esfera pública deixa de ser apenas conflitiva — o que é normal em qualquer democracia — e começa a se tornar fragmentada em circuitos de indução comportamental.



O que mudou em 2026



A principal novidade de 2026 é que a institucionalidade brasileira deixou de tratar a Inteligência Artificial como tema lateral e passou a reconhecê-la como problema eleitoral central. O TSE aprovou o calendário do pleito e regulamentou o uso de IA, além de publicar, poucos dias depois, o conjunto das resoluções que orientarão as eleições. O Senado, ao explicar o conteúdo dessas normas, foi explícito ao afirmar que o objetivo é garantir que a tecnologia seja aliada, e não ameaça, à democracia. E o Conselho de Comunicação Social indicou que a combinação entre fake news e IA já se tornou tema prioritário da agenda pública nacional (Brasil, 2026a; Brasil, 2026b; Brasil, 2026c; Brasil, 2026d).


Essa movimentação institucional é correta e necessária. Ela mostra que o Estado brasileiro percebeu que a eleição de 2026 não será disputada apenas por partidos, candidatos, alianças e programas, mas também por sistemas de circulação, recomendação e amplificação de conteúdos. É um avanço importante. Durante muito tempo, o debate eleitoral ainda se comportou como se bastasse combater boatos isolados e remover peças fraudulentas mais evidentes. Agora, ao menos em parte, o diagnóstico começa a tocar a estrutura do problema.


Mas reconhecer não é o mesmo que resolver. A regulação alcança melhor aquilo que consegue nomear juridicamente. Ela atua com mais precisão sobre o conteúdo identificável do que sobre a lógica infraestrutural que o distribui. Consegue proibir certos usos, retirar peças específicas do ar, impor deveres formais e delimitar responsabilidades. O que faz com muito mais dificuldade é penetrar na caixa-preta dos sistemas de recomendação, do microdirecionamento, da personalização estratégica de mensagens e da otimização contínua de estímulos emocionais. Em linguagem simples: a norma alcança com mais facilidade a superfície visível da manipulação do que o subterrâneo técnico que a torna eficaz.



O erro de olhar apenas para o deepfake



O debate público costuma ficar fascinado com a imagem mais espetacular do problema. Um candidato falsificado em vídeo. Uma voz sintética simulando uma autoridade. Uma montagem hiper-realista produzida para enganar. Nada disso deve ser subestimado. Mas concentrar toda a atenção aí é como olhar apenas para a fumaça e ignorar a estrutura do incêndio.


Uma campanha politicamente agressiva não precisa necessariamente inventar um fato inexistente para produzir dano. Ela pode operar com fragmentos verdadeiros, contextos mutilados, associações enviesadas, ênfases emocionais calculadas e mensagens feitas sob medida para públicos específicos. Pode mobilizar medo em uma audiência, indignação moral em outra, ressentimento econômico em uma terceira e descrença institucional em uma quarta. Pode testar milhares de formulações discursivas, medir reação, ajustar tom e reaplicar em velocidade industrial. Tudo isso sem depender, obrigatoriamente, da fraude visual extrema que domina as manchetes.


É precisamente nesse ponto que a Inteligência Artificial altera qualitativamente a disputa política. Ela reduz custo de produção, amplia escala de difusão, acelera variações de linguagem e torna mais simples adaptar mensagens a nichos psicologicamente distintos. A propaganda clássica falava para massas. A propaganda assistida por IA fala para perfis. A primeira pressupunha alguma estabilidade narrativa. A segunda trabalha com mutação permanente, tentando descobrir, quase em tempo real, qual combinação de linguagem, afeto e oportunidade produz mais adesão, mais rejeição ou mais apatia.


A consequência é severa. O eleitor deixa de ser apenas receptor de propaganda e passa a ser objeto de leitura, classificação e indução. A política já não disputa somente convencimento; disputa previsibilidade comportamental.



A democracia continua com urna segura, mas pode ter vontade sitiada



Durante anos, a defesa da segurança do sistema eletrônico de votação ocupou, com razão, posição central no debate democrático brasileiro. Essa defesa continua indispensável. O problema é imaginar que ela esgota a questão. Não esgota. A urna pode continuar íntegra e, ainda assim, o processo de formação da escolha política pode tornar-se cada vez mais vulnerável.


Esse é o paradoxo do presente. A contagem dos votos pode seguir confiável, mas as condições que antecedem o voto podem ser progressivamente corroídas por uma ecologia informacional assimétrica, opaca e orientada por interesses que escapam à deliberação pública. A ameaça desloca-se da fraude material para a indução perceptiva. Sai do momento final da apuração e entra no longo processo anterior de produção da crença, do medo, da plausibilidade e da disposição para aderir ou rejeitar determinados projetos políticos.


Essa mudança deveria ser suficiente para redesenhar a gramática do debate público. Já não basta perguntar se o resultado será respeitado. É preciso perguntar em que condições cognitivas, comunicacionais e afetivas esse resultado foi produzido. Democracia não é apenas procedimento. Democracia também é ecologia da deliberação. Se essa ecologia se converte em ambiente de manipulação estatística e segmentada, o voto segue existindo formalmente, mas a autonomia que deveria sustentá-lo começa a ser cercada por fora.



A desigualdade política entra na era infraestrutural



Há outro aspecto menos debatido e talvez ainda mais preocupante. A Inteligência Artificial tende a aprofundar desigualdades políticas já existentes, mas agora em uma camada nova: a da infraestrutura da influência. Em toda eleição, alguns atores dispõem de mais recursos, mais estrutura, mais alcance e mais capacidade de comunicação. Isso não é novidade. O que muda com a IA é a qualidade dessa vantagem.


Quem tem acesso superior a dados, capacidade de segmentação, automação de campanhas, testes em larga escala e leitura fina de comportamento entra na disputa com um poder muito mais sofisticado do que o mero poder publicitário tradicional. Não se trata apenas de falar mais alto. Trata-se de falar de forma mais ajustada à vulnerabilidade específica de cada audiência. Trata-se de prever melhor, adaptar mais rápido e influenciar com menor gasto visível. O desequilíbrio deixa de ser só econômico ou partidário; torna-se técnico, estatístico e infraestrutural.


Esse ponto merece atenção porque a desigualdade, nesse caso, pode crescer sem chamar tanta atenção. O jogo continua parecendo aberto, mas as condições reais de disputa tornam-se menos transparentes. Alguns atores passam a operar com uma espécie de inteligência de campanha ampliada, enquanto outros permanecem presos a instrumentos mais rudimentares. Em um ambiente político polarizado e emocionalmente saturado, essa assimetria pode fazer diferença decisiva.



O espaço público já não é o mesmo



A esfera pública democrática sempre foi imperfeita. Sempre conviveu com poder econômico, desigualdades de voz, concentração midiática, manipulação e propaganda. Nada disso começou com a internet, muito menos com a IA. O erro analítico está em supor, por causa disso, que nada mudou de maneira substancial. Mudou. E mudou muito.


O que se altera agora é o modo como a percepção coletiva é organizada. Em vez de um debate relativamente compartilhado, ainda que atravessado por disputas ideológicas, tende a crescer um ambiente em que diferentes segmentos da população são expostos a trilhas narrativas distintas, com ritmos, intensidades e estímulos específicos. A experiência política se fragmenta. A realidade pública deixa de ser apenas disputada e passa a ser distribuída diferencialmente. Cada grupo recebe não só argumentos diferentes, mas estruturas distintas de plausibilidade.


Essa transformação é especialmente grave em sociedades já tensionadas por desigualdade, ressentimento social, fadiga institucional e polarização identitária. Nesses contextos, a IA não cria sozinha o caos político, mas pode funcionar como multiplicadora de vulnerabilidades já existentes. Ela potencializa o que encontra: medos, fraturas, crenças, ansiedades, hostilidades e repertórios de desconfiança.



O desafio não é apenas regular conteúdo, mas iluminar sistemas



A resposta pública mais imediata costuma ser regulatória, e isso é compreensível. Sem norma, a democracia fica desarmada. Mas a regulação de conteúdo, embora necessária, é insuficiente se não vier acompanhada de esforço mais amplo de transparência algorítmica, rastreabilidade de impulsionamento, auditoria de sistemas de recomendação e responsabilização efetiva de plataformas.


O problema não é só o conteúdo que aparece; é a lógica que decide sua circulação. Não é só a peça falsa; é a estrutura que premia aquilo que mais engaja, independentemente do dano público que provoca. Não é só o discurso sintético; é a arquitetura inteira que acelera sua disseminação, o encaixa em perfis específicos e o reapresenta no momento de maior vulnerabilidade emocional.


Sem algum grau de visibilidade sobre esses mecanismos, o debate democrático continuará combatendo sintomas enquanto a lógica profunda da desordem permanece ativa. Será sempre uma corrida atrasada, sempre uma reação posterior, sempre um esforço de conter o efeito quando a causa já se reorganizou.



2026 será um teste para a inteligência institucional do país



A eleição de 2026 não será apenas um teste para candidatos e partidos. Será um teste para o Estado, para a imprensa, para a academia, para a sociedade civil e para a própria cidadania democrática. O país precisará decidir se vai continuar tratando a desinformação como uma coleção de episódios isolados ou se finalmente reconhecerá que ela já se fundiu a uma transformação mais ampla da infraestrutura do poder político.


A imprensa, por exemplo, terá de ir além da cobertura reativa da peça viral. Precisará examinar padrões, modos de entrega, contextos de segmentação, estratégias de repetição e engenharia da visibilidade. A academia terá de abandonar parte do fascínio abstrato pelo termo “Inteligência Artificial” e tratar com mais seriedade seu uso concreto como tecnologia de poder. O Estado precisará combinar normatividade, capacidade técnica e coragem política. E o eleitor, por sua vez, terá de reaprender a desconfiar não só do que vê, mas também do modo como certas coisas lhe chegam.


A alfabetização democrática do presente já não pode ser apenas verificação de fatos. Ela precisa incluir compreensão de arquitetura digital. A pergunta não é só “isso é verdade?”. A pergunta passa a ser também “por que isso apareceu para mim, agora, desse modo, com esse tom, nesse fluxo e neste contexto?”.



Conclusão



A grande ameaça eleitoral de 2026 não está apenas na mentira mais visível. Está na capacidade de sistemas opacos moldarem o terreno mental sobre o qual a política será disputada. Está na possibilidade de que a sociedade continue olhando para a peça falsa, enquanto a verdadeira transformação ocorre no nível mais profundo: o da organização algorítmica da atenção, da emoção e da plausibilidade pública.


O Brasil agiu ao perceber parte do problema. O TSE regulamentou. O Senado explicou. O debate institucional avançou. Mas ainda existe uma distância perigosa entre identificar a existência do risco e enfrentá-lo em sua escala real. O que está em jogo não é apenas a lisura formal da eleição. É a liberdade interior do voto. É a autonomia do juízo político. É a preservação de um espaço público no qual divergências continuem sendo produzidas por disputa aberta de ideias, e não por trilhas invisíveis de indução comportamental (Brasil, 2026a; Brasil, 2026b; Brasil, 2026c).


A pergunta correta para 2026, portanto, não é somente quem vencerá a eleição. A pergunta cirúrgica é outra: o Brasil ainda escolherá seus governantes em um ambiente democrático reconhecível ou começará a transferir, sem perceber, parcelas crescentes da formação da vontade popular para sistemas privados de manipulação perceptiva?


Se essa pergunta for evitada, o país correrá o risco de celebrar a integridade da urna no exato momento em que a liberdade do eleitor começa a ser sitiada antes dela.



Referências



Brasil. Câmara dos Deputados. Conselho de Comunicação Social vai debater combate à desinformação nas eleições de 2026. Brasília: Câmara dos Deputados, 2026. Disponível em: portal da Câmara dos Deputados. Acesso em: 28 mar. 2026. 


Brasil. Senado Federal. Inteligência artificial nas eleições? Veja o que ficou decidido pelo TSE. Brasília: Senado Federal, 2026. Disponível em: portal Senado Verifica. Acesso em: 28 mar. 2026. 


Brasil. Tribunal Superior Eleitoral. TSE aprova calendário eleitoral e regulamenta uso de IA nas eleições de 2026. Brasília: TSE, 2026. Disponível em: portal do TSE. Acesso em: 28 mar. 2026. 


Brasil. Tribunal Superior Eleitoral. Eleições 2026: TSE publica todas as resoluções que orientarão o pleito. Brasília: TSE, 2026. Disponível em: portal do TSE. Acesso em: 28 mar. 2026. 


Brasil. Tribunal Superior Eleitoral. Grupo de especialistas vai propor novas medidas para aprimorar combate à desinformação eleitoral. Brasília: TSE, 2025. Disponível em: portal do TSE. Acesso em: 28 mar. 2026. 



Por que Israel virou um símbolo da direita contemporânea


Como geopolítica, religião e guerra cultural transformaram um Estado em linguagem política global



Índice

  1. Introdução
  2. O “Ocidente” como narrativa política
  3. Israel como emblema de segurança, fronteira e força
  4. Sionismo: o que é, de onde veio e o que não se deve confundir
  5. O papel decisivo do sionismo cristão
  6. O caso brasileiro: quando o Oriente Médio entra na polarização nacional
  7. O que precisa ser ajustado
  8. Conclusão
  9. Referências




1. Introdução



Há símbolos que representam uma nação. E há símbolos que passam a representar uma visão de mundo. A bandeira de Israel, em parte importante da direita contemporânea, deixou de operar apenas no primeiro plano e migrou para o segundo. Em campanhas eleitorais, atos públicos, cultos, marchas e redes sociais, ela aparece não só como referência a um Estado do Oriente Médio, mas como signo condensado de ordem, força, tradição, guerra cultural, segurança e pertencimento civilizacional. Esse deslocamento não ocorreu por acaso, nem pode ser explicado por um único fator. Ele resulta de um encontro historicamente identificável entre imaginação geopolítica, teologia política e comunicação ideológica. 


O erro mais comum, nesse debate, é escolher a explicação mais barulhenta em vez da mais sólida. Ou se reduz tudo a religião, ou se reduz tudo a estratégia internacional, ou se tenta converter opinião militante em verdade histórica. A questão exige mais precisão. O que os fatos permitem afirmar é que a centralidade simbólica de Israel na direita contemporânea se apoia, ao menos, em três pilares documentáveis: a difusão de narrativas sobre “civilizações” no pós-Guerra Fria, a consolidação de Israel como imagem de segurança e enfrentamento, e o crescimento do sionismo cristão em setores evangélicos conservadores, com forte repercussão política nos Estados Unidos e no Brasil. 


É justamente por isso que a análise precisa separar conceitos. Judaísmo não é sinônimo de sionismo. Sionismo não é sinônimo de Estado de Israel. E apoio político a Israel não decorre sempre da mesma motivação. Às vezes, ele nasce de convicção religiosa. Em outros casos, de alinhamento geopolítico. Em outros ainda, de cálculo eleitoral. Quando essas camadas se sobrepõem, o símbolo ganha potência. E quando ganha potência, ganha utilidade política. 



2. O “Ocidente” como narrativa política



Em 1993, Samuel P. Huntington publicou na Foreign Affairs o ensaio “The Clash of Civilizations?”, argumentando que, no pós-Guerra Fria, os grandes conflitos tenderiam a se organizar cada vez mais em torno de identidades culturais e civilizacionais, e não apenas de ideologias ou interesses econômicos. A formulação original era mais complexa do que a caricatura que depois se popularizou: Huntington falava em múltiplas civilizações e em várias linhas de fratura possíveis, não em uma simples guerra binária entre dois blocos fechados. Ainda assim, sua hipótese se tornou uma das matrizes intelectuais mais influentes do debate geopolítico das últimas décadas. 


O que veio depois foi uma simplificação politicamente eficaz. A noção de “Ocidente” foi sendo convertida, em muitos discursos conservadores, em identidade política total. Deixou de ser apenas uma categoria histórica ou cultural e passou a funcionar como palavra de mobilização. “Ocidente”, nesse vocabulário, passou a significar uma combinação quase mítica de cristianismo, mercado, autoridade, ordem social, anticomunismo, fronteiras rígidas e defesa contra inimigos externos e internos. Não importa tanto a precisão conceitual dessa síntese; importa sua força mobilizadora. E aí reside o ponto central: ideias acadêmicas, quando entram no circuito da política de massa, raramente permanecem intactas. Elas são simplificadas, reempacotadas e transformadas em slogans. 


Israel se encaixa com enorme facilidade nessa gramática. Para setores da direita, especialmente depois do 11 de Setembro, o país passou a simbolizar a linha de frente da segurança, o combate ao terrorismo, a defesa sem hesitação e a resistência de um enclave aliado em uma região percebida como permanentemente conflitiva. A política internacional, nesse enquadramento, se torna uma narrativa moral: há uma civilização ameaçada, há fronteiras a defender, há inimigos a conter. Israel, então, deixa de ser apenas uma realidade estatal concreta e passa a funcionar como vitrine de um ideal de firmeza. 



3. Israel como emblema de segurança, fronteira e força



Nenhum símbolo político ganha relevância transnacional sem utilidade imaginária. Israel ganhou essa utilidade porque pôde ser lido, em diferentes contextos conservadores, como metáfora pronta de Estado vigilante, soberania armada e resposta dura ao conflito. O país ocupa posição geopolítica central no Oriente Médio, mantém uma aliança histórica e estratégica com os Estados Unidos e aparece de forma recorrente no centro das crises internacionais mais sensíveis das últimas décadas. Esses fatores lhe deram projeção objetiva. Mas a política simbólica foi além dos fatos estratégicos: converteu essa projeção em linguagem ideológica. 


Nesse processo, o símbolo importa mais do que a complexidade da realidade. A sociedade israelense é plural, atravessada por disputas internas, tensões institucionais, clivagens religiosas, étnicas e políticas. Nada disso desaparece. Mas, no uso político que parte da direita faz de Israel, essa complexidade costuma ser comprimida em uma imagem única: a do Estado forte. O emblema é sempre mais simples que a história. E, para a propaganda, essa simplicidade é uma virtude. A bandeira comunica em segundos o que um discurso levaria minutos para tentar organizar. Ela encurta a distância entre emoção e adesão. 


É por isso que Israel se torna um signo tão funcional em ambientes de polarização. Ele permite que lideranças e movimentos emitam mensagens simultâneas sem precisar explicá-las longamente: defesa do Ocidente, dureza contra o inimigo, proximidade com o universo evangélico, rejeição à esquerda e identificação com uma política de força. A bandeira, nesse sentido, não é apenas decorativa. Ela opera como linguagem compacta. É um atalho semântico de altíssima eficiência. 



4. Sionismo: o que é, de onde veio e o que não se deve confundir



Nenhuma análise séria desse tema pode avançar sem distinções conceituais claras. O judaísmo é uma religião, uma tradição histórica e uma civilização. O sionismo é um movimento político moderno. O Estado de Israel é uma entidade estatal fundada em 1948. Essas três dimensões se conectam historicamente, mas não são equivalentes. Confundi-las produz mais ruído do que compreensão. E parte da confusão pública em torno do tema nasce justamente dessa mistura. 


A Britannica identifica Theodor Herzl como fundador da forma política do sionismo. Em Der Judenstaat (O Estado Judeu), publicado em 1896, Herzl formulou a chamada “questão judaica” como problema político a ser resolvido por meio de uma solução nacional. Esse dado é decisivo, porque mostra que o sionismo moderno nasce no ambiente dos nacionalismos europeus do fim do século XIX e em resposta ao antissemitismo moderno, com formulação inicial predominantemente secular. Não se trata, portanto, de uma simples tradução direta de um mandamento religioso para a política moderna, mas de um projeto nacional elaborado em contexto histórico específico. 


Também é importante corrigir um desvio frequente: a literatura séria sustenta que houve intensas disputas dentro do judaísmo sobre o sionismo, inclusive com setores religiosos que se opunham à criação de um Estado judeu antes da vinda do Messias. O que a bibliografia não autoriza afirmar, em termos rigorosos, é que o sionismo tenha “alterado textos sagrados”. O que houve foi disputa interpretativa, conflito hermenêutico, reconfiguração teológica em diferentes correntes. Essa diferença não é secundária. Ela marca a fronteira entre análise histórica e retórica imprecisa. 



5. O papel decisivo do sionismo cristão



Se o sionismo moderno teve origem política e secular, o sionismo cristão pertence a outro campo. A Britannica o define como um movimento religioso e político cristão que apoia o retorno da diáspora judaica a uma pátria na Palestina e vincula esse processo a leituras bíblicas sobre o fim dos tempos e a Segunda Vinda do Messias. Desde a criação de Israel em 1948, evangélicos cristãos sionistas nos Estados Unidos se tornaram cada vez mais ativos no apoio político ao país. Aqui está uma peça crucial do quebra-cabeça: para muitos grupos cristãos conservadores, Israel não é apenas aliado internacional; é personagem da história sagrada. 


Quando a política externa se mistura à escatologia, o apoio deixa de ser puramente estratégico e ganha densidade emocional e moral. O mapa se torna profecia. O território se torna sinal. E a defesa de Israel passa a funcionar, para esses segmentos, como forma de fidelidade religiosa. É por isso que o tema mobiliza tanto mais do que um debate convencional de relações internacionais mobilizaria. Em boa parte do conservadorismo evangélico, Israel não é apenas assunto; é crença. E crença, quando entra na política, raramente atua com baixa voltagem. 


Os dados do Pew Research Center ajudam a medir esse fenômeno. Em 2005, o instituto registrou que protestantes evangélicos americanos tinham atitudes “distintamente e altamente positivas” em relação ao Estado de Israel. O relatório ressalta ainda o peso político desse grupo, tanto por sua dimensão demográfica quanto por sua influência eleitoral. Em outra análise do Pew, os norte-americanos aparecem como altamente simpáticos a Israel em comparação internacional, e o segmento evangélico desempenha papel importante nessa disposição. Esses dados não explicam tudo, mas explicam muito: o vínculo entre conservadorismo religioso e apoio a Israel não é mera impressão; é realidade empiricamente observável. 



6. O caso brasileiro: quando o Oriente Médio entra na polarização nacional



No Brasil, a centralidade simbólica de Israel ganhou forma própria. O país não reproduz mecanicamente o modelo norte-americano, mas dialoga fortemente com ele. O crescimento do neopentecostalismo, a expansão da presença evangélica na política e a intensificação da guerra cultural criaram um ambiente no qual Israel passou a circular como signo religioso e ideológico com extraordinária eficiência. O que antes poderia parecer tema distante de política externa foi internalizado como parte do repertório da polarização doméstica. 


O estudo de Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat, publicado na CEBRI-Revista em 2024, é particularmente esclarecedor. O artigo sustenta que, enquanto a direita brasileira solidificou sua aproximação com o sionismo cristão nas últimas décadas, a esquerda reforçou sua associação histórica com a solidariedade Sul-Sul e com a causa palestina. O ponto é central porque mostra como o conflito israelo-palestino, no Brasil, foi absorvido como operador de clivagem interna. O Oriente Médio passou a ser lido, disputado e instrumentalizado dentro da política brasileira. 


Nesse contexto, a bandeira de Israel cumpre função nítida. Ela se torna um marcador de pertencimento. Ao aparecer em manifestações, palanques e campanhas, ela comunica simultaneamente proximidade com o universo evangélico, adesão a uma visão conservadora de civilização, simpatia por políticas de força e oposição simbólica à esquerda. É um emblema que fala pouco sobre a complexidade do próprio Israel e muito sobre a gramática ideológica da direita brasileira. É por isso que sua presença é tão reveladora: ela mostra que a disputa política nacional passou a operar também por símbolos transnacionais, teologicamente carregados e eleitoralmente úteis. 



7. O que precisa ser ajustado



O primeiro ajuste necessário é conter a tentação das explicações totais. Não existe uma extrema direita mundial perfeitamente homogênea, organizada por uma única doutrina e movida por idênticas motivações em todos os países. O que há são convergências, ressonâncias e traduções locais. Em alguns contextos, o apoio a Israel é mais religioso; em outros, mais geopolítico; em outros, mais eleitoral. Tratar tudo como bloco único torna o argumento mais barulhento, mas menos verdadeiro. 


O segundo ajuste é terminológico. A bibliografia sustenta com segurança alguns pilares: Huntington formulou uma tese influente sobre civilizações no pós-Guerra Fria; Herzl é figura central do sionismo político moderno; o sionismo cristão é um movimento religioso e político real; e setores evangélicos conservadores manifestam apoio distintamente elevado a Israel. Esses pontos são sólidos. O que passa disso precisa ser formulado com cautela, especialmente quando entra no terreno da teologia, da interpretação religiosa e das intenções subjetivas de atores políticos. 


O terceiro ajuste é de método. Em temas atravessados por religião, guerra, identidade e sofrimento histórico, a linguagem costuma aquecer rápido demais. Mas análise séria não pode depender do calor da convicção. Ela precisa da disciplina da prova. Isso não empobrece o texto; ao contrário, dá a ele densidade. A força de um argumento não está em soar absoluto, mas em permanecer de pé quando confrontado com a documentação disponível. 



8. Conclusão



Israel virou símbolo da direita contemporânea porque se tornou o ponto de encontro entre três linguagens centrais do presente: a geopolítica da ameaça, a religião da profecia e a política da identidade. A primeira o converte em bastião do Ocidente. A segunda o insere numa narrativa escatológica. A terceira o transforma em marca eleitoral e senha de pertencimento ideológico. Quando essas três camadas se sobrepõem, o símbolo deixa de ser apenas nacional e se torna transnacional, circulando de Washington a Brasília, de cultos a comícios, de púlpitos a palanques. 


No Brasil, esse processo encontrou terreno fértil porque coincidiu com a expansão do evangelicalismo politicamente ativo e com a radicalização da guerra cultural. A bandeira de Israel passou, então, a funcionar como linguagem condensada de crença, autoridade, ordem e oposição. Não se trata apenas de diplomacia, nem apenas de religião. Trata-se de uma nova forma de comunicação política, na qual símbolos estrangeiros são incorporados à disputa nacional para organizar afetos, alianças e identidades. 


Compreender esse fenômeno é compreender algo maior sobre a política contemporânea: programas continuam importando, interesses continuam importando, instituições continuam importando, mas já não bastam para explicar o campo. A política de hoje também opera com imagens de civilização, teologias mobilizadas e emblemas que condensam mundos. Quem não entende essa gramática enxerga apenas uma bandeira. Quem entende percebe um projeto de poder. 



9. Referências



HUNTINGTON, Samuel P. The Clash of Civilizations? Foreign Affairs, v. 72, n. 3, 1993.


HERZL, Theodor. O Estado Judeu. São Paulo: Sêfer, 2011.


ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Theodor Herzl. Disponível em: 


ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Zionism. Disponível em: 


ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Christian Zionism. Disponível em: 


PEW RESEARCH CENTER. American Evangelicals and Israel. 2005. Disponível em: 


PEW RESEARCH CENTER. The U.S. Public’s Pro-Israel History. 2006. Disponível em: 


CALFAT, Natalia Nahas Carneiro Maia. O Oriente Médio é aqui: o Brasil entre o sionismo cristão e a solidariedade Sul-Sul. CEBRI-Revista, n. 10, 2024. Disponível em: