terça-feira, 2 de junho de 2026

Para que serve a democracia na vida concreta do cidadão comum?

Trumpismo, bolsonarismo e a urgência de renovar a democracia antes que o ressentimento vire autoritarismo


Índice

  1. Introdução: a democracia entre a promessa e a frustração
  2. Uma história comum: quando a democracia chega — ou não chega — à mesa do trabalhador
  3. A tese central: democracia não é apenas votar, é viver sem medo do poder
  4. A crise contemporânea da democracia liberal
    4.1 Crise econômica da vida cotidiana
    4.2 Crise de representação política
    4.3 Crise informacional e desinformação organizada
    4.4 Crise institucional e ataque aos freios democráticos
    4.5 Crise moral da política
  5. Trumpismo: a captura do ressentimento norte-americano
  6. Bolsonarismo: a versão brasileira da política do inimigo
  7. O que une Trump e Bolsonaro: ressentimento, antipolítica e culto ao líder
  8. Para que serve a democracia na vida concreta do cidadão comum?
  9. Como renovar a democracia antes que ela seja capturada por projetos autoritários
  10. Conclusão: a democracia precisa voltar a ser sentida pelo povo
  11. Referências

Lide

A crise democrática contemporânea não nasce apenas da existência de líderes autoritários. Ela nasce antes: no salário que não alcança o fim do mês, na escola pública abandonada, na saúde que demora, na violência cotidiana, na desinformação que confunde, na política que parece distante e na sensação de que o cidadão comum vota, mas não governa nada. Trumpismo nos Estados Unidos e bolsonarismo no Brasil são expressões diferentes de um mesmo fenômeno: a captura do ressentimento popular por projetos políticos que transformam angústia social em guerra cultural, adversários em inimigos e instituições democráticas em obstáculos a serem destruídos. A pergunta decisiva, portanto, não é apenas por que a extrema direita cresce, mas por que tantos cidadãos deixaram de sentir a democracia como proteção, dignidade e pertencimento. Renovar a democracia exige devolvê-la à vida concreta do povo.

1. Introdução: a democracia entre a promessa e a frustração

A democracia vive um paradoxo histórico. Nunca se falou tanto em direitos, participação, transparência, cidadania e liberdade; ao mesmo tempo, nunca tantos cidadãos pareceram tão desconfiados das instituições democráticas. O voto continua existindo, os parlamentos continuam funcionando, os tribunais continuam julgando, os jornais continuam publicando, as eleições continuam sendo realizadas. Mas uma pergunta incômoda atravessa as ruas, os grupos de WhatsApp, as filas dos hospitais, os ônibus lotados, os supermercados e os lares endividados: para que serve a democracia na vida concreta do cidadão comum?

Essa pergunta é perigosa porque, quando fica sem resposta, abre espaço para respostas autoritárias. Quando a democracia parece incapaz de proteger a vida cotidiana, surgem líderes prometendo ordem, vingança e salvação. Eles não aparecem como inimigos da democracia. Pelo contrário: dizem falar em nome do “povo verdadeiro” contra elites, tribunais, imprensa, universidades, partidos, movimentos sociais e qualquer instituição que limite sua vontade. Essa é uma das marcas centrais do populismo autoritário contemporâneo.

Nos Estados Unidos, o trumpismo cresceu sobre uma base de frustração econômica, perda de status social, ressentimento racial, medo migratório, desindustrialização e desconfiança em relação a Washington. No Brasil, o bolsonarismo se alimentou de insegurança pública, antipetismo, crise econômica, moralismo religioso, descrédito da política tradicional, medo da corrupção e rejeição às instituições de mediação democrática. Em ambos os casos, a angústia social foi convertida em linguagem de guerra.

A tese deste artigo é direta: a democracia só será renovada se voltar a ser percebida pelo cidadão comum como experiência concreta de dignidade, proteção, justiça e voz pública. Democracia que se reduz à urna, mas não chega ao prato, ao salário, à escola, à saúde, à segurança e à verdade pública, torna-se vulnerável ao autoritarismo. O problema não é apenas Trump ou Bolsonaro. Eles são sintomas e aceleradores de uma crise maior: a incapacidade das democracias contemporâneas de responder, com eficácia e sensibilidade, às dores reais de suas populações.

2. Uma história comum: quando a democracia chega — ou não chega — à mesa do trabalhador

Imagine um trabalhador chamado Antônio. Ele acorda às cinco da manhã, pega dois ônibus, trabalha o dia inteiro, volta para casa cansado e ainda precisa escolher quais contas vai pagar. No supermercado, percebe que o dinheiro compra cada vez menos. A escola do filho tem professor dedicado, mas falta estrutura. A unidade de saúde atende, mas demora. A rua tem iluminação ruim. A internet mostra, todos os dias, políticos brigando, juízes sendo atacados, influenciadores gritando, notícias falsas circulando e pessoas dizendo que “nada presta”.

Antônio vota desde os 18 anos. Já acreditou em partidos, já se decepcionou com partidos. Já ouviu promessas sobre emprego, segurança, saúde, educação e moralização da política. Mas, quando olha para a própria vida, sente que continua sozinho. Então aparece alguém dizendo: “O problema não é complexo. O problema são eles. A culpa é da esquerda, da direita, dos comunistas, dos globalistas, dos imigrantes, dos professores, dos artistas, do Supremo, da imprensa, das universidades, dos corruptos, dos vagabundos, dos inimigos da pátria”.

Essa fala seduz porque simplifica a dor. A vida de Antônio é complexa, mas o autoritarismo oferece uma explicação simples. A democracia exige paciência, mediação, diálogo, instituições, negociação, políticas públicas e tempo. O autoritarismo oferece inimigos. E, quando alguém sofre, a promessa de vingança pode parecer mais imediata do que a promessa de reforma institucional.

É exatamente nesse ponto que a democracia precisa ser defendida de modo concreto. Não basta dizer a Antônio que a democracia é bonita, nobre ou civilizada. É preciso mostrar que ela serve para que ele não dependa do favor de um poderoso; para que tenha direitos; para que possa criticar o governo; para que possa trocar governantes sem violência; para que a lei proteja os fracos contra os fortes; para que seu filho tenha escola; para que sua família tenha atendimento de saúde; para que o Estado não vire propriedade de um grupo armado, religioso, econômico ou familiar.

A democracia começa a morrer quando o cidadão comum deixa de senti-la como escudo e passa a vê-la como teatro.

3. A tese central: democracia não é apenas votar, é viver sem medo do poder

A democracia não pode ser reduzida ao ato de votar. Eleições são fundamentais, mas não bastam. Regimes autoritários também podem realizar eleições controladas, manipuladas ou formalmente competitivas. A democracia, em sentido mais profundo, é um modo de organizar o poder para que ninguém esteja acima da lei e para que a vida coletiva não dependa da vontade pessoal de um governante.

Como ensinou Bobbio (1986), a democracia moderna deve ser compreendida como um conjunto de regras que permite a tomada coletiva de decisões com participação ampla e limites institucionais. Dahl (2001), ao discutir a poliarquia, mostrou que a democracia exige competição política, participação inclusiva, liberdade de expressão, fontes alternativas de informação e autonomia associativa. Em outras palavras, democracia é tanto o direito de escolher governantes quanto o direito de controlá-los.

Na vida concreta, isso significa que o cidadão comum não precisa se ajoelhar diante do poder para existir. Ele pode procurar a Justiça, organizar-se em sindicato, participar de associação, criticar o prefeito, denunciar corrupção, frequentar uma igreja sem perseguição, estudar em uma universidade livre, votar contra o governo e exigir políticas públicas. Democracia é o regime em que o governante deve explicações ao povo, e não o povo ao governante.

Por isso, a democracia serve para impedir que o Estado seja sequestrado por uma pessoa, uma família, uma facção, uma oligarquia, uma igreja, uma empresa ou uma ideologia. Serve para limitar o poder. Serve para distribuir voz. Serve para proteger minorias. Serve para garantir que a maioria governe, mas sem esmagar direitos fundamentais. Serve para permitir conflito político sem guerra civil.

Quando essa função se enfraquece, o ressentimento popular vira combustível para projetos autoritários. O cidadão passa a pensar: “Se a democracia não resolve, talvez seja preciso alguém forte”. Essa é a porta de entrada da barbárie política.

4. A crise contemporânea da democracia liberal

A crise democrática atual é ampla porque não se limita a um país, um partido ou uma liderança. Ela atravessa Estados Unidos, Brasil, França, Reino Unido, Itália, Hungria, Polônia, Argentina, Alemanha e diversas outras democracias ocidentais. Cada país possui sua história, mas há sintomas comuns: insatisfação popular, polarização extrema, erosão da confiança institucional, desinformação, desigualdade, ataques à imprensa, descrédito dos partidos e crescimento de lideranças antissistema.

Relatórios internacionais recentes têm apontado esse desgaste. O V-Dem descreve um processo global de autocratização, com deterioração de liberdades e enfraquecimento de mecanismos democráticos em diferentes regiões (V-Dem, 2025). A Freedom House registra declínio persistente da liberdade global e alerta para líderes eleitos que tentam superar freios institucionais em nome de seus objetivos políticos (Freedom House, 2025). O International IDEA também destaca que, em muitos países, retrocessos democráticos têm superado avanços, especialmente nos campos da representação, dos direitos e do Estado de Direito (International IDEA, 2024).

Essa crise possui pelo menos cinco dimensões.

4.1 Crise econômica da vida cotidiana

A democracia perde legitimidade quando a vida material se deteriora. O cidadão pode até valorizar a liberdade de expressão, mas, se o salário não paga a comida, a democracia começa a parecer abstrata. Inflação, desemprego, informalidade, endividamento, precarização do trabalho, moradia cara e desigualdade produzem uma sensação de abandono.

Nos Estados Unidos, essa crise aparece no custo de vida, na perda de segurança econômica da classe média, na desindustrialização de regiões inteiras e na percepção de que as elites financeiras e tecnológicas se beneficiaram mais da globalização do que o trabalhador comum. No Brasil, aparece na desigualdade histórica, no preço dos alimentos, na violência urbana, no transporte precário, na informalidade e na dificuldade de acesso a serviços públicos de qualidade.

A economia, nesse sentido, não é apenas um tema técnico. É uma experiência moral. Quando alguém trabalha muito e continua sem dignidade, nasce a sensação de injustiça. E a injustiça prolongada gera ressentimento.

4.2 Crise de representação política

Muitos cidadãos sentem que votam, mas não são ouvidos. Os partidos parecem distantes. O parlamento parece funcionar para interesses próprios. A política profissional parece falar uma língua incompreensível. A propaganda eleitoral promete proximidade, mas o cotidiano institucional entrega distância.

Essa crise é grave porque a democracia representativa depende de mediação. Partidos, sindicatos, movimentos sociais, associações, imprensa e parlamentos são pontes entre sociedade e Estado. Quando essas pontes se quebram, surgem lideranças que dizem falar diretamente em nome do povo, sem mediações. Essa promessa parece democrática, mas costuma ser perigosa. O líder que diz “eu sou o povo” tende a tratar qualquer oposição como inimiga do povo.

Foi assim com Trump ao atacar sistematicamente instituições norte-americanas, jornalistas, adversários e até resultados eleitorais. Foi assim com Bolsonaro ao atacar o Supremo Tribunal Federal, o sistema eleitoral, universidades, imprensa e opositores políticos. Nos dois casos, a representação institucional foi substituída pela ideia de identificação emocional direta entre líder e massa.

4.3 Crise informacional e desinformação organizada

A democracia depende de um mínimo comum de realidade. É possível discordar sobre soluções, mas é preciso compartilhar alguns fatos básicos. Quando a sociedade perde esse chão comum, a política vira delírio organizado.

As redes sociais ampliaram a liberdade de expressão, mas também criaram ambientes de manipulação algorítmica, bolhas ideológicas, teorias conspiratórias e radicalização afetiva. A mentira deixou de ser apenas erro ou boato; tornou-se método político. A desinformação organizada opera como indústria: produz dúvida, ataca adversários, distorce fatos, fabrica medo e mantém a militância em estado permanente de mobilização emocional.

Trumpismo e bolsonarismo usaram intensamente essa dinâmica. A suspeita permanente contra eleições, imprensa, ciência, universidades e tribunais não é acidental. Ela serve para deslocar a confiança do cidadão das instituições para o líder. Quando tudo é mentira, só resta acreditar em quem grita mais alto dentro da própria bolha.

4.4 Crise institucional e ataque aos freios democráticos

A democracia constitucional foi construída sobre a ideia de limites. Executivo, Legislativo e Judiciário devem se controlar reciprocamente. A imprensa deve fiscalizar. A sociedade civil deve participar. Órgãos eleitorais devem garantir regras. Universidades devem produzir conhecimento crítico. O Ministério Público, tribunais de contas e demais instituições devem impedir abusos.

O populismo autoritário considera esses limites obstáculos. Para esse tipo de liderança, qualquer instituição que contrarie o líder é acusada de traição, perseguição ou conspiração. Assim, a crítica legítima às instituições se transforma em campanha de destruição da confiança pública.

O problema não é criticar o Supremo, o Congresso, a imprensa ou qualquer órgão público. Em democracia, toda instituição deve ser criticável. O problema é negar sua legitimidade para abrir espaço ao poder sem controle. Quando o líder convence seus seguidores de que apenas ele representa a nação, qualquer freio institucional passa a ser visto como inimigo.

4.5 Crise moral da política

Há também uma crise ética. A mentira foi normalizada. A brutalidade verbal virou estilo. A humilhação do adversário virou entretenimento. A compaixão passou a ser ridicularizada como fraqueza. A ciência passou a ser tratada como opinião. A violência simbólica tornou-se instrumento de fidelização política.

Essa crise moral é talvez a mais profunda. Porque a democracia não depende apenas de regras; depende de costumes, valores e disposições morais. Montesquieu já compreendia que regimes políticos precisam de princípios que os sustentem. A democracia precisa de virtude cívica, respeito ao dissenso, autocontenção institucional e reconhecimento da legitimidade do adversário.

Quando o adversário vira inimigo absoluto, a democracia adoece.

5. Trumpismo: a captura do ressentimento norte-americano

O trumpismo não pode ser entendido apenas como apoio eleitoral a Donald Trump. Ele é um fenômeno político, cultural e afetivo. Mistura nacionalismo, ressentimento social, medo da perda de status, rejeição às elites liberais, hostilidade à imprensa, desconfiança institucional, conservadorismo moral e culto personalista à liderança.

A frase “Make America Great Again” é politicamente poderosa porque fala de perda. Ela sugere que houve uma grandeza roubada e que alguém precisa recuperá-la. Mas recuperá-la de quem? Dos imigrantes? Dos democratas? Da China? Dos globalistas? Da imprensa? Das universidades? Do “Estado profundo”? A força do slogan está justamente em permitir múltiplos inimigos.

O trumpismo transforma problemas estruturais em ressentimento direcionado. A desindustrialização, por exemplo, é um fenômeno complexo, ligado à globalização, automação, financeirização e mudanças produtivas. Mas a narrativa trumpista simplifica: alguém traiu o povo americano. A imigração, por sua vez, é fenômeno histórico, econômico e humanitário; mas, no discurso autoritário, vira ameaça existencial.

O ápice institucional dessa lógica apareceu em 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Trump invadiram o Capitólio após a contestação infundada do resultado eleitoral. A cena foi simbólica: a democracia mais influente do Ocidente viu sua sede legislativa atacada por uma multidão convencida de que a eleição havia sido roubada.

Esse é o ponto essencial: quando o líder mina sistematicamente a confiança nas regras do jogo, uma parte da sociedade deixa de aceitar a derrota como parte da democracia. A derrota passa a ser vista como fraude. O adversário passa a ser usurpador. A violência passa a ser justificada como “resistência”.

O trumpismo, portanto, revela a fragilidade de uma democracia quando milhões de cidadãos deixam de confiar nas instituições e passam a confiar apenas na palavra do líder.

6. Bolsonarismo: a versão brasileira da política do inimigo

O bolsonarismo é diferente do trumpismo porque nasce em outro contexto histórico, social e institucional. O Brasil tem desigualdade mais profunda, herança escravocrata, violência estatal persistente, instabilidade institucional recorrente, memória autoritária da ditadura militar e uma cultura política marcada por personalismo, patrimonialismo e antipolítica.

Mesmo assim, há semelhanças evidentes. O bolsonarismo também capturou ressentimentos. Capturou o medo da violência urbana, a revolta contra a corrupção, o antipetismo, a insegurança econômica, o moralismo religioso, o ressentimento contra universidades e movimentos sociais, a desconfiança em relação à imprensa e a nostalgia autoritária de setores que idealizam a ditadura.

Bolsonaro apresentou-se como homem simples, “contra tudo isso que está aí”, embora tenha sido parlamentar por quase três décadas. Sua força política não veio de um programa sofisticado de governo, mas de uma gramática emocional: inimigos claros, linguagem direta, agressividade, humor ofensivo, desprezo pelo politicamente correto e promessa de restauração moral.

O bolsonarismo organizou sua identidade em torno da guerra cultural. O adversário não era apenas alguém com outro projeto político; era comunista, corrupto, inimigo da família, inimigo de Deus, inimigo da pátria. Esse mecanismo é poderoso porque produz pertencimento. Quem adere ao movimento sente que faz parte de uma cruzada moral.

O 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores bolsonaristas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília, foi o equivalente brasileiro da recusa em aceitar a derrota democrática. A violência não surgiu do nada. Ela foi precedida por anos de ataques às urnas eletrônicas, ao Supremo Tribunal Federal, à imprensa e à legitimidade do processo eleitoral.

Assim como no trumpismo, a lógica era clara: se o líder perde, a eleição só pode ter sido fraudada; se as instituições confirmam a derrota, as instituições são inimigas; se a lei impede o retorno do líder, a lei deve ser desmoralizada. Esse é o roteiro clássico da erosão democrática contemporânea.

7. O que une Trump e Bolsonaro: ressentimento, antipolítica e culto ao líder

Trumpismo e bolsonarismo não são idênticos, mas compartilham uma arquitetura política semelhante.

Primeiro, ambos transformam ressentimento em identidade. O apoiador não apenas vota; ele pertence a um grupo que se vê como perseguido, moralmente superior e historicamente injustiçado.

Segundo, ambos constroem inimigos permanentes. A política deixa de ser disputa de projetos e vira batalha entre o bem e o mal. Isso simplifica o mundo e mobiliza emoções fortes.

Terceiro, ambos atacam instituições intermediárias. Imprensa, universidades, tribunais, órgãos eleitorais, ciência e partidos são apresentados como parte de um sistema corrupto.

Quarto, ambos personalizam a política. O líder vira símbolo absoluto. Criticar o líder passa a ser interpretado como atacar o povo, a pátria, a família ou Deus.

Quinto, ambos usam intensamente ecossistemas digitais. A militância conectada funciona como máquina de guerra informacional, produzindo indignação contínua.

Sexto, ambos tensionam os limites da democracia por dentro. Não chegam ao poder por golpe clássico, mas por eleições. Uma vez dentro do sistema, passam a corroer as regras que permitiram sua ascensão.

Essa é a grande novidade do autoritarismo contemporâneo: ele não precisa começar fechando o Congresso. Muitas vezes começa desacreditando a imprensa, atacando tribunais, desmoralizando eleições, perseguindo adversários, normalizando mentiras e convencendo a população de que só o líder pode salvar a nação.

8. Para que serve a democracia na vida concreta do cidadão comum?

A democracia serve para que o cidadão comum não dependa da boa vontade dos poderosos. Serve para transformar súditos em sujeitos de direitos. Serve para garantir que o Estado não seja propriedade privada de governantes. Serve para impedir que divergência política seja tratada como crime. Serve para proteger o fraco contra o arbítrio do forte.

Na vida concreta, democracia é poder votar e trocar governantes sem guerra. É poder criticar o prefeito, o presidente, o governador, o juiz, o deputado e o policial sem medo de perseguição. É ter imprensa livre para denunciar abusos. É ter escola pública que forme cidadãos. É ter universidade capaz de produzir ciência. É ter SUS, assistência social, previdência, direitos trabalhistas e políticas públicas. É ter a possibilidade de recorrer à Justiça. É ter liberdade religiosa. É ter direito de associação. É ter proteção contra a violência do Estado e contra a violência privada.

Mas a democracia também precisa ser material. Não basta liberdade formal se a vida cotidiana é marcada pela fome, pelo medo e pela humilhação. Uma democracia que não enfrenta desigualdade produz cidadãos formalmente livres, mas socialmente abandonados.

Por isso, a democracia deve servir para organizar a esperança pública. Não esperança ingênua, mas esperança institucional: a crença de que problemas coletivos podem ser enfrentados por meios coletivos, legais, participativos e racionais.

Quando essa esperança desaparece, o autoritarismo entra oferecendo atalhos. Promete resolver a violência com brutalidade, a corrupção com perseguição seletiva, a economia com slogans, a moral com repressão, a política com culto ao líder. Mas o preço é alto: menos liberdade, menos pluralismo, menos controle público e mais medo.

A democracia serve, portanto, para que o cidadão comum não precise escolher entre ordem e liberdade, entre segurança e direitos, entre fé e pluralismo, entre patriotismo e crítica. Democracia verdadeira é aquela que garante ordem com liberdade, segurança com direitos, fé com tolerância e patriotismo com soberania popular.

9. Como renovar a democracia antes que ela seja capturada por projetos autoritários

Renovar a democracia exige mais do que defender instituições em discursos solenes. É preciso reconstruir vínculos entre democracia e vida concreta. Essa renovação passa por pelo menos oito caminhos.

O primeiro é entregar dignidade material. Democracia precisa significar comida, renda, moradia, saúde, escola, transporte, segurança e trabalho decente. Sem isso, ela vira abstração de elite.

O segundo é reconstruir a representação política. Partidos precisam voltar a formar quadros, apresentar programas, dialogar com territórios e prestar contas. Parlamento não pode ser apenas balcão de emendas, marketing e autopreservação.

O terceiro é defender instituições com transparência. Judiciário, Legislativo, Executivo, Ministério Público, universidades e imprensa precisam ser protegidos de ataques autoritários, mas também precisam reconhecer seus próprios déficits de linguagem, acesso e accountability.

O quarto é regular democraticamente o ambiente digital. Liberdade de expressão não pode ser confundida com liberdade para destruir reputações, fraudar debate público, impulsionar mentiras e manipular eleições. A regulação deve ser transparente, proporcional e submetida ao controle democrático.

O quinto é fortalecer educação cidadã. Uma população que não compreende Constituição, direitos, deveres, separação de poderes, orçamento público, ciência e mídia torna-se vulnerável a charlatães políticos.

O sexto é combater desigualdades territoriais. A democracia precisa chegar às periferias, ao campo, às pequenas cidades, aos povos tradicionais, aos trabalhadores informais e aos jovens sem perspectiva. Onde o Estado só aparece como polícia ou burocracia, o autoritarismo encontra terreno fértil.

O sétimo é recuperar a ética pública. Mentira, cinismo, violência verbal e desumanização não podem ser tratados como estilo político normal. Democracia exige adversários, não inimigos; conflito, não extermínio simbólico; crítica, não destruição.

O oitavo é construir pertencimento democrático. As pessoas precisam sentir que fazem parte de algo comum. O autoritarismo oferece pertencimento pela exclusão: “nós contra eles”. A democracia precisa oferecer pertencimento pela cidadania: “nós, apesar das diferenças”.

No Brasil, isso significa defender a soberania nacional, as urnas, o Estado de Direito, a Constituição de 1988, o SUS, a educação pública, a ciência, a cultura, os direitos sociais e as liberdades civis. Nos Estados Unidos, significa enfrentar desigualdades, reconstruir confiança eleitoral, conter extremismos, proteger direitos civis e impedir que a política da conspiração substitua a política institucional.

Em ambos os casos, a democracia só vencerá se for mais convincente que o ódio.

10. Conclusão: a democracia precisa voltar a ser sentida pelo povo

A pergunta “para que serve a democracia?” não pode ser respondida apenas por juristas, cientistas políticos ou discursos oficiais. Ela precisa ser respondida na vida do cidadão comum. Democracia serve para que uma mãe tenha atendimento de saúde para o filho. Serve para que um trabalhador receba salário digno. Serve para que uma professora ensine sem medo. Serve para que um jornalista investigue corrupção. Serve para que uma pessoa pobre possa enfrentar um poderoso diante da lei. Serve para que uma eleição seja aceita sem violência. Serve para que a fé de um não seja imposta como lei sobre todos. Serve para que a crítica não seja confundida com traição.

Trumpismo e bolsonarismo mostram o que acontece quando essa resposta falha. O ressentimento não desaparece; ele é capturado. A dor social não se dissolve; ela é convertida em ódio político. A frustração econômica não vira automaticamente consciência democrática; pode virar desejo de punição, culto ao líder e desprezo por instituições.

Por isso, renovar a democracia é tarefa urgente. Não se trata de defender um sistema perfeito, mas de impedir que suas falhas sejam usadas como pretexto para destruir as liberdades que ainda permitem corrigi-lo. A democracia é lenta, imperfeita, conflituosa e muitas vezes frustrante. Mas é justamente nela que o povo pode reclamar, votar, fiscalizar, denunciar, organizar-se, resistir e reconstruir.

O autoritarismo promete atalhos. A democracia oferece caminho. O atalho parece sedutor, mas costuma terminar em silêncio. O caminho democrático é mais difícil, porém é o único que permite ao cidadão comum permanecer de pé diante do poder.

A democracia serve, no fim das contas, para isto: para que ninguém precise pedir licença a um chefe político para existir com dignidade.

Referências

BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

CASTELLS, Manuel. Ruptura: a crise da democracia liberal. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

DAHL, Robert A. Sobre a democracia. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.

FREEDOM HOUSE. Freedom in the World 2025: the uphill battle to safeguard rights. Washington, DC: Freedom House, 2025.

INTERNATIONAL IDEA. The Global State of Democracy 2024: strengthening the legitimacy of elections in a time of radical uncertainty. Stockholm: International IDEA, 2024.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

MOUNK, Yascha. O povo contra a democracia: por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

PEW RESEARCH CENTER. Dissatisfaction with democracy remains widespread in many nations. Washington, DC: Pew Research Center, 2025.

V-DEM INSTITUTE. Democracy Report 2025: 25 years of autocratization — democracy trumped?. Gothenburg: University of Gothenburg, 2025.


Quando o dinheiro vira arma: Irã, Rússia, FCPA, Lei Magnitsky, WhatsApp Pay e BRICS+ na disputa pela soberania financeira

Os exemplos históricos mostram que sanções, sistemas de pagamento, leis anticorrupção, listas de direitos humanos, plataformas digitais e bancos multilaterais não são apenas instrumentos técnicos: são peças centrais da nova geopolítica do poder.


Índice

  1. Introdução: a nova guerra não começa com tanques
  2. A tese central: a infraestrutura virou campo de batalha
  3. Irã e SWIFT: quando um país é desconectado do sistema financeiro
  4. Rússia e SWIFT: a sanção como arma de guerra econômica
  5. FCPA: a lei anticorrupção como instrumento de jurisdição global
  6. Lei Magnitsky: direitos humanos, corrupção e coerção seletiva
  7. WhatsApp Pay: a tentativa das Big Techs de ocupar o território dos pagamentos
  8. Pix: a resposta pública brasileira ao oligopólio financeiro-digital
  9. BRICS+: a busca por alternativas à dependência do dólar
  10. O que esses casos ensinam ao Brasil
  11. Conclusão: soberania é também controlar os trilhos invisíveis da economia
  12. Referências

Lide

A história recente demonstra que o poder mundial já não se exerce apenas por bases militares, tratados diplomáticos ou controle territorial. Ele também se manifesta por sanções financeiras, exclusão de redes bancárias, leis nacionais com alcance global, controle de plataformas digitais e disputa por sistemas de pagamento. Irã, Rússia, FCPA, Lei Magnitsky, WhatsApp Pay e BRICS+ são exemplos de uma mesma transformação: a infraestrutura econômica tornou-se arma geopolítica. Para o Brasil, esse aprendizado é decisivo. Defender o Pix, fortalecer o sistema financeiro nacional e diversificar parcerias internacionais não é capricho ideológico; é condição de soberania no século XXI.

1. Introdução: a nova guerra não começa com tanques

Durante muito tempo, quando se falava em guerra, a imagem que vinha à cabeça era a de soldados atravessando fronteiras, aviões rasgando o céu, navios cercando portos e tanques avançando sobre cidades. Essa imagem ainda existe. A guerra clássica não desapareceu. Mas ela deixou de ser a única forma de imposição de poder.

No século XXI, um país pode ser atacado sem que uma bala seja disparada. Pode ter seus bancos isolados. Pode ver suas empresas perderem acesso a crédito. Pode ter suas reservas congeladas. Pode ser impedido de importar medicamentos, tecnologia ou peças industriais. Pode sofrer bloqueios em plataformas digitais. Pode ver seus dirigentes, juízes, empresários e instituições incluídos em listas internacionais de sanção. Pode ser obrigado a mudar sua política externa por medo de perder acesso ao dólar.

É uma guerra sem fumaça, mas com efeitos concretos. Não destrói pontes com explosivos; destrói confiança. Não fecha portos com navios; fecha canais de pagamento. Não ocupa ministérios; condiciona decisões. Não precisa invadir fisicamente um território; basta controlar os trilhos por onde circulam dinheiro, dados, crédito, comércio e reputação.

É nesse cenário que os casos do Irã, da Rússia, da FCPA, da Lei Magnitsky, do WhatsApp Pay e dos BRICS+ precisam ser compreendidos. Eles parecem temas diferentes, mas pertencem à mesma arquitetura de poder. Todos mostram que a infraestrutura financeira e digital virou campo de batalha.

A tese deste artigo é direta: a soberania contemporânea depende da capacidade de um país controlar, proteger ou diversificar suas infraestruturas críticas de pagamento, crédito, dados e liquidação financeira. Países que dependem integralmente de redes controladas por outros ficam vulneráveis à coerção. Países que constroem alternativas ganham margem de manobra.

2. A tese central: a infraestrutura virou campo de batalha

A globalização foi vendida como integração neutra. A promessa era simples: quanto mais comércio, finanças e tecnologia conectassem os países, menor seria o risco de conflito. Mas a experiência histórica recente revelou o lado oculto dessa interdependência. Redes globais não são neutras quando seus pontos centrais são controlados por poucos Estados e corporações.

Henry Farrell e Abraham Newman chamaram esse fenômeno de “interdependência armada”. Em redes globais concentradas, quem controla os nós principais pode vigiar, bloquear, punir ou condicionar os demais (Farrell; Newman, 2019).

O sistema financeiro internacional possui vários desses nós. O dólar é um deles. Bancos correspondentes em Nova York são outro. O SWIFT é outro. As bandeiras de cartão, as Big Techs, as plataformas de nuvem, os sistemas de compliance e as listas de sanções também funcionam como nós de poder.

Quando um país, banco ou empresa é excluído desses circuitos, não perde apenas uma facilidade técnica. Perde acesso à circulação normal da economia internacional. É como se uma cidade continuasse existindo, mas suas estradas, pontes, internet, energia e telefones fossem cortados ao mesmo tempo. Formalmente, ela ainda está no mapa. Materialmente, começa a sufocar.

Por isso, discutir Pix, WhatsApp Pay, BRICS+, SWIFT, sanções e leis extraterritoriais não é discutir tecnicalidade bancária. É discutir soberania. Quem controla a infraestrutura controla parte da política.

3. Irã e SWIFT: quando um país é desconectado do sistema financeiro

O caso do Irã é um dos exemplos mais evidentes do uso do sistema financeiro como instrumento de coerção geopolítica. Em 2012, bancos iranianos submetidos a sanções europeias foram desconectados do SWIFT. A medida foi apresentada como parte da pressão internacional contra o programa nuclear iraniano.

O SWIFT não é banco. Não guarda dinheiro. É uma rede de mensagens financeiras utilizada por instituições bancárias para enviar ordens de pagamento internacionais. Mas, no mundo moderno, essa mensageria é essencial. Sem ela, os bancos continuam existindo, mas sua comunicação internacional fica gravemente prejudicada.

A desconexão dos bancos iranianos mostrou ao mundo que uma infraestrutura aparentemente técnica podia ser usada como alavanca política. O objetivo não era apenas punir algumas instituições. Era elevar o custo econômico do Irã até que o país aceitasse negociar sob pressão.

O impacto foi profundo. O comércio exterior ficou mais difícil. Transações legítimas se tornaram arriscadas. Empresas estrangeiras passaram a evitar negócios com o Irã. Mesmo setores não diretamente sancionados sofreram com o medo de descumprir regras. Esse medo é parte da própria sanção. Muitas vezes, a sanção formal atinge um alvo; o receio de sanção atinge dezenas de outros.

O caso iraniano ensina uma lição fundamental: um país pode ser pressionado não apenas bloqueando seus portos ou bombardeando suas bases, mas tornando suas transações financeiras mais caras, lentas e suspeitas.

A sanção financeira moderna atua como uma cerca invisível. O país continua no planeta, mas passa a circular em corredores estreitos, vigiados e custosos.

4. Rússia e SWIFT: a sanção como arma de guerra econômica

Em 2022, após a invasão da Ucrânia, a União Europeia e aliados ocidentais decidiram excluir bancos russos selecionados do SWIFT. A medida foi uma das respostas econômicas mais emblemáticas do Ocidente contra Moscou.

O caso russo é diferente do iraniano em escala e contexto. A Rússia é potência militar, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, grande exportadora de energia e país com capacidade nuclear. Mesmo assim, sofreu uma ofensiva financeira intensa, incluindo congelamento de reservas, restrições bancárias, sanções comerciais e limitações tecnológicas.

A exclusão de bancos russos do SWIFT não significou o colapso imediato da Rússia. O país buscou alternativas, ampliou comércio com parceiros não ocidentais, fortaleceu mecanismos internos e utilizou rotas financeiras paralelas. Mas o custo aumentou. Transações ficaram mais complexas. Relações comerciais foram reorganizadas. Bancos e empresas tiveram de operar sob risco permanente.

O caso russo mostra duas coisas ao mesmo tempo. Primeiro: o sistema financeiro internacional pode ser usado como arma de guerra. Segundo: países com alguma escala e alternativas conseguem resistir parcialmente, embora pagando preço elevado.

Essa segunda lição é essencial para o Brasil. A vulnerabilidade de um país não depende apenas da sanção em si, mas do grau de dependência que ele possui em relação a uma única arquitetura financeira. Quanto mais concentrada for a dependência, maior será o poder de coerção externo. Quanto mais diversificadas forem as rotas de pagamento, financiamento e comércio, maior será a margem de defesa.

A Rússia não ficou imune. Mas sua experiência acelerou a busca mundial por alternativas ao dólar, ao SWIFT e aos canais financeiros dominados pelo Ocidente.

5. FCPA: a lei anticorrupção como instrumento de jurisdição global

A FCPA, Lei de Práticas de Corrupção no Exterior dos Estados Unidos, foi criada em 1977 para punir empresas e indivíduos envolvidos no pagamento de propina a agentes públicos estrangeiros. Em princípio, trata-se de um instrumento legítimo de combate à corrupção. Ninguém sério deve defender suborno, fraude ou captura privada do Estado.

O problema está no alcance. A FCPA permite que autoridades norte-americanas investiguem e punam empresas estrangeiras quando há algum ponto de conexão com os Estados Unidos: negociação em bolsa americana, uso do sistema financeiro em dólar, e-mails passando por servidores americanos, subsidiárias, investidores ou qualquer vínculo relevante com a jurisdição norte-americana.

Esse desenho transformou a FCPA em uma das ferramentas mais poderosas de jurisdição extraterritorial do mundo. Grandes empresas globais passaram a ser pressionadas a cooperar com o Departamento de Justiça e a SEC, pagar multas bilionárias, alterar governança e aceitar acordos sob supervisão.

Há, portanto, uma tensão. De um lado, a FCPA ajudou a elevar padrões globais de integridade e compliance. De outro, consolidou o poder dos Estados Unidos de julgar práticas empresariais ocorridas fora de seu território, envolvendo empresas e governos estrangeiros.

A questão não é defender corrupção. A questão é perguntar: quem julga, com quais critérios, em benefício de quais interesses e com quais efeitos econômicos?

Para países periféricos ou semiperiféricos, essa pergunta é decisiva. Uma legislação anticorrupção pode combater práticas criminosas reais, mas também pode ser usada seletivamente em disputas comerciais e geopolíticas. Empresas estratégicas podem ser enfraquecidas. Cadeias produtivas podem ser afetadas. Setores nacionais podem perder competitividade.

O Brasil conhece bem esse dilema. A luta contra a corrupção é necessária, mas, se conduzida sem soberania institucional, pode gerar destruição econômica, dependência tecnológica e perda de capacidade nacional.

6. Lei Magnitsky: direitos humanos, corrupção e coerção seletiva

A Lei Magnitsky surgiu inicialmente relacionada ao caso do advogado russo Sergei Magnitsky, morto em prisão na Rússia após denunciar supostos esquemas de corrupção. Posteriormente, a lógica foi ampliada pelo chamado Global Magnitsky Act, permitindo sanções contra indivíduos acusados de graves violações de direitos humanos ou corrupção significativa.

Em termos morais, a ideia parece incontestável. Quem comete graves violações de direitos humanos ou participa de corrupção sistêmica deve ser responsabilizado. O problema, novamente, está na seletividade e na concentração do poder sancionatório.

A Lei Magnitsky permite congelamento de ativos, restrições de visto e bloqueios financeiros contra indivíduos e entidades estrangeiras. O instrumento pode ser eficaz contra ditadores, torturadores, cleptocratas e redes de corrupção. Mas também pode ser usado como mecanismo de pressão política, especialmente quando aplicado sem mediação multilateral robusta.

O ponto sensível é que uma potência passa a se colocar como juíza global de condutas políticas, judiciais e administrativas de outros países. Isso pode ser defensável em casos extremos, mas também pode abrir espaço para interferência seletiva.

A seletividade é a alma da crítica. Por que alguns aliados são poupados e alguns adversários são punidos? Por que certas violações geram sanções e outras são relativizadas? Por que a régua moral parece endurecer contra inimigos e amolecer diante de parceiros estratégicos?

Essa pergunta não invalida a importância dos direitos humanos. Ao contrário, protege-os. Direitos humanos não podem virar instrumento oportunista de política externa. Se forem usados apenas contra adversários, perdem universalidade e viram arma.

A Lei Magnitsky é, portanto, um exemplo de ambivalência. Pode punir abusos reais, mas também pode funcionar como ferramenta de coerção política. O Brasil precisa observar esse mecanismo com atenção, principalmente quando debates internos passam a ser internacionalizados por atores políticos nacionais em busca de vantagem doméstica.

7. WhatsApp Pay: a tentativa das Big Techs de ocupar o território dos pagamentos

O caso do WhatsApp Pay no Brasil é fundamental para entender a disputa entre infraestrutura pública e captura privada dos pagamentos digitais.

Em junho de 2020, o Banco Central determinou a suspensão do serviço de pagamentos pelo WhatsApp no Brasil, envolvendo Visa e Mastercard, para avaliar riscos ao Sistema de Pagamentos Brasileiro, à concorrência e à proteção do funcionamento adequado do mercado. O Cade também adotou medida cautelar no mesmo contexto.

Esse episódio foi muito mais importante do que pareceu à primeira vista. O WhatsApp não é um aplicativo qualquer no Brasil. É praticamente uma infraestrutura social de comunicação. Está no trabalho, na família, na escola, na política, no comércio, nas igrejas, nos grupos comunitários e nas relações de consumo.

Se uma plataforma com essa capilaridade passasse a controlar também pagamentos, ela poderia integrar comunicação, consumo, dados, publicidade, crédito e transferência financeira em um único ecossistema privado. Isso criaria um poder econômico extraordinário.

A autorização posterior, com limitações e regulação, mostrou que o Banco Central não era contra inovação. Era contra a captura desregulada de uma infraestrutura crítica por uma plataforma privada dominante.

Esse ponto é essencial. O problema não é uma empresa oferecer serviço de pagamento. O problema é quando uma empresa que já controla a comunicação cotidiana de milhões de pessoas passa também a controlar o trilho pelo qual circula o dinheiro dessas pessoas.

Aí não se trata apenas de conveniência. Trata-se de soberania de dados, concorrência, estabilidade financeira e autonomia regulatória.

O WhatsApp Pay revelou o apetite das Big Techs por um território estratégico: o pagamento cotidiano. O Pix, lançado e consolidado sob liderança pública, ocupou esse território antes que ele fosse capturado integralmente por plataformas privadas.

8. Pix: a resposta pública brasileira ao oligopólio financeiro-digital

O Pix representa uma das decisões públicas mais importantes do Brasil contemporâneo. Ele mostrou que o Estado pode inovar com eficiência, escala e impacto social. Em pouco tempo, tornou-se meio de pagamento dominante, especialmente entre pessoas físicas, pequenos negócios e trabalhadores autônomos.

Sua importância não está apenas na velocidade. Está na lógica institucional. O Pix é uma infraestrutura pública regulada pelo Banco Central, aberta a diferentes participantes e estruturada para reduzir custos de transação.

Antes dele, o comércio popular dependia mais fortemente de cartões, maquininhas, boletos, TED, DOC e intermediários privados. Cada etapa significava custo, prazo ou dependência. O Pix reduziu esses atritos e devolveu margem financeira para pequenos agentes econômicos.

É por isso que qualquer ameaça ao Pix precisa ser tratada com seriedade. Não porque o sistema seja perfeito. Nenhuma infraestrutura financeira é. Criminosos usam Pix, assim como usam dinheiro vivo, empresas de fachada, criptomoedas, bancos tradicionais, imóveis e comércio exterior. A resposta adequada é melhorar inteligência financeira, rastreabilidade e cooperação institucional.

Mas atacar o Pix como se ele fosse a causa do crime seria erro analítico e político. A infraestrutura não é criminosa porque criminosos a utilizam. Estradas não são criminosas porque transportam contrabando. Celulares não são criminosos porque facções se comunicam por aplicativos. Bancos não são criminosos porque lavadores tentam usá-los.

O que precisa existir é regulação, monitoramento e capacidade investigativa. O Brasil deve aperfeiçoar o Pix, não entregá-lo.

O Pix é uma fronteira da soberania digital brasileira. Protegê-lo é proteger a economia popular, a autonomia regulatória e a capacidade do país de produzir soluções públicas em um mundo dominado por plataformas privadas.

9. BRICS+: a busca por alternativas à dependência do dólar

A expansão dos BRICS+ deve ser compreendida dentro desse mesmo cenário. O bloco não é homogêneo, nem isento de contradições. Seus membros possuem interesses diferentes, regimes políticos distintos, rivalidades internas e agendas próprias. Mesmo assim, há um ponto de convergência: reduzir a vulnerabilidade diante da centralidade absoluta do dólar e das instituições financeiras dominadas pelo Ocidente.

O Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco do BRICS, foi criado para financiar infraestrutura e desenvolvimento sustentável. Sua estratégia prevê ampliação do financiamento em moedas locais, reduzindo riscos cambiais e dependência de moeda estrangeira.

O Arranjo Contingente de Reservas dos BRICS, por sua vez, foi concebido como mecanismo de apoio em situações de pressão de liquidez e dificuldades no balanço de pagamentos. Não substitui o FMI automaticamente, nem resolve todos os problemas de financiamento externo. Mas sinaliza uma busca por instrumentos próprios.

O ponto central não é imaginar que os BRICS+ destruirão o dólar no curto prazo. Isso seria simplificação. O dólar continua dominante. O sistema financeiro norte-americano continua profundo, líquido e poderoso. O SWIFT continua central. O Ocidente ainda controla boa parte das infraestruturas críticas.

Mas a tendência de diversificação é real. Países começaram a perceber que depender de um único sistema é aceitar vulnerabilidade estrutural. Por isso, discutem moedas locais, sistemas alternativos de pagamento, bancos multilaterais próprios, integração financeira regional e novas formas de liquidação.

Para o Brasil, participar dessa construção não deve significar alinhamento automático contra os Estados Unidos. Deve significar autonomia. O Brasil precisa negociar com Washington, Pequim, Bruxelas, Moscou, Nova Délhi, Pretória e Buenos Aires sem se tornar satélite de ninguém.

Autonomia não é isolamento. É capacidade de escolha.

10. O que esses casos ensinam ao Brasil

Os casos analisados ensinam seis lições estratégicas.

A primeira é que infraestrutura técnica nunca é apenas técnica. SWIFT, Pix, WhatsApp Pay, sistemas de cartão, nuvens digitais, moedas locais e bancos multilaterais são também instrumentos de poder.

A segunda é que leis nacionais de grandes potências podem produzir efeitos globais. FCPA e Lei Magnitsky mostram como os Estados Unidos projetam jurisdição para além de suas fronteiras, muitas vezes com argumentos moralmente legítimos, mas efeitos políticos seletivos.

A terceira é que sanções financeiras podem atingir muito mais do que seus alvos formais. Elas produzem medo, sobreconformidade, bloqueio preventivo, custo reputacional e retração econômica.

A quarta é que plataformas privadas globais querem ocupar funções que antes eram típicas do Estado: pagamento, identidade, comunicação, crédito, reputação e circulação de dados.

A quinta é que o Brasil precisa fortalecer suas capacidades internas. Isso significa Banco Central forte, COAF estruturado, Receita Federal eficiente, Polícia Federal equipada, inteligência financeira sofisticada, sistema judiciário técnico e regulação digital soberana.

A sexta é que diversificação internacional é escudo, não provocação. Participar dos BRICS+, ampliar moedas locais, desenvolver o Drex com segurança, proteger o Pix e reduzir dependências excessivas são medidas prudentes.

O Brasil não precisa escolher entre combater o crime e defender a soberania. Precisa fazer as duas coisas. Combater facções com rigor e, ao mesmo tempo, impedir que o crime organizado seja usado como pretexto para coerção externa.

11. Conclusão: soberania é também controlar os trilhos invisíveis da economia

A soberania do século XXI não está apenas no território, na bandeira, nas Forças Armadas ou na Constituição. Está também nos sistemas invisíveis que permitem a vida econômica funcionar: pagamentos, dados, crédito, mensageria financeira, moedas, plataformas, nuvens e redes de liquidação.

O Irã mostrou que um país pode ser estrangulado pelo sistema financeiro. A Rússia mostrou que sanções podem virar arma de guerra. A FCPA mostrou que uma lei nacional pode alcançar empresas do mundo inteiro. A Lei Magnitsky mostrou que direitos humanos e corrupção podem ser convertidos em instrumentos de punição seletiva. O WhatsApp Pay mostrou que Big Techs querem ocupar a infraestrutura dos pagamentos. O BRICS+ mostra que países buscam alternativas à dependência de uma única arquitetura financeira global.

O Brasil deve aprender com todos esses casos.

Não pode ser ingênuo diante do crime organizado. PCC e CV precisam ser enfrentados com inteligência, repressão qualificada, investigação patrimonial, controle de fronteiras e desarticulação financeira. Mas o país também não pode aceitar que o combate ao crime seja transformado em cavalo de Troia para intervenção econômica, pressão sobre o Pix ou submissão a interesses privados estrangeiros.

O Pix é uma conquista pública brasileira. Deve ser aperfeiçoado, auditado, protegido e fortalecido. Não deve ser demonizado por quem perdeu mercado, nem capturado por quem deseja controlar os dados econômicos da população.

A grande disputa do nosso tempo será travada nos trilhos invisíveis da economia. Quem controla pagamentos, dados, sanções, crédito e liquidação financeira controla parte da soberania dos povos.

O Brasil precisa cooperar com o mundo, mas decidir por si. Precisa combater o crime, mas sem entregar sua autonomia. Precisa dialogar com os Estados Unidos, mas sem renunciar aos BRICS+. Precisa regular Big Techs, mas sem matar inovação. Precisa defender o Pix, mas sem negar seus riscos.

Soberania, no século XXI, é isso: capacidade de circular, pagar, financiar, regular, investigar e decidir sem pedir licença a potências estrangeiras ou corporações privadas.

Referências

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Pix: estatísticas e informações gerais. Brasília: BCB, 2026.

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AGÊNCIA BRASIL. Banco Central suspende novo serviço de pagamentos do WhatsApp no Brasil. Brasília, 2020.

AGÊNCIA BRASIL. Banco Central libera oficialmente transferências bancárias pelo WhatsApp. Brasília, 2021.