terça-feira, 2 de junho de 2026

O feudo entrou no bolso: algoritmos, dependência digital e a nova servidão confortável

Como plataformas digitais, inteligência artificial e economia da atenção reorganizam a democracia, o trabalho e a autonomia humana


Índice

  1. Lide
  2. Introdução: quando a dominação se apresenta como conveniência
  3. O algoritmo como novo capataz invisível
  4. A dependência como nova forma de dominação
  5. A falsa neutralidade tecnológica
  6. O cidadão convertido em dado
  7. O novo colonialismo digital
  8. A democracia cercada pelas plataformas
  9. O tecnofeudalismo como crise da imaginação política
  10. A armadilha da conveniência
  11. Regulação não é censura
  12. Plataformas como bens comuns digitais
  13. O papel do Estado na soberania digital
  14. Educação como trincheira crítica
  15. Inteligência artificial e o aprofundamento do poder algorítmico
  16. O risco da servidão feliz
  17. Conclusão: recuperar a política antes que a nuvem vire destino
  18. Referências

Lide

Eu não vejo mais o celular apenas como um aparelho. Vejo nele uma espécie de castelo portátil. Um castelo luminoso, sedutor, eficiente, indispensável e, justamente por isso, perigoso. Dentro dele, trabalhamos, compramos, falamos, amamos, brigamos, estudamos, votamos, opinamos, nos informamos e nos distraímos. Mas quem controla as muralhas desse castelo? Quem decide o que aparece no feed, o que desaparece da busca, quem terá visibilidade, quem será punido pelo algoritmo e quem pagará pedágio para existir digitalmente?

A tese do tecnofeudalismo, desenvolvida por Yanis Varoufakis, ajuda a compreender essa nova arquitetura de poder: não se trata apenas de empresas inovadoras oferecendo serviços úteis; trata-se de estruturas privadas que controlam ambientes inteiros de circulação social, econômica e política. O feudo contemporâneo não está mais preso à terra. Ele cabe no bolso, vibra na mão e se apresenta como liberdade.

1. Introdução: quando a dominação se apresenta como conveniência

A grande genialidade do poder digital contemporâneo está em sua aparência inofensiva. Ninguém acorda pela manhã dizendo: “vou entregar meus dados, minha atenção e parte da minha autonomia para uma infraestrutura privada global”. O gesto é muito mais simples: desbloqueamos o celular.

Abrimos uma rede social. Respondemos mensagens. Procuramos uma informação. Pedimos comida. Chamamos transporte. Compramos um produto. Publicamos uma opinião. Assistimos a um vídeo. Aceitamos os termos. Permitimos notificações. Autorizamos localização. Sincronizamos contatos. Compartilhamos hábitos.

Tudo parece normal.

Mas é justamente nessa normalidade que se esconde a mudança histórica mais profunda. O poder deixou de aparecer apenas como coerção externa e passou a operar como ambiente. Não somos necessariamente proibidos de agir; somos induzidos, ranqueados, monitorados, medidos e conduzidos. A dominação contemporânea não precisa fechar portas. Basta organizar os caminhos.

Varoufakis (2023) argumenta que o capitalismo foi profundamente transformado pelo surgimento do capital-nuvem, isto é, uma forma de capital baseada em plataformas, dados, algoritmos e infraestruturas digitais capazes de extrair renda da circulação social. Mesmo que se discorde da ideia de que o capitalismo tenha “morrido”, é difícil negar que ele se tornou mais rentista, mais concentrado e mais algorítmico.

A hipótese central deste artigo é direta: as plataformas digitais já não funcionam apenas como empresas. Elas operam como estruturas de poder. E, quando estruturas privadas passam a controlar comunicação pública, trabalho, comércio, informação, reputação e visibilidade, a democracia precisa reagir.

2. O algoritmo como novo capataz invisível

Quando penso no tecnofeudalismo, uma imagem me parece inevitável: o algoritmo tornou-se uma espécie de capataz invisível.

Ele não grita. Não usa uniforme. Não assina ordens com nome próprio. Mas organiza a fila, define prioridades, distribui recompensas, impõe punições e decide quem aparece ou desaparece no ambiente digital.

No capitalismo industrial clássico, o trabalhador sabia quem era o patrão. Sabia onde ficava a fábrica. Sabia quem controlava o relógio de ponto. Hoje, em muitos setores, o controle foi deslocado para sistemas automatizados. O motorista de aplicativo não negocia diretamente com uma pessoa. O entregador não discute sua remuneração com um gerente. O criador de conteúdo não sabe exatamente por que seu vídeo viralizou ou morreu na invisibilidade.

A autoridade tornou-se algorítmica.

Essa mudança é decisiva. O poder contemporâneo não precisa mais se apresentar como ordem explícita. Ele aparece como cálculo, recomendação, ranqueamento, nota, métrica, desempenho, reputação. E quando o poder se veste de neutralidade técnica, torna-se muito mais difícil contestá-lo.

Foucault (1987), ao analisar as formas modernas de vigilância e disciplina, mostrou que o poder moderno é tanto mais eficaz quanto mais internalizado e distribuído se torna. No mundo digital, essa lógica alcança novo patamar: o controle não está apenas na instituição fechada, mas no fluxo cotidiano da vida conectada.

O algoritmo é o novo administrador do feudo.

3. A dependência como nova forma de dominação

O tecnofeudalismo não opera principalmente pela proibição. Opera pela dependência.

Essa é uma diferença importante. O poder antigo dizia: “você não pode sair”. O poder digital diz: “você pode sair, mas perderá quase tudo se sair”.

O pequeno empreendedor pode deixar de vender em grandes marketplaces, mas talvez perca acesso aos clientes. O professor pode abandonar as redes sociais, mas talvez perca audiência. O jornalista pode recusar as plataformas, mas talvez perca circulação. O artista pode ignorar o streaming, mas talvez desapareça do mapa cultural. O cidadão pode sair dos aplicativos de mensagem, mas talvez se desconecte de sua própria comunidade.

A liberdade formal permanece. A liberdade material encolhe.

Esse é o ponto que precisa ser compreendido: a dominação contemporânea não precisa eliminar a escolha; basta organizar um mundo no qual todas as escolhas relevantes passem por infraestruturas privadas.

Nesse sentido, a plataforma se converte em uma espécie de Estado privado. Ela define regras, julga comportamentos, pune violações, distribui visibilidade, cobra tributos e controla circulação. A diferença é que não responde democraticamente à sociedade.

Srnicek (2017) mostra que as plataformas se tornaram modelo dominante da economia digital porque funcionam como infraestruturas intermediárias entre diferentes grupos de usuários, acumulando dados e ampliando seu poder por efeitos de rede. Quanto mais pessoas entram, mais indispensável a plataforma se torna. Quanto mais indispensável se torna, mais difícil é sair.

Essa é a nova servidão: não uma prisão com grades, mas uma dependência com notificações.

4. A falsa neutralidade tecnológica

Há uma frase que precisa ser combatida: “a tecnologia é neutra”.

Não é.

Toda tecnologia carrega uma arquitetura de poder. Um algoritmo não é apenas uma sequência matemática; é uma decisão social codificada. Ele expressa objetivos, interesses, prioridades, critérios de classificação e modelos de mundo.

Quando uma plataforma decide maximizar engajamento, ela está fazendo uma escolha política. Quando prioriza conteúdo emocionalmente explosivo, está interferindo na esfera pública. Quando coleta dados sem transparência adequada, está redefinindo a privacidade. Quando transforma atenção em produto, está reorganizando a subjetividade.

Zuboff (2020) chama essa lógica de capitalismo de vigilância: um modelo econômico que transforma experiências humanas em matéria-prima para previsão e modificação de comportamento. Essa formulação é fundamental porque revela que o problema não está apenas no uso abusivo da tecnologia, mas no próprio modelo econômico que sustenta as plataformas.

A tecnologia, portanto, não é o problema em si. O problema é o regime de propriedade, governança e finalidade que orienta sua aplicação.

Um martelo pode construir uma casa ou ferir alguém. Mas uma plataforma não é apenas uma ferramenta isolada. Ela é um ambiente. E ambientes organizam possibilidades, incentivos e limites. Por isso, discutir plataformas digitais é discutir poder.

5. O cidadão convertido em dado

O sujeito moderno foi construído, ao menos idealmente, como cidadão: portador de direitos, voz pública, autonomia moral e capacidade de participação política.

O sujeito digital, por sua vez, corre o risco de ser reduzido a dado.

Essa redução é perigosa. O cidadão argumenta; o dado é processado. O cidadão delibera; o dado é classificado. O cidadão tem história; o dado tem padrão. O cidadão possui dignidade; o dado possui valor comercial.

Quando a pessoa é convertida em perfil preditivo, sua complexidade é achatada. Ela passa a ser vista como probabilidade de clique, risco de inadimplência, tendência de consumo, inclinação política, padrão emocional, potencial de engajamento.

O que se perde nesse processo é justamente aquilo que há de mais humano: contradição, liberdade, imprevisibilidade, arrependimento, mudança, consciência.

Castells (2019) já havia indicado que a sociedade em rede reorganiza profundamente as relações de poder, comunicação e identidade. No entanto, a plataformização radical da vida cotidiana intensifica esse processo, pois a rede deixa de ser apenas meio de conexão e passa a ser instrumento de captura, previsão e monetização.

A crítica ao tecnofeudalismo não pode ser apenas econômica. Ela precisa ser antropológica. Estamos discutindo que tipo de ser humano está sendo produzido por esse sistema.

6. O novo colonialismo digital

A questão se torna ainda mais grave quando olhamos para países periféricos.

O Brasil é um grande produtor de dados, um enorme mercado consumidor de tecnologia e uma sociedade profundamente dependente de plataformas estrangeiras. Mas controla pouco da infraestrutura digital que utiliza.

Essa assimetria cria uma forma de colonialismo digital.

No colonialismo clássico, territórios periféricos forneciam matéria-prima e consumiam produtos industrializados produzidos no centro do capitalismo. No colonialismo digital, fornecemos dados, comportamento, atenção e mercado, enquanto consumimos plataformas, sistemas operacionais, serviços em nuvem e inteligência artificial desenvolvidos por grandes corporações globais.

A dependência não é apenas tecnológica. É econômica, cultural, educacional, política e cognitiva.

Se não houver estratégia nacional de soberania digital, continuaremos sendo usuários de sistemas que não governamos, consumidores de tecnologias que não controlamos e produtores de dados que enriquecem outros.

A soberania do século XXI passa por energia, ciência, educação, semicondutores, dados, infraestrutura em nuvem, inteligência artificial e regulação democrática das plataformas.

O Brasil precisa entender que soberania digital não é luxo. É condição de independência nacional.

7. A democracia cercada pelas plataformas

A democracia precisa de espaços públicos. Precisa de debate, contraditório, imprensa, educação crítica, instituições e memória coletiva.

Mas o que acontece quando o debate público passa a depender de plataformas privadas?

A resposta é incômoda: a democracia passa a operar dentro de espaços que não são democraticamente governados.

Essa contradição é explosiva. As redes sociais tornaram-se arenas centrais da política contemporânea. Campanhas eleitorais, disputas ideológicas, ataques reputacionais, mobilizações sociais e guerras culturais passam por elas. No entanto, seus critérios internos são opacos, instáveis e subordinados a interesses comerciais.

A política foi capturada pela lógica da atenção.

E a atenção favorece o escândalo, o medo, a raiva, a simplificação e o espetáculo.

Não é coincidência que movimentos autoritários tenham aprendido rapidamente a operar nesse ambiente. Eles entendem que, em uma esfera pública algorítmica, muitas vezes não vence quem apresenta o melhor argumento, mas quem produz maior intensidade emocional.

A democracia, nesse contexto, não morre apenas por golpe. Também pode adoecer por saturação, manipulação e fadiga cognitiva.

8. O tecnofeudalismo como crise da imaginação política

Um dos efeitos mais graves desse sistema é a redução da imaginação política.

As plataformas não controlam apenas o que vemos. Elas influenciam o que conseguimos imaginar como possível.

Quando tudo passa por métricas, engajamento, viralização e desempenho, a política se empobrece. A reflexão longa perde espaço. A formação lenta perde valor. A nuance parece fraqueza. A dúvida é tratada como indecisão. A complexidade é punida pelo algoritmo.

Esse ambiente favorece lideranças simplificadoras, discursos messiânicos e soluções autoritárias.

É aqui que o tecnofeudalismo encontra a crise da democracia contemporânea. Não se trata apenas de concentração econômica. Trata-se de uma concentração da capacidade de moldar a percepção social da realidade.

Quem controla o ambiente informacional controla, em parte, os limites do imaginável.

E uma sociedade que perde a capacidade de imaginar alternativas torna-se prisioneira do presente.

9. A armadilha da conveniência

O tecnofeudalismo é sedutor porque entrega conveniência.

Essa é sua força.

Ninguém entra nas plataformas porque deseja ser explorado. Entramos porque elas facilitam a vida. Elas organizam agendas, conectam pessoas, oferecem transporte, entregam comida, permitem compras rápidas, ampliam alcance, armazenam arquivos, recomendam conteúdo, economizam tempo.

O problema é que a conveniência cobra juros.

Primeiro, ela nos poupa esforço. Depois, nos torna dependentes. Por fim, naturaliza a ausência de alternativas.

É como uma estrada privada tão eficiente que todas as demais estradas são abandonadas. Depois de certo tempo, o dono da estrada não precisa mais convencer ninguém. Ele apenas aumenta o pedágio.

Essa metáfora ajuda a entender o poder das plataformas: elas se tornam indispensáveis justamente porque, durante anos, pareceram apenas úteis.

Harvey (2008), ao discutir o neoliberalismo, mostra como a privatização e a lógica de mercado avançam sobre dimensões antes protegidas da vida social. No caso das plataformas digitais, esse avanço é ainda mais sofisticado, porque não privatiza apenas serviços: privatiza ambientes de existência.

10. Regulação não é censura

Um dos maiores obstáculos ao debate público sobre plataformas é a confusão deliberada entre regulação e censura.

Regular plataformas não significa controlar opiniões. Significa estabelecer regras democráticas para estruturas privadas que já controlam parte decisiva da circulação da palavra pública.

Todo poder relevante precisa de limite.

Bancos são regulados. Empresas de energia são reguladas. Telecomunicações são reguladas. Medicamentos são regulados. Transportes são regulados. Por que plataformas que organizam informação, consumo, trabalho, publicidade política e dados pessoais deveriam permanecer acima da regulação democrática?

O argumento da liberdade absoluta das plataformas é, na prática, a defesa da soberania privada sobre a esfera pública.

Regulação democrática deve envolver transparência algorítmica, proteção de dados, responsabilidade sobre publicidade política, combate a práticas monopolistas, portabilidade de dados, interoperabilidade, auditoria independente e proteção dos direitos dos usuários.

Não se trata de calar pessoas. Trata-se de impedir que a arquitetura invisível da circulação digital seja controlada sem responsabilidade pública.

11. Plataformas como bens comuns digitais

A proposta de tratar certas plataformas como bens comuns parece ousada, mas é cada vez mais necessária.

Nem tudo que é digital precisa ser privado. Nem toda infraestrutura tecnológica precisa estar subordinada ao lucro. Nem toda inovação precisa se converter em monopólio.

Há espaço para plataformas públicas, cooperativas digitais, redes descentralizadas, softwares livres, nuvens soberanas, bancos de dados públicos protegidos e inteligência artificial orientada ao interesse social.

Isso exige investimento, planejamento e coragem política.

A ideia de bens comuns digitais recupera uma pergunta antiga: quais infraestruturas são importantes demais para ficarem sob controle exclusivo de poucos proprietários?

No passado, essa pergunta foi feita sobre terra, água, energia, transporte, saúde e educação. Hoje, precisa ser feita sobre dados, nuvem, conectividade, algoritmos e inteligência artificial.

12. O papel do Estado na soberania digital

Eu não acredito que o mercado resolverá espontaneamente essa questão.

A concentração digital é uma tendência estrutural. Plataformas crescem por efeito de rede: quanto mais usuários têm, mais valiosas se tornam; quanto mais valiosas se tornam, mais usuários atraem. Esse ciclo favorece monopólios e oligopólios.

Por isso, o Estado democrático precisa atuar.

Mas não basta um Estado burocrático, lento e capturado por interesses privados. É necessário um Estado tecnicamente qualificado, juridicamente preparado e politicamente consciente da centralidade da soberania digital.

Isso envolve investimento em ciência e tecnologia, formação crítica em inteligência artificial, infraestrutura pública de dados, legislação de proteção digital, defesa da concorrência, políticas industriais para semicondutores e nuvem, fortalecimento das universidades e institutos federais e cooperação internacional soberana.

Sem Estado, ficaremos entregues ao senhorio digital.

Sem educação pública forte, ficaremos apenas treinando usuários para obedecerem sistemas que não compreendem.

13. Educação como trincheira crítica

A educação precisa ocupar o centro desse debate.

Não há cidadania digital sem alfabetização crítica sobre plataformas. E não me refiro apenas a ensinar jovens a usar aplicativos. Isso eles já fazem com facilidade. O desafio é ensiná-los a compreender as estruturas de poder por trás dos aplicativos.

A escola, a universidade e os institutos federais precisam discutir economia dos dados, capitalismo de vigilância, inteligência artificial, ética algorítmica, democracia digital, soberania tecnológica, manipulação informacional e trabalho plataformizado.

Uma geração que apenas usa tecnologia sem compreendê-la criticamente será governada por ela.

A educação deve formar sujeitos capazes de habitar o mundo digital sem se ajoelhar diante dele.

Freire (1996) já defendia que ensinar exige criticidade, autonomia e leitura do mundo. Hoje, ler o mundo exige também ler plataformas, dados, algoritmos e infraestruturas digitais. Sem isso, a educação se torna tecnicamente atualizada, mas politicamente ingênua.

14. Inteligência artificial e o aprofundamento do poder algorítmico

A chegada da inteligência artificial generativa intensifica o problema.

Modelos de linguagem, sistemas de recomendação, ferramentas de automação, assistentes digitais e mecanismos de análise preditiva ampliam a capacidade das plataformas de organizar trabalho, informação e comportamento.

A IA pode democratizar conhecimento, melhorar serviços públicos, ampliar produtividade e apoiar a educação. Mas também pode aprofundar dependência, automatizar desigualdades, concentrar poder e transformar a experiência humana em insumo computacional.

A pergunta decisiva não é se a IA é boa ou ruim.

A pergunta é: quem controla a IA, com quais dados, para quais fins, sob quais regras e com qual responsabilidade pública?

Sem essa pergunta, a inteligência artificial será apenas mais uma torre no castelo do tecnofeudalismo.

Russell (2021) alerta que sistemas inteligentes precisam ser pensados a partir de objetivos humanos bem definidos, controle adequado e responsabilidade social. O risco não está apenas em máquinas “autônomas”, mas em sistemas poderosos orientados por finalidades estreitas, comerciais e opacas.

15. O risco da servidão feliz

Talvez o aspecto mais perigoso do tecnofeudalismo seja produzir uma servidão satisfeita.

Não uma servidão baseada no medo direto, mas no conforto permanente. O sujeito entrega dados porque recebe facilidade. Entrega atenção porque recebe entretenimento. Entrega autonomia porque recebe personalização. Entrega privacidade porque recebe pertencimento.

A dominação se torna agradável.

Essa é uma mutação histórica do poder. O controle não aparece como violência. Aparece como experiência do usuário.

Por isso, a resistência precisa começar pela consciência. Não basta abandonar plataformas individualmente. É preciso compreender coletivamente suas estruturas, disputar sua regulação e construir alternativas.

O problema não é usar tecnologia. O problema é ser usado por ela sem perceber.

16. Conclusão: recuperar a política antes que a nuvem vire destino

O tecnofeudalismo é uma hipótese forte porque nos obriga a olhar para o presente sem ingenuidade.

Talvez Varoufakis exagere ao afirmar que o capitalismo morreu. Mas seu exagero tem valor pedagógico: ele nos força a perceber que algo profundo mudou. O centro do poder econômico deslocou-se para plataformas que controlam acesso, dados, atenção, infraestrutura e visibilidade.

Eu diria assim: o capitalismo não morreu; ele se converteu em uma forma híbrida, rentista, algorítmica e feudalizada. Continua buscando lucro, mas cada vez mais por meio da cobrança de renda sobre ambientes digitais privatizados. Continua explorando trabalho, mas agora também explora atenção, comportamento e subjetividade. Continua vendendo mercadorias, mas passou a vender previsões sobre nós mesmos.

Essa transformação exige uma nova linguagem política.

Não basta falar apenas em consumidor. É preciso falar em cidadão digital. Não basta falar em inovação. É preciso falar em soberania. Não basta falar em liberdade de mercado. É preciso falar em democracia informacional. Não basta falar em tecnologia. É preciso falar em poder.

O futuro não pode ser decidido apenas por acionistas, programadores, fundos de investimento e donos de plataformas. A sociedade precisa recuperar o direito de decidir que tipo de mundo digital deseja construir.

A pergunta final permanece aberta, mas urgente: as plataformas são apenas empresas ou já funcionam como estruturas de poder?

Minha resposta é direta: elas já são estruturas de poder. E, justamente por isso, precisam ser tratadas politicamente.

Porque quando o feudo entra no bolso, quando o castelo vira aplicativo, quando o senhorio se apresenta como serviço e quando a servidão se disfarça de conveniência, a democracia precisa despertar.

Não contra a tecnologia.

Mas contra a captura privada do futuro.

5 pontos relevantes do artigo

  1. As plataformas digitais já funcionam como estruturas de poder, e não apenas como empresas privadas de tecnologia.
  2. A dominação digital contemporânea opera mais pela dependência e pela conveniência do que pela coerção explícita.
  3. O algoritmo tornou-se uma autoridade invisível que organiza visibilidade, trabalho, reputação e circulação social.
  4. A soberania digital deve ser tratada como tema estratégico para países periféricos como o Brasil.
  5. A educação crítica é condição essencial para formar cidadãos capazes de compreender e enfrentar o poder algorítmico.

5 perguntas comuns sobre o tema

1. Tecnofeudalismo significa que o capitalismo acabou?

Não necessariamente. A tese de Varoufakis afirma que o capitalismo foi superado por uma nova lógica baseada no capital-nuvem. Contudo, uma leitura crítica permite afirmar que o capitalismo não morreu, mas se tornou mais rentista, algorítmico e feudalizado.

2. Por que as plataformas são comparadas a feudos?

Porque controlam ambientes inteiros de circulação econômica, social e política. Assim como o senhor feudal controlava a terra, as plataformas controlam acesso, dados, visibilidade e infraestrutura digital.

3. O algoritmo é neutro?

Não. Algoritmos expressam escolhas, objetivos, critérios e interesses. Eles podem parecer técnicos, mas operam dentro de estruturas econômicas e políticas específicas.

4. Regular plataformas é censura?

Não. Regulação democrática não significa controlar opiniões. Significa estabelecer limites públicos para empresas que controlam parte essencial da circulação da informação, da publicidade política, do trabalho e dos dados pessoais.

5. Qual é o papel da educação nesse debate?

A educação deve formar cidadãos capazes de compreender tecnologia criticamente. Usar ferramentas digitais não basta; é necessário entender quem as controla, como funcionam, quais dados coletam e quais interesses econômicos orientam suas decisões.

3 livros indicados

  1. VAROUFAKIS, Yanis. Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo?
  2. ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância.
  3. SRNICEK, Nick. Capitalismo de plataforma.

Referências

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 20. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2019.

DURAND, Cédric. Techno-féodalisme: critique de l’économie numérique. Paris: La Découverte, 2020.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GALBRAITH, John Kenneth. O novo estado industrial. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

HARVEY, David. O neoliberalismo: história e implicações. São Paulo: Loyola, 2008.

RUSSELL, Stuart. Inteligência artificial a nosso favor: como manter o controle sobre a tecnologia. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

SRNICEK, Nick. Platform capitalism. Cambridge: Polity Press, 2017.

VAROUFAKIS, Yanis. Technofeudalism: what killed capitalism. London: Bodley Head, 2023.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.


Tecnofeudalismo: quando as plataformas deixam de ser empresas e passam a governar a vida

Como o capitalismo digital cercou a internet, capturou nossa atenção e transformou dados, comportamento e dependência em nova forma de poder


Lide

Eu já não consigo olhar para uma tela de celular como olhava antes. O que parecia apenas tecnologia virou território. O que parecia apenas aplicativo virou infraestrutura. O que parecia apenas conveniência virou dependência. Quando abro uma rede social, compro em uma plataforma, pesquiso no Google, peço transporte por aplicativo ou assisto a um vídeo recomendado por algoritmo, percebo que não estou apenas usando ferramentas digitais. Estou atravessando espaços privados que organizam a minha circulação, medem meus desejos, classificam meus gestos e definem o que verei, comprarei, pensarei ou ignorarei.

É nesse ponto que a tese do tecnofeudalismo, proposta por Yanis Varoufakis, incomoda. Segundo ele, o capitalismo como o conhecíamos teria sido deslocado por uma nova arquitetura econômica: não mais centrada apenas na produção de mercadorias e na exploração do trabalho assalariado, mas no controle de plataformas, dados, atenção e infraestrutura digital. O capital não desapareceu; ele subiu para a nuvem. E, ao subir, tornou-se menos visível, mais concentrado e mais difícil de enfrentar.

1. Introdução: algo mudou no coração do capitalismo

Eu parto de uma inquietação simples: por que tantas pessoas sentem que trabalham mais, produzem mais, consomem mais tecnologia, mas têm menos controle sobre a própria vida?

A promessa original da internet era libertária. Ela nos foi apresentada como uma praça pública global, aberta, horizontal, democrática. Um espaço onde qualquer pessoa poderia produzir conhecimento, circular informação, criar redes, vender produtos, estudar, ensinar, participar da vida pública. Havia, no imaginário inicial da rede, quase uma utopia iluminista: a ideia de que mais conexão significaria mais liberdade.

Mas a história seguiu outro caminho.

A internet aberta foi sendo cercada por plataformas. A praça virou shopping. O caminho virou pedágio. A conversa virou dado. A atenção virou mercadoria. O comportamento virou ativo econômico. A vida digital foi reorganizada dentro de ambientes privados controlados por poucas corporações globais.

É aqui que a tese de Varoufakis ganha força. Em Technofeudalism: What Killed Capitalism, ele argumenta que os donos das grandes plataformas digitais passaram a ocupar posição semelhante à de senhores feudais, porque controlam os ambientes nos quais outros agentes econômicos precisam atuar para sobreviver. A editora Penguin resume a obra como uma defesa da ideia de que os donos da Big Tech se tornaram “senhores feudais” globais, reescrevendo regras de poder econômico e político.  

Essa tese é provocativa. E, exatamente por isso, precisa ser levada a sério.

2. O que Varoufakis chama de tecnofeudalismo

Quando Varoufakis fala em tecnofeudalismo, ele não está dizendo que voltamos literalmente à Idade Média. Não há castelos, servos presos à terra ou senhores usando armaduras. A analogia é estrutural.

No feudalismo clássico, o poder derivava do controle da terra. Quem controlava a terra controlava a produção agrícola, a sobrevivência dos camponeses e a ordem social. No tecnofeudalismo, a “terra” foi substituída pela infraestrutura digital. Quem controla as plataformas controla os caminhos de circulação da vida econômica, simbólica e política.

A Amazon, por exemplo, não é apenas uma loja. É ambiente de comércio. O Google não é apenas um buscador. É porta de entrada para o conhecimento visível. A Meta não é apenas empresa de mídia social. É infraestrutura de sociabilidade, publicidade, influência e captura de atenção. A Apple e a Microsoft não vendem apenas produtos; organizam ecossistemas tecnológicos inteiros.

Nick Srnicek, em Platform Capitalism, já havia mostrado que as plataformas são infraestruturas digitais intermediárias que permitem a interação entre diferentes grupos — usuários, anunciantes, fornecedores, prestadores de serviço — e extraem valor justamente dessa posição intermediadora. A editora Polity apresenta a obra de Srnicek como uma análise das novas formas empresariais baseadas em plataformas e de sua gênese histórica no capitalismo recente.  

Varoufakis dá um passo além: para ele, essas plataformas não são apenas empresas capitalistas sofisticadas. Elas funcionam como feudos digitais, pois estabelecem regras internas, cobram acesso, extraem renda e tornam terceiros dependentes de sua infraestrutura.

3. A diferença entre lucro e renda: o centro do debate

Para entender o tecnofeudalismo, é preciso distinguir lucro de renda.

No capitalismo industrial clássico, o capitalista investe em máquinas, matérias-primas e força de trabalho para produzir mercadorias. O lucro vem da venda dessas mercadorias no mercado. Há exploração, claro, mas a lógica central passa pela produção.

No modelo das plataformas, algo diferente ocorre. A plataforma controla o ambiente onde outros produzem, vendem, anunciam, trabalham ou interagem. Ela não precisa produzir diretamente tudo aquilo que circula em seu interior. Ela captura uma renda pelo simples fato de controlar o acesso.

É como se o dono da estrada cobrasse pedágio de todos que precisam passar.

Essa renda digital se manifesta em taxas, comissões, publicidade, controle algorítmico de visibilidade, venda de dados, prioridade paga, assinatura, infraestrutura em nuvem e dependência tecnológica.

O pequeno comerciante que vende em marketplace depende da plataforma. O entregador depende do aplicativo. O criador de conteúdo depende do algoritmo. A empresa depende do ranqueamento no buscador. O cidadão depende da rede social para circular sua palavra pública. Todos entram no ambiente, mas poucos controlam suas regras.

Essa é a dimensão feudal da tese.

4. O cercamento da internet

Eu considero a ideia de “cercamento” uma das mais fortes para interpretar a internet contemporânea.

Na história do capitalismo, os cercamentos das terras comunais na Inglaterra expulsaram populações camponesas de espaços coletivos e converteram bens comuns em propriedade privada. Esse processo foi decisivo para formar o proletariado moderno e abrir caminho para a expansão capitalista.

Na internet, algo semelhante aconteceu simbolicamente.

O que era relativamente aberto foi sendo privatizado. A navegação foi substituída pelo feed. O site independente foi engolido pela rede social. A busca orgânica foi subordinada ao ranqueamento algorítmico e à publicidade. A comunidade virou base de usuários. A expressão virou engajamento. A memória virou banco de dados.

Shoshana Zuboff, em A era do capitalismo de vigilância, argumenta que grandes empresas tecnológicas passaram a transformar experiências humanas em matéria-prima gratuita para práticas comerciais de previsão e modificação de comportamento. A obra foi reconhecida internacionalmente como uma análise central da exploração de dados pessoais pelas corporações digitais.  

A internet não acabou. Mas foi loteada.

E quando um espaço comum é loteado, a liberdade muda de natureza. O usuário continua tendo a impressão de escolha, mas escolhe dentro de trilhas previamente desenhadas.

5. O capital-nuvem e a nova fábrica invisível

Varoufakis chama atenção para o “capital-nuvem”. Essa expressão é poderosa porque desloca nossa imagem mental do capital.

Durante muito tempo, imaginamos o capital como fábrica, máquina, chaminé, banco, ferrovia, porto, galpão, terra. Hoje, o capital aparece como nuvem: servidores, algoritmos, modelos preditivos, inteligência artificial, data centers, redes de distribuição, sistemas operacionais, plataformas de anúncio e infraestruturas digitais globais.

Mas a nuvem não é etérea. Ela tem dono. Tem custo energético. Tem localização geopolítica. Tem contrato. Tem patente. Tem código. Tem vigilância.

O capital-nuvem é uma forma de capital que organiza ambientes digitais capazes de capturar informação, modular comportamento e extrair renda. Ele não apenas acelera mercados; ele substitui mercados por ecossistemas fechados.

Nesse sentido, o celular se torna uma espécie de portal para feudos digitais. A cada toque, o usuário trabalha sem perceber: treina algoritmos, informa preferências, revela medos, confirma padrões, alimenta sistemas de recomendação, entrega atenção.

O trabalhador industrial vendia força de trabalho por salário. O usuário digital entrega dados e atenção em troca de conveniência, sociabilidade e pertencimento.

A exploração não desaparece. Ela se torna cotidiana, diluída e prazerosa.

6. O usuário como servo voluntário?

É preciso cuidado com essa expressão. Não se trata de culpar o usuário. Ninguém vive fora do seu tempo histórico. Não é razoável dizer simplesmente: “saia das plataformas”. Para muitas pessoas, sair significa perder trabalho, visibilidade, rede de apoio, mercado, estudo, renda ou presença social.

A dependência é estrutural.

É isso que aproxima o tecnofeudalismo do feudalismo: não a ausência completa de escolha, mas a existência de escolhas condicionadas por uma estrutura de dependência.

O entregador pode desligar o aplicativo, mas perde renda. O comerciante pode sair do marketplace, mas perde mercado. O professor pode abandonar as plataformas, mas perde alcance. O jornalista pode ignorar redes sociais, mas perde circulação. O cidadão pode deixar de usar determinados serviços digitais, mas se isola de práticas sociais já normalizadas.

A servidão contemporânea não usa correntes. Usa conveniência.

Essa é sua sofisticação.

7. O mercado da atenção: quando olhar vira trabalho

O capitalismo sempre disputou atenção. A publicidade não nasceu com a internet. A diferença é que, agora, a atenção é medida em escala microscópica, processada em tempo real e convertida em previsão comportamental.

O feed não é neutro. Ele é uma máquina de ordenação do mundo.

O que aparece primeiro importa. O que desaparece também. O que viraliza ganha existência social. O que não engaja parece irrelevante. A plataforma não apenas mostra a realidade; ela participa da fabricação da realidade percebida.

É aqui que a crítica deixa de ser apenas econômica e se torna política.

Se uma plataforma decide o que circula, para quem circula, com qual intensidade e sob quais incentivos emocionais, ela exerce poder editorial sem se assumir como editora, poder político sem disputar eleição e poder econômico sem se limitar às regras tradicionais do mercado.

A atenção virou petróleo psíquico. E nós somos, ao mesmo tempo, consumidores, produtores, matéria-prima e território de extração.

8. Tecnofeudalismo e democracia

A democracia moderna pressupõe certa esfera pública: cidadãos informados, debate racional possível, instituições mediadoras, imprensa, educação, partidos, associações, universidades, sindicatos, movimentos sociais.

Mas o ecossistema digital reorganizou essa esfera pública. O debate foi submetido à lógica do engajamento. E engajamento não significa verdade, profundidade ou responsabilidade. Significa capacidade de reter atenção.

O conteúdo moderado, complexo e analítico compete em desvantagem contra o conteúdo emocional, simplificador e polarizante. A política passa a ser disputada não apenas por programas, mas por arquitetura de visibilidade.

Esse é um ponto crucial: a plataforma não precisa defender uma ideologia específica para produzir efeitos políticos. Basta organizar os incentivos.

Se o algoritmo premia indignação, a indignação se multiplica. Se premia medo, o medo circula. Se premia simplificação, a complexidade perde espaço. Se premia tribalismo, a esfera pública se fragmenta.

O tecnofeudalismo, portanto, não ameaça apenas o capitalismo concorrencial. Ele ameaça a própria democracia deliberativa.

9. A geopolítica das plataformas

O poder digital também reorganiza a geopolítica.

Durante o século XX, a disputa global envolvia petróleo, indústria pesada, capacidade militar, domínio financeiro e rotas comerciais. Tudo isso continua importante. Mas, no século XXI, soma-se outra camada: quem controla chips, sistemas operacionais, inteligência artificial, nuvem, redes sociais, satélites, cabos submarinos e infraestrutura de dados controla parte decisiva da soberania contemporânea.

A disputa entre Estados Unidos e China é, em grande medida, uma disputa por hegemonia tecnológica. De um lado, grandes corporações privadas com alcance planetário. De outro, um modelo de forte articulação entre Estado, tecnologia e planejamento estratégico.

O Sul Global, nesse cenário, corre o risco de se tornar território de extração de dados, consumidor de plataformas estrangeiras e dependente de infraestruturas que não controla.

Para países como o Brasil, a pergunta é direta: teremos soberania digital ou seremos apenas usuários periféricos de feudos tecnológicos globais?

Essa questão deveria estar no centro da política educacional, científica, industrial e diplomática brasileira.

10. Tecnofeudalismo ou capitalismo de plataforma?

Nem todos concordam com Varoufakis. Há uma crítica importante: talvez o capitalismo não tenha sido morto; talvez ele apenas tenha mudado de forma.

Essa crítica tem fundamento. As plataformas continuam buscando lucro, expandindo mercados, comprando concorrentes, explorando trabalho, concentrando propriedade e subordinando a vida social à acumulação. Tudo isso é profundamente capitalista.

David Harvey, ao analisar o neoliberalismo, mostra como o capitalismo contemporâneo se reorganiza por processos de acumulação, privatização, desregulação e concentração de poder. A lógica das plataformas pode ser vista como continuidade desse movimento, e não como ruptura absoluta.

Por isso, talvez a melhor interpretação seja intermediária: o tecnofeudalismo não substitui completamente o capitalismo; ele revela uma mutação interna do capitalismo em direção a formas rentistas, monopolistas e infraestruturais de dominação.

Em outras palavras: o capitalismo não morreu. Ele se feudalizou.

Essa formulação me parece mais precisa.

11. O novo senhorio digital

A figura do senhor feudal ajuda a compreender o presente porque mostra que o poder não está apenas na propriedade, mas no controle do acesso.

O senhor feudal controlava a terra. O senhor digital controla a plataforma.

O primeiro cobrava tributo. O segundo cobra comissão, dados, atenção e dependência.

O primeiro organizava a vida local. O segundo organiza a vida global.

O primeiro tinha domínio territorial. O segundo tem domínio informacional.

O primeiro era visível. O segundo se apresenta como inovação.

Essa é a ironia histórica: o poder mais sofisticado é aquele que aparece como serviço.

12. A ilusão da gratuidade

Nada é mais ideológico no mundo digital do que a palavra “grátis”.

A rede social é gratuita, mas captura dados. O buscador é gratuito, mas organiza publicidade. O e-mail é gratuito, mas integra ecossistemas de vigilância. O aplicativo é gratuito, mas monetiza comportamento. O armazenamento é barato, mas cria dependência.

O preço não desapareceu. Ele foi deslocado.

Pagamos com dados, atenção, previsibilidade, exposição, dependência e vulnerabilidade.

Essa forma de pagamento é menos visível do que dinheiro. Por isso mesmo, é politicamente mais perigosa.

13. Educação como antídoto

Diante desse cenário, considero a educação a principal forma de resistência democrática.

Não uma educação meramente técnica, voltada apenas a ensinar jovens a usar ferramentas digitais. Isso é necessário, mas insuficiente. Precisamos de uma educação crítica sobre tecnologia, economia política, dados, algoritmos, plataformas, soberania digital e democracia.

Ensinar programação sem ensinar poder é formar operadores. Ensinar inteligência artificial sem discutir ética é formar consumidores sofisticados. Ensinar uso de plataformas sem discutir dependência é naturalizar o feudo.

As instituições educacionais precisam formar sujeitos capazes de perguntar:

Quem controla essa tecnologia?
Quem lucra com ela?
Quais dados são coletados?
Que comportamentos são induzidos?
Quais alternativas públicas existem?
Que tipo de sociedade está sendo construída?

Sem essas perguntas, a tecnologia vira destino. E quando a tecnologia vira destino, a democracia recua.

14. Existe alternativa?

Varoufakis propõe alternativas ousadas: democratização das empresas, renda básica, plataformas como bens comuns, controle público sobre infraestruturas digitais e uma espécie de rebelião contra o poder das nuvens.

Essas propostas podem parecer utópicas. Mas é preciso lembrar: toda conquista democrática já foi considerada impossível antes de se tornar realidade histórica.

A jornada de trabalho, o voto universal, a escola pública, o sistema de saúde, os direitos trabalhistas, a previdência social e a liberdade de expressão não nasceram como concessões espontâneas do poder. Foram disputados.

A pergunta, portanto, não é se as plataformas aceitarão ser democratizadas. É evidente que não aceitarão voluntariamente. A pergunta é se as sociedades democráticas terão força política, consciência crítica e capacidade institucional para impor limites ao poder digital.

15. Conclusão: o feudo entrou no bolso

Eu termino com uma imagem simples: o feudo contemporâneo cabe no bolso.

Ele vibra, ilumina, recomenda, seduz, informa, distrai, orienta, vigia e monetiza. Não parece opressor porque é confortável. Não parece político porque é personalizado. Não parece econômico porque é cotidiano. Não parece dominação porque se apresenta como escolha.

Mas é justamente aí que mora o perigo.

O tecnofeudalismo não precisa abolir a liberdade formal. Basta organizar as condições invisíveis da escolha. Não precisa censurar tudo. Basta controlar a visibilidade. Não precisa prender o trabalhador à terra. Basta prendê-lo à plataforma. Não precisa impedir a fala. Basta decidir quem será ouvido.

Por isso, a tese de Varoufakis deve ser lida menos como diagnóstico fechado e mais como advertência histórica. Talvez o capitalismo não tenha morrido. Talvez esteja vivo demais, mutante demais, poderoso demais. Mas algo mudou: o centro da acumulação deslocou-se da fábrica para a nuvem, do mercado para a plataforma, do produto para o comportamento, da propriedade visível para a infraestrutura invisível.

E, quando isso acontece, a crítica também precisa mudar.

Não basta perguntar quem possui os meios de produção. É preciso perguntar quem possui os meios de conexão, circulação, atenção, classificação e previsão.

Porque, no século XXI, quem controla a plataforma não controla apenas o comércio.

Controla o caminho.

Controla o olhar.

Controla o tempo.

E talvez controle, silenciosamente, a própria imaginação política da sociedade.

Referências

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 20. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2019.

DURAND, Cédric. Techno-féodalisme: critique de l’économie numérique. Paris: La Découverte, 2020.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

GALBRAITH, John Kenneth. O novo estado industrial. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

HARVEY, David. O neoliberalismo: história e implicações. São Paulo: Loyola, 2008.

SRNICEK, Nick. Platform capitalism. Cambridge: Polity Press, 2017.

VAROUFAKIS, Yanis. Technofeudalism: what killed capitalism. London: Bodley Head, 2023.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.