quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O “crime que não se paga” e a conta que sobra no balcão do posto de saúde - Pandemia, “kit-covid”, atraso de vacina e a engenharia brasileira da impunidade — sem mito, sem frase pronta

 Na segunda-feira, a recepcionista da UBS do seu bairro olha o sistema travado, pede para você esperar “só mais um pouquinho” e, no meio do caos, comenta que o tio dela morreu em 2021 depois de rodar três hospitais sem leito. Na mesma fila, um motorista de aplicativo solta: “mas isso foi inevitável”. E alguém responde: “inevitável nada, venderam remédio errado e demoraram vacina”. O Brasil virou esse tipo de conversa: todo mundo tem uma história, quase ninguém tem paciência para documento, e a política se aproveita disso.


Introdução


Quem ganhou com a confusão? Não é pergunta filosófica. É prática. Quem ganhou quando uma parcela enorme de brasileiros foi empurrada para um “atalho” terapêutico que não entregava o que prometia — enquanto o básico (vacina, coordenação, mensagem clara) andava a passos lentos?


Este artigo tem um objetivo simples: separar o que é verificável do que é opinião e, a partir daí, defender uma posição sem fingir neutralidade. A posição é esta: a condução federal da pandemia no Brasil não foi só “erro” ou “falta de informação”; houve padrão político de insistência pública em soluções sem base e de erosão de medidas sanitárias, e isso gerou dano mensurável e uma impunidade funcional — aquela em que o país registra o estrago, mas ninguém “paga” proporcionalmente por ele no campo da responsabilidade pública.


A metodologia usada aqui é jornalístico-analítica, com três movimentos. Primeiro, checagem de fatos com fontes primárias e institucionais: Relatório Final da CPI da Pandemia, publicações do Senado, documentos do TCU, estatísticas do IBGE e diretrizes científicas internacionais (Brasil, 2021a; Brasil, 2021b; Brasil, 2022; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2023; Organização Mundial da Saúde, 2022). Segundo, contextualização brasileira: como essas decisões viram rotina em escola, trabalho, comércio, transporte e serviços públicos. Terceiro, argumento crítico: onde termina a divergência política legítima e onde começa a irresponsabilidade de Estado.


E sim: tem crítica possível a essa posição. Ela vai aparecer e vai ser respondida. Só não vai aparecer “tudo é complexo” como desculpa para não dizer nada.



O que é fato e o que é interpretação (sem enrolação)


Algumas coisas são objetivas e documentadas.


Fatos verificáveis:


  • A CPI da Pandemia aprovou um Relatório Final que reconstrói ações e omissões federais e propõe enquadramentos e encaminhamentos (Brasil, 2021a).
  • O Senado registrou, em materiais da CPI, que a Pfizer fez ofertas ao Brasil em agosto de 2020 e que houve demora na negociação; a vacinação começou em janeiro de 2021 (Brasil, 2021b).
  • O TCU registrou que foram distribuídas 17,5 milhões de unidades de medicamentos associados ao grupo “IOT” em 2021 e 4,7 milhões em 2020, totalizando mais de 22 milhões durante a emergência sanitária (Brasil, 2022).
  • Diretriz “viva” da OMS recomenda fortemente contra o uso de hidroxicloroquina/cloroquina no tratamento de Covid-19, independentemente da gravidade, e revisões sistemáticas não encontraram evidência para sustentar ivermectina como prevenção/tratamento fora de ensaios bem desenhados (Organização Mundial da Saúde, 2022; Cochrane, 2022).
  • O IBGE registrou que 2021 teve recorde de óbitos na série histórica, com cerca de 1,8 milhão de mortes, aumento de 18% em relação a 2020 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2023).


Interpretações (que precisam ser defendidas, não “jogadas”):


  • “Foi deliberado” vs. “foi incompetência”.
  • “Isso causou X mortes” (exige modelagem contrafactual; não é conta de padaria).
  • “Crime” no sentido penal (exige devido processo e decisão judicial; CPI não é sentença).


Feita essa triagem, dá para discutir como adulto.



A cena brasileira real: onde a política vira risco de vida


A pandemia não foi vivida em gráfico. Foi vivida em corredor de hospital, grupo de WhatsApp de família, balcão de farmácia e sala de professor.


Pensa no professor de escola estadual em Goiânia, em 2021, com sala cheia e ventilador quebrado, ouvindo coordenador dizer “não pode faltar porque vai dar problema no sistema”. Ele volta para casa de ônibus, passa no mercado, e no caminho recebe áudio no WhatsApp: “toma ivermectina e tá tudo certo, isso é só uma gripezinha forte”. Não é “a sociedade” fazendo debate. É gente real tentando reduzir medo com atalho.


Pensa na dona de lanchonete em Campinas, com aluguel atrasado e duas funcionárias em licença, vendo a clientela sumir. Ela não tem tempo para artigo científico. Ela quer ouvir alguém dizer: “faz isso aqui e amanhã você abre”. O discurso do “tratamento precoce” cai como música: vende controle num mundo sem controle.


Pensa no agente comunitário de saúde em Recife, batendo de porta em porta, tentando convencer idoso a usar máscara, enquanto o rádio do mototáxi toca político tirando sarro de medida sanitária. A mensagem pública vira sabotagem do trabalho básico.


Essa é a ponte entre Brasília e a esquina. Quando autoridade fala, o Brasil profundo escuta — nem que seja para “rir e compartilhar”.



“Kit-covid”: o atalho que virou política informal (e custo formal)


Vamos direto ao ponto: a ciência não “debatia” ivermectina e hidroxicloroquina como solução mágica em 2021. O mundo já tinha evidência acumulada suficiente para dizer que não era caminho.


A diretriz da OMS recomenda fortemente contra o uso de hidroxicloroquina ou cloroquina no tratamento de Covid-19, para qualquer gravidade (Organização Mundial da Saúde, 2022). O ensaio RECOVERY publicado no New England Journal of Medicine encontrou que, em pacientes hospitalizados, hidroxicloroquina não reduziu mortalidade em 28 dias comparada ao cuidado usual (RECOVERY Collaborative Group, 2020). E a revisão da Cochrane concluiu não haver evidência que sustente ivermectina para tratar ou prevenir Covid-19 (Cochrane, 2022).


“Ah, mas no Brasil teve médico que receitou e disse que funcionou.” Claro que teve. Em qualquer crise, você vai achar relato. O problema é que relato não é evidência suficiente para política pública. Relato é o tipo de coisa que engana fácil porque mistura coincidência com cura: a maioria das pessoas melhora mesmo sem remédio específico, e isso cria a ilusão do “foi o comprimido”.


Agora vem a parte que incomoda porque sai do campo da conversa de bar e entra no papel timbrado: o TCU registrou distribuição de mais de 22 milhões de unidades de medicamentos associados ao grupo “IOT” durante a emergência sanitária (Brasil, 2022). Isso não é “um médico receitou”. Isso é escala.


O que isso significa na prática? Significa caminhão, licitação, estoque, logística, nota fiscal, servidor trabalhando para repor medicamento que não resolve Covid. Significa que dinheiro e energia administrativa foram empurrados para uma direção que a evidência não sustentava. E, numa pandemia, o custo disso não é abstrato: é tempo perdido, comunicação confundida e falsa sensação de proteção.


Você consegue visualizar a cena? A atendente da farmácia popular ou de uma farmácia de bairro vendo gente saindo com sacolinha e dizendo “agora tô protegido”. E, por se sentir protegido, o sujeito vai trabalhar doente, visita a mãe, entra no ônibus lotado. Não porque é “mau caráter”. Porque alguém vendeu uma narrativa de segurança.



Vacina: quando o relógio corre e o Estado anda devagar


A CPI registrou, por meio de depoimentos e materiais do Senado, que a Pfizer fez ofertas ao Brasil em agosto de 2020, prevendo entrega de doses ainda naquele ano, e que houve demora na negociação; a vacinação começou em janeiro de 2021 (Brasil, 2021b). Esse intervalo — agosto de 2020 até janeiro de 2021 — não é detalhe. Em pandemia, meses viram cemitério.


Aqui é importante não cair na simplificação preguiçosa: comprar vacina não é apertar botão. Tem contrato, cláusula, logística, aprovação, distribuição. Sim. Só que o Estado brasileiro compra coisas complexas o tempo todo. O problema não é “ser difícil”. O problema é: o que foi priorizado enquanto isso?


Se o governo tivesse feito uma comunicação pública do tipo: “não existe remédio milagroso, precisamos de vacina e medidas de contenção; vamos negociar e preparar logística”, o cenário de percepção social seria outro. Mas o que cresceu, em muitos lugares, foi o oposto: disputa política em cima de máscara, desprezo por isolamento e estímulo simbólico ao atalho.


E isso encaixa num ponto mais profundo: quando o Estado não lidera com clareza, a liderança é ocupada por quem grita mais no WhatsApp e no Telegram. E aí o Brasil vira uma feira de áudio.



Mortes e normalização: o número vira fundo de tela


O IBGE registrou que 2021 teve cerca de 1,8 milhão de mortes, alta de 18% em relação a 2020, recorde na série histórica (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2023). Isso é monstruoso — e, ao mesmo tempo, virou rotina. O Brasil tem um talento triste: transformar tragédia em paisagem.


Como isso acontece no cotidiano? Assim:


  • No trabalho: o gerente do atacadão “pede” para o funcionário com febre aparecer porque “tá faltando gente”.
  • Na escola: o estudante perde avó e, na semana seguinte, tem prova porque “o calendário não pode parar”.
  • No transporte: o cobrador do ônibus ou o motorista de van escolar continua rodando porque se parar não paga a prestação.
  • Na pequena empresa: o dono do mercadinho decide abrir mesmo com tosse, porque “não dá para fechar de novo”.


Quando esse tipo de vida acontece, o discurso do “kit” entra como anestésico social. Ele permite que o país finja controle sem mudar estrutura. É barato do ponto de vista político: você entrega uma história fácil e se livra do custo de coordenar medidas duras.



A tese dura: não foi só confusão; houve utilidade política na confusão


Aqui entra a parte que incomoda quem prefere o conforto do “todo mundo errou”.


A confusão foi útil. Ela foi útil porque:


  • deslocou o debate de “fazer o básico” para “brigar por símbolo”;
  • transformou ciência em torcida;
  • e permitiu que o governo se posicionasse como “contra o pânico” e “contra o fechamento”, enquanto empurrava o risco para o colo de quem não podia escolher.


O motorista de aplicativo não tinha como “fazer home office”. A atendente do caixa não tinha como “se isolar”. O agente comunitário não tinha como “sumir”. Quem podia reduzir risco era quem tinha salário fixo e casa confortável. Então, quando a autoridade relativiza medidas e vende atalho, ela está fazendo uma escolha distributiva: quem vai se expor mais e quem vai se expor menos.


Isso não precisa de teoria sofisticada. Basta olhar o ônibus lotado às 6h30 e comparar com reunião por Zoom.



“Mas e a liberdade? Fechar comércio quebra o pobre” — a crítica e a resposta


Crítica comum: “não dava para trancar o país; a economia quebra e mata também; o governo tentou manter as coisas funcionando”.


Resposta: ninguém sério defende “trancar” sem política compensatória. O ponto não é esse. O ponto é: manter atividade funcionando exige coordenação e honestidade comunicacional, não fantasia terapêutica.


Se a preocupação era o pequeno comércio, por que o caminho foi “vender kit” e brigar com máscara, em vez de organizar comunicação clara e estratégia nacional de proteção no trabalho? O dono da lanchonete não precisa de discurso ideológico; ele precisa de regra simples, previsível e apoio mínimo para não falir.


E tem mais: a falsa segurança do “tratamento precoce” pode ter piorado a economia também. Porque quando a população acha que está “protegida”, relaxa, contagia mais, entope hospital, aumenta medo e prolonga crise. Aí o comércio apanha por mais tempo. Ou seja: o atalho não foi só anti-científico; foi economicamente burro.



CPI: acusação institucional não é sentença — mas também não é fanfic


O Relatório Final da CPI da Pandemia existe, foi aprovado, e é um documento institucional que reconstrói ações e omissões e propõe enquadramentos e encaminhamentos (Brasil, 2021a). Dá para discordar de interpretação? Dá. Mas não dá para fingir que foi “tudo invenção de oposição” sem entrar no texto e nos anexos.


O ponto mais honesto é este: CPI não condena, mas CPI registra e encaminha. E quando, anos depois, a sensação coletiva é de “não pagou”, isso se alimenta de duas coisas ao mesmo tempo: (1) o dano foi enorme; (2) a responsabilização não foi proporcional ao dano.


E aqui entra um dado de contexto político recente que é quase irônico: Jair Bolsonaro foi condenado e preso em 2025 por tentativa de golpe, com pena divulgada por fontes institucionais e cobertura internacional — mas essa condenação não é pelo manejo da pandemia (Supremo Tribunal Federal, 2025; Agência Brasil, 2025a; Associated Press, 2025a). Aí você entende por que tanta gente que perdeu parente na Covid fala em “julgamento que não aconteceu”: a punição veio por outro capítulo, não pelo capítulo da pandemia.


Para uma parte do país, isso resolve “moralmente” alguma coisa. Para outra, é só troca de assunto: “ok, foi preso, mas e a Covid?”. Essa ambiguidade é exatamente o retrato da impunidade funcional.



O “crime que não se paga” como mecanismo brasileiro: o Estado erra, o cidadão se vira


No Brasil, quando dá errado, o roteiro é conhecido:


  1. a responsabilidade se dissolve em briga política;
  2. a memória vira disputa;
  3. e a vida segue com o SUS carregando a conta, professor remendando calendário e família carregando luto no silêncio.


Isso tem consequência prática e imediata: a próxima crise (sanitária, climática, energética) vai encontrar o mesmo terreno. Um terreno em que “áudio” vale mais que protocolo, e em que o Estado, em vez de puxar a sociedade para o básico, vira parte da confusão.


Quer exemplo concreto? Olha como funciona uma escola municipal quando há surto de gripe forte: alguns pais mandam, outros não; um diretor tenta orientar, mas recebe pressão; professor fica doente e precisa repor aula; o sistema de saúde local fica cheio; e no meio disso sempre aparece um “remédio milagroso” de WhatsApp. A pandemia escancarou essa dinâmica em escala nacional.



Por que isso importa para quem está lendo agora


Porque não é sobre 2020. É sobre o hábito.


Se você é:


  • técnico de enfermagem que fez plantão dobrado e viu colega morrer, isso importa porque a história oficial decide se aquilo foi “sacrifício inevitável” ou “gestão criminosa”.
  • dono de loja pequena que fechou e reabriu no susto, isso importa porque política pública baseada em fantasia piora crise e prolonga instabilidade.
  • professor que segurou ensino híbrido com internet ruim e aluno sem celular, isso importa porque o Estado que confunde ciência com torcida joga o custo da crise para dentro da escola.
  • motorista de ônibus ou de app, isso importa porque você foi linha de frente sem medalha: exposto para manter a cidade funcionando.


Conclusão

Os documentos estão aí: CPI registrando e imputando, Senado registrando ofertas e demora, TCU registrando distribuição em massa de medicamentos sem lastro, OMS e Cochrane dizendo com todas as letras o que não funciona, IBGE mostrando o tamanho do estrago (Brasil, 2021a; Brasil, 2021b; Brasil, 2022; Organização Mundial da Saúde, 2022; Cochrane, 2022; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2023). O que falta não é “informação”; é consequência.


Se a próxima crise chegar e alguém te oferecer de novo um “atalho” em áudio de WhatsApp, faz um favor a si mesmo: pede o documento, a data e a fonte — e, se não tiver, não compartilha. Simples assim.



Referências


AGÊNCIA BRASIL. STF condena Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão. Brasília, 11 set. 2025. Disponível em: (link). Acesso em: 15 fev. 2026. 


ASSOCIATED PRESS. Bolsonaro’s conviction brings vindication for some Brazilians who lost loved ones to COVID-19. 22 nov. 2025. Disponível em: (link). Acesso em: 15 fev. 2026. 


BRASIL. Senado Federal. Relatório Final: CPI da Pandemia. Brasília, 26 out. 2021. Disponível em: (PDF). Acesso em: 15 fev. 2026. 


BRASIL. Senado Federal. Wajngarten, Pfizer e Butantan confirmam demora do governo para comprar vacinas. Brasília, 28 maio 2021. Disponível em: (link). Acesso em: 15 fev. 2026. 


BRASIL. Tribunal de Contas da União. TC 015.125/2021-1: Representação sobre possíveis irregularidades cometidas pelo Ministério da Saúde no enfrentamento da Covid-19 (peça/documento). Brasília, 19 out. 2022. Disponível em: (PDF). Acesso em: 15 fev. 2026. 


COCHRANE. Ivermectin for preventing and treating COVID-19. 2022. Disponível em: (link). Acesso em: 15 fev. 2026. 


INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Em 2021, número de óbitos bate recorde de 2020 e número de nascimentos é o menor da série. Rio de Janeiro, 16 fev. 2023. Disponível em: (link). Acesso em: 15 fev. 2026. 


ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Therapeutics and COVID-19: living guideline. 2022. Disponível em: (PDF). Acesso em: 15 fev. 2026. 


RECOVERY COLLABORATIVE GROUP. Effect of Hydroxychloroquine in Hospitalized Patients with Covid-19. The New England Journal of Medicine, 2020. Disponível em: (link). Acesso em: 15 fev. 2026. 


SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF). STF fixa penas de 16 a 27 anos para condenados por tentativa de golpe de Estado. Brasília, 11 set. 2025. Disponível em: (link). Acesso em: 15 fev. 2026. 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Chacina e Carnaval no Rio - A chacina não tem 6 meses: a política já esqueceu, mas as mães não

 Em 28 de outubro de 2025, uma megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Penha virou o maior episódio de letalidade policial já registrado no Rio, com números que passaram de uma contagem oficial inicial para mais de uma centena de mortos, segundo Defensoria e imprensa. Quatro meses depois, a cidade entra no modo Carnaval, com estudo oficial e manchetes celebrando bilhões em “movimentação econômica”. O Rio que desfila é o mesmo Rio que enterra — só que o enterro não vira agenda de coletiva.




Você lembra onde estava quando viu as imagens daquela operação? Não precisa lembrar de detalhe “técnico”. Lembra do impacto: escola fechada, ônibus mudando rota, rua travada, família sem notícia, e a TV pulando de um link ao vivo para outro, como se fosse só mais um dia “tenso” na cidade. Parte do Rio acordou com medo. Outra parte acordou com a palavra “sucesso” na boca de autoridade.

Agora troca a cena: fevereiro. Ensaios, blocos, camarotes, marca estampada em tudo, influenciador fazendo publi, prefeitura divulgando projeção de 8 milhões de foliões e R$ 5,9 bilhões circulando na economia carioca. A mesma cidade, no mesmo intervalo de um ano, tentando vender duas narrativas que não conversam: “o maior espetáculo” e “a maior chacina”.

O objetivo deste texto é simples e desconfortável: mostrar como o Carnaval — quando vira produto central da economia da atenção — ajuda a acelerar uma coisa que a política adora: a anestesia social. Não é “culpa do Carnaval” como cultura popular. É culpa do uso político e midiático do Carnaval como máquina de distração: a engrenagem que transforma tragédia em rodapé e transforma patrocínio em “política pública”. A metodologia aqui é jornalístico-analítica: leitura crítica de dados e comunicados oficiais (STF, Defensoria, Prefeitura), cruzamento com cobertura de imprensa e relatórios de entidades de direitos humanos, e interpretação sociopolítica do ciclo atenção–esquecimento.

E antes que alguém venha com “ah, mas você quer acabar com a festa”: não. O que se quer acabar é com a conveniência institucional de usar a festa como cortina. Porque a chacina não tem 12 meses. Só a memória pública que tem.

A cidade não tem Alzheimer; ela tem agenda

O esquecimento no Rio não é um acidente. É um modelo de gestão de narrativa.

Quando ocorre uma operação com letalidade desse tamanho, o roteiro é conhecido. Primeiro, o susto. Depois, a disputa de números (“foram X”, “na verdade foram Y”). Em seguida, entra a linguagem pronta: “guerra”, “narco-terrorismo”, “retomada de território”, “bandidos neutralizados”. A palavra “território” aparece como se fosse um tabuleiro vazio, não um lugar com escola, posto de saúde, comércio, igreja, criança indo para aula e trabalhador pegando ônibus seis da manhã.

Nesse ponto, a política faz uma escolha fria: ou trata como crise de Estado (com investigação robusta, transparência, reparação e revisão de protocolo), ou trata como oportunidade de marketing. E marketing não gosta de luto. Marketing gosta de “entrega”.

Repara na lógica: quando o STF cobra regras, câmeras, transparência e plano de redução de letalidade, parte do debate público tenta vender isso como “amarrar as mãos da polícia”. Só que o STF está dizendo o óbvio: operação policial não é licença para apagar prova, esconder dado e impedir família de acompanhar investigação.

E mesmo assim, a engrenagem segue. Por quê? Porque o custo político do esquecimento é baixo. Ninguém perde cargo por esquecer mãe chorando na praça. Mas muita gente ganha palanque por prometer “força total”.

A mãe não esquece porque o corpo dela continua na cena do crime

O discurso oficial consegue abstrair. A mãe não consegue. A mãe tem rotina.

É ela que acorda e lembra que o filho não volta. É ela que encara a cadeira vazia no almoço de domingo. É ela que enfrenta burocracia quando precisa de certidão, documento, auxílio, advogado, Defensoria. É ela que passa em frente ao lugar onde o bairro inteiro sabe o que aconteceu — e percebe que, para o gabinete climatizado, aquilo virou “caso encerrado”.

Tem um detalhe cruel: a mãe é obrigada a virar “especialista” em Estado. Aprende o que é corregedoria, o que é ouvidoria, o que é “autos de resistência” disfarçado com outro nome, o que é perícia malfeita, o que é inquérito que anda em câmera lenta. Quando o STF determina preservação de provas e cobra esclarecimentos, isso não é “pauta de jurista”; é o mínimo para uma família não ser esmagada pelo aparelho estatal.

E aqui entra o ponto que incomoda: o Carnaval ajuda a empurrar essas mães para fora do enquadramento. A cidade muda a trilha sonora, e quem não muda é tratado como “estraga-prazer”.

Carnaval como máquina de atenção: quem paga, quem lucra, quem some

O Carnaval real, na rua, tem potência cultural e até potência de saúde mental coletiva. Mas o Carnaval do orçamento e da publicidade funciona como outro bicho: ele opera como indústria de atenção.

A economia da atenção é isso: o que aparece na sua cara, todo dia, ganha status de “o que importa”. O que some do feed parece que não existe. E o Rio tem uma característica perfeita para esse mecanismo: é uma cidade onde o espetáculo é política pública informal.

Quando a Prefeitura publica estimativa de R$ 5,9 bilhões e 8 milhões de foliões, ela está fazendo comunicação de governo. Comunicação de governo não é neutra: escolhe o que mostrar, escolhe o que esconder, escolhe o tom do que vai virar orgulho oficial.

A pergunta pé no chão é: o que entra no centro do palco quando a cidade decide que “o grande tema” é Carnaval?
E a outra, mais incômoda: o que fica fora do palco?

Fica fora o seguinte tipo de cena: UPA lotada na quarta-feira de cinzas, gente desidratada, queda, briga, crise de ansiedade, intoxicação alcoólica, acidente de moto de trabalhador voltando do plantão, e a equipe tentando dar conta com escala estourada. Isso não é “drama”; é agenda do SUS. E o SUS não tem patrocínio de cervejaria para empurrar post impulsionado.

Fica fora também o custo invisível do “Carnaval como oportunidade”: o ambulante que compra mercadoria no fiado, o trabalhador temporário que aceita bico em evento e sai com dinheiro curto, e o mesmo trabalhador que depois entra no rotativo do cartão porque “o mês apertou”. A festa gira dinheiro. Só não gira igual para todo mundo.

E aí a cidade vende um “sucesso” que, na prática, é assim: o dinheiro concentra onde já tinha estrutura, o risco cai em cima de quem não tem margem, e o Estado aparece com força total só em dois momentos — para reprimir e para fazer foto.

Camarotização: quando a rua vira vitrine e a cidade vira catraca

Tem uma frase que resume um pedaço do problema: o Carnaval foi transformado em ecossistema de acesso.

A rua, que era espaço de mistura, vira corredor de marca. A experiência “premium” vira o coração do evento. E a lógica de camarote contamina tudo: a cidade aprende a separar o público em “quem entra” e “quem é controlado”.

Você vê isso no desenho urbano: bloqueio, gradil, revista, área vip, pulseira, “open bar”, influencer. Enquanto isso, do lado de fora, ambulante corre da fiscalização, trabalhador tenta passar para chegar no emprego, morador tenta entrar na própria rua.

Isso não é um debate moral sobre “ricos versus pobres” em abstrato. É concreto: é a cidade funcionando com dois protocolos. Para uns, o protocolo é conforto. Para outros, é contenção.

E aqui entra a ironia amarga: a operação de outubro de 2025 foi chamada de Operação Contenção. O nome parece ter escapado de um manual do que o Rio faz com suas populações: contém com polícia, contém com grade, contém com catraca, contém com discurso. Contém até a indignação.

“Mas o Carnaval dá emprego”: dá. E daí?

Esse é o argumento mais usado para desarmar qualquer crítica: “o Carnaval movimenta a economia”. Sim, movimenta. A própria Prefeitura e a imprensa estão cheias de números.

Só que movimentar não é distribuir. E emprego temporário não é estabilidade.

Vamos para exemplos reais, sem poesia:

O auxiliar de cozinha que pega diária na Lapa durante a folia pode ganhar mais naquela semana. Mas se o bar atrasar pagamento, ele não tem sindicato forte, não tem advogado, e às vezes nem contrato tem. A ambulante que compra isopor, gelo, bebida e perde mercadoria por confusão ou apreensão não tem “seguro Carnaval”. O motorista de app roda mais, mas também se expõe mais, pega passageiro bêbado, encara trânsito bloqueado e risco de agressão. No fim, o ganho extra vira “um respiro” — e o respiro não paga o rombo quando o aluguel e a luz chegam.

E o Estado, nesse cenário, usa a palavra “emprego” como se fosse absolvição. Não é. Emprego temporário não compensa política permanente de morte e esquecimento.

Segurança pública como espetáculo: a política adora a foto do helicóptero

No Rio, segurança pública não é só política pública. É performance.

A lógica do espetáculo, descrita por Debord, não é sobre “televisão” apenas; é sobre uma sociedade que passa a se organizar por imagens, por encenação, por narrativa pronta (Debord, 1997). Quando a política compra essa lógica, ela precisa de eventos que “provem” que está no controle. Operações gigantes viram prova. A contagem de mortos vira métrica torta de eficiência.

A operação de outubro de 2025 foi tratada assim em parte do discurso público: como demonstração de força. E quando entidades de direitos humanos e a Defensoria falam em investigação e apontam gravidade, a resposta padrão é: “defendem bandido” — como se pedir procedimento e prova fosse crime.

A questão aqui não é romantizar facção criminosa. Ninguém sensato quer Comando Vermelho mandando em território. A questão é outra: o Estado não pode virar facção com CNPJ.

Quando a letalidade policial cresce, isso é dado de política pública, não “opinião”. E o próprio noticiário sobre 2025 aponta aumento de mortes decorrentes de intervenção policial no RJ.

E tem mais: o STF homologou parcialmente um plano para reduzir letalidade, exigindo medidas, transparência e estrutura. Quando, meses depois, acontece uma operação com aquele tamanho, o mínimo é perguntar: o plano está valendo para quem? Para a nota de rodapé? Para a formalidade? Ou para mudar prática?

O ciclo atenção–esquecimento: como a chacina vira “passado” em velocidade 2x

O Brasil tem uma doença política que se vê bem no Rio: a tragédia tem validade curta.

Na semana da operação, todo mundo fala. Na semana seguinte, só quem está no território fala. Depois, só quem perdeu alguém fala. E, com o tempo, nem isso vira notícia — vira “movimento social” tentando sobreviver com doação, vaquinha, apoio jurídico, psicólogo voluntário.

A engrenagem que acelera isso é a mesma do entretenimento: timeline. O assunto “cansa”. A audiência cai. O algoritmo empurra outra coisa. E a política agradece, porque política sem cobrança é política confortável.

O Carnaval entra como turbo. A cidade inteira muda a pauta ao mesmo tempo: imprensa, comércio, prefeitura, marcas, influenciadores, até escola muda calendário e rotina. Se você tenta puxar o assunto da chacina, você vira “o cara do clima pesado”.

Só que para a mãe, o clima pesado não é opção. É segunda-feira.

“Ah, mas teve apoio popular”: apoio não substitui legalidade

Existe um ponto delicado que muita gente usa para justificar qualquer barbaridade: “tem morador que apoia operação dura”. Sim, existe. E isso precisa ser respeitado como sentimento real de quem vive sob domínio armado. A mesma reportagem internacional citou divisão na opinião pública e apoio relevante aos raids.

Mas apoio popular não é cheque em branco para o Estado. Se fosse, a democracia virava plebiscito diário para suspender direito.

O morador que apoia, muitas vezes, está apoiando uma esperança: “agora vai melhorar”. Só que a história do Rio mostra uma coisa repetida: operação grandona dá manchete, mas não dá Estado. E sem Estado — escola funcionando, posto de saúde funcionando, saneamento, assistência social, urbanismo, emprego local — o território continua refém do próximo grupo armado que ocupar o vácuo.

É por isso que o STF fala em processo estrutural, plano, transparência, reocupação e controle de letalidade. Não é perfumaria jurídica. É tentativa de quebrar o looping “opera–mata–sai–volta”.

Prefeituras e orçamento: o “pós-folia” não aparece no press release

Agora vamos sair do “grande Rio” abstrato e entrar em coisa que qualquer pessoa entende: prefeitura e orçamento.

Durante o Carnaval, prefeituras (capital e municípios do entorno) acionam contratos emergenciais, ampliam limpeza urbana, organizam trânsito, pagam estrutura. Até aí, ok: evento grande exige operação. Só que o pós-evento é onde a conta aparece sem maquiagem.

Quem trabalha em unidade básica ou UPA sabe: depois da folia, o fluxo de atendimento muda. A equipe já estava no limite e vai para o limite do limite. A prefeitura não faz coletiva mostrando fila. Faz coletiva mostrando “impacto econômico”.

E quando chegar março, abril, maio, e algum vereador perguntar “por que a UPA está assim?”, a resposta vira sempre uma mistura de desculpa técnica com falta de orçamento: “não tem médico”, “não tem contrato”, “não tem repasse”, “a demanda aumentou”. Só que a demanda “aumenta” todo ano. Não é surpresa. É planejamento.

E aqui está o recorte polêmico: a cidade que consegue planejar camarote, grade, patrocínio, rota turística e operação de mídia, muitas vezes falha em planejar o básico do cuidado e o básico da accountability quando o assunto é morte em operação.

Isso não é incapacidade. É prioridade.

A chacina como “assunto de direitos humanos” e o truque de empurrar para a gaveta

Outro mecanismo clássico é empurrar o tema para uma prateleira chamada “direitos humanos”, como se fosse nicho.

Direitos humanos, no Rio, virou palavra que a política usa para “separar” público: quem fala disso vira automaticamente “de um lado”. É um truque velho. Só que direitos humanos, na prática, são coisas bem sem glamour:

  • câmera funcionando;

  • perícia feita direito;

  • relatório público;

  • família informada;

  • Defensoria com acesso;

  • MP atuando;

  • polícia com regra.

Isso não é pauta identitária. É pauta de Estado. E foi justamente nesse terreno que o STF estabeleceu diretrizes na ADPF 635 e continuou cobrando providências após a Operação Contenção.

O que a política ganha quando o Carnaval engole a chacina

Ganha três coisas, bem objetivas.

Primeira: controle de narrativa. A pauta vira festa, não luto.

Segunda: deslocamento de cobrança. O debate sai de “quem matou, como matou, por que matou, cadê a prova” e entra em “quantos turistas vieram, quanto faturou, que marca patrocinou”.

Terceira: tempo. Tempo é a moeda mais valiosa da impunidade. Quanto mais tempo passa, mais difícil vira juntar testemunho, preservar prova, manter pressão. E tempo também cansa família. Cansa porque família precisa trabalhar, cuidar de casa, sobreviver. Já o Estado tem salário, estrutura e advogado pago.

Se isso é “anestesia social”, não é figura de linguagem bonita. É efeito real: a cidade segue funcionando como se o que aconteceu fosse um “excesso inevitável”. Só que inevitável para quem? Para quem está do lado de dentro do condomínio? Para quem está no camarote com ar-condicionado? Ou para quem está na rua estreita onde a bala entra sem pedir licença?

Uma crítica possível — e a resposta

Crítica: “Você está politizando uma tragédia e atacando a polícia. Sem operação dura, o crime domina. E Carnaval é economia; a cidade precisa viver.”

Resposta: sim, o crime domina onde o Estado não domina com serviço. E operação policial existe para prender e investigar, não para produzir cemitério e depois pedir aplauso. O próprio STF, ao exigir plano e controle de letalidade, não está dizendo “não façam operações”; está dizendo “façam com regra, transparência e proporcionalidade”.

E sobre “Carnaval é economia”: é justamente por ser economia que precisa de honestidade. Se o Carnaval movimenta bilhões, então tem poder político. E se tem poder político, ele também pode ser usado como cobertura. A crítica aqui não é ao folião. É à engrenagem institucional que sabe transformar festa em capital simbólico, mas trata morte como ruído.

A cidade pode fazer Carnaval e, ao mesmo tempo, sustentar investigação séria, acolhimento às famílias e transparência. O que ela não pode é usar Carnaval como desculpa para empurrar o assunto para “depois”. Porque “depois” é o nome que o Rio dá para “nunca”.

Conclusão

O Rio vai gastar energia para entregar espetáculo — e vai gastar pouca energia para entregar resposta. Um lado tem patrocínio, cronograma e coletivo de imprensa. O outro tem mãe batendo em porta, papel na mão e cansaço no corpo. E a chacina de outubro de 2025 ainda está no calendário real, mesmo quando some do calendário político.

Quer uma recomendação prática, sem discurso? Quando aparecer a próxima matéria sobre “R$ 5,9 bilhões do Carnaval”, abre o site da Defensoria e do STF e procura: em que pé está a apuração da operação de 28/10/2025? Se der trabalho achar, já é parte da resposta.


Referências bibliográficas (ABNT)

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