quarta-feira, 3 de junho de 2026

Dark Horse e a fabricação do mito: quando a extrema direita vende ilusão como salvação


Introdução — a tese


O caso Dark Horse não é apenas uma polêmica sobre um filme biográfico de Jair Bolsonaro. É um retrato quase didático da forma como a extrema direita bolsonarista tenta produzir uma mitologia política: transforma um líder comum em personagem messiânico, converte escândalos em perseguição, apresenta interesses familiares como destino nacional e vende propaganda como verdade histórica.


A tese deste artigo é direta: o episódio em que Flávio Bolsonaro teria pedido recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse revela a lógica profunda do bolsonarismo — a fabricação permanente do mito salvador. Não se trata apenas de cinema. Trata-se de engenharia simbólica. Trata-se de construir uma narrativa na qual Jair Bolsonaro aparece como vítima, herói, mártir e redentor, enquanto a realidade concreta de sua trajetória política, seus conflitos institucionais e os escândalos ao redor de seu grupo familiar são reorganizados como parte de uma epopeia moral.


Segundo reportagens da Associated Press, do The Guardian e da revista Veja, Flávio Bolsonaro admitiu ter buscado patrocínio privado para o filme, após a divulgação de áudios em que aparece solicitando recursos a Daniel Vorcaro, ex-CEO do Banco Master, envolvido em grave escândalo financeiro. As reportagens mencionam valores milionários, com diferentes cifras apuradas, e indicam que o filme teria como objetivo narrar a vida de Jair Bolsonaro em chave heroica, inclusive com pretensão de circulação política no contexto eleitoral de 2026.  


É aí que começa o problema político. Um grupo que se apresenta como antissistema recorre ao dinheiro de um banqueiro investigado para financiar a fabricação de um mito popular. A contradição é gritante. Mas não é acidental. Ela mostra que o bolsonarismo não vive apenas de votos. Vive de encenação.



1. O filme como instrumento de mitificação política


Todo movimento político precisa de narrativa. Isso é normal. O problema começa quando a narrativa deixa de organizar fatos e passa a substituí-los. No caso Dark Horse, a ideia de produzir um filme sobre Jair Bolsonaro não pode ser lida apenas como iniciativa cultural. Ela deve ser compreendida como peça de uma estratégia mais ampla de construção simbólica.


A expressão dark horse, em inglês, remete ao “azarão”, ao candidato improvável que surpreende. É uma escolha perfeita para a mitologia bolsonarista. Bolsonaro é apresentado como o homem simples, perseguido, subestimado, que teria vencido sozinho contra tudo e contra todos. Mas essa imagem esconde uma operação complexa: partidos, redes digitais, empresários, grupos religiosos, influenciadores, militares, parlamentares e financiadores.


O mito precisa parecer espontâneo. Mas ele é produzido.


Roland Barthes, ao analisar os mitos modernos, explica que o mito não elimina a realidade; ele a deforma. Ele pega um fato histórico e o apresenta como se fosse natural, inevitável, quase sagrado (Barthes, 2001). É exatamente isso que ocorre quando uma trajetória política é convertida em epopeia moral. O político deixa de ser avaliado por seus atos e passa a ser consumido como personagem.


No bolsonarismo, Jair Bolsonaro não é apenas ex-presidente. É tratado como “mito”. Essa palavra não é decorativa. Ela cumpre uma função. O mito está acima da crítica. O mito não erra; é traído. O mito não responde por seus atos; é perseguido. O mito não precisa explicar contradições; basta reafirmar sua missão.


É uma tecnologia emocional de poder.



2. A contradição central: antissistema com dinheiro do sistema


O aspecto mais revelador do caso está na contradição entre discurso e prática. O bolsonarismo sempre se apresentou como força contrária às elites políticas, econômicas e midiáticas. Construiu sua identidade pública sobre a ideia de combate ao “sistema”. No entanto, quando se trata de financiar sua própria narrativa heroica, aparece a figura de um banqueiro.


Essa contradição é pedagógica. Ela mostra que o antissistema bolsonarista é seletivo. O sistema é inimigo quando investiga, critica ou limita o poder do grupo. Mas torna-se aceitável quando financia, protege ou amplia sua influência.


A Associated Press informou que Flávio Bolsonaro negou irregularidades e afirmou que a busca por recursos teria sido uma iniciativa privada para um projeto privado. A questão, porém, ultrapassa a legalidade formal. Mesmo que se alegue tratar-se de patrocínio privado, permanece a pergunta política: por que uma família que se apresenta como símbolo do povo precisa de milhões de um banqueiro investigado para contar sua própria história?  


A resposta é incômoda: porque o mito custa caro.


Custa dinheiro. Custa marketing. Custa roteiro. Custa distribuição. Custa repetição. Custa blindagem simbólica.


Guy Debord, em A sociedade do espetáculo, mostrou que a política moderna pode ser capturada pela lógica da imagem. O espetáculo não é apenas aquilo que aparece na tela; é uma relação social mediada por imagens (Debord, 1997). No caso bolsonarista, o filme seria uma tentativa de organizar a percepção pública. Não para explicar a realidade, mas para domesticá-la.


É o espetáculo da vítima. O espetáculo do herói. O espetáculo do salvador.



3. O povo como plateia: quando a política vira cinema


Há algo profundamente perigoso quando a política passa a funcionar como cinema épico. O cidadão deixa de ser sujeito crítico e vira plateia. Ele não analisa programa de governo. Ele torce. Ele se emociona. Ele compartilha cenas, frases, cortes, símbolos e slogans.


É nesse ponto que a extrema direita opera com muita habilidade. Ela sabe que a política contemporânea não se disputa apenas no campo racional. Disputa-se no afeto, no medo, na raiva e no ressentimento. Cria-se uma sensação de ameaça permanente. Depois, oferece-se um salvador.


Ernst Cassirer, ao estudar o mito político moderno, mostrou que regimes autoritários são capazes de produzir linguagens simbólicas que simplificam a realidade e mobilizam massas por meio de imagens emocionais (Cassirer, 2003). O mito político não precisa ser verdadeiro no sentido factual. Ele precisa ser eficaz no plano psicológico.


O bolsonarismo compreendeu isso. E explorou isso.


O Brasil real é complexo: desigualdade, insegurança, corrupção histórica, precarização do trabalho, crise educacional, concentração de renda, violência urbana, fragilidade institucional. Mas a narrativa bolsonarista reduz tudo a uma dramaturgia simples: de um lado, o povo honesto; de outro, os inimigos da pátria. No centro, o líder que promete restaurar a ordem.


É sedutor. Principalmente para quem está cansado.


Mas é falso.



4. O “eu” político como ficção fabricada


Os anexos sobre Nietzsche ajudam a compreender uma dimensão mais profunda desse fenômeno. Quando Nietzsche critica a ideia de um “eu” estável, transparente e soberano, ele não está apenas fazendo um jogo filosófico. Está desmontando a ilusão de que o sujeito sempre sabe por que pensa o que pensa e por que deseja o que deseja.


Na política digital, essa crítica se torna ainda mais atual. O sujeito acredita estar escolhendo livremente suas opiniões, mas muitas vezes está apenas repetindo padrões reforçados por grupos, algoritmos, influenciadores e bolhas afetivas. A identidade política vira performance.


O bolsonarista típico não é apenas alguém que vota em Bolsonaro. Muitas vezes, é alguém que passa a existir publicamente como bolsonarista. O boné, a bandeira, a frase de efeito, a desconfiança contra a imprensa, o ódio ao Supremo, o desprezo pela universidade, a crença em conspirações e a devoção ao líder compõem um personagem social.


Nietzsche ajuda a perceber que esse “eu político” pode ser uma construção. Não uma essência. Uma fabricação.


E aqui está uma questão decisiva: quem fabrica esse sujeito?


A resposta passa pelas redes sociais, pela guerra cultural, pelos canais de desinformação, pelos grupos de WhatsApp, pelos discursos religiosos instrumentalizados e por uma indústria de ressentimento que lucra com a confusão entre fé, política e identidade.


O sujeito acredita defender a liberdade. Mas muitas vezes apenas obedece a comandos simbólicos. Acredita ser rebelde. Mas repete slogans. Acredita ser crítico. Mas rejeita qualquer fato que ameace o mito.



5. O mito salvador e a moral de rebanho


Nietzsche também criticou a chamada moral de rebanho, isto é, a tendência de indivíduos abrirem mão da própria força crítica para se dissolverem em valores coletivos repetidos de forma automática (Nietzsche, 2009). No bolsonarismo, essa moral de rebanho aparece de forma paradoxal. Seus adeptos se apresentam como livres, corajosos, “despertos”. Mas, em muitos casos, reagem de maneira previsível, padronizada e obediente.


Quando surge uma denúncia, dizem: perseguição.


Quando aparece uma contradição, dizem: narrativa da mídia.


Quando há investigação, dizem: sistema.


Quando há derrota, dizem: fraude.


Quando há escândalo, dizem: armação.


É sempre a mesma estrutura. A realidade nunca desmente o mito; apenas confirma que o mito está sendo atacado.


É assim que se constrói uma blindagem psíquica. O líder não precisa ser inocente; precisa parecer perseguido. Não precisa apresentar soluções; precisa encarnar a revolta. Não precisa convencer pela razão; basta ativar o pertencimento.


Hannah Arendt, ao analisar o totalitarismo e a banalidade do mal, mostrou como indivíduos comuns podem ser absorvidos por engrenagens ideológicas que reduzem a responsabilidade moral e substituem o julgamento pela obediência (Arendt, 1999; 2012). No caso brasileiro, não se trata de igualar mecanicamente fenômenos históricos distintos, mas de perceber uma advertência: quando o pensamento crítico é suspenso, a política se torna perigosa.


Muito perigosa.



6. A família como destino político


Outro elemento central do caso é a transformação de uma família em projeto nacional. O bolsonarismo não é apenas uma corrente ideológica. É também um empreendimento familiar. Jair, Flávio, Eduardo, Carlos e outros personagens orbitam uma estrutura na qual a política se mistura com herança, lealdade, influência e autopreservação.


O caso Dark Horse reforça esse traço. Um filho busca recursos para produzir um filme sobre o pai, que funciona como ativo político da família. A biografia do líder vira patrimônio narrativo. O passado é editado. A imagem é polida. A memória pública é disputada como mercado.


O editorial do Estadão, reproduzido nos anexos, captou bem essa tensão ao afirmar que a direita democrática precisa se libertar da família Bolsonaro se quiser reconstruir um campo conservador responsável. A crítica é relevante porque não parte necessariamente da esquerda, mas de um veículo historicamente associado ao liberalismo conservador brasileiro. O incômodo é evidente: a família Bolsonaro sequestrou uma parte da direita e a amarrou a uma lógica de escândalo permanente.


A direita democrática, se quiser existir, precisa romper com o culto familiar. Precisa substituir idolatria por programa. Precisa trocar ressentimento por responsabilidade institucional. Precisa abandonar a fantasia de que uma família representa o destino moral da nação.


Porque não representa.



7. A estética da perseguição


O bolsonarismo é extremamente eficiente em transformar qualquer denúncia em prova de perseguição. Esse mecanismo é simples e poderoso. Se ninguém denuncia, o mito permanece intacto. Se alguém denuncia, a denúncia confirma que o sistema teme o mito.


É uma estrutura fechada. Quase religiosa.


Nesse tipo de narrativa, a imprensa não informa: conspira. O Judiciário não investiga: persegue. A ciência não corrige: doutrina. A universidade não pesquisa: aparelha. A oposição não discorda: trai a pátria.


O resultado é uma comunidade política incapaz de lidar com fatos desconfortáveis. Tudo passa a ser absorvido pela lógica da guerra. E, numa guerra, o líder não pode ser questionado. Questionar vira traição.


É por isso que o caso Dark Horse é tão simbólico. O filme não seria apenas uma homenagem. Seria uma peça para consolidar a estética da perseguição. Bolsonaro como homem injustiçado. Bolsonaro como mártir. Bolsonaro como “azarão” que venceu as elites. Bolsonaro como salvador incompreendido.


Mas a realidade insiste em atrapalhar o roteiro.


Se o herói popular precisa de dinheiro milionário de banqueiro investigado, há algo errado na história. Se o antissistema depende do sistema financeiro, há algo falso na encenação. Se o mito precisa de produção cinematográfica para sobreviver, talvez o mito já esteja apodrecendo.



8. Ilusão, ressentimento e manipulação popular


A extrema direita bolsonarista trabalha com uma matéria-prima muito sensível: o ressentimento. Ela fala com pessoas reais, que vivem medos reais, dores reais e frustrações reais. O problema é que oferece respostas falsas.


Ao trabalhador precarizado, diz que o inimigo é o comunismo.


Ao pequeno empreendedor sufocado, diz que o problema é a universidade pública.


Ao religioso angustiado, diz que a fé está sob ataque permanente.


Ao cidadão inseguro, diz que direitos humanos protegem criminosos.


Ao eleitor cansado da corrupção, oferece uma família cercada de suspeitas como solução moral.


Essa é a grande fraude simbólica. O povo sofre por problemas estruturais, mas recebe inimigos imaginários ou seletivos. Em vez de discutir renda, tributação, serviços públicos, segurança baseada em inteligência, educação de qualidade e desenvolvimento nacional, a extrema direita oferece espetáculo moral.


É uma política de distração.


Um país desigual precisa de projeto. O bolsonarismo oferece mito.


Um país violento precisa de inteligência pública. O bolsonarismo oferece bravata.


Um país complexo precisa de instituições fortes. O bolsonarismo oferece líder providencial.


Um país democrático precisa de pluralidade. O bolsonarismo oferece culto.



9. O cinema como tentativa de reescrever a memória


Filmes políticos não são neutros. Nunca foram. O cinema pode documentar, criticar, emocionar, manipular, denunciar ou glorificar. No caso de Dark Horse, a questão não é negar o direito de produzir uma obra sobre Jair Bolsonaro. Esse direito existe. A questão é compreender a função política dessa obra em determinado contexto.


Se o filme é produzido para humanizar, heroificar e vitimizar Bolsonaro no momento em que sua família enfrenta desgaste político, então ele participa de uma disputa pela memória. Quer reorganizar o passado para influenciar o futuro.


Memória é poder.


Quem controla a narrativa sobre o passado controla parte das emoções disponíveis no presente. Por isso, regimes e movimentos autoritários sempre se preocuparam tanto com símbolos, monumentos, hinos, filmes, slogans e datas comemorativas. Eles sabem que a política não se sustenta apenas em argumentos. Sustenta-se em imagens.


Jacques Rancière lembra que a política também é disputa sobre o sensível: sobre o que pode ser visto, dito, sentido e reconhecido como legítimo (Rancière, 2009). Nesse sentido, Dark Horse não seria apenas um filme. Seria uma tentativa de organizar o sensível bolsonarista: quem é o herói, quem é o vilão, quem deve ser lembrado, quem deve ser odiado.


E isso tem consequências.



10. A direita diante de seu próprio veneno


O título do editorial do Estadão — “A direita diante de seu veneno” — é politicamente forte porque aponta para uma autointoxicação. Durante anos, parte da direita brasileira aceitou o bolsonarismo como instrumento útil contra o PT. Fez vista grossa para abusos, grosserias, ataques institucionais, teorias conspiratórias e degradação do debate público.


Agora, essa mesma direita percebe que o instrumento escapou do controle.


O bolsonarismo não apenas ocupou a direita. Ele a rebaixou. Transformou conservadorismo em gritaria. Liberalismo em oportunismo. Patriotismo em estética de rede social. Moralidade pública em seletividade tribal.


O caso Dark Horse aprofunda esse dilema. A direita brasileira precisa decidir se quer ser campo político ou torcida familiar. Se quer disputar projeto de país ou defender indefinidamente um clã. Se quer democracia constitucional ou messianismo eleitoral.


Não há maturidade política possível enquanto a direita democrática continuar orbitando o bolsonarismo como se fosse refém de seu próprio medo do lulismo. O antipetismo pode explicar alianças. Mas não pode justificar submissão moral.



11. O mito contra a democracia


Toda democracia saudável exige desconfiança crítica em relação ao poder. Nenhum líder deve ser tratado como salvador. Nenhuma família deve ser confundida com nação. Nenhum grupo político deve estar acima da crítica.


O mito salvador é antidemocrático porque infantiliza o povo. Ele diz: “não pense demais; confie no líder”. Ele substitui cidadania por devoção. Substitui fiscalização por fé. Substitui responsabilidade por obediência emocional.


Paulo Freire defendia que a educação libertadora passa pela consciência crítica, isto é, pela capacidade de ler o mundo, não apenas repetir palavras (Freire, 2019). Aplicado à política, isso significa que o cidadão precisa perguntar: quem ganha com essa narrativa? Quem financia essa imagem? Quem se beneficia da minha raiva? Quem lucra quando eu deixo de pensar e passo apenas a pertencer?


Essas perguntas são fundamentais.


Porque a extrema direita bolsonarista não quer apenas votos. Quer adesão subjetiva. Quer produzir um tipo de eleitor que não muda de opinião diante dos fatos, porque sua opinião já virou identidade. E identidade, quando se fecha sobre si mesma, torna-se impermeável à razão.



Conclusão — quando o mito precisa de banqueiro


O caso Dark Horse é uma síntese poderosa do bolsonarismo. Nele aparecem o clã familiar, o culto ao líder, o dinheiro privado, a tentativa de reescrever a memória, a estética da perseguição, a contradição antissistema e a fabricação do mito salvador.


A imagem é quase perfeita: um filho de Bolsonaro buscando milhões junto a um banqueiro investigado para financiar um filme sobre o pai. Não é apenas um episódio embaraçoso. É uma alegoria do próprio movimento. O bolsonarismo diz falar em nome do povo, mas circula entre elites. Diz combater o sistema, mas depende dele. Diz defender a verdade, mas investe em propaganda. Diz proteger a moral, mas relativiza escândalos quando envolvem os seus.


O mito salvador sempre cobra um preço. Cobra da razão pública. Cobra das instituições. Cobra da direita democrática. Cobra do povo, que passa a acreditar que seus problemas serão resolvidos não por políticas públicas, organização social, educação, trabalho, justiça fiscal e democracia, mas por um personagem providencial.


Essa é a ilusão mais perigosa.


O Brasil não precisa de um filme para canonizar líderes. Precisa de cidadãos capazes de pensar. Precisa de uma direita que não seja refém de uma família. Precisa de uma esquerda que também aceite crítica. Precisa de imprensa livre, Judiciário responsável, partidos programáticos, educação política e compromisso democrático.


O Dark Horse talvez pretendesse contar a história de um herói improvável. Mas, ao redor dele, revelou-se outra história: a de uma máquina política que tenta transformar ressentimento em fé, propaganda em memória e dinheiro privado em salvação popular.


No fim, a pergunta não é apenas quem financiaria o filme. A pergunta é mais profunda: quantas ilusões ainda serão vendidas ao povo brasileiro em nome de um mito que, para continuar parecendo popular, precisa ser produzido, financiado e roteirizado?


Essa é a questão. E ela não pode ser tratada como detalhe.



Referências


ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.


ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


BARTHES, Roland. Mitologias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.


CASSIRER, Ernst. O mito do Estado. São Paulo: Códex, 2003.


DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.


FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 68. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.


NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.


RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2009.


THE ASSOCIATED PRESS. Brazil presidential hopeful Flávio Bolsonaro denies wrongdoing after asking banker for millions. 2026. Disponível em: AP News. Acesso em: 17 maio 2026.


THE GUARDIAN. Tape shows Bolsonaro son asking jailed banker for $26.8m to fund film on father. 2026. Disponível em: The Guardian. Acesso em: 17 maio 2026.


VEJA. Flávio Bolsonaro confirma que pediu dinheiro a Vorcaro: “patrocínio privado para filme privado”. 2026. Disponível em: Veja. Acesso em: 17 maio 2026.

Bolsonarismo: ressentimento, fé, ordem e a política como guerra moral

Uma leitura crítica sobre o movimento que ultrapassou Jair Bolsonaro, reorganizou afetos conservadores, capturou medos sociais e transformou parte da democracia brasileira em campo permanente de batalha simbólica.


Lide

O bolsonarismo não nasceu do nada. Ele emergiu de fraturas antigas da sociedade brasileira: medo da mudança social, ressentimento contra instituições, antipetismo, insegurança econômica, conservadorismo religioso, nostalgia autoritária e rejeição às mediações tradicionais da política. Reduzi-lo apenas a Jair Bolsonaro é um erro analítico. Bolsonaro foi o rosto, o catalisador e o intérprete de uma energia social que já circulava no subterrâneo do país. O problema maior é compreender por que essa energia encontrou tanta força — e por que continua viva mesmo depois das derrotas eleitorais, judiciais e políticas de seu principal líder.

1. Introdução: o bolsonarismo como sintoma de uma sociedade fraturada

Falar sobre bolsonarismo exige cuidado. Não porque o tema seja intocável, mas porque ele costuma ser tratado com pressa. De um lado, há quem reduza o fenômeno a fanatismo puro. De outro, há quem o apresente como simples patriotismo popular. Nenhuma dessas leituras dá conta da complexidade do problema.

O bolsonarismo é, ao mesmo tempo, movimento político, linguagem moral, identidade coletiva, cultura digital, reação conservadora e forma de pertencimento. Ele organiza medos, ressentimentos e esperanças. Oferece explicações simples para problemas complexos. Cria inimigos nítidos. Promete restaurar uma ordem perdida. E, sobretudo, oferece a muitos sujeitos uma sensação de reconhecimento: “agora alguém fala por mim”.

O dado do Datafolha sobre o chamado núcleo fiel ajuda a dimensionar o fenômeno. Em 2020, a pesquisa identificou um grupo de aproximadamente 15% da população adulta que havia votado em Bolsonaro, avaliava seu governo como ótimo ou bom e dizia sempre confiar no que ele afirmava. Esse grupo foi chamado de base mais fiel ou “bolsonarista raiz”  . A reportagem da BBC News Brasil também trabalhou essa distinção entre eleitores ocasionais de Bolsonaro e o núcleo ideológico mais duro do movimento  .

Essa diferença é fundamental. Nem todo eleitor de Bolsonaro é bolsonarista no sentido forte. Há voto econômico, voto antipetista, voto religioso, voto por segurança pública, voto de rejeição ao sistema, voto pragmático e voto ideológico. O bolsonarismo, porém, nasce quando essas motivações deixam de ser apenas escolhas eleitorais e se convertem em identidade política rígida.

A tese central deste artigo é a seguinte: o bolsonarismo é um fenômeno político autônomo, maior que Jair Bolsonaro, sustentado por uma gramática do ressentimento, por uma reação cultural conservadora, por um imaginário religioso-moral e por uma nova forma de comunicação política mediada pelas redes digitais.

2. O “cardápio de valores”: como o bolsonarismo agregou grupos diferentes

Uma das características mais fortes do bolsonarismo é sua capacidade de funcionar como um “cardápio ideológico”. O apoiador não precisa aderir a todos os elementos do movimento. Pode entrar pela pauta da segurança pública, pela rejeição ao PT, pela defesa da família tradicional, pelo liberalismo econômico, pelo antipolítica, pelo anticomunismo, pela defesa das armas, pela religião ou pela crítica ao Supremo Tribunal Federal.

Essa elasticidade explica parte de sua força. O bolsonarismo não é uma doutrina fechada como os partidos ideológicos clássicos. Ele é uma coalizão afetiva e moral. Cada grupo encontra nele um espelho parcial de suas próprias angústias.

O antipetismo foi um dos pilares mais importantes. Ele não surgiu apenas dos escândalos de corrupção revelados no Mensalão e na Lava Jato. Também se alimentou de um incômodo mais profundo com políticas de inclusão social, ampliação de direitos e ascensão simbólica de grupos historicamente subalternizados. Parte da classe média e de setores populares passou a interpretar políticas redistributivas não como justiça social, mas como privilégio indevido concedido a “outros”.

Nesse ponto, a análise de Wendy Brown é útil. Para a autora, a racionalidade neoliberal corroeu a ideia de sociedade e substituiu a linguagem do bem comum por uma moralidade de mercado combinada com valores familiares tradicionais. Brown argumenta que a política antidemocrática contemporânea une desregulação econômica, ataque ao social e defesa moralista da tradição  . No caso brasileiro, essa combinação aparece quando o Estado é visto como inimigo, exceto quando atua para punir, vigiar ou proteger interesses considerados legítimos por determinado grupo.

A pauta da segurança pública também ocupou lugar central. O discurso de que “direitos humanos defendem bandidos” simplifica uma questão complexa e perigosa: transforma garantias constitucionais em obstáculo moral. A consequência é grave. Quando uma sociedade passa a acreditar que determinados grupos não merecem direitos, ela normaliza a exceção. E a exceção, historicamente, nunca fica limitada ao inimigo inicial.

Outro eixo decisivo é o nacionalismo. Mas não se trata apenas de amor ao país. Trata-se de um patriotismo performático, visual, litúrgico: bandeira, hino, verde-amarelo, culto às Forças Armadas, nostalgia da ditadura e promessa de purificação moral da nação. O país real, desigual, contraditório e plural, é substituído por uma pátria imaginária: homogênea, cristã, ordeira, hierárquica e obediente.

É nesse ponto que o bolsonarismo se aproxima daquilo que Cas Mudde chama de direita radical populista: uma combinação entre populismo, autoritarismo e nacionalismo excludente. Mudde identifica essa família política pela construção de uma oposição moral entre “povo puro” e “elite corrupta”, associada à defesa de ordem rígida e de uma comunidade nacional imaginada como ameaçada por inimigos internos ou externos  .

3. Ressentimento: a emoção política que organiza o movimento

O ressentimento não é simples inveja. É uma forma de sofrimento moral. É a sensação de que algo foi tomado, de que a ordem justa foi rompida, de que “eles” receberam demais enquanto “nós” fomos humilhados, esquecidos ou traídos.

No bolsonarismo, esse ressentimento aparece em várias camadas. Há ressentimento contra a política tradicional. Contra a imprensa. Contra o Supremo. Contra professores. Contra artistas. Contra universidades. Contra movimentos sociais. Contra feministas. Contra ambientalistas. Contra minorias que passaram a reivindicar voz pública. Contra qualquer grupo percebido como beneficiário de uma mudança cultural considerada ilegítima.

O ressentimento de direita costuma se dirigir menos contra a concentração econômica e mais contra mudanças culturais, instituições intermediárias e supostos privilégios simbólicos concedidos a grupos minoritários. Já o ressentimento de esquerda, em geral, se orienta contra elites econômicas, desigualdade social e exploração. Essa diferença não significa que um seja automaticamente legítimo e outro ilegítimo; significa apenas que eles constroem inimigos diferentes.

Rosana Pinheiro-Machado, em Amanhã vai ser maior, interpreta a crise brasileira recente como resultado de transformações profundas abertas desde as Jornadas de Junho de 2013, momento em que a insatisfação social se tornou explosiva, difusa e difícil de traduzir em projetos institucionais consistentes  . Essa leitura é importante porque evita uma explicação simplista: o bolsonarismo não surgiu apenas da manipulação digital; ele se alimentou de uma crise real de representação.

O problema é que o ressentimento, quando não encontra elaboração política democrática, pode se converter em ódio organizado. E o ódio organizado precisa de inimigos permanentes. Por isso o bolsonarismo não sobrevive apenas de propostas. Ele sobrevive de conflito. Precisa de um “sistema” contra o qual lutar. Precisa de um inimigo para acusar. Precisa da sensação de cerco. Sem isso, perde energia.

4. A base evangélica e a política da exaltação dos humilhados

A relação entre bolsonarismo e evangélicos não deve ser tratada de modo grosseiro. O mundo evangélico brasileiro é plural. Existem evangélicos conservadores, progressistas, pentecostais, neopentecostais, históricos, periféricos, de classe média, lideranças midiáticas e comunidades locais profundamente comprometidas com assistência social. Reduzir tudo a manipulação seria erro.

Mas é inegável que o bolsonarismo encontrou em setores evangélicos uma base estratégica. O movimento ofereceu reconhecimento político, linguagem religiosa e promessa de defesa moral. Muitos fiéis passaram a se ver como grupo sitiado por uma cultura secular, progressista e hostil à sua fé.

A frase bíblica “os humilhados serão exaltados” ganhou sentido político. Ela deixou de ser apenas promessa espiritual e passou a funcionar como narrativa de ascensão pública. Grupos que se sentiam marginalizados culturalmente passaram a ocupar o centro do debate nacional. O bolsonarismo ofereceu a esses grupos não apenas representação, mas revanche simbólica.

Aqui aparece uma tensão delicada. A fé pode ser força de solidariedade, cuidado e justiça. Mas, quando capturada pela lógica da guerra cultural, pode ser convertida em instrumento de hostilidade. A política deixa de ser debate sobre o comum e passa a ser batalha entre salvos e condenados, povo de Deus e inimigos da nação, verdadeiros patriotas e traidores.

Essa fusão entre religião, moralidade e política é uma das marcas da nova direita global. Wendy Brown observa que a ascensão antidemocrática contemporânea combina neoliberalismo econômico com moralismo tradicional, formando uma política que enfraquece a igualdade democrática enquanto fortalece hierarquias familiares, religiosas e nacionais  .

No Brasil, isso aparece de forma aguda: defesa do mercado, ataque ao Estado social, militarização simbólica da política e moralização religiosa dos costumes. É uma mistura poderosa porque fala ao bolso, ao medo e à alma.

5. A gênese: de parlamentar corporativo a líder da guerra cultural

Jair Bolsonaro não começou como líder de massas. Durante muitos anos, foi um deputado de atuação corporativa, ligado sobretudo a pautas militares, salários, disciplina e crítica aos direitos humanos. Sua transformação em fenômeno nacional ocorreu quando ele passou a ocupar o terreno da guerra cultural.

O ponto de inflexão ocorreu no início da década de 2010, especialmente nas controvérsias sobre educação sexual, gênero e o chamado “kit gay”. A partir dali, Bolsonaro deixou de ser apenas um representante de nichos militares e passou a vocalizar medos conservadores mais amplos. Ele percebeu que havia uma audiência disposta a ouvir alguém que falasse sem filtros contra feminismo, esquerda, direitos LGBTQIA+, políticas educacionais progressistas e imprensa.

As Jornadas de Junho de 2013 abriram uma fenda na política brasileira. A insatisfação começou contra tarifas e serviços públicos, mas rapidamente se transformou em crise geral de representação. A energia das ruas não tinha direção única. Parte dela foi para a crítica democrática do sistema; outra parte foi capturada por discursos antipolíticos e autoritários.

Entre 2014 e 2018, a crise econômica, a Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e o desgaste da Nova República criaram uma tempestade perfeita. O bolsonarismo entrou nesse cenário como promessa de limpeza, ordem e punição. Não oferecia um programa sofisticado. Oferecia uma emoção clara: basta.

Essa é uma chave weberiana. Max Weber define a liderança carismática como aquela sustentada pela crença extraordinária nas qualidades de um líder. O carisma não depende apenas do líder; depende da disposição dos seguidores em reconhecê-lo como portador de uma missão. No bolsonarismo, Bolsonaro foi construído como líder autêntico, incorruptível, perseguido e escolhido para enfrentar o sistema.

Essa imagem resistiu mesmo diante de contradições. Quanto mais era criticado, mais seu núcleo fiel interpretava as críticas como prova de perseguição. Quanto mais atacava instituições, mais parecia corajoso aos olhos de seus seguidores. Quanto mais simplificava problemas, mais parecia “falar a verdade”.

6. Fascismo, neofascismo ou novidade autoritária?

Uma das discussões mais difíceis é classificar o bolsonarismo. Chamá-lo de fascismo pode iluminar certos aspectos, mas também pode obscurecer outros.

Há traços que aproximam o bolsonarismo de tradições autoritárias: culto ao líder, militarismo simbólico, ultranacionalismo, produção de inimigos internos, desprezo por minorias, ataque à imprensa, nostalgia ditatorial e disposição para tensionar instituições. Esses elementos justificam comparações com experiências fascistas e neofascistas.

Ao mesmo tempo, o historiador Emilio Gentile alerta para o risco de usar “fascismo” como rótulo genérico para todo autoritarismo contemporâneo. Para Gentile, o fascismo histórico possuía características específicas: partido miliciano, projeto totalitário, destruição aberta do Estado liberal, militarização integral da política e ambição de criar uma nova civilização política. Ele argumenta que o perigo atual pode estar menos na repetição literal do fascismo e mais na transformação interna da democracia em repressão com apoio popular  .

Essa advertência é importante. O bolsonarismo talvez seja mais bem compreendido como um fenômeno híbrido: possui elementos neofascistas, traços populistas, linguagem religiosa, moralismo tradicionalista, neoliberalismo seletivo e práticas de erosão democrática. Ele não precisa repetir o fascismo histórico para ser perigoso. Sua novidade está justamente em operar dentro das instituições enquanto as deslegitima por dentro.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt chamam atenção para esse padrão contemporâneo: democracias raramente morrem hoje por golpes clássicos; morrem por erosão gradual, por líderes eleitos que atacam árbitros institucionais, deslegitimam adversários, toleram violência política e corroem normas democráticas. Estudos sobre erosão democrática no Brasil associaram Bolsonaro a esse tipo de liderança autoritária competitiva  .

A imagem clássica do golpe com tanques na rua já não basta. O autoritarismo contemporâneo pode usar voto, redes sociais, judicialização estratégica, desinformação, pressão sobre instituições e mobilização permanente da base. Não é menos perigoso por ser mais difuso. Às vezes, é mais perigoso justamente por parecer democrático.

7. Guerra cultural: quando a política vira batalha entre bem e mal

O bolsonarismo prospera porque transforma divergência política em guerra moral. O adversário deixa de ser alguém com outro projeto de país e passa a ser inimigo da família, da fé, da liberdade, da pátria ou da infância.

Esse mecanismo é poderoso. Ele impede a negociação. Quem negocia com o mal? Quem dialoga com traidores? Quem respeita instituições dominadas pelo inimigo? A democracia depende da legitimidade do adversário. A guerra cultural destrói essa legitimidade.

A influência de Olavo de Carvalho nesse processo foi relevante. Seu pensamento ajudou a difundir a ideia de que a política brasileira era dominada por uma hegemonia cultural de esquerda, infiltrada em universidades, imprensa, artes, escolas e instituições. Essa visão transformou a disputa política em cruzada civilizacional. Não se tratava mais de administrar políticas públicas, mas de salvar o país de uma decadência espiritual.

Essa lógica também explica o ataque à ciência, à imprensa e à universidade. Instituições produtoras de conhecimento passam a ser vistas como aparelhos de doutrinação. O especialista vira suspeito. O jornalista vira inimigo. O professor vira militante. O pesquisador vira agente ideológico.

O resultado é uma sociedade que desconfia justamente das mediações que permitem algum grau de racionalidade pública. Quando tudo vira narrativa, a verdade perde força. E quando a verdade perde força, vence quem grita mais alto, emociona melhor ou mobiliza mais medo.

8. O mimetismo político: bolsonarismo e lulismo em espelho?

A comparação entre bolsonarismo e lulismo exige cautela. Eles não são equivalentes. Têm matrizes históricas, sociais e ideológicas diferentes. O lulismo nasceu associado à inclusão social, ao sindicalismo, à conciliação de classes e à expansão do consumo popular. O bolsonarismo nasceu associado ao antipetismo, ao conservadorismo moral, à militarização simbólica e à reação contra mudanças culturais.

Mas isso não impede observar simetrias funcionais. Idelber Avelar argumenta que o bolsonarismo extraiu do lulismo certos marcos retóricos e os preencheu com conteúdo de extrema direita, reinstalando-os em um sistema discursivo baseado no antagonismo permanente  .

Entre essas simetrias estão a personalização extrema da política, a retórica de perseguição, o ataque à imprensa, a construção de um povo autêntico contra elites hostis e a dificuldade de parte dos seguidores em reconhecer erros do líder. O líder deixa de ser representante e passa a ser encarnação simbólica de uma causa.

Esse processo é perigoso para qualquer campo político. Quando a política se organiza ao redor de figuras infalíveis, instituições perdem centralidade. Partidos viram acessórios. Programas viram detalhes. A crítica interna vira traição. A lealdade pessoal substitui a deliberação racional.

A democracia precisa de lideranças, mas não suporta messianismos permanentes. Líderes democráticos devem ser criticáveis, substituíveis e limitados por regras. Quando se tornam mitos, deixam de pertencer ao campo normal da política e passam a operar no campo da fé.

9. Redes sociais, desintermediação e a fábrica de certezas

O bolsonarismo é inseparável das redes digitais. Ele cresceu em uma época em que Facebook, WhatsApp, YouTube, Telegram e outras plataformas alteraram profundamente a circulação de informação. A política deixou de depender apenas de partidos, jornais e televisão. Passou a circular em grupos fechados, vídeos curtos, memes, lives e correntes emocionais.

Essa desintermediação teve duplo efeito. Por um lado, ampliou vozes antes excluídas. Por outro, enfraqueceu filtros mínimos de verificação. O cidadão passou a receber “notícias” diretamente de pessoas em quem confia afetivamente: parentes, pastores, amigos, influenciadores. A confiança deixou de depender da qualidade da fonte e passou a depender da identidade do mensageiro.

O bolsonarismo soube explorar isso com eficiência. Sua comunicação é simples, emocional, repetitiva e combativa. Ela não busca convencer pela complexidade; busca produzir pertencimento. O objetivo não é apenas informar, mas alinhar afetos: indignação, medo, orgulho, raiva, esperança e desprezo.

Nesse ambiente, teorias conspiratórias encontram terreno fértil. Elas oferecem explicações totais para frustrações reais. Nada é acaso. Tudo é plano. A derrota eleitoral, a decisão judicial, a reportagem crítica, a pesquisa científica, o dado econômico: tudo pode ser reinterpretado como parte de uma conspiração do sistema.

Essa lógica é resistente à refutação. Quando uma prova contradiz a crença, a prova é absorvida como evidência da conspiração. Por isso o debate racional se torna tão difícil. Não se discute apenas informação; discute-se identidade.

10. O bolsonarismo depois de Bolsonaro

Uma das perguntas centrais é: o bolsonarismo sobreviverá a Bolsonaro? A resposta mais provável é sim, ainda que em formas diferentes.

Movimentos políticos personalistas dependem muito do líder, mas não desaparecem automaticamente com sua derrota. Eles deixam linguagem, redes, símbolos, lideranças secundárias, hábitos discursivos e comunidades de afeto. O bolsonarismo já formou parlamentares, influenciadores, canais de comunicação, grupos religiosos, empresários políticos e militantes digitais.

Além disso, as condições sociais que o alimentaram não desapareceram. A insegurança econômica continua. A crise de representação continua. A desconfiança nas instituições continua. A guerra cultural continua. A precarização do trabalho continua. A busca por pertencimento continua.

O bolsonarismo, portanto, pode se reorganizar sob outros nomes, outros líderes e outras plataformas. Pode se moderar em alguns momentos e radicalizar em outros. Pode disputar eleições, pressionar instituições, influenciar igrejas, mobilizar redes e pautar o debate público mesmo fora do Executivo.

A questão decisiva não é apenas o destino jurídico ou eleitoral de Jair Bolsonaro. É a persistência de uma cultura política que transforma adversários em inimigos, instituições em obstáculos e democracia em instrumento descartável quando o resultado não agrada.

11. Conclusão: o que o bolsonarismo revela sobre o Brasil

O bolsonarismo revela um Brasil ferido. Um país onde milhões se sentem traídos, humilhados, inseguros, deslocados ou ameaçados por mudanças sociais que não compreendem plenamente. Revela também uma democracia institucionalmente jovem, socialmente desigual e emocionalmente exausta.

Não se enfrenta esse fenômeno apenas com indignação. A indignação pode ser moralmente compreensível, mas é politicamente insuficiente. É preciso compreender as causas materiais e simbólicas que alimentam o ressentimento. É preciso reconstruir confiança pública. É preciso defender instituições sem transformá-las em castelos distantes. É preciso combater desinformação sem desprezar quem caiu nela. É preciso criticar lideranças autoritárias sem tratar todos os seus eleitores como caricaturas.

O bolsonarismo é perigoso não apenas pelo que defende, mas pelo que revela: a fragilidade de uma sociedade que não conseguiu transformar democracia em experiência concreta de dignidade para todos. Enquanto a política democrática não oferecer pertencimento, segurança, reconhecimento e futuro, movimentos autoritários continuarão oferecendo versões simplificadas desses desejos.

O desafio, portanto, não é apenas derrotar um líder. É reconstruir o pacto democrático em uma sociedade cansada, desigual e capturada por afetos de guerra. Sem isso, o bolsonarismo pode mudar de nome, de rosto e de partido — mas continuará falando ao coração ferido de um país que ainda não aprendeu a conversar consigo mesmo.

Referências

AVELAR, Idelber. A rebelião do eles: léxico, morfologia e sintaxe do fascismo bolsonarista. Estado da Arte, 2020.

BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente. São Paulo: Editora Politeia, 2019.

DATAFOLHA. Adeptos fiéis a Bolsonaro são 15% da população adulta, indica Datafolha. Folha de S.Paulo, São Paulo, 2 jul. 2020.

GENTILE, Emilio. Quem é fascista. Lisboa: Edições 70, 2019.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

MUDDE, Cas. Populist radical right parties in Europe. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

PINHEIRO-MACHADO, Rosana. Amanhã vai ser maior: o que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual. São Paulo: Planeta, 2019.

WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.