segunda-feira, 1 de junho de 2026

O Pix na Mira da Geopolítica: PCC, CV e a Nova Guerra Financeira contra a Soberania Brasileira

A classificação de facções brasileiras como organizações terroristas pelos Estados Unidos desloca uma questão de segurança pública para o campo da coerção financeira, da soberania digital e da disputa geopolítica global.


Índice

  1. Introdução: quando o crime organizado vira pretexto geopolítico
  2. O que muda quando PCC e CV são chamados de “terroristas”
  3. O Pix como infraestrutura pública de soberania
  4. A engrenagem da coerção financeira: OFAC, dólar e SWIFT
  5. O risco para bancos, empresas e economia real
  6. Flávio Bolsonaro, Trump e a disputa eleitoral brasileira
  7. O Brasil entre Washington, Pequim e a ordem multipolar
  8. Pragmatismo ativo: como defender o Pix sem negar o crime organizado
  9. Conclusão: soberania também se defende com tecnologia

Lide

A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas não pode ser lida apenas como medida de combate ao crime organizado. Trata-se de um gesto jurídico, político e geoeconômico de grande alcance. Ao deslocar facções brasileiras da categoria de organizações criminosas para o campo do terrorismo, Washington cria uma nova base para sanções, pressões diplomáticas e interferências financeiras. Nesse cenário, o Pix aparece como uma infraestrutura sensível: não porque seja ilegal ou frágil por natureza, mas porque se tornou uma das maiores expressões da soberania digital brasileira.

1. Introdução: quando o crime organizado vira pretexto geopolítico

Imagine um pequeno comerciante em Cristalina, Goiânia, São Paulo ou Belém. Ele vende almoço, pão, peças, remédios, hortaliças ou serviços simples. No balcão, há uma placa: “Aceitamos Pix”. Aquela pequena chave colada no caixa não é apenas um meio de pagamento. É uma revolução silenciosa. Ela reduziu tarifas, acelerou recebimentos, diminuiu a dependência das maquininhas e permitiu que milhões de brasileiros participassem com mais autonomia da economia digital.

Agora imagine que esse sistema, criado e operado sob regulação pública brasileira, passe a ser indiretamente associado a uma narrativa internacional de “financiamento ao terrorismo”. Não porque o Pix tenha sido criado para isso, mas porque criminosos também usam bancos, celulares, internet, estradas, postos de combustíveis, aplicativos e dinheiro vivo. A questão central é: quando uma potência estrangeira transforma criminosos nacionais em “terroristas”, ela abre uma porta jurídica para pressionar todo o ecossistema financeiro do país.

Esse é o ponto delicado da decisão norte-americana sobre PCC e Comando Vermelho. O Brasil precisa combater duramente o crime organizado. Não há romantização possível de facções que matam, exploram comunidades, corrompem agentes públicos, movimentam economias ilícitas e desafiam o Estado. Mas combater o crime não significa aceitar que outro país use esse problema como instrumento de pressão sobre bancos, empresas, meios de pagamento e escolhas soberanas da política externa brasileira.

A tese deste artigo é direta: a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos inaugura um novo campo de risco para a soberania brasileira. O alvo declarado é o crime organizado. O efeito possível, porém, é muito mais amplo: pressão sobre bancos, constrangimento diplomático, risco reputacional para empresas brasileiras, tentativa de interferência eleitoral e ameaça indireta a infraestruturas públicas digitais, como o Pix.

2. O que muda quando PCC e CV são chamados de “terroristas”

A palavra “terrorismo” não é neutra. No direito internacional e, sobretudo, na legislação interna dos Estados Unidos, ela funciona como uma chave de abertura para mecanismos excepcionais de sanção, bloqueio financeiro, congelamento de ativos, restrição comercial e atuação extraterritorial.

Quando um grupo é tratado como organização criminosa, o caminho natural é a cooperação policial: Polícia Federal, Ministério Público, Interpol, extradição, compartilhamento de inteligência, operações conjuntas e acordos diplomáticos. Quando o mesmo grupo passa a ser tratado como organização terrorista, a lógica muda. O tema deixa de ser apenas segurança pública e entra no campo da segurança nacional.

Essa mudança importa porque os Estados Unidos possuem uma longa tradição de usar sua legislação doméstica com alcance internacional. O poder do dólar, a centralidade dos bancos americanos, a força da OFAC e a dependência de instituições financeiras globais em relação ao sistema norte-americano fazem com que uma decisão tomada em Washington produza efeitos em empresas, bancos e governos de outros países.

É aqui que está o risco. Não é necessário que os Estados Unidos invadam o Brasil ou determinem formalmente o fim do Pix. Basta que aumentem o custo jurídico de operar em determinados setores, regiões ou sistemas. Basta que bancos passem a temer multas, bloqueios ou restrições. Basta que empresas brasileiras sejam obrigadas a provar, de forma quase impossível, que nenhuma operação sua teve qualquer contato indireto com recursos de facções agora tratadas como terroristas.

O terrorismo, nesse contexto, vira uma categoria de poder. Ele permite transformar um problema real — o crime organizado brasileiro — em ferramenta de pressão geopolítica.

3. O Pix como infraestrutura pública de soberania

O Pix é uma das maiores inovações institucionais brasileiras das últimas décadas. Ele não é apenas uma tecnologia financeira. É uma infraestrutura pública digital, regulada pelo Banco Central, que reorganizou o mercado de pagamentos.

Antes do Pix, milhões de operações dependiam de TED, DOC, cartões, maquininhas, boletos e intermediários privados. Cada operação carregava custos, prazos e pedágios. Com o Pix, o Brasil criou um sistema instantâneo, de baixo custo, com ampla inclusão social e forte impacto sobre pequenos negócios.

Esse é o ponto político mais relevante: o Pix reduziu a dependência de oligopólios privados de pagamento. Ele afetou interesses de empresas de cartão, bancos, fintechs e Big Techs interessadas em controlar pagamentos digitais. A disputa não é apenas por tarifa. É por dados, escala, comportamento econômico e poder de intermediação.

Quem controla meios de pagamento controla uma parte decisiva da vida social. Sabe quem compra, quando compra, onde compra, quanto recebe, quanto paga e como circula a renda. Em uma economia digital, dados transacionais são uma forma de poder. Por isso, o Pix representa soberania: ele impede que a infraestrutura essencial de pagamentos cotidianos seja capturada integralmente por corporações estrangeiras.

Nesse sentido, o Pix é mais que conveniência. Ele é política pública. É inclusão financeira. É soberania digital. É infraestrutura de Estado.

4. A engrenagem da coerção financeira: OFAC, dólar e SWIFT

A ameaça ao Pix, se existir, não viria de um ataque direto e simples. Viria por uma engrenagem indireta: sanções financeiras.

O mecanismo funciona assim. Primeiro, os Estados Unidos classificam determinados grupos como terroristas. Depois, passam a monitorar pessoas, empresas, bancos e setores que possam ter contato financeiro com esses grupos. Em seguida, instituições que supostamente falharam em seus controles podem ser acusadas de facilitar lavagem de dinheiro ou financiamento ao terrorismo. Por fim, essas instituições passam a enfrentar risco de sanções, multas, bloqueios ou perda de acesso ao sistema financeiro internacional.

O centro dessa engrenagem é o domínio do dólar. Mesmo quando uma operação ocorre fora dos Estados Unidos, se ela toca o dólar, bancos correspondentes americanos, cartões internacionais, empresas americanas de tecnologia ou infraestrutura financeira global, Washington consegue reivindicar algum tipo de jurisdição.

O SWIFT, frequentemente citado nesse debate, não é um banco. É uma rede internacional de mensagens financeiras. Mas perder acesso a essa rede, ou sofrer restrições relacionadas a ela, pode isolar instituições do comércio internacional. Exportações, importações, remessas, crédito externo e operações em moeda estrangeira ficariam sob forte pressão.

É por isso que a classificação do PCC e do CV preocupa. Não porque ela automaticamente desligue o Pix. Mas porque cria um argumento: se criminosos usam Pix, e se esses criminosos são agora chamados de terroristas pelos EUA, bancos brasileiros poderiam ser pressionados a provar que controlam perfeitamente todas as transações. O problema é que nenhum sistema financeiro do mundo filtra 100% das operações ilícitas em tempo real.

Essa é a armadilha: transformar a inevitável existência de uso criminoso de uma infraestrutura ampla em pretexto para atacar a infraestrutura inteira.

5. O risco para bancos, empresas e economia real

O risco mais provável não é o fim imediato do Pix. Essa seria uma leitura simplista. O risco real é o aumento da insegurança jurídica e do custo de conformidade para bancos, fintechs, empresas de combustíveis, telecomunicações, mineração, logística, agronegócio, comércio exterior e plataformas digitais.

Quando uma organização é incluída em listas de terrorismo, qualquer agente econômico que tenha contato direto ou indireto com seus recursos pode se tornar alvo de investigação. Isso gera medo. Bancos podem encerrar contas preventivamente. Empresas podem evitar regiões consideradas sensíveis. Investidores podem exigir prêmio de risco maior. Correspondentes internacionais podem impor barreiras adicionais. Operações legítimas podem ficar mais caras.

A economia real paga a conta.

O pequeno comerciante, que nada tem a ver com PCC ou CV, pode ser afetado se o sistema financeiro encarecer operações. O produtor rural pode sofrer se bancos ficarem mais cautelosos. A indústria pode enfrentar mais dificuldade em importar insumos. Empresas brasileiras podem ser obrigadas a gastar mais com auditoria, compliance e seguros. O Estado brasileiro pode ter sua margem de manobra reduzida.

O problema não é combater lavagem de dinheiro. Isso é necessário. O problema é permitir que o combate ao crime seja usado como instrumento de chantagem econômica.

6. Flávio Bolsonaro, Trump e a disputa eleitoral brasileira

O elemento político interno não pode ser ignorado. A decisão norte-americana ganhou contornos eleitorais porque ocorreu em meio à movimentação de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos e ao alinhamento explícito de setores do bolsonarismo com Donald Trump.

Para a oposição bolsonarista, a classificação do PCC e do CV como terroristas pode ser vendida como vitória política: sinal de prestígio internacional, endurecimento contra o crime e aproximação com Washington. O problema é que essa vitória aparente pode se tornar um bumerangue.

Se a medida gerar risco econômico ao Brasil, pressão sobre bancos, insegurança para empresas ou ameaça ao Pix, a narrativa muda. O que parecia “combate ao crime” passa a parecer convite à intervenção estrangeira. O que parecia força pode ser interpretado como subserviência. O que parecia patriotismo pode se revelar fragilização da soberania nacional.

Nenhum país sério terceiriza sua segurança pública a uma potência estrangeira. Nenhum líder comprometido com a soberania nacional pede que outro Estado crie instrumentos jurídicos para pressionar a economia do próprio país. A segurança pública brasileira precisa ser enfrentada com inteligência, integração federativa, investigação patrimonial, bloqueio de lavagem de dinheiro, controle de fronteiras, reforma penitenciária e fortalecimento das instituições nacionais. Não com submissão geopolítica.

A pergunta central é simples: quem ganha quando o Brasil perde autonomia?

7. O Brasil entre Washington, Pequim e a ordem multipolar

A tensão em torno do Pix não pode ser separada da disputa global entre Estados Unidos e China. O Brasil é hoje um país estratégico. Tem território continental, biodiversidade, energia, alimentos, minerais críticos, capacidade tecnológica, mercado consumidor e peso diplomático no Sul Global.

Ao mesmo tempo, mantém relações econômicas profundas com a China e vínculos históricos com os Estados Unidos. Essa posição exige equilíbrio. O Brasil não pode se transformar em satélite automático de Washington nem em dependente acrítico de Pequim. A defesa da soberania brasileira exige autonomia pragmática.

Nesse contexto, BRICS+, Novo Banco de Desenvolvimento, acordos em moedas locais, sistemas alternativos de liquidação e infraestrutura financeira multipolar deixam de ser temas abstratos. Tornam-se instrumentos de proteção contra o uso político do dólar e das sanções.

Não se trata de romper com os Estados Unidos. Trata-se de impedir que a dependência de uma única arquitetura financeira global seja usada como arma. Um país soberano conversa com todos, negocia com todos, coopera com todos, mas não se ajoelha diante de ninguém.

8. Pragmatismo ativo: como defender o Pix sem negar o crime organizado

A defesa do Pix não pode ser ingênua. É verdade que criminosos usam sistemas financeiros. Usam Pix, contas bancárias, empresas de fachada, criptomoedas, dinheiro vivo, postos de combustíveis, fintechs e comércio internacional. Negar isso seria erro grave.

A resposta brasileira deve combinar firmeza e inteligência.

Primeiro, é preciso fortalecer os mecanismos de rastreabilidade, inteligência financeira e cooperação entre Banco Central, COAF, Polícia Federal, Receita Federal, Ministério Público e Judiciário. O Pix deve continuar sendo rápido e acessível, mas cada vez mais robusto contra fraudes, laranjas, contas de passagem e lavagem de dinheiro.

Segundo, o Brasil deve aceitar cooperação internacional contra o crime, mas rejeitar enquadramentos que violem sua soberania. Cooperação policial é bem-vinda. Interferência jurídica abusiva não.

Terceiro, o governo brasileiro precisa comunicar melhor à população o que está em jogo. Defender o Pix não é defender criminosos. Defender soberania não é ser leniente com facções. O verdadeiro combate ao crime exige Estado forte, não Estado tutelado por potência estrangeira.

Quarto, o país precisa blindar suas infraestruturas digitais. Pix, Drex, sistemas bancários, dados públicos, nuvens governamentais e meios de pagamento devem ser tratados como ativos estratégicos. Assim como estradas, portos, hidrelétricas e satélites, sistemas digitais também são infraestrutura nacional.

9. Conclusão: soberania também se defende com tecnologia

A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos revela uma mudança profunda no modo como o poder atua no século XXI. A guerra contemporânea não se limita a tanques, mísseis e ocupações militares. Ela passa por sanções, sistemas de pagamento, dados, narrativas, listas financeiras, infraestrutura digital e controle de redes globais.

O Brasil precisa combater o crime organizado com rigor absoluto. Mas precisa fazê-lo como Estado soberano. Não pode permitir que a violência de facções seja convertida em senha para chantagem financeira externa. Não pode aceitar que o Pix, uma das maiores conquistas públicas digitais do país, seja colocado sob suspeita por interesses geopolíticos e corporativos.

A soberania nacional, hoje, não está apenas na Amazônia, no pré-sal, nas fronteiras ou nas Forças Armadas. Está também nos códigos, nos algoritmos, nos sistemas de pagamento, nos bancos de dados, nas moedas digitais, nas redes de liquidação e na capacidade de o Estado regular sua própria economia.

O Pix é mais que uma ferramenta de pagamento. É uma metáfora do Brasil que pode dar certo: público, eficiente, inclusivo, tecnológico e soberano. Defendê-lo não é negar seus riscos. É aperfeiçoá-lo sem entregá-lo.

A verdadeira pergunta que se impõe é esta: o Brasil aceitará que sua infraestrutura financeira seja julgada por interesses externos ou assumirá, com maturidade, a tarefa histórica de proteger sua soberania digital?

A resposta precisa ser firme. Cooperação, sim. Submissão, não. Combate ao crime, sim. Chantagem geopolítica, jamais.

Referências

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Estatísticas do Pix. Brasília: BCB, 2026.

FARRELL, Henry; NEWMAN, Abraham L. Underground Empire: how America weaponized the world economy. New York: Henry Holt and Company, 2023.

FOLHA DE S.PAULO. Decisão dos EUA sobre PCC e CV vai afetar o Pix? Veja perguntas e respostas. São Paulo, 2026.

REUTERS. Lula rejects U.S. terrorist designation of Brazil criminal gangs. Londres, 2026.

THE ASSOCIATED PRESS. US government labels Brazil’s 2 biggest drug gangs as foreign terrorist organizations. Nova York, 2026.

UNITED STATES DEPARTMENT OF STATE. Terrorist designation of Comando Vermelho and Primeiro Comando da Capital. Washington, 2026.


domingo, 31 de maio de 2026

O Príncipe Algorítmico e o Leviatã Digital: A Hegemonia Silenciosa na Era da Tecnopolítica


Eram seis da manhã de uma terça-feira quando o celular de Roberto vibrou no painel do carro. Um som agudo, desenhado por engenheiros acústicos a milhares de quilômetros de distância, avisava: tarifa dinâmica ativa. Roberto, que já acumulava doze horas ao volante pelas ruas de São Paulo no dia anterior, sentiu o pico de adrenalina. O aplicativo prometia um bônus multiplicador se ele completasse mais quinze viagens até o meio-dia, garantindo a manutenção do seu status "Diamante". Ele não tem férias remuneradas, não recolhe INSS e assume o risco de cada buraco na via, mas, ao olhar para a barra de progresso verde preenchendo a tela, sentiu-se no controle. "Sou meu próprio chefe", pensou, enquanto engatava a marcha.

A cerca de mil quilômetros dali, no interior de Goiás, o cenário era outro. Na sala da direção de um campus educacional, o clima era de exasperação frente a uma papelada imensa. Uma obra essencial para os alunos — a construção de um novo refeitório — estava paralisada há meses. O impasse entre a empreiteira e a comissão de fiscalização esbarrava nas rígidas amarras do Direito Administrativo, nas diretrizes da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e nos prazos engessados da Lei Orçamentária Anual (LOA). Para alterar o projeto arquitetônico e destravar a obra, era necessário um rito burocrático exaustivo, aprovações em conselhos, publicações no Diário Oficial e o escrutínio dos tribunais de contas.

O contraste entre essas duas cenas do nosso cotidiano não é apenas uma anedota sobre a ineficiência estatal frente à inovação privada. Ele é o sintoma central da maior transição de poder do nosso tempo. Enquanto o Estado tradicional sangra em sua própria burocracia, amarrado a uma arquitetura legal desenhada no século passado, uma nova entidade governa o tempo, o trabalho e o desejo de bilhões de pessoas com eficiência totalitária e sem precisar de um único voto: o Leviatã Digital.

A tese que defendo aqui, e que nos convida a repensar radicalmente a nossa esfera pública, é a de que as grandes plataformas de tecnologia não são apenas empresas de software ou ferramentas neutras de mercado. Elas se converteram no "Príncipe Algorítmico" — uma atualização do conceito de Antonio Gramsci —, exercendo uma hegemonia infraestrutural que modula o consenso social, uberiza as relações de trabalho e usurpa a soberania dos Estados-nação através de um agressivo colonialismo de dados. Para entender como fomos capturados por essa malha, precisamos descer aos porões da tecnopolítica.

 1. A Política dos Artefatos: O Código como Lei

Historicamente, fomos educados a enxergar a tecnologia como uma prateleira de ferramentas neutras. Se há um problema, aplicamos uma solução técnica. Contudo, a tecnopolítica nos ensina o oposto: a própria infraestrutura é a política materializada.

O filósofo Langdon Winner, em seu ensaio seminal, já provocava: os artefatos técnicos têm política. Quando o algoritmo de uma rede social decide o que aparece no topo do seu *feed*, ele não está realizando uma operação matemática neutra. Ele está exercendo poder editorial e político. Lawrence Lessig resumiu esse fenômeno com a máxima *Code is Law* (O código é a lei). Na praça pública digital, as regras que governam o que pode ou não ser dito, quem ganha visibilidade e quem é silenciado não são votadas por representantes eleitos, mas codificadas por engenheiros no Vale do Silício.

O Estado tradicional precisa publicar leis no Diário Oficial e garantir o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa. O Leviatã Digital opera fora dessa jurisdição. Sua "Constituição" são os Termos de Serviço — contratos de adesão que ninguém lê, mas que todos assinam. Se uma plataforma decide banir um usuário ou desmonetizar um canal, a execução é instantânea e asséptica. O código legisla, julga e pune simultaneamente, contornando a morosidade e as garantias do Estado de Direito.

Essa arquitetura do consenso exige que o cidadão confie cegamente na "caixa preta" do algoritmo. Como aponta Sérgio Amadeu da Silveira, a força hegemônica das *Big Techs* reside justamente nessa opacidade, protegida por leis de propriedade intelectual. É uma privatização silenciosa da governança pública, onde o Estado de Exceção se disfarça de inovação tecnológica.

 2. O Príncipe Algorítmico e a Nova Hegemonia

Para desvendar a morfologia desse poder, precisamos resgatar Antonio Gramsci. Ao analisar as estruturas de poder do seu tempo, Gramsci atualizou o "Príncipe" de Maquiavel — que era um indivíduo — para o partido político. O partido era o "Moderno Príncipe", o organismo responsável por aglutinar vontades dispersas, organizar a sociedade e dirigir a ação política para forjar um novo Estado.

Hoje, essa função organizadora foi capturada. O partido perdeu o monopólio da mobilização. Quem organiza a massa, categoriza desejos, dita os humores sociais e direciona a vontade coletiva é o Príncipe Algorítmico das plataformas.

A grande sacada de Gramsci foi demonstrar que o poder não se sustenta apenas pela coerção bruta (polícia, prisões), mas pela hegemonia — a direção intelectual e moral que fabrica o consentimento ativo dos governados. Isso era feito através dos "aparelhos privados de hegemonia" (igrejas, escolas, jornais impressos). No século XXI, as plataformas digitais são os mais potentes aparelhos privados de hegemonia já concebidos.

E aqui reside a genialidade perversa da tecnopolítica: a fabricação desse consenso não ocorre pelo debate de ideias, mas pela modulação dos afetos e do comportamento. Cruzando o "senso comum" gramsciano com a teoria dos afetos de Baruch de Espinosa, percebemos que as redes governam através das nossas paixões. O algoritmo compreendeu que a "paixão triste" — a indignação, o ódio, o medo — gera muito mais engajamento do que a contemplação pacífica. A plataforma nos mantém conectados operando como uma máquina de fricção afetiva.

Como bem elabora Byung-Chul Han em sua Psicopolítica, o regime neoliberal digital abandonou a disciplina punitiva. O poder inteligente não proíbe; ele convida, seduz, estimula a confissão voluntária e a superexposição. O cidadão cede sua privacidade não porque está sob a mira de um fuzil hobbesiano, mas porque teme a invisibilidade social. É o consenso pela conveniência.

 3. O Privilégio da Servidão e a Uberização da Vida

A hegemonia do Príncipe Algorítmico, contudo, não flutua no éter das ideias; ela ancora raízes profundas na carne da classe trabalhadora. Voltamos a Roberto, nosso motorista da introdução. A arquitetura de consenso que o faz trabalhar 14 horas diárias sorrindo é o mesmo maquinário que desidrata os cofres da previdência pública.

Em *O privilégio da servidão*, Ricardo Antunes oferece o lastro crítico definitivo para entendermos como o capitalismo de plataforma reconfigura a luta de classes. A narrativa do Vale do Silício apresenta a revolução digital como a libertação da burocracia estatal e do trabalho assalariado. O que Antunes revela é a emergência de um "novo proletariado de serviços", submetido a níveis de precarização típicos do século XIX, mas operando sob tecnologias do século XXII.

A arquitetura do aplicativo atua como um feitor invisível. Não há um supervisor físico gritando ordens; a subordinação — a subsunção real do trabalho ao capital — está embutida na taxa de aceitação, no algoritmo de roteamento e na gamificação. Através de metas diárias e de um sistema de recompensas psicológicas idêntico ao dos cassinos, a exploração brutal é travestida de *game*.

Para que isso funcione sem gerar revoltas, a plataforma utiliza seu poder hegemônico para incutir o mito do "empreendedorismo de si". O motorista, o entregador, o redator *freelancer* e até o professor que vende cursos online são convencidos de que são empresas individuais ("CEOs de si mesmos"). O trabalhador assume todos os custos operacionais, os riscos de saúde e a ausência de garantias. E, num triunfo absoluto da ideologia hegemônica de Gramsci, o próprio explorado defende a sua condição, enxergando a ausência de direitos (a CLT) como sinônimo de liberdade. O algoritmo forjou a servidão voluntária perfeita.

 4. O Estado Ampliado e a Crise da Soberania Pública

Enquanto o capital de plataforma agiliza a extração de valor por meio da uberização, o poder público patina. Na teoria política de Gramsci, o Estado é a soma da "sociedade política" (o aparato governamental e coercitivo) com a "sociedade civil" (onde se trava a disputa pela hegemonia). O Estado Ampliado se sustenta na medida em que a sociedade civil legitima a sociedade política.

O problema emerge quando corporações transnacionais passam a dominar completamente as trincheiras da sociedade civil, esvaziando o planejamento estatal. Evgeny Morozov diagnostica isso como o "solucionismo tecnológico". A resposta rápida oferecida pelo capital para problemas crônicos de mobilidade, educação e saúde seduz a população e desmoraliza o tempo da burocracia pública.

Quando um gestor educacional enfrenta o martírio de repactuar um contrato de obra pública, cumprindo à risca a Lei 8.666/93 ou a nova Lei de Licitações (14.133/21), garantindo ampla concorrência e probidade orçamentária (PLOA), o tempo da legalidade parece jurássico aos olhos de uma sociedade acostumada à entrega de comida em quinze minutos via aplicativo.

Esse choque temporal gera uma crise de legitimidade. O Leviatã Digital privatiza a esfera pública e se apresenta como a única via de eficiência. Quando os Estados tentam reagir e regular essas plataformas — exigindo responsabilidade sobre desinformação ou direitos trabalhistas —, as *Big Techs* utilizam seu domínio hegemônico para mobilizar a própria população contra as instituições democráticas, ameaçando sair do país ou cortar serviços essenciais. A soberania nacional é, assim, encurralada pela sua própria infraestrutura de comunicação.

 5. Geopolítica e Colonialismo de Dados: A Extração Final

Se quisermos ir além da superficialidade, precisamos levar essa análise para o cenário das Relações Internacionais. O Príncipe Algorítmico não é apátrida; seus servidores, seus lucros e seu poderio militar-jurídico têm endereços concentrados, predominantemente nos Estados Unidos e, cada vez mais, na China.

Não estamos falando apenas de redes sociais, mas da própria infraestrutura da Inteligência Artificial. Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs), orquestrações complexas via Python, *frameworks* como LangChain e automações via n8n dependem de um fluxo inimaginável de matéria-prima. E essa matéria-prima é o dado humano.

Nick Couldry e Ulises Mejias, ao formularem o conceito de *Colonialismo de Dados*, demonstram que as dinâmicas de exploração territorial de séculos passados apenas mudaram de estado físico. O Sul Global — o Brasil incluso — continua exercendo seu papel histórico na divisão internacional do trabalho. Antes exportávamos pau-brasil, ouro e café; hoje, exportamos nossos rastros comportamentais brutos, sem qualquer valor agregado, e importamos de volta o serviço embalado sob a forma de Inteligência Artificial e sistemas de reconhecimento computacional, pagando licenciamentos caríssimos em dólar.

O motorista Roberto, rodando por São Paulo, não produz apenas lucro tarifário; ele gera *terabytes* de dados sobre trânsito, demanda, rotas e comportamento de consumo. Toda essa inteligência coletiva brasileira é extraída, remetida a *data centers* no hemisfério norte, processada por IAs privadas e transformada em novos produtos que consolidam ainda mais a dependência tecnológica da nossa nação.

Essa é a fronteira final da tecnopolítica. A disputa geopolítica atual (como as sanções sobre microchips de altíssimo desempenho ou a guerra fria em torno da infraestrutura do 5G) revela que não haverá país soberano no século XXI sem uma infraestrutura digital soberana. O Leviatã Digital extrai não apenas nosso tempo e trabalho, mas a própria inteligência soberana de nossas populações.

 Considerações Finais: A Retomada da Esfera Pública

Navegamos das ruas engarrafadas da uberização, passamos pelos corredores lentos da gestão orçamentária do Estado, e chegamos aos cabos submarinos de fibra óptica que cimentam um novo colonialismo. O diagnóstico é severo: o Leviatã Digital exerce um controle sem precedentes, amparado por uma arquitetura do consenso que nos mantém anestesiados pelo consumo imediato, pelo engajamento cego e pelo mito de uma autonomia que mascara a precarização.

Não se trata de adotar uma postura tecnofóbica. As tecnologias de orquestração de dados, a Inteligência Artificial e a automação de processos possuem um potencial emancipatório extraordinário. Se utilizadas no planejamento público, poderiam antecipar crises sanitárias, otimizar a distribuição de recursos da LOA, acelerar o rito da fiscalização de obras e criar arranjos pedagógicos revolucionários nas salas de aula de nossos Institutos Federais.

Contudo, para que a técnica sirva à emancipação e não à espoliação, precisamos politizá-la. É imperativo que os debates sobre desenvolvimento, educação e trabalho deixem de encarar a tecnologia como uma prateleira neutra de inovação e passem a tratá-la pelo que ela é: o campo de batalha central da economia política contemporânea.

A resposta à hegemonia do Príncipe Algorítmico passa pela reabilitação do Estado como indutor de tecnologias públicas e soberanas, pela regulação trabalhista das plataformas que disfarçam o vínculo de emprego sob o manto do software, e por uma educação crítica que desmonte o "senso comum" do solucionismo tecnológico. Só assim poderemos resgatar a nossa esfera pública das mãos de um código corporativo opaco e devolver à sociedade a capacidade de escrever os seus próprios Termos de Uso.

 REFERÊNCIAS

 * ANTUNES, Ricardo. **O privilégio da servidão**: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.

 * COULDRY, Nick; MEJIAS, Ulises A. **The Costs of Connection**: How Data Is Colonizing Human Life and Appropriating It for Capitalism. Stanford: Stanford University Press, 2019.

 * ESPINOSA, Baruch de. **Tratado Político**. Tradução de Diogo Pires Aurélio. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

 * GRAMSCI, Antonio. **Maquiavel, a política e o Estado moderno**. Tradução de Luiz Mário Gazzaneo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

 * HAN, Byung-Chul. **Psicopolítica**: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução de Maurício Liesen. Belo Horizonte: Âyiné, 2018.

 * LESSIG, Lawrence. **Code**: Version 2.0. New York: Basic Books, 2006.

 * MOROZOV, Evgeny. **Big Tech**: a ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu Editora, 2018.

 * SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. **Democracia e os códigos invisíveis**: como os algoritmos estão moldando a política e a sociedade. São Paulo: Edições Sesc, 2019.

 * WINNER, Langdon. Do Artifacts Have Politics? **Daedalus**, v. 109, n. 1, p. 121-136, 1980.

 * ZUBOFF, Shoshana. **A era do capitalismo de vigilância**: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.


quarta-feira, 27 de maio de 2026

Quando a religião virou arma geopolítica

Como o discurso moral foi usado para proteger interesses econômicos, combater reformas sociais e reorganizar o poder no Brasil


Introdução — a tese

A religião, em si, não é o problema. A fé pode consolar, organizar comunidades, produzir solidariedade, educar afetos e sustentar pessoas em momentos de dor. O problema começa quando a linguagem religiosa deixa de ser experiência espiritual e passa a funcionar como engenharia política. Foi isso que ocorreu em vários momentos da história brasileira, especialmente no contexto da Guerra Fria e do golpe civil-militar de 1964.

A tese deste artigo é direta: no Brasil dos anos 1960, setores econômicos, políticos, militares, midiáticos e internacionais transformaram disputas materiais — terra, salário, remessa de lucros, soberania nacional, direitos trabalhistas e organização popular — em uma guerra moral contra o “comunismo”, usando a religião como linguagem de mobilização social.

Essa tese encontra sustentação em autores como René Armand Dreifuss, Carlos Fico, Michael Löwy, Gerard Colby, Charlotte Dennett e em pesquisas recentes sobre Patrick Peyton e a Family Rosary Crusade. Dreifuss analisou o golpe de 1964 como uma ação articulada por elites civis, empresariais, tecnocráticas e militares, com destaque para IPES e IBAD, descrevendo o processo como uma “conquista do Estado” por interesses financeiro-industriais multinacionais e associados (Dreifuss, 1981). A própria descrição bibliográfica da obra destaca temas como “ação ideológica”, “guerra psicológica”, “IPES/IBAD e os militares” e “tomada do poder do Estado” por interesses multinacionais e associados.  

Carlos Fico, por sua vez, aprofundou a dimensão internacional, demonstrando a importância da política norte-americana no processo que levou à derrubada de João Goulart, inclusive por meio da chamada Operação Brother Sam. Documentos reunidos e analisados em obras sobre o tema indicam que a atuação dos Estados Unidos não foi fantasia conspiratória, mas parte de uma estratégia geopolítica da Guerra Fria. O Senado Federal registra que documentos da Biblioteca Lyndon Johnson comprovam a participação norte-americana no golpe e incluem material relacionado à Operação Brother Sam.  

O ponto decisivo, porém, está na mediação simbólica: como convencer parcelas expressivas da sociedade de que reformas sociais eram ameaça à família, à liberdade e à fé? A resposta passa pela construção do medo moral. A pesquisa de Isabella Villarinho Pereyra sobre Patrick Peyton e a Family Rosary Crusade mostra como a religião foi utilizada pelos Estados Unidos no combate ao comunismo na América Latina, articulando alianças com setores brasileiros no contexto do golpe de 1964.  

1. Uma cena brasileira: a dona de casa, o rádio e o medo

Imagine uma manhã de março de 1964. Uma mulher de classe média, em São Paulo, prepara o café enquanto o rádio fala em desordem, ameaça comunista, greves, sindicatos, reformas, agitação estudantil. Ela não leu Marx. Não conhece a Lei de Remessa de Lucros. Não sabe exatamente o que significa reforma agrária. Mas ouviu dizer que “vão tomar as casas”, que “a família cristã está ameaçada”, que “o Brasil pode virar uma nova Cuba”.

Na igreja, escuta algo parecido. Na vizinhança, a mesma conversa se repete. No jornal, a crise parece sempre culpa do governo. Na televisão nascente, nos púlpitos, nas associações de classe, nos grupos religiosos e nos clubes sociais, uma ideia começa a ganhar corpo: defender Deus, a família e a liberdade seria apoiar a queda de João Goulart.

Essa mulher talvez não se percebesse como agente de um projeto geopolítico. Ela se via como cidadã assustada. E é justamente assim que a engenharia ideológica funciona melhor: quando o indivíduo acredita estar agindo espontaneamente, mas suas emoções foram previamente organizadas por redes de propaganda, medo e autoridade moral.

A religião, nesse caso, não aparece como teologia profunda, nem como espiritualidade libertadora. Aparece como gramática política. Ela traduz interesses econômicos complexos em slogans simples. O medo da reforma agrária vira medo do comunismo. A limitação da remessa de lucros vira ataque à liberdade. A organização sindical vira ameaça à ordem. O debate econômico desaparece; no lugar dele, entra o pânico moral.

2. O que estava realmente em disputa?

Para compreender o período, é preciso sair da superfície. O Brasil do início dos anos 1960 vivia uma crise profunda. Havia inflação, instabilidade política, mobilização sindical, pressão camponesa, disputas militares, expansão urbana, desigualdade social e forte dependência externa. João Goulart propunha as chamadas Reformas de Base: reforma agrária, reforma urbana, reforma bancária, reforma tributária, reforma educacional, ampliação de direitos sociais e maior controle sobre capitais estrangeiros.

Essas propostas não eram uma revolução socialista nos moldes soviéticos. Eram reformas nacional-desenvolvimentistas, voltadas a reduzir desigualdades históricas e aumentar a capacidade do Estado brasileiro de organizar o desenvolvimento. No entanto, para setores da elite econômica, da grande propriedade rural, do empresariado associado ao capital internacional e do governo norte-americano, essas reformas ameaçavam interesses concretos.

A questão central era material: quem controlaria a terra? Quem controlaria o lucro? Quem controlaria o trabalho? Quem controlaria os recursos naturais? Quem definiria o papel do Brasil na divisão internacional do capitalismo?

Dreifuss interpreta o golpe de 1964 como resultado da ação de uma elite orgânica, articulada por empresários, militares, tecnocratas e intelectuais conservadores, que atuaram para desestabilizar o governo e reorganizar o Estado em favor de interesses financeiro-industriais multinacionais e associados (Dreifuss, 1981). A descrição da obra destaca justamente esse eixo: capital multinacional, estrutura política de poder, IPES/IBAD, guerra psicológica e tomada do Estado.  

Isso significa que o golpe não pode ser reduzido a uma “reação militar”. Ele foi civil, empresarial, midiático, religioso, internacional e militar. Os tanques foram a parte visível. Antes deles, houve financiamento, propaganda, produção de medo, construção de consenso e mobilização moral.

3. IPES, IBAD e a fabricação do consenso

O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, IPES, e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática, IBAD, tiveram papel central na articulação política e ideológica contra Goulart. Essas organizações atuaram em campanhas de propaganda, formação de opinião, financiamento de candidaturas, produção de materiais anticomunistas e articulação com setores empresariais e militares.

A função dessas instituições era sofisticada: transformar interesses de classe em defesa abstrata da democracia. Não se dizia apenas “somos contra a reforma agrária porque ela ameaça a estrutura fundiária”. Dizia-se: “somos contra o comunismo”. Não se dizia “queremos preservar a remessa de lucros e os interesses de multinacionais”. Dizia-se: “defendemos a liberdade”. Não se dizia “tememos a organização dos trabalhadores”. Dizia-se: “defendemos a ordem”.

Essa substituição é essencial. A política se torna teatro moral. A economia se veste de religião. O privilégio se apresenta como virtude. A desigualdade passa a parecer consequência natural da ordem social, e qualquer tentativa de corrigi-la é tratada como ameaça à civilização.

É aqui que a religião entra com enorme força. A fé cristã, especialmente em setores conservadores do catolicismo, oferecia uma linguagem emocionalmente poderosa. Deus, família, pátria e liberdade formavam um vocabulário capaz de mobilizar pessoas comuns que jamais sairiam às ruas para defender “interesses financeiro-industriais multinacionais”, mas sairiam para defender seus filhos, sua casa, sua igreja e sua ideia de moralidade.

4. Guerra Fria: a geopolítica do medo

O Brasil dos anos 1960 não pode ser analisado isoladamente. O mundo vivia a Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética disputavam zonas de influência. A Revolução Cubana, em 1959, havia produzido pânico em Washington e nas elites latino-americanas. A partir dali, qualquer governo reformista na América Latina passou a ser lido, muitas vezes, como potencial ameaça comunista.

No caso brasileiro, essa leitura foi amplificada. João Goulart foi apresentado como se fosse uma espécie de caminho inevitável para o comunismo. Mas essa imagem era mais útil politicamente do que fiel à realidade. O projeto de Goulart era reformista, nacionalista e trabalhista, não uma revolução comunista.

A política externa norte-americana, entretanto, não trabalhava apenas com o que um governo era, mas com o que ele poderia representar para seus interesses estratégicos. Um Brasil mais soberano, com controle sobre capitais estrangeiros, reformas sociais e maior autonomia diplomática, poderia alterar o equilíbrio regional.

Carlos Fico analisa essa relação entre Brasil e Estados Unidos, demonstrando como a ditadura brasileira se inseriu no campo mais amplo da política norte-americana para a América Latina. A Operação Brother Sam, preparada para dar suporte logístico às forças golpistas caso houvesse resistência, revela que o golpe brasileiro tinha importância estratégica para Washington.  

Portanto, a religião não foi usada apenas internamente. Ela também fez parte de uma gramática transnacional do anticomunismo. O combate ao comunismo era militar, econômico, diplomático, cultural e religioso.

5. Patrick Peyton e o rosário como política internacional

Um dos pontos mais relevantes das pesquisas recentes é a atuação do padre Patrick Peyton e da Family Rosary Crusade, conhecida no Brasil como Cruzada do Rosário em Família. À primeira vista, trata-se de um movimento religioso devocional, centrado na oração do rosário e na defesa da família. Mas, no contexto da Guerra Fria, essa ação assumiu dimensão política.

A pesquisa de Isabella Villarinho Pereyra mostra que a atuação da Family Rosary Crusade no Brasil deve ser compreendida em perspectiva transnacional. O estudo evidencia como a religião foi utilizada pelos Estados Unidos no combate ao comunismo na América Latina, analisando jornais, documentos internos do governo norte-americano e documentos da própria organização religiosa.  

Outro estudo, de Anderson Guisolphi, afirma que as Cruzadas do Rosário em Família atuaram como ações anticomunistas nos meios católicos brasileiros entre 1962 e 1964. O resumo do artigo registra que o movimento associava a oração do rosário ao combate ao comunismo e examina interesses dos Estados Unidos, inclusive por meio da CIA, no patrocínio de eventos na América Latina.  

A ideia era simples e poderosa: tornar o anticomunismo uma prática religiosa cotidiana. Rezar contra o comunismo. Defender a família contra o comunismo. Marchar contra o comunismo. Votar contra o comunismo. Apoiar intervenções contra o comunismo.

Quando a política entra nesse nível da vida íntima, ela deixa de ser apenas debate público. Torna-se sentimento doméstico. A Guerra Fria entra na sala de jantar, no confessionário, na missa, na escola, no rádio e na conversa de família.

6. As Marchas da Família com Deus pela Liberdade

As Marchas da Família com Deus pela Liberdade foram o símbolo mais visível dessa fusão entre religião, moralidade, anticomunismo e política de massas. Elas reuniram setores médios, grupos católicos conservadores, entidades femininas, empresários, políticos e organizações civis contrárias a João Goulart.

A pergunta central é: essas marchas foram espontâneas? Parcialmente, sim. Pessoas reais foram às ruas movidas por medos reais. Mas medo real não significa medo espontâneo. O medo pode ser produzido, amplificado, dirigido e organizado.

É mais correto dizer que as marchas expressaram uma combinação entre sentimento social conservador e articulação política. Havia adesão popular, mas também havia redes de financiamento, propaganda, apoio institucional e coordenação ideológica.

O slogan “família com Deus pela liberdade” era brilhante do ponto de vista da comunicação política. Quem poderia ser contra a família? Quem poderia ser contra Deus? Quem poderia ser contra a liberdade? O problema é que, naquele contexto, essas palavras funcionavam como escudo retórico para um projeto de poder que resultaria em ditadura, censura, cassações, perseguições, tortura e supressão de direitos.

A contradição histórica é brutal: marchou-se em nome da liberdade para abrir caminho a um regime que destruiu liberdades democráticas.

A Comissão Nacional da Verdade, ao concluir seus trabalhos, afirmou a comprovação de graves violações de direitos humanos, seu caráter generalizado e sistemático, a ocorrência de crimes contra a humanidade e a persistência de práticas violadoras no Estado brasileiro.  

7. Teologia da Libertação: quando a fé muda de lado

O carrossel menciona também a Teologia da Libertação. Esse ponto é fundamental para evitar simplificações. A religião não é automaticamente conservadora. Ela pode servir à dominação, mas também pode servir à libertação.

Michael Löwy analisa exatamente essa ambiguidade. Em Marxismo e teologia da libertação, o autor mostra como setores cristãos latino-americanos passaram a interpretar a pobreza não como fatalidade divina, mas como resultado de estruturas históricas de exploração (Löwy, 1991). A fé, nesse caso, deixa de legitimar a ordem e passa a questioná-la.

A Teologia da Libertação aproximou cristianismo, justiça social, comunidades de base, crítica ao capitalismo dependente e opção pelos pobres. Isso assustou profundamente setores conservadores da Igreja, das elites latino-americanas e da política externa norte-americana.

O cristianismo que antes podia ser mobilizado contra reformas sociais agora também podia alimentar consciência popular, organização comunitária e denúncia da desigualdade. A fé deixava de ser apenas consolo individual e passava a ser instrumento de leitura crítica da realidade.

Por isso, após 1964, a repressão não se voltou apenas contra comunistas, sindicalistas, estudantes e militantes de esquerda. Também atingiu padres, freiras, leigos, comunidades e movimentos eclesiais comprometidos com direitos humanos e justiça social.

A disputa, portanto, não era “religião contra política”. Era disputa sobre qual religião, qual política e a serviço de quem.

8. Teologia da Prosperidade e despolitização da pobreza

O material também aponta uma mudança de paradigma: a substituição gradual de leituras coletivas da pobreza por leituras individualistas, meritocráticas e moralizantes. Esse ponto precisa ser tratado com cuidado, mas é decisivo para compreender o presente.

A Teologia da Libertação dizia: a pobreza tem causas históricas, econômicas e políticas. A Teologia da Prosperidade, em muitas de suas versões, desloca o problema para o indivíduo: sucesso e fracasso passam a ser lidos como resultado de fé, disciplina, mérito, obediência e atitude pessoal.

Isso tem consequências políticas profundas. Se a pobreza é estrutural, exige política pública, reforma tributária, direitos trabalhistas, educação, saúde, moradia, distribuição de renda e democratização do Estado. Mas se a pobreza é apenas resultado de falha individual, então a política desaparece. O pobre deixa de ser sujeito de direitos e passa a ser visto como alguém que ainda não “venceu” porque não teve fé suficiente, esforço suficiente ou disciplina suficiente.

Esse deslocamento é funcional ao neoliberalismo. Ele reduz conflitos sociais a trajetórias individuais. Despolitiza a desigualdade. Transforma injustiça em culpa pessoal.

É evidente que não se deve tratar todo religioso conservador como manipulador, nem todo fiel como manipulado. Isso seria injusto e sociologicamente pobre. O ponto é outro: certas formas de discurso religioso podem ser politicamente funcionais à manutenção da desigualdade quando retiram da esfera pública a discussão sobre estruturas econômicas.

9. Amazônia, missões e etnocídio cultural

O carrossel também aborda a fronteira amazônica e o etnocídio cultural. Esse tema exige especial precisão. A ditadura militar tratou a Amazônia como território estratégico para integração nacional, exploração mineral, expansão agropecuária, grandes obras e controle geopolítico. O lema “integrar para não entregar” escondia frequentemente uma visão colonial: a floresta era vista como vazio econômico; os povos indígenas, como obstáculo ao desenvolvimento.

A Comissão Nacional da Verdade e estudos sobre o Relatório Figueiredo mostram que povos indígenas foram vítimas de graves violações de direitos humanos. O Ministério dos Direitos Humanos registra que a CNV comprovou graves violações, seu caráter sistemático e generalizado e a ocorrência de crimes contra a humanidade.  

O Relatório Figueiredo, produzido em 1967, tornou-se documento-chave para entender violações cometidas contra povos indígenas pelo Serviço de Proteção aos Índios. Estudos recentes indicam que ele documenta práticas de controle, violência, exploração, deslocamento forçado, abusos e imposições assimilacionistas.  

O Instituto Socioambiental registra que a publicação sobre o Relatório Figueiredo trata de atrocidades como genocídio, exploração, trabalho escravo, massacres, ações de extermínio, deslocamentos forçados, usurpação territorial, abusos sexuais e práticas assimilacionistas destinadas a impedir a reprodução cultural dos povos indígenas.  

Nesse cenário, missões religiosas internacionais devem ser analisadas com cautela. Nem toda missão atuou da mesma forma. Nem todo missionário foi agente consciente de interesses econômicos. Mas é historicamente necessário investigar quando práticas missionárias serviram, direta ou indiretamente, à desestruturação cultural, à introdução de valores coloniais, à domesticação política e à abertura de territórios ao capital.

A obra de Colby e Dennett, Seja feita a vossa vontade, entra nesse debate ao relacionar evangelismo, Nelson Rockefeller, petróleo e Amazônia. Seu valor está em mostrar que religião, economia e geopolítica podem operar de forma articulada. Mas esse tipo de argumento exige rigor documental para evitar generalizações.

10. Como funciona a engenharia moral da política

A engenharia moral funciona por etapas.

Primeiro, identifica-se um conflito material: terra, salário, imposto, lucro, soberania, direitos sociais. Depois, esse conflito é traduzido em linguagem moral: família, Deus, liberdade, ordem, bons costumes. Em seguida, cria-se um inimigo absoluto: comunista, subversivo, ateu, inimigo da pátria, inimigo da família. Por fim, a população é convocada a defender valores abstratos, enquanto interesses concretos permanecem protegidos nos bastidores.

Esse mecanismo é eficiente porque valores morais mobilizam mais rapidamente do que argumentos econômicos. Poucas pessoas saem às ruas para defender a taxa de remessa de lucros. Muitas saem para defender seus filhos. Poucas marcham pela manutenção da concentração fundiária. Muitas marcham contra o medo de perder sua casa, sua igreja ou sua liberdade.

A engenharia moral não precisa convencer racionalmente. Ela precisa organizar afetos. Seu combustível é o medo. Seu método é a repetição. Sua linguagem é simples. Seu inimigo é absoluto. Sua promessa é a salvação.

Nesse sentido, a religião instrumentalizada se torna uma espécie de “atalho emocional” para a política. Ela reduz a complexidade histórica a uma batalha entre bem e mal.

11. O presente: por que esse debate ainda importa?

Esse tema não pertence apenas ao passado. A fusão entre religião, medo moral e interesses econômicos continua presente no Brasil contemporâneo. Sempre que debates sobre pobreza, tributação, direitos trabalhistas, meio ambiente, soberania, educação ou saúde são substituídos por pânicos morais, a velha engrenagem volta a funcionar.

Quando se discute desigualdade, fala-se em ameaça à liberdade. Quando se discute regulação econômica, fala-se em comunismo. Quando se discute direitos humanos, fala-se em defesa de bandidos. Quando se discute educação crítica, fala-se em doutrinação. Quando se discute proteção ambiental, fala-se em atraso. Quando se discute demarcação indígena, fala-se em obstáculo ao progresso.

O padrão é antigo: deslocar o debate material para o campo moral. Assim, evita-se discutir quem ganha, quem perde, quem paga, quem lucra e quem manda.

A pergunta decisiva é: quem se beneficia quando a população deixa de discutir economia política e passa a discutir apenas medo moral?

Conclusão crítica

O Brasil precisa aprender a distinguir fé de manipulação da fé. A religião é dimensão legítima da vida humana. Ela pode produzir sentido, comunidade, ética e compromisso social. Mas quando a religião é capturada por projetos de poder, ela deixa de iluminar consciências e passa a fabricar obediência.

O golpe de 1964 mostra que nenhuma ruptura democrática nasce apenas dos quartéis. Antes do golpe armado, há sempre um golpe simbólico. Antes dos tanques, há palavras. Antes da censura, há propaganda. Antes da perseguição, há a fabricação do inimigo. Antes da violência de Estado, há a autorização moral da sociedade.

A religião, quando convertida em arma geopolítica, serve para tornar aceitável o que, dito em linguagem econômica, talvez fosse inaceitável: concentração de renda, dependência externa, repressão popular, destruição de direitos, submissão nacional e bloqueio de reformas sociais.

O grande desafio democrático é recuperar o debate público da chantagem moral. Fé não pode ser biombo de privilégio. Deus não pode ser usado como cabo eleitoral de projetos autoritários. Família não pode ser transformada em senha para suprimir direitos. Liberdade não pode ser invocada para justificar ditadura.

A história brasileira ensina que toda vez que interesses econômicos se escondem atrás de discursos sagrados, é preciso olhar com mais atenção. Porque, muitas vezes, quando dizem estar defendendo Deus, estão defendendo propriedade. Quando dizem estar defendendo a família, estão defendendo hierarquia. Quando dizem estar defendendo a liberdade, estão defendendo o privilégio de poucos contra os direitos de muitos.

Referências

COLBY, Gerard; DENNETT, Charlotte. Seja feita a vossa vontade: a conquista da Amazônia: Nelson Rockefeller e o evangelismo na era do petróleo. Rio de Janeiro: Record, 1998.

DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado: ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Vozes, 1981.

FICO, Carlos. O grande irmão: da Operação Brother Sam à Operação Bandeirantes: a ditadura militar brasileira e o governo dos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

GUISOLPHI, Anderson José. Os rosários precederam os coturnos: o anticomunismo nas Cruzadas do Rosário em Família na América Latina e os golpes civil-militares (1960-1964). Cadernos de História, Belo Horizonte, v. 20, n. 33, p. 158-179, 2019.

LÖWY, Michael. Marxismo e teologia da libertação. São Paulo: Cortez, 1991.

PEREYRA, Isabella Villarinho. Rosários contra o comunismo: a atuação de Patrick Peyton e a Family Rosary Crusade no golpe militar de 1964. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 37, n. 82, 2024.

BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Brasília: CNV, 2014.

BELTRÃO, Jane Felipe (org.). Relatório Figueiredo: atrocidades contra povos indígenas em tempos ditatoriais. Rio de Janeiro: Mórula; LACED/Museu Nacional, 2022.