quarta-feira, 3 de junho de 2026

A Fronteira do Leviatã

O êxodo tributário brasileiro, a maquila paraguaia e o preço invisível do Estado mínimo


Lide — A migração de empresas, estudantes, agricultores e trabalhadores brasileiros para o Paraguai não pode ser lida apenas como busca por imposto menor. Ela revela um choque entre dois pactos sociais: de um lado, o Brasil, com carga tributária bruta de 32,40% do PIB em 2025, sustentando SUS, educação pública, Previdência e assistência social; de outro, o Paraguai, com arrecadação próxima de 14% do PIB, atraindo capital por baixa tributação, energia competitiva e regime de maquila. A pergunta central é incômoda: o “milagre paraguaio” é eficiência econômica ou transferência silenciosa de custos sociais para trabalhadores, fronteiras e serviços públicos brasileiros?  


1. A cena da fronteira: quando o imposto vira destino

Imagine um empresário brasileiro atravessando a Ponte da Amizade numa manhã de segunda-feira. No porta-malas, não há mercadoria clandestina, como no imaginário antigo dos anos 1990. Há planilhas, contratos, simulações tributárias, custo de folha, preço de energia, aluguel industrial, prazo de licenciamento e uma pergunta simples: “por que produzir aqui se posso produzir ali?”.

Essa é a nova fronteira. Ela já não é apenas a fronteira do sacoleiro, da muamba, do eletrônico barato e da compra ocasional. É a fronteira da engenharia fiscal, da reorganização produtiva e da arbitragem regulatória. A empresa não precisa abandonar o consumidor brasileiro; basta deslocar parte da produção para onde o custo do Estado é menor.

A contradição é evidente. O Brasil cobra mais porque prometeu mais. O Paraguai cobra menos porque estruturou um pacto estatal mais enxuto. O problema começa quando se vende essa diferença como mágica. Não há mágica fiscal. Há escolha política, histórica e social.

Em 2025, a carga tributária bruta brasileira foi estimada pelo Tesouro Nacional em 32,40% do PIB. Em 2024, havia sido de 32,32% do PIB. Já o Paraguai, segundo estatísticas comparadas da OCDE para a América Latina, manteve historicamente uma relação tributo/PIB muito inferior, tendo alcançado cerca de 14,5% em 2023 e pico recente de 14,6% em 2022.  

Essa diferença não é detalhe contábil. É a própria anatomia de dois Estados. O Brasil financia uma Constituição social ampla. O Paraguai oferece uma plataforma tributária e produtiva mais leve, com menor densidade de proteção social. Entre os dois, o capital aprende a circular. O trabalhador, muitas vezes, não.


2. O “oásis” paraguaio: maquila, imposto baixo e capital móvel

O coração do modelo paraguaio está no regime de maquila. A antiga Lei nº 1.064/1997 tinha como objetivo promover empresas industriais maquiladoras voltadas à exportação, com incorporação de mão de obra e recursos nacionais. Em 2025, o regime foi modernizado pela Lei nº 7.547/2025, segundo o Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, que substituiu a legislação anterior para adaptar o sistema às exigências do comércio global.  

A lógica é simples e poderosa: importar insumos, máquinas e componentes com vantagens fiscais; produzir no Paraguai; exportar o resultado, muitas vezes de volta ao Brasil. O regime tradicionalmente se destacou pelo tributo único de 1% sobre o valor agregado no território paraguaio, além de benefícios vinculados ao processo produtivo.  

Isso cria uma espécie de “janela tributária” dentro do Mercosul. A empresa brasileira continua olhando para o mercado brasileiro, mas desloca sua base de produção para uma jurisdição de menor custo. Não é fuga completa. É uma forma de presença deslocada: vende-se ao Brasil, lucra-se com o Brasil, mas produz-se sob outro pacto fiscal e trabalhista.

Os números mostram que a maquila deixou de ser marginal. O Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai informou que as exportações sob o regime de maquila chegaram a US$ 1,309 bilhão em 2025, novo recorde histórico. Também há registros de que, até setembro de 2025, o Brasil absorvia cerca de 64% das exportações maquiladoras paraguaias.  

Aqui aparece o ponto central: o Paraguai não compete apenas com produto. Compete com modelo de Estado. Ele vende ao capital uma combinação rara: baixa tributação, energia abundante, menor custo regulatório e proximidade com o maior mercado da região.


3. A “uberização” transnacional da indústria

O termo “uberização” costuma ser usado para falar do trabalhador de aplicativo. Mas há uma forma mais ampla de uberização: a transformação de territórios inteiros em plataformas de redução de custo.

Nesse modelo, o país que recebe a planta industrial oferece flexibilidade; o país consumidor absorve o produto; e o trabalhador fica preso ao elo mais frágil da cadeia. É como se a fábrica fosse transformada em aplicativo: conecta capital, logística, energia e mão de obra, mas desloca responsabilidades sociais para fora da planilha principal.

A maquila, nesse sentido, pode ser vista como um dispositivo de arbitragem. A empresa escolhe a legislação mais favorável, o custo mais baixo e a tributação mais leve. O consumidor brasileiro compra mais barato. O empresário amplia margem. O Paraguai aumenta exportações e empregos formais. Mas a pergunta que precisa ser feita é: quem paga a diferença?

Parte da resposta está no trabalho. Quando a vantagem competitiva decorre de menor proteção social, menor custo previdenciário, menor densidade sindical e menor gasto público per capita, o preço não desaparece. Ele é apenas transferido. O trabalhador paga em direitos mais frágeis. A infraestrutura pública paga em subfinanciamento. A fronteira paga em pressão social.

Isso não significa negar os benefícios econômicos paraguaios. A maquila gera empregos, exportações e integração produtiva. O erro seria tratá-la como milagre. Na economia, todo “milagre” costuma esconder uma contabilidade social.


4. Itaipu e a energia como vantagem estratégica

O Paraguai possui uma vantagem geoeconômica extraordinária: energia hidrelétrica abundante. Itaipu é uma entidade binacional criada pelo Tratado de 1973, com 14.000 MW de potência instalada, pertencente igualmente a Brasil e Paraguai. Cada país tem direito à metade da energia produzida.  

Para um país de menor escala populacional e industrial, isso representa uma vantagem estrutural. Energia barata e disponível é uma das bases da industrialização. No caso paraguaio, ela reforça a atratividade da maquila e de setores eletrointensivos.

Mas essa vantagem também produz uma tensão: o Paraguai tem energia, imposto baixo e legislação amigável ao capital; o Brasil tem mercado consumidor, infraestrutura pública mais ampla e obrigações sociais maiores. A fronteira se torna, então, um circuito de complementaridade desigual.

O Paraguai oferece o chão barato da produção. O Brasil oferece o mercado robusto do consumo. A simbiose funciona, mas não é neutra.


5. O Leviatã brasileiro: por que o Brasil cobra tanto?

A resposta fácil seria dizer que o Brasil cobra muito porque o Estado é ineficiente. Há verdade parcial nisso, mas a explicação é insuficiente. O Brasil cobra muito também porque prometeu muito.

A Constituição Federal de 1988 organizou um Estado Democrático de Direito com direitos sociais amplos. Saúde, educação, previdência, assistência, trabalho, moradia e proteção social compõem o núcleo do pacto constitucional. O artigo 196, por exemplo, define a saúde como direito de todos e dever do Estado.  

Essa escolha tem consequência fiscal. Universalidade custa caro. SUS custa caro. Previdência custa caro. Educação pública custa caro. Assistência social custa caro. Universidade pública custa caro. Estado federativo com União, estados e municípios custa caro.

A Lei Orçamentária Anual de 2025 destinou valores expressivos a áreas obrigatórias e socialmente sensíveis. Segundo o Senado, o orçamento previu quase R$ 972 bilhões para a Previdência Social, R$ 245 bilhões para saúde, R$ 226 bilhões para educação e R$ 158 bilhões para o Bolsa Família.  

Portanto, a carga tributária brasileira não é apenas vício arrecadatório. É também a fatura de um pacto social. Pode-se discutir eficiência, desperdício, regressividade tributária, burocracia e má gestão. Deve-se discutir. Mas não se pode fingir que o Brasil e o Paraguai entregam o mesmo nível de proteção pública.

O Brasil é caro porque sustenta uma promessa universal. O Paraguai é barato porque opera com uma promessa estatal mais estreita.


6. LOA, LDO e o orçamento como retrato moral do Estado

A LOA não é apenas um documento técnico. Ela é a radiografia anual das escolhas de um país. A LDO define diretrizes, metas e prioridades. A LOA estima receitas e fixa despesas. Juntas, elas mostram o que o Estado diz valorizar — e o que consegue pagar.

No Brasil, o orçamento é pressionado por despesas obrigatórias, vinculações constitucionais, benefícios previdenciários, folha de pagamento, mínimos constitucionais e compromissos federativos. A consequência é a rigidez. Grande parte do orçamento nasce comprometida antes mesmo da disputa política anual.

Isso limita investimento público. Estradas, obras, inovação, ciência, tecnologia e infraestrutura disputam espaço com despesas obrigatórias. O resultado é paradoxal: o Brasil cobra muito, mas investe pouco em transformação estrutural. Arrecada como Estado social europeu, mas entrega serviços muitas vezes abaixo da expectativa da população.

Esse é o drama do Leviatã brasileiro: grande para cobrar, necessário para proteger, lento para executar e frequentemente incapaz de produzir eficiência compatível com seu tamanho.

O problema não está apenas no tamanho do Estado. Está na qualidade do gasto, na complexidade tributária, na litigiosidade, na insegurança jurídica, na desigualdade federativa e na baixa capacidade de transformar arrecadação em bem-estar perceptível.


7. A reforma tributária brasileira e a promessa de simplificação

A transição para o IVA dual no Brasil tenta enfrentar parte desse problema. A reforma tributária busca substituir tributos sobre consumo por um modelo com CBS federal e IBS subnacional, prometendo simplificação, neutralidade e menor cumulatividade.

Mas a reforma não elimina o conflito central: simplificar tributos não significa reduzir automaticamente carga tributária. O Brasil está tentando reorganizar a forma de cobrar, não necessariamente diminuir o tamanho do pacto social. O contribuinte pode perceber melhora operacional, mas o Estado continuará precisando financiar suas obrigações constitucionais.

É por isso que comparar Brasil e Paraguai apenas pela alíquota é superficial. A pergunta correta não é apenas “quanto se paga?”. É também: “o que se financia?”, “quem é protegido?”, “quem fica descoberto?” e “quem absorve o custo social quando o Estado não entrega?”.


8. O preço invisível do Estado mínimo paraguaio

O Paraguai aparece, para muitos empresários, como um “oásis”. Mas todo oásis precisa ser observado também pelo que falta em volta.

O Orçamento Geral da Nação paraguaio de 2025 foi apresentado como instrumento de desenvolvimento inclusivo, com ênfase em saúde, educação, segurança e proteção social. O Ministério da Economia e Finanças informou que o orçamento destinava acréscimos relevantes a setores estratégicos, principalmente saúde, educação e proteção social.  

Ainda assim, a distância entre previsão orçamentária e capacidade universal de atendimento permanece relevante. O próprio debate regional sobre saúde indica que países latino-americanos precisam ampliar gasto público para fortalecer sistemas universais. A OPAS/OMS recomenda que os países caminhem para investimento público em saúde de pelo menos 6% do PIB.  

Na fronteira, essa insuficiência se materializa em movimento humano. Estudos sobre saúde fronteiriça registram procura de serviços brasileiros por paraguaios, argentinos e brasileiros residentes no Paraguai, com pressão sobre Foz do Iguaçu e municípios vizinhos.  

Aqui está o paradoxo: parte do capital foge dos impostos brasileiros, mas parte da população fronteiriça busca o sistema público brasileiro quando precisa de atendimento mais complexo. O SUS, financiado pela carga tributária brasileira, torna-se uma espécie de amortecedor regional.

Não se trata de culpar pessoas pobres ou doentes que buscam atendimento. Saúde é necessidade humana, não luxo nacional. O ponto é outro: quando um modelo tributário baixo não sustenta plenamente sua rede social, a fronteira revela a fatura.


9. Educação, professores e infraestrutura: a conta que aparece na escola

O mesmo dilema aparece na educação. O orçamento paraguaio de 2025 anunciou prioridade para reparação de escolas, equiparação salarial docente e criação de cargos. O Ministério da Educação e Ciências teria orçamento com incremento de 7%, segundo informações divulgadas na imprensa local.  

Mas sindicatos docentes paraguaios seguiram denunciando problemas de infraestrutura, reajuste e cargos. Em agosto de 2025, gremios docentes anunciaram paralisação de dois dias, reivindicando reajuste salarial, escalafão e criação de novos cargos para 2026.  

Esse é o núcleo sociológico da questão: baixa carga tributária pode atrair investimento, mas também restringe a capacidade estatal de elevar a qualidade dos serviços públicos. O capital percebe o imposto baixo imediatamente. A criança percebe a escola precária lentamente. O trabalhador percebe a falta de proteção quando adoece, envelhece ou perde o emprego.

Estados mínimos costumam ser celebrados no balanço empresarial. Mas são testados, de verdade, no hospital, na escola, na estrada, na fiscalização ambiental, na previdência e na proteção do trabalhador.


10. Brasiguaios: terra, soja e identidade de fronteira

A migração brasileira para o Paraguai não começou com a maquila. Ela tem raízes profundas no campo, especialmente na expansão agrícola para o leste paraguaio. Estudos sobre a questão fundiária mostram que a fronteira Brasil–Paraguai é marcada por migrações, conflitos pela terra, desterritorializações e múltiplas territorialidades.  

Os chamados “brasiguaios” formam uma identidade complexa. Não são apenas brasileiros no Paraguai. São sujeitos de fronteira, atravessados por língua, terra, trabalho, nacionalidade, conflito e pertencimento. A literatura acadêmica descreve essa identidade como construção situada no encontro e desencontro entre brasileiros e paraguaios.  

No agronegócio, a presença brasileira no Paraguai reorganizou regiões inteiras. Houve modernização produtiva, expansão da soja, aumento de renda e integração comercial. Mas também houve tensão fundiária, concentração de terras, conflitos com campesinos paraguaios e disputas de soberania simbólica.

A fronteira, portanto, não é apenas econômica. É cultural e política. O portunhol, os costumes híbridos, as placas bilíngues, a soja, a medicina, a maquila e o comércio compõem uma paisagem social nova. Nela, o nacionalismo paraguaio convive com a força econômica brasileira. E essa convivência nem sempre é pacífica.


11. Estudantes de medicina: outro rosto da migração

Há ainda um fenômeno contemporâneo relevante: brasileiros que buscam cursos de medicina no Paraguai. A motivação costuma combinar mensalidades menores, menor concorrência de entrada e proximidade geográfica.

Esse movimento revela outro aspecto da fronteira: o Brasil não exporta apenas fábricas. Exporta também frustrações. A dificuldade de acesso ao ensino superior médico, o alto custo de faculdades privadas brasileiras e a competição intensa por vagas públicas empurram estudantes para fora.

Mas o retorno dessa formação ao Brasil passa por regulação, validação de diplomas e disputas sobre qualidade. O caso da medicina mostra que a fronteira funciona como válvula de escape de problemas internos brasileiros: custo educacional, elitização de carreiras e gargalos de formação profissional.

Mais uma vez, a pergunta não é simples. O Paraguai oferece oportunidade real para muitos estudantes. Mas o fenômeno também denuncia uma falha brasileira: um país continental, com enormes vazios assistenciais, ainda não resolveu democraticamente o acesso à formação médica.


12. O falso dilema: Estado grande versus Estado mínimo

O debate costuma ser empobrecido por slogans. De um lado, “imposto é roubo”. De outro, “todo gasto público é investimento social”. Nenhuma das frases dá conta da realidade.

O Brasil precisa enfrentar seu excesso de burocracia, sua complexidade tributária, sua regressividade fiscal, sua baixa eficiência administrativa e seus desperdícios. Um Estado social não pode usar a justiça social como desculpa para ineficiência. Cobrar muito e entregar mal destrói legitimidade.

Mas o Paraguai também não pode ser romantizado como se baixa tributação fosse sinônimo automático de desenvolvimento humano. Crescer com baixa arrecadação pode gerar dinamismo econômico, mas também pode perpetuar fragilidade institucional.

O verdadeiro debate não é Estado grande contra Estado pequeno. É Estado capaz contra Estado incapaz. Um Estado capaz arrecada com justiça, gasta com eficiência, protege vulneráveis, estimula investimento produtivo e reduz desigualdades. Um Estado incapaz pode ser grande e opressor, ou pequeno e ausente.


13. O que o Brasil precisa aprender

O Brasil precisa aprender com o Paraguai que capital produtivo responde a ambiente de negócios. Empresas não operam em discursos patrióticos; operam em custo, risco, previsibilidade e retorno. Quando a burocracia é excessiva, o imposto é confuso, a judicialização é permanente e a infraestrutura é ruim, o capital procura saída.

A simplificação tributária é necessária. A melhoria logística é urgente. A segurança jurídica é indispensável. A digitalização do Estado precisa sair do discurso e reduzir efetivamente o custo de conformidade. O empreendedor brasileiro não pode ser tratado como suspeito permanente.

Mas o Brasil não deve aprender a desmontar sua rede social. O SUS, as universidades públicas, a previdência e a assistência social são parte da estabilidade brasileira. Em um país desigual, retirar o amortecedor social pode gerar uma fatura muito maior: miséria, violência, instabilidade política e colapso federativo.

O desafio brasileiro é reduzir o Custo Brasil sem destruir o pacto de 1988. Isso exige reforma administrativa inteligente, avaliação rigorosa de políticas públicas, revisão de privilégios, combate à regressividade tributária e aumento da produtividade estatal.


14. O que o Paraguai precisa enfrentar

O Paraguai, por sua vez, precisa enfrentar o limite de um modelo excessivamente dependente de vantagem fiscal. Atração de capital por imposto baixo funciona até certo ponto. Mas desenvolvimento duradouro exige ciência, tecnologia, educação robusta, saúde pública forte, infraestrutura, regulação ambiental e proteção trabalhista.

A maquila pode ser porta de entrada para industrialização. Mas, se permanecer apenas como plataforma de baixo custo, corre o risco de consolidar dependência: importa insumo, agrega pouco valor, paga pouco imposto e exporta mercadoria com margem limitada.

O salto qualitativo viria de outra pergunta: como transformar maquila em desenvolvimento tecnológico? Como converter energia em indústria sofisticada? Como transformar exportação em salário digno? Como usar a presença brasileira sem permitir subordinação econômica?

Sem isso, o “milagre paraguaio” pode virar uma armadilha: cresce, mas não aprofunda; atrai, mas não distribui; exporta, mas não universaliza direitos.


15. A simbiose incômoda

Brasil e Paraguai vivem uma simbiose. O Paraguai atrai parte da produção brasileira. O Brasil consome parte da produção paraguaia. O Paraguai oferece custo menor. O Brasil oferece mercado maior. O Paraguai recebe empresas. O Brasil recebe demandas sociais de fronteira.

Essa simbiose pode ser produtiva, desde que seja reconhecida com honestidade. O problema surge quando um país terceiriza custo social ao outro. Quando o Brasil perde indústria, emprego e arrecadação, há impacto interno. Quando o Paraguai cresce sem ampliar proteção pública, há impacto social. Quando a população fronteiriça cruza em busca de atendimento, há impacto municipal brasileiro.

A fronteira não é linha. É sistema circulatório. Por ela passam mercadorias, pessoas, doenças, diplomas, empregos, impostos, ausências e esperanças.


Conclusão: não existe almoço grátis na fronteira

O caso Brasil–Paraguai ensina uma verdade dura: não há milagre fiscal. Há escolhas. O Paraguai escolheu ser leve para o capital. O Brasil escolheu ser amplo na promessa social. Ambos pagam preços distintos.

O modelo paraguaio cresce porque reduz custos, simplifica regras e aproveita vantagens energéticas e logísticas. Mas sua baixa arrecadação limita a construção de uma infraestrutura social plenamente madura. O modelo brasileiro protege mais, mas cobra muito, complica demais e frequentemente entrega menos do que deveria.

A saída não está em copiar cegamente o Paraguai nem em defender cegamente o Leviatã brasileiro. O Brasil precisa de um Estado social eficiente, não de um Estado obeso e confuso. O Paraguai precisa de crescimento com densidade social, não apenas de plataforma barata para o capital regional.

A fronteira revela o que os discursos escondem: imposto não é apenas custo; é pacto. Mas pacto sem eficiência vira irritação. Estado mínimo sem proteção vira abandono. Entre o Leviatã brasileiro e o oásis paraguaio, o futuro sul-americano dependerá de uma pergunta simples e decisiva: quem deve pagar a conta do desenvolvimento — o capital, o trabalhador, o consumidor ou a próxima geração?


Referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: Planalto. Acesso em: 19 maio 2026.

BRASIL. Ministério da Fazenda. Carga tributária bruta do Governo Geral atinge 32,40% do PIB em 2025, mostra boletim do Tesouro Nacional. Brasília, DF, 2026.

BRASIL. Tesouro Nacional. Carga Tributária do Governo Geral — 2024. Brasília, DF, 2025.

BRASIL. Senado Federal. Orçamento 2025: quase R$ 1 trilhão para Previdência e R$ 245 bilhões para saúde. Brasília, DF, 2025.

ITAIPU BINACIONAL. Itaipu: integration that generates energy. Foz do Iguaçu; Hernandarias, 2026.

OECD. Revenue Statistics in Latin America and the Caribbean 2025: Paraguay. Paris: OECD Publishing, 2025.

PARAGUAI. Ministerio de Economía y Finanzas. Presupuesto General de la Nación 2025. Assunção, 2025.

PARAGUAI. Ministerio de Industria y Comercio. Ley nº 1.064/97 de la Industria Maquiladora de Exportación. Assunção, 1997.

PARAGUAI. Ministerio de Industria y Comercio. Maquila: régimen regulado por la Ley nº 7.547/2025. Assunção, 2025.

UNILA. Pesquisadora fala sobre os desafios da saúde na fronteira. Foz do Iguaçu, 2022.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. OPAS e OMS destacam importância de investimento adequado em saúde. Washington, DC, 2024.

COLOGNESE, Silvio Antônio. Brasiguaios: uma identidade na fronteira Brasil/Paraguai. Tempo da Ciência, 2012.

FABRINI, João Edmilson. Os brasiguaios e conflitos na fronteira. Geografares, 2010.

PEREIRA, Lorena Izá. Estrangeirização da terra no Paraguai. Presidente Prudente: UNESP, 2016.


Liberais, conservadores e Lula diante do Estado: o Brasil entre mercado, proteção nacional e justiça social

Por que, no Brasil, ninguém é liberal o tempo inteiro — e por que a disputa real não é “Estado ou mercado”, mas quem o Estado protege, como protege e com quais limites democráticos


Lide

Um pequeno empresário brasileiro acorda cedo, paga imposto, reclama da burocracia, defende liberdade para empreender e diz que o Estado atrapalha. No mesmo dia, quando vê o preço do combustível subir, pede intervenção. Quando descobre que uma empresa estrangeira pode comprar uma área estratégica, pede proteção nacional. Quando precisa de saúde, escola, estrada, crédito rural, segurança ou financiamento público, espera que o Estado funcione.

Essa contradição não é apenas pessoal. É brasileira. O país nasceu e cresceu sob forte presença estatal, mas aprendeu a falar a linguagem do mercado. Defende a livre iniciativa, mas constitucionalmente subordina a economia à justiça social, à função social da propriedade, à soberania nacional e à redução das desigualdades. A própria Constituição de 1988 afirma que a ordem econômica se funda na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, com finalidade de assegurar existência digna e justiça social.  

A tese deste artigo é simples: no Brasil, liberalismo, conservadorismo, intervencionismo e democracia liberal não aparecem em estado puro. Eles se misturam, se contradizem e disputam o Estado por dentro. Lula não representa uma negação absoluta do liberalismo; representa uma tentativa de subordinar o mercado a um projeto social-desenvolvimentista, com forte presença estatal, negociação institucional e proteção de setores considerados estratégicos.


1. Liberais são conservadores?

Nem sempre. Essa é a primeira confusão.

Liberalismo e conservadorismo são tradições diferentes. O liberalismo nasce, em linhas gerais, da defesa da liberdade individual, da limitação do poder estatal, da propriedade privada, do constitucionalismo, da liberdade de expressão, do mercado e dos direitos civis. Mas ele não é uma coisa só. Há liberalismo clássico, liberalismo social, neoliberalismo, liberalismo político, liberalismo econômico e liberal-democracia. A própria tradição liberal se fragmenta em correntes concorrentes sobre o significado de liberdade, igualdade, Estado e mercado.  

O conservadorismo, por sua vez, tende a valorizar tradição, ordem, continuidade institucional, família, religião, autoridade, prudência e desconfiança diante de mudanças bruscas. Ele não necessariamente rejeita o mercado; muitas vezes o incorpora. Mas sua preocupação central não é a liberdade econômica em si, e sim a preservação de uma determinada ordem social, moral e institucional.  

Portanto, um liberal pode ser conservador em costumes, mas não precisa ser. Pode haver:

  • liberal econômico e conservador moral;
  • liberal econômico e progressista nos costumes;
  • conservador estatista;
  • conservador nacionalista;
  • liberal-democrata defensor de direitos sociais;
  • neoliberal defensor de privatizações amplas;
  • liberal clássico defensor de Estado mínimo;
  • social-liberal defensor de mercado regulado e proteção social.

No Brasil, porém, a palavra “liberal” costuma ser usada quase sempre no sentido econômico: menos imposto, menos Estado, mais mercado, privatização, desregulação e responsabilidade fiscal. Já a palavra “conservador” costuma ser usada no plano moral e cultural: família, religião, segurança, costumes, autoridade e crítica ao progressismo.

Daí nasce uma aliança frequente: liberal na economia, conservador nos costumes. Mas isso é uma combinação política, não uma necessidade conceitual.


2. Qual é a diferença essencial?

A diferença pode ser resumida assim: o liberal pergunta “como proteger o indivíduo contra o excesso de poder?”; o conservador pergunta “como preservar a ordem social contra a desagregação?”; o intervencionista pergunta “quando o Estado deve corrigir, induzir ou controlar o mercado?”; o liberal-democrata pergunta “como garantir liberdade, direitos, eleições, instituições e pluralismo?”

O liberalismo clássico teme o Estado excessivo. O conservadorismo teme a ruptura da ordem. O intervencionismo teme o mercado abandonado à própria lógica. A liberal-democracia teme o autoritarismo, venha ele do Estado, do mercado, das massas ou de lideranças carismáticas.

O Brasil real exige um pouco de cada coisa. Precisa de liberdade econômica para produzir. Precisa de regulação para impedir abusos. Precisa de Estado para reduzir desigualdade. Precisa de instituições para conter aventuras autoritárias. Precisa de proteção nacional em áreas estratégicas. Precisa de mercado, mas não pode transformar tudo em mercadoria.


3. Como isso funciona no Brasil?

O Brasil não é um país liberal clássico. Também não é socialista. O Brasil é uma economia capitalista de forte presença estatal, com Constituição social, mercado relevante, sistema financeiro poderoso, agronegócio competitivo, indústria em disputa, desigualdade profunda e Estado historicamente central na organização do desenvolvimento.

A Constituição de 1988 é o melhor retrato dessa síntese. Ela reconhece propriedade privada, livre iniciativa e livre concorrência, mas também impõe função social da propriedade, defesa do consumidor, defesa do meio ambiente, redução das desigualdades regionais e sociais, busca do pleno emprego e tratamento favorecido às pequenas empresas.  

Isso significa que o Brasil adotou uma ordem econômica capitalista, social e constitucionalmente regulada. Não é “laissez-faire”. Não é “cada um por si”. Também não é estatização geral. É uma economia de mercado submetida a objetivos públicos.

Na prática, o Brasil funciona por camadas:

Primeira camada: mercado, propriedade privada, bancos, empresas, agronegócio, comércio, serviços e indústria.

Segunda camada: Estado regulador, com agências, normas trabalhistas, tributação, política monetária, política fiscal, legislação ambiental e defesa da concorrência.

Terceira camada: Estado social, com SUS, educação pública, previdência, assistência, universidades, institutos federais, Bolsa Família e políticas de inclusão.

Quarta camada: Estado desenvolvimentista, com BNDES, bancos públicos, compras governamentais, política industrial, infraestrutura, energia, petróleo, defesa, ciência e tecnologia.

É por isso que o liberalismo puro não explica o Brasil. O conservadorismo puro também não. O Brasil é um país de conciliação tensa entre capitalismo, desigualdade, Estado social e elites econômicas dependentes do próprio Estado.


4. O intervencionismo no Brasil

Intervencionismo não significa necessariamente autoritarismo. Significa presença ativa do Estado na economia.

Essa intervenção pode ocorrer por impostos, subsídios, crédito público, controle de preços, política cambial, política industrial, empresas estatais, regulação, compras públicas, proteção tarifária, investimento em infraestrutura ou programas sociais.

No Brasil, o intervencionismo tem longa história. Vargas organizou bases trabalhistas e industriais. Juscelino Kubitschek articulou Estado, indústria e capital estrangeiro. A ditadura militar expandiu infraestrutura e estatais. A redemocratização construiu o Estado social de 1988. Lula retomou políticas sociais, crédito público e valorização do salário mínimo. Dilma aprofundou certos instrumentos de intervenção. Temer e Bolsonaro caminharam mais na direção de reformas pró-mercado, teto de gastos, privatizações e liberalização. Lula 3 retomou uma agenda social-desenvolvimentista, mas dentro de limites fiscais e políticos muito mais apertados.

A Nova Indústria Brasil, lançada em 2024, é exemplo claro dessa retomada intervencionista. O programa busca impulsionar a indústria nacional até 2033, usando instrumentos como financiamento, incentivos, compras públicas, inovação e sustentabilidade.   A Agência Brasil registrou que a política combina subsídios, empréstimos com juros reduzidos, incentivos tributários e fundos especiais.  

Isso não é socialismo. É política industrial. Países capitalistas desenvolvidos fazem isso o tempo inteiro, especialmente em setores estratégicos como semicondutores, defesa, energia, tecnologia, fármacos, transição ecológica e inteligência artificial.

A pergunta séria não é se o Estado deve intervir. Ele sempre intervém. A pergunta é: intervém para quem? Com transparência? Com avaliação? Com retorno social? Com controle democrático?


5. E os liberais democratas?

O liberal-democrata não é apenas alguém “liberal na economia”. É alguém que valoriza democracia constitucional, eleições livres, direitos civis, imprensa livre, independência judicial, separação de poderes, pluralismo político, proteção de minorias e limitação do poder.

A liberal-democracia é mais ampla que o liberalismo econômico. Ela aceita que o Estado regule mercados e mantenha políticas sociais, desde que respeite liberdades fundamentais e instituições democráticas.

Por isso, muitos liberais democratas podem defender:

  • mercado regulado;
  • Estado de bem-estar social;
  • combate à pobreza;
  • liberdade de imprensa;
  • direitos individuais;
  • responsabilidade fiscal;
  • direitos humanos;
  • alternância de poder;
  • separação entre governo e Estado;
  • limites ao populismo autoritário.

Nesse ponto, o Brasil atual vive uma tensão importante. O país segue sendo classificado como uma democracia com eleições competitivas e debate público vibrante, embora marcado por polarização, violência política, ataques a jornalistas e fragilidades institucionais.  

O liberal-democrata coerente deveria defender o mercado, mas também defender a democracia contra aventuras autoritárias. Deveria criticar excesso de gasto público, mas também criticar ataques às urnas, ao Judiciário, à imprensa e ao Estado de Direito. Quando alguém defende liberdade econômica, mas tolera autoritarismo político, essa pessoa pode até ser liberal de mercado; dificilmente será liberal-democrata.


6. Como tudo isso se encaixa no Brasil atualmente?

O Brasil atual é uma disputa entre quatro campos principais.

O primeiro é o campo liberal-conservador, que defende mercado, privatizações, redução do Estado, responsabilidade fiscal e costumes tradicionais. Seu problema é que muitas vezes se apresenta como anti-Estado, mas depende do Estado para crédito, emendas, subsídios, isenções, proteção setorial e poder político.

O segundo é o campo social-desenvolvimentista, ligado ao lulismo e a setores da esquerda democrática. Defende Estado social, valorização do trabalho, política industrial, inclusão social, soberania nacional e proteção de setores estratégicos. Seu desafio é financiar essas políticas sem produzir desequilíbrio fiscal, inflação ou perda de confiança econômica.

O terceiro é o campo tecnocrático-fiscalista, que se preocupa prioritariamente com dívida pública, inflação, meta fiscal, juros, previsibilidade e segurança para investidores. Esse campo não é necessariamente conservador nos costumes, mas tende a ser liberal ou ortodoxo na economia.

O quarto é o campo democrático-institucional, que pode reunir pessoas de esquerda, centro e direita em torno da defesa das instituições, das eleições, do Judiciário, da imprensa e do Estado de Direito.

Lula governa tentando equilibrar o segundo, negociar com o terceiro, conter o primeiro e preservar o quarto. Essa é a síntese de sua governança.


7. O modelo de governança de Lula diante desses conceitos

O governo Lula não é liberal clássico. Também não é revolucionário. É um governo de coalizão, negociação, Estado social, pragmatismo fiscal relativo e intervenção econômica seletiva.

Lula opera com algumas marcas:

Primeira: centralidade do Estado social. Programas de transferência de renda, salário mínimo, valorização do trabalho, combate à fome, educação, saúde e inclusão são pilares políticos e simbólicos.

Segunda: desenvolvimentismo pragmático. O governo busca usar bancos públicos, investimento, política industrial e compras governamentais para estimular setores estratégicos.

Terceira: responsabilidade fiscal negociada. O novo arcabouço fiscal tentou substituir o teto de gastos por uma regra mais flexível, combinando limite de crescimento das despesas e metas de resultado primário. Mas há tensão permanente entre expansão social e controle das contas públicas. A Reuters registrou alerta da ministra Simone Tebet de que o arcabouço poderia se tornar insustentável até 2027 sem ajustes estruturais nas despesas obrigatórias.  

Quarta: coalizão parlamentar heterogênea. Lula não governa com maioria ideológica pura. Precisa negociar com centro, Centrão, bancadas econômicas, Congresso conservador e interesses regionais.

Quinta: defesa institucional da democracia. O lulismo atual se apresenta como força de reconstrução democrática depois das crises de 2022 e 2023. Relatórios internacionais apontaram estabilização política e melhora relativa de indicadores democráticos nos primeiros anos do terceiro mandato de Lula, embora o país siga polarizado.  

Portanto, Lula governa como um social-desenvolvimentista democrático em ambiente de capitalismo financeiro, Congresso conservador, sociedade polarizada e restrição fiscal.


8. Lula versus liberalismo

A expressão “Lula versus liberalismo” precisa ser refinada. Lula não é contra toda forma de liberalismo. Ele não rompe com eleições, propriedade privada, bancos, empresas, comércio exterior ou economia de mercado. Seu conflito principal é com o liberalismo econômico radical, sobretudo aquele que reduz o papel do Estado à segurança, contratos, moeda e ajuste fiscal.

Lula se opõe à ideia de que o mercado sozinho resolverá desigualdade, pobreza, fome, desindustrialização, crédito, infraestrutura e soberania. Para ele, Estado não é um problema em si; é instrumento de desenvolvimento e proteção social.

Mas Lula também não consegue governar fora do capitalismo. Seu governo depende de arrecadação, investimento privado, agronegócio exportador, sistema financeiro, estabilidade monetária, comércio internacional e confiança institucional. Essa é a contradição central: Lula critica o liberalismo de mercado, mas governa dentro de uma economia capitalista regulada por expectativas de mercado.

A disputa não é entre “mercado” e “Estado”. É entre dois modelos de capitalismo:

Um capitalismo liberal-fiscalista, que prioriza estabilidade, privatização, abertura, corte de gasto e confiança dos investidores.

E um capitalismo social-desenvolvimentista, que aceita mercado, mas exige Estado indutor, proteção social, política industrial, soberania e redução de desigualdades.

Lula está claramente no segundo campo.


9. “Eu não sou liberal em tudo”: essa posição faz sentido?

Sim. E, na verdade, é uma posição muito mais comum do que parece.

Poucas pessoas são liberais em tudo. Quem defende mercado pode defender proteção da Amazônia. Quem defende privatização pode defender SUS. Quem defende livre comércio pode defender proteção da indústria nacional. Quem defende liberdade individual pode defender regulação de bancos, plataformas digitais ou monopólios.

A posição apresentada — “o governo deve reter e proteger algumas instituições, serviços e produtos brasileiros” — se aproxima de uma visão nacional-desenvolvimentista moderada, ou de um liberalismo social com soberania econômica, dependendo da ênfase.

Ela parte de uma percepção correta: há setores que não podem ser tratados como mercadorias comuns. Saúde, educação, energia, água, defesa, dados, infraestrutura, ciência, tecnologia, alimentos, minerais estratégicos e comunicação têm dimensão pública.

Um país que entrega tudo ao mercado perde instrumentos de soberania. Mas um país que estatiza ou controla tudo pode sufocar inovação, eficiência e liberdade. O equilíbrio está em distinguir setores comuns de setores estratégicos.

A pergunta madura é: o que deve ser protegido, por quê, por quanto tempo, com qual meta e sob qual controle público?

Proteção sem critério vira privilégio. Abertura sem estratégia vira dependência.


10. Conclusão crítica

O Brasil não cabe em rótulos importados de maneira preguiçosa. Liberal, conservador, intervencionista, desenvolvimentista, social-democrata e liberal-democrata são conceitos úteis, mas insuficientes quando retirados da história concreta do país.

O Brasil é desigual demais para acreditar no mercado como juiz neutro. É burocrático demais para acreditar que todo Estado é virtude. É dependente demais para abrir mão de estratégia nacional. É polarizado demais para brincar com autoritarismo. É grande demais para não ter projeto de desenvolvimento.

Lula representa uma resposta histórica a esse dilema: a tentativa de fazer o Estado voltar a proteger os pobres, induzir desenvolvimento, reconstruir políticas públicas e preservar a democracia. Mas sua governança enfrenta limites objetivos: Congresso conservador, pressão fiscal, juros, mercado financeiro, disputa cultural, baixa confiança institucional e uma sociedade cansada de promessas.

O liberalismo tem razão quando alerta contra o Estado ineficiente, capturado e gastador. O desenvolvimentismo tem razão quando lembra que nenhum país soberano se constrói apenas com mercado. A democracia liberal tem razão quando afirma que nenhum projeto social justifica destruir liberdades. E o conservadorismo tem razão quando recorda que instituições não devem ser desmontadas ao sabor de paixões momentâneas.

O erro está no fanatismo conceitual. O Brasil precisa menos de dogmas e mais de inteligência institucional. Menos “Estado mínimo” como frase de efeito. Menos “Estado máximo” como solução mágica. Mais Estado competente. Mais mercado produtivo. Mais proteção estratégica. Mais democracia. Mais soberania. Mais responsabilidade pública.

No fundo, a pergunta decisiva não é se o Brasil deve ser liberal ou intervencionista. A pergunta é outra: que tipo de país queremos proteger — e quem pagará o preço se o Estado abandonar essa tarefa?

Referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 170. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.

COURTLAND, Shane D.; GAUS, Gerald; SCHMIDTZ, David. Liberalism. Stanford Encyclopedia of Philosophy. Stanford: Stanford University, 1996.

HAMILTON, Andy. Conservatism. Stanford Encyclopedia of Philosophy. Stanford: Stanford University, 2015.

BRASIL. Nova Indústria Brasil. Ministério da Fazenda. Brasília, 2024.

AGÊNCIA BRASIL. Entenda o programa Nova Indústria Brasil. Brasília, 2024.

FREEDOM HOUSE. Brazil: Freedom in the World 2025 Country Report. Washington, 2025.

BERTELSMANN STIFTUNG. BTI 2026 Brazil Country Report. Gütersloh, 2026.

REUTERS. Brazil’s fiscal framework unsustainable by 2027, minister warns. 2025.