domingo, 8 de março de 2026

Quando o trabalho das mulheres movia o mundo, mas não aparecia: Da casa ao campo, da fábrica ao cuidado, a história foi sustentada por trabalho feminino que quase nunca recebeu o devido nome

 


Índice

  1. Lide
  2. O trabalho das mulheres sempre esteve no centro da vida social
  3. A invisibilidade não foi esquecimento: foi estrutura
  4. A casa como unidade econômica e política
  5. Campo, oficina, fábrica: a presença feminina na produção material
  6. O cuidado como infraestrutura oculta do mundo
  7. Quando o trabalho aparece, mas vale menos
  8. A herança histórica no presente
  9. Nomear o trabalho para romper a naturalização
  10. Conclusão
  11. Perguntas frequentes
  12. Pontos relevantes
  13. Indicação de livros
  14. Referências




Lide

A história econômica costuma ser narrada com imagens muito conhecidas: fábricas, máquinas, contratos, bancos, portos, empresários, sindicatos, guerras, crises e revoluções industriais. Mas existe uma omissão grave nessa narrativa. O mundo nunca foi movido apenas por aquilo que aparecia nos livros-caixa, nos relatórios oficiais ou nas estatísticas do Estado. Antes de toda engrenagem visível, sempre houve outra engrenagem, mais silenciosa, mais constante e muitas vezes mais decisiva: o trabalho das mulheres. Da alimentação ao cuidado, da costura ao plantio, da educação cotidiana das crianças à manutenção da casa, da produção artesanal ao trabalho fabril, a vida social foi sustentada por uma massa imensa de esforço feminino quase sempre subestimada. Essa invisibilidade não ocorreu por acaso. Ela foi produzida por uma organização social que naturalizou o trabalho das mulheres, reduziu seu valor simbólico e econômico e o empurrou para um espaço onde parecia dever, vocação ou obrigação moral, e não trabalho propriamente dito. Entender isso é fundamental para reler o passado e, ao mesmo tempo, compreender por que o presente ainda convive com desigualdade salarial, dupla jornada e reconhecimento incompleto.



O trabalho das mulheres sempre esteve no centro da vida social



A primeira correção necessária é simples e profunda: as mulheres nunca estiveram fora do trabalho. A ideia de que sua entrada no mundo produtivo seria fenômeno recente é enganosa. O que mudou ao longo do tempo não foi a existência do trabalho feminino, mas o modo como ele foi distribuído, registrado, valorizado ou escondido.


As mulheres trabalharam nas casas, nos quintais, nos roçados, nas pequenas lavouras, nas feiras, nas cozinhas, nas oficinas domésticas, nas fábricas, no comércio miúdo, no serviço de cuidado, na educação informal, na lavagem, na costura e em inúmeras atividades essenciais à continuidade da vida. Em muitas sociedades, eram responsáveis por tarefas sem as quais o cotidiano simplesmente desabaria. Ainda assim, boa parte desse esforço não foi reconhecida como trabalho central, mas como extensão “natural” do papel feminino.


Michelle Perrot observa que a história tradicional empurrou as mulheres para os bastidores, como se sua presença estivesse restrita ao privado e ao secundário, quando, na realidade, elas sustentavam uma parte decisiva da vida material e simbólica das sociedades (Perrot, 2007). Essa constatação muda o eixo da interpretação histórica. O problema nunca foi ausência de trabalho feminino; o problema foi a construção de uma narrativa que o tratou como menos importante, menos produtivo ou menos digno de memória.


Quando uma sociedade se acostuma a depender do trabalho de alguém sem reconhecê-lo plenamente, ela cria as bases de uma desigualdade duradoura. Foi isso que ocorreu com as mulheres. Seu trabalho era indispensável, mas raramente vinha acompanhado do mesmo prestígio, da mesma remuneração ou do mesmo poder de decisão.



A invisibilidade não foi esquecimento: foi estrutura



É importante recusar uma interpretação ingênua segundo a qual o trabalho das mulheres teria sido apenas “esquecido”. O termo é fraco demais. Não houve simples lapso de memória. Houve uma operação estrutural de invisibilização. Certas tarefas foram descritas como naturais, afetivas, domésticas ou femininas precisamente para que não aparecessem com o mesmo peso político e econômico das atividades masculinizadas.


Silvia Federici demonstrou que a constituição do capitalismo moderno dependeu fortemente da separação entre produção e reprodução, relegando o trabalho doméstico e de cuidado a uma zona de invisibilidade funcional ao sistema (Federici, 2019). Isso significa que aquilo que mantinha a vida em funcionamento — cozinhar, limpar, cuidar, criar, sustentar vínculos, garantir a reposição cotidiana da força de trabalho — era essencial, mas aparecia como se não produzisse valor. Em outras palavras, o sistema econômico lucrava também com o fato de não pagar, ou pagar muito mal, pelo trabalho que tornava todo o resto possível.


A invisibilidade, então, não era falha do sistema. Era parte do seu modo de operar.


Ao transformar o trabalho das mulheres em dever natural, a ordem social também reduzia sua capacidade de reivindicação. Quem é visto como “ajuda” tende a receber menos do que quem é visto como “produtor”. Quem é interpretado como vocacionado ao cuidado tende a ser mais cobrado moralmente do que remunerado materialmente. Quem aparece como apoio da vida familiar tende a ser afastado do centro da memória econômica.


Heleieth Saffioti insistiu que patriarcado e exploração não são esferas separadas, mas dimensões articuladas de uma mesma estrutura de poder (Saffioti, 2015). O caso do trabalho feminino deixa isso evidente. A desigualdade não se sustenta apenas pela força bruta; sustenta-se também por categorias sociais que transformam exploração em hábito, subordinação em costume e sobrecarga em virtude.



A casa como unidade econômica e política



Um dos maiores equívocos da modernidade foi tratar a casa apenas como espaço íntimo, privado e emocional, desligado da economia. Essa separação permitiu esconder que o ambiente doméstico sempre foi também unidade produtiva, organizacional e política. Nele se prepara alimento, se administra tempo, se distribuem tarefas, se cuida da saúde, se educa, se acolhe, se limpa, se organiza a rotina e se reproduzem as condições mínimas para que a vida externa continue funcionando.


Durante séculos, coube desproporcionalmente às mulheres garantir esse funcionamento. E a sociedade fez algo curioso: ao mesmo tempo em que dependia radicalmente desse trabalho, tratava-o como se fosse manifestação espontânea do amor feminino. A exaltação moral da mulher cuidadora serviu, muitas vezes, para mascarar o peso concreto de sua carga cotidiana.


Nancy Fraser, em seus debates sobre crise da reprodução social, ajuda a compreender que não existe economia estável quando os mecanismos que sustentam a vida cotidiana são exauridos ou tratados como infinitamente disponíveis. A casa, longe de ser espaço “fora” da economia, é parte de sua base material. Quando essa base é feminilizada e naturalizada, a desigualdade se instala no coração do sistema.


No Brasil, essa questão tem contornos muito claros. A administração do cotidiano familiar segue majoritariamente nas mãos das mulheres, inclusive quando elas também exercem trabalho remunerado externo. Isso mostra que o problema não é apenas histórico; é atual. O lar continua sendo visto como lugar “delas”, mesmo quando a vida econômica exige delas presença simultânea em vários frontes.


Dizer isso não é diminuir a importância afetiva da casa. É, ao contrário, denunciar que sua importância foi usada para ocultar seu custo. O afeto existe, claro. Mas o afeto não elimina o trabalho. E transformá-lo em substituto do reconhecimento é uma das formas mais persistentes de injustiça.



Campo, oficina, fábrica: a presença feminina na produção material



A invisibilidade do trabalho feminino não se limita ao ambiente doméstico. Ela atravessa o campo e a cidade. No mundo rural, mulheres sempre participaram do plantio, da colheita, da conservação de alimentos, do trato com animais, da produção artesanal e da organização do consumo familiar. Ainda assim, durante muito tempo, seu esforço foi descrito como “ajuda” ao trabalho do homem, como se não integrasse de fato a economia agrária.


No espaço urbano, a mesma lógica apareceu em oficinas, costuras, feiras, pensões, pequenos comércios, lavanderias e, depois, nas fábricas. O crescimento industrial ampliou a presença feminina no trabalho assalariado, mas não eliminou sua desvalorização. Ao contrário, em muitos casos a aprofundou. Mulheres eram recrutadas por salários menores, submetidas a jornadas duras e mantidas sob forte controle moral.


Angela Davis mostra que, sobretudo para mulheres negras, o trabalho jamais pode ser entendido apenas como categoria econômica abstrata. Ele esteve ligado à escravidão, à exploração racial, à precarização e à negação de dignidade em graus extremos (Davis, 2016). No caso brasileiro, isso é incontornável. O trabalho de mulheres negras foi central na manutenção da vida doméstica, no cuidado de famílias alheias, no serviço precário e na reprodução da própria ordem social, sem que isso resultasse em reconhecimento equivalente.


A história do trabalho feminino, portanto, não é apenas história de inserção. É história de inserção desigual. As mulheres estavam presentes, mas em posições de menor prestígio, menor remuneração e maior exigência. Quando entravam na fábrica, levavam consigo a marca da subalternização. Quando saíam dela, não abandonavam a responsabilidade pela casa e pelos filhos. A modernidade industrial não libertou automaticamente o trabalho feminino. Em muitos casos, apenas acumulou camadas de carga sobre ele.



O cuidado como infraestrutura oculta do mundo



Talvez a palavra mais importante deste debate seja cuidado. Cuidar de crianças, idosos, doentes, da alimentação, da higiene, da rotina escolar, da estabilidade emocional da casa, dos pequenos detalhes que permitem a continuidade da vida: tudo isso forma uma infraestrutura silenciosa sem a qual a economia formal não existiria.


Ainda assim, o cuidado foi historicamente tratado como algo menor, quase invisível em termos de reconhecimento social. Isso ocorreu porque ele foi associado às mulheres como se delas brotasse naturalmente. Em vez de ser compreendido como trabalho socialmente indispensável, foi apresentado como expressão de vocação, carinho ou dever materno.


Bell hooks apontou que o sexismo se reproduz também por meio de expectativas culturais que parecem benignas, mas aprisionam as mulheres em papéis moralmente exigentes e materialmente desiguais (Hooks, 2018). O cuidado é um desses papéis. Ele é enaltecido, mas pouco redistribuído. É considerado nobre, mas frequentemente mal pago ou sequer pago. É tido como essencial, mas continua fora do centro das decisões econômicas.


O resultado é perverso. A sociedade depende do cuidado, mas não o organiza como responsabilidade coletiva. Delegá-lo às mulheres parece mais fácil. Isso permite que o Estado economize, que o mercado siga funcionando e que os homens, em muitos contextos, continuem menos cobrados pelo trabalho reprodutivo. O custo dessa conveniência histórica recai, outra vez, sobre elas.


É por isso que o cuidado precisa ser recolocado no centro do debate. Não como gesto terno, mas como categoria política e econômica. O que sustenta a vida não pode continuar sendo tratado como resto.



Quando o trabalho aparece, mas vale menos



Há situações em que o trabalho das mulheres não é invisível. Ele é perfeitamente visível — e ainda assim menos valorizado. Isso acontece em diversas profissões associadas ao cuidado, à educação básica, à limpeza, à alimentação, ao atendimento e à enfermagem. A sociedade vê essas atividades, depende delas, mas insiste em remunerá-las mal e tratá-las como inferiores em status.


Essa contradição é reveladora. Ela mostra que o problema não é apenas falta de visibilidade. É falta de valor social equivalente. Mesmo quando aparece, o trabalho feminino é muitas vezes enquadrado em hierarquias que o rebaixam. A explicação está na herança cultural que associa o fazer das mulheres à disponibilidade, à paciência, ao serviço, ao detalhe, ao apoio. Ou seja: a presença é reconhecida, mas seu peso continua reduzido.


No mundo contemporâneo, isso se expressa de forma aguda na desigualdade salarial, na menor ascensão em carreiras, na cobrança por produtividade somada à cobrança pelo cuidado e na expectativa de que mulheres administrem o invisível sem que isso conte integralmente como mérito. O problema, portanto, não é apenas que elas trabalhem muito. É que trabalham muito em estruturas que historicamente aprenderam a chamar esse esforço de menos do que ele realmente é.



A herança histórica no presente



A subvalorização do trabalho feminino não ficou presa ao passado. Ela organiza o presente. Está na mulher que trabalha fora e continua sendo a principal gestora da casa. Está na profissional qualificada que vê sua trajetória interrompida por expectativas desiguais de maternidade e cuidado. Está na trabalhadora doméstica cuja função é essencial, mas permanece socialmente rebaixada. Está na cuidadora informal que sustenta doentes e idosos sem rede pública suficiente. Está, inclusive, na linguagem cotidiana que elogia a mulher por “dar conta de tudo”, como se isso fosse virtude natural e não exigência cruel.


A naturalização da sobrecarga é uma das formas contemporâneas mais eficientes de perpetuar desigualdade. O elogio à força feminina, quando não vem acompanhado de redistribuição material, vira armadilha. Chama-se de força aquilo que muitas vezes é apenas acúmulo de responsabilidades. Chama-se de dedicação aquilo que frequentemente é falta de alternativa. Chama-se de amor aquilo que o sistema preferiu não remunerar.


É aqui que a crítica histórica ganha sentido político imediato. Sem compreender o longo processo de invisibilização do trabalho feminino, o presente parece um conjunto disperso de injustiças. Compreendendo esse processo, tudo adquire coerência: a desigualdade salarial, a dupla jornada, o desgaste, a desvalorização do cuidado, a baixa legitimidade de certas profissões e a cobrança moral por disponibilidade constante.



Nomear o trabalho para romper a naturalização



Nomear o trabalho das mulheres é alterar a gramática do poder. O que era “ajuda” passa a ser reconhecido como estrutura. O que era “vocação” passa a ser visto como trabalho social. O que era “carinho” aparece também como esforço, tempo, energia e custo. O que era “destino feminino” pode ser desnaturalizado e redistribuído.


Esse movimento não é apenas acadêmico ou discursivo. Ele tem consequências materiais. Quando uma sociedade reconhece que o cuidado é trabalho, precisa repensar políticas públicas, relações familiares, jornada laboral, remuneração e responsabilidade coletiva. Quando admite que o trabalho doméstico e reprodutivo sustentou a economia, precisa reavaliar a forma como mede riqueza, valor e produtividade. Quando entende que as mulheres sempre trabalharam, precisa abandonar a narrativa que as apresenta apenas como auxiliares da história.


A história das mulheres não cabe em homenagens justamente porque ela exige esse tipo de revisão profunda. Não basta admirar sua força. É preciso entender por que essa força foi tão exigida. Não basta celebrar sua presença. É preciso reconhecer que o mundo se moveu, durante séculos, apoiado sobre trabalho feminino não devidamente nomeado.



Conclusão



O mundo foi movido por trabalho feminino muito antes de se dispor a reconhecê-lo. Essa talvez seja uma das verdades mais duras e mais reveladoras da história social. As mulheres produziram, cuidaram, organizaram, mantiveram, sustentaram e reproduziram a vida coletiva em escala ampla e contínua, mas boa parte desse esforço foi escondida sob as palavras “natureza”, “dever”, “amor”, “ajuda” ou “vocação”. O efeito dessa operação foi devastador: permitiu desvalorizar economicamente tarefas essenciais, impor sobrecarga cotidiana, limitar autonomia e rebaixar o lugar das mulheres na memória pública da produção do mundo.


Corrigir essa história não é apenas prestar justiça retrospectiva. É compreender o presente. A desigualdade salarial, a dupla jornada, a baixa valorização de profissões feminilizadas e a distribuição desigual do cuidado não nasceram do nada. São continuação de uma longa tradição de invisibilidade organizada. Por isso, lembrar que o trabalho das mulheres movia o mundo, mas não aparecia, não é gesto de reverência abstrata. É ato de lucidez histórica.


E essa lucidez conduz a uma pergunta inevitável. Se o trabalho feminino foi naturalizado porque a própria ordem social definiu certos corpos como destinados ao cuidado, à contenção e à disponibilidade, então o problema nunca foi apenas econômico. Foi também político, moral e corporal. O controle do trabalho das mulheres caminhou junto com o controle de seus corpos. É por aí que a próxima etapa da discussão se impõe.



Perguntas frequentes




1. As mulheres passaram a trabalhar apenas na modernidade?



Não. As mulheres sempre trabalharam. O que mudou foi a forma como esse trabalho foi enquadrado, remunerado e reconhecido.



2. Por que o trabalho doméstico deve ser entendido como trabalho real?



Porque exige tempo, esforço, organização e responsabilidade social. Sem ele, a vida cotidiana e a própria economia formal não se mantêm.



3. O cuidado é uma questão econômica?



Sim. O cuidado sustenta a reprodução da vida e da força de trabalho. Tratá-lo como algo “fora” da economia é uma forma de ocultar seu valor real.



4. A invisibilidade do trabalho feminino foi intencional?



Mais do que intenção individual, houve uma estrutura social que naturalizou esse trabalho e o empurrou para fora do centro do reconhecimento econômico e político.



5. Esse problema ainda existe hoje?



Sim. Ele aparece na desigualdade salarial, na dupla jornada, na sobrecarga do cuidado e na subvalorização de profissões historicamente feminilizadas.



Pontos relevantes



  • As mulheres sempre estiveram no centro da sustentação material da vida social.
  • A invisibilidade do trabalho feminino foi estrutural, não mero esquecimento.
  • O cuidado é infraestrutura econômica e social, não detalhe privado.
  • Mesmo quando aparece, o trabalho das mulheres frequentemente vale menos.
  • Reconhecer esse trabalho é também disputar poder, tempo e dignidade.




Indicação de livros



  • Federici, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista.
  • Perrot, Michelle. Minha história das mulheres.
  • Davis, Angela. Mulheres, raça e classe.



Imagem de capa sugerida: mãos femininas estilizadas em metal e vidro fosco sustentando discretamente uma engrenagem monumental e pesada, em paleta grafite, prata fosca e azul petróleo.



Referências



Davis, A. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.


Federici, S. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. São Paulo: Elefante, 2019.


Hooks, B. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.


Perrot, M. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2007.


Saffioti, H. I. B. Gênero, patriarcado, violência. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2015.


sábado, 7 de março de 2026

Na guerra e no amor vale tudo! Será?

Quando o afeto vira posse e a guerra chama de “consequência” aquilo que destrói mulheres e crianças



Há frases que parecem inofensivas porque foram naturalizadas. Repetem-se em música, conversa de bar, novela, meme, comentário apressado. “Na guerra e no amor vale tudo” é uma delas. Soa espirituosa, quase sábia. Mas não é. No fundo, essa frase funciona como uma licença moral improvisada: ela sugere que, diante da paixão ou do conflito, as regras comuns da dignidade humana poderiam ser suspensas. E é justamente aí que mora o problema.


No amor, essa suspensão costuma abrir espaço para o ciúme tratado como prova de sentimento, para o controle vestido de cuidado, para a perseguição interpretada como insistência romântica e, no limite mais brutal, para o feminicídio. Na guerra, a mesma lógica se reorganiza em escala industrial: mortes de mulheres e crianças passam a ser apresentadas como “efeitos colaterais”, deslocamentos forçados viram “custos estratégicos”, fome é tratada como desdobramento inevitável, e corpos civis desaparecem sob o vocabulário frio da geopolítica. Em ambos os casos, há um mecanismo comum: primeiro se desumaniza, depois se justifica.


É preciso dizer com clareza: nem no amor, nem na guerra, vale tudo. No amor, porque ninguém ama quando transforma o outro em propriedade. Na guerra, porque nenhum Estado, exército ou liderança política adquire o direito moral de converter vidas civis em estatística administrável. A frase popular tenta resolver com cinismo aquilo que a ética, o direito e a experiência humana tratam como limite inegociável.


No Brasil, o feminicídio continua revelando que uma parte da cultura afetiva ainda confunde vínculo com domínio. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 registrou 1.492 vítimas de feminicídio no país, com predominância de crimes praticados por companheiros ou ex-companheiros; 63,6% das vítimas eram mulheres negras. O próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública tem insistido que, desde 2022, o país convive com uma média próxima de quatro feminicídios por dia. Isso não descreve casos isolados de “monstros”. Descreve uma engrenagem social persistente, íntima e estrutural. 


O feminicídio raramente começa no ato extremo. Ele costuma ser precedido por uma pedagogia da posse. Vem antes a vigilância do celular, a exigência de senha, o isolamento de amizades, a desqualificação constante, o “você é minha”, o “sem mim você não é nada”, o “se não ficar comigo, não fica com mais ninguém”. O que se chama de amor, nesse registro, já não é amor: é soberania privada sobre a vida de outra pessoa. O agressor não suporta perder o comando e, quando perde, tenta restabelecê-lo pela intimidação ou pela eliminação. A morte, nesse caso, não é um excesso ocasional; é o último argumento de quem nunca reconheceu a autonomia da mulher.


Por isso, tratar feminicídio como “crime passional” é mais do que um erro conceitual. É uma fraude moral. Paixão não explica posse. Sofrimento não absolve violência. Frustração amorosa não autoriza execução. Quando a linguagem suaviza o crime, a cultura prepara a repetição dele. E o país conhece bem esse mecanismo: muitas vezes a sociedade ainda pergunta o que a vítima fez, por que não saiu antes, por que continuou, por que respondeu, por que terminou. São perguntas que, disfarçadas de curiosidade, transferem para a mulher parte do peso de uma violência produzida por um homem e tolerada por estruturas frágeis de prevenção e proteção.


Essa lógica da justificativa também aparece na guerra, apenas com roupas mais solenes. Quando cidades são bombardeadas, cercadas ou privadas de condições mínimas de sobrevivência, mulheres e crianças costumam pagar a conta mais alta. A UNICEF afirmou que 2024 foi um dos piores anos de sua história recente para crianças em conflito e, em levantamento apresentado em fevereiro de 2026, indicou que, só em 2024, aproximadamente 8.280 crianças foram mortas ou mutiladas em conflitos armados. No Oriente Médio e no Norte da África, a agência informou em julho de 2025 que ao menos 12,2 milhões de crianças foram mortas, mutiladas ou deslocadas em menos de dois anos de conflitos. 


Em Gaza, a ONU Mulheres estimou, em maio de 2025, que mais de 28 mil mulheres e meninas haviam sido mortas desde o início da guerra em outubro de 2023. A agência também registrou que a crise humanitária atinge de forma desproporcional mulheres e meninas, com colapso de abrigo, água, alimentação e cuidados essenciais. 


No Sudão, a ONU Mulheres descreveu, em abril de 2025, o pior cenário humanitário do mundo para 6 milhões de mulheres e meninas deslocadas, ao mesmo tempo em que o número de pessoas expostas ao risco de violência de gênero triplicou para mais de 12 milhões desde o começo da guerra. 


Na Ucrânia, a Missão de Monitoramento de Direitos Humanos da ONU verificou que 2025 foi o ano mais letal para civis desde 2022: 2.514 civis mortos e 12.142 feridos, com crescimento expressivo em relação a 2024. Entre os mortos contabilizados em 2025, havia 892 mulheres, 54 meninos e 38 meninas. 


Esses números não servem para nivelar conflitos distintos nem para apagar responsabilidades específicas de cada guerra. Gaza não é Sudão. Sudão não é Ucrânia. Cada conflito tem história, atores, assimetrias, enquadramentos jurídicos e disputas políticas próprias. Mas todos eles revelam um traço perturbadoramente comum: mulheres e crianças aparecem repetidamente entre os grupos mais atingidos, seja pela morte direta, seja pelo deslocamento, pela fome, pela interrupção de serviços de saúde, pelo trauma prolongado e pela violência sexual associada ao conflito. A ONU registra que a violência sexual em guerra continua sendo empregada para intimidar, humilhar, dominar e romper o tecido social das comunidades, e as mulheres e meninas correspondem à esmagadora maioria das vítimas reportadas. 


É nesse ponto que a frase “são consequências da guerra” precisa ser enfrentada. Sim, são consequências da guerra. Mas a formulação costuma ser usada de modo covarde, como se “consequência” significasse fatalidade neutra, quase meteorológica. Não significa. Quando um conflito é conduzido de forma a ampliar sofrimento civil, destruir infraestrutura básica, inviabilizar corredores humanitários ou normalizar ataques indiscriminados, não se está diante de uma simples consequência inevitável: está-se diante de escolhas políticas, militares e morais. A palavra “consequência”, sozinha, pode esconder agência. E o que não pode ser escondido é que decisões humanas produzem devastação humana.


Algo semelhante acontece no feminicídio quando alguém diz: “foi porque ele não aceitou a separação”. A frase parece explicativa, mas é apenas uma maquilagem do horror. Não aceitar a separação não mata ninguém por si só. O que mata é a decisão de um homem que se sente autorizado a punir a autonomia de uma mulher. Do mesmo modo, “a guerra” não mata abstratamente. Quem mata são cadeias de comando, estratégias de ataque, bloqueios, omissões deliberadas e sistemas de poder que passam a tratar vidas civis como dano administrável.


Há, portanto, uma convergência ética entre o lar violento e o campo de batalha: em ambos, o agressor deseja impor vontade sobre um corpo que não reconhece como plenamente livre. No feminicídio, a mulher é assassinada porque ousou existir fora do controle masculino. Na guerra, mulheres e crianças são esmagadas porque se tornaram obstáculos toleráveis no caminho de objetivos militares ou geopolíticos. A escala muda; a gramática do poder, não tanto.


Isso não significa confundir violência doméstica com guerra entre Estados como se fossem fenômenos idênticos. Não são. O erro analítico seria tão grave quanto a indiferença moral. O que existe é uma afinidade de lógica: a naturalização da exceção, o rebaixamento do outro, a licença para violar limites sob o pretexto de uma causa superior. No feminicídio, a causa superior é o ego ferido, a masculinidade proprietária, o narcisismo da posse. Na guerra, a causa superior é a segurança invocada sem freio, a soberania convertida em salvo-conduto, a razão de Estado despida de humanidade.


A sociedade costuma perceber melhor a barbárie quando ela chega de tanque, míssil e uniforme. Tem mais dificuldade quando ela entra em casa com flores, pedidos de desculpa e frases de amor doentio. Mas a violência íntima e a violência bélica compartilham um mesmo laboratório moral: ambas testam até onde o mundo tolera a redução do outro a objeto. E, infelizmente, o mundo tolera bastante.


Tolera quando transforma o feminicídio em assunto episódico, tratado com comoção passageira e pouca transformação estrutural. Tolera quando não amplia rede de proteção, quando a denúncia não chega a tempo, quando medidas protetivas falham, quando a escola não debate educação afetiva, quando a polícia nem sempre está preparada, quando o sistema de justiça reage tarde, quando a comunidade prefere o silêncio para “não se meter”. Tolera também quando aceita que a guerra seja narrada apenas pela ótica do tabuleiro estratégico, como se mapas importassem mais do que pessoas, como se a análise séria precisasse amputar a compaixão para parecer objetiva.


Esse é um dos vícios mais perigosos do debate público contemporâneo: a crença de que falar em mulheres e crianças seria sentimentalismo, enquanto falar em território, retaliação, dissuasão e interesse nacional seria maturidade analítica. Não é. Uma análise política que não enxerga os corpos concretos destruídos por suas abstrações é apenas uma análise moralmente mutilada.


No fundo, a frase “na guerra e no amor vale tudo” só sobrevive porque serve aos fortes. Ela absolve quem controla, invade, pune, cerca, humilha e mata. Nunca protege a parte mais vulnerável. Nunca socorre a mulher perseguida. Nunca abriga a criança deslocada. Nunca devolve a vida interrompida. É uma frase funcional para o agressor, não para a vítima.


Por isso, o que precisa ser afirmado, contra o cinismo popular e contra a banalização institucional, é algo muito mais simples e muito mais exigente: nem o amor pode dispensar ética, nem a guerra pode dispensar humanidade. O amor sem limite moral vira posse. A guerra sem limite jurídico vira barbárie. E, quando a posse e a barbárie se encontram, mulheres e crianças quase sempre aparecem entre as primeiras sacrificadas.


A tarefa de uma sociedade civilizada começa justamente na recusa dessas permissões. Recusar a romantização do controle masculino. Recusar a linguagem que embeleza feminicídio. Recusar a neutralidade conveniente diante da violência doméstica. Recusar a retórica militar que chama civis mortos de preço inevitável. Recusar o conforto verbal das expressões que anestesiam a consciência. Porque toda vez que a linguagem absolve, a violência avança.


Dizer que “nem na guerra, nem no amor vale tudo” não é ingenuidade. É o mínimo ético sem o qual a vida comum desaba. Sem esse mínimo, o amor deixa de ser encontro e vira captura; a política deixa de ser mediação e vira esmagamento; a guerra deixa de ser sequer nomeável dentro do direito e se converte em devastação legitimada. O problema não é apenas o que se faz, mas o que se autoriza dizer para tornar o inaceitável suportável.


No amor que mata, chama-se ciúme de cuidado. Na guerra que massacra, chama-se consequência o que foi produzido por decisão humana. Em ambos os casos, a civilização perde quando aceita o vocabulário do agressor.



Conclusão



A frase “na guerra e no amor vale tudo” não é sabedoria popular; é uma pequena doutrina da licença. Ela ensina, de forma aparentemente leve, que existem situações em que a dignidade do outro pode ser relativizada. E é exatamente dessa relativização que nascem tanto o feminicídio quanto a naturalização da morte de mulheres e crianças em guerras contemporâneas. Em um caso, a mulher é tratada como posse privada. No outro, civis são tratados como dano suportável. Em ambos, o que se rompe é o mesmo princípio: ninguém pode reivindicar o direito de destruir o outro em nome do desejo, da honra, da segurança ou da vitória. Uma sociedade séria precisa rejeitar essa lógica na intimidade e na geopolítica, na linguagem cotidiana e no discurso oficial. Porque, quando se aceita que “vale tudo”, o que realmente se está dizendo é que certas vidas valem menos. E toda vez que uma cultura admite isso, ela já começou a fracassar.



Referências



FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. São Paulo: FBSP, 2025. 


FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Retrato dos feminicídios no Brasil. São Paulo: FBSP, 2026. 


FONTE SEGURA; FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Quatro mulheres por dia: o feminicídio como falha estrutural do Estado brasileiro. 2026. 


OHCHR. 2025 deadliest year for civilians in Ukraine since 2022, UN human rights monitors find. Genebra: United Nations Human Rights Monitoring Mission in Ukraine, 2026.


OHCHR. Four years on: fact sheet. Genebra: United Nations Human Rights Monitoring Mission in Ukraine, 2026. 


UNFPA. We must stand by women and girls in crises in 2025. New York: United Nations Population Fund, 2024.


UNICEF. “Not the new normal” – 2024 one of the worst years in UNICEF’s history for children in conflict. New York: UNICEF, 2024. 


UNICEF. Ten alarming trends for children in armed conflict. New York: UNICEF, 2026.


UNICEF. Every five seconds, a child is displaced, injured, or killed in conflicts in the Middle East and North Africa. Amã: UNICEF, 2025. 


UN WOMEN. UN Women estimates over 28000 women and girls killed in Gaza since October 2023. New York: UN Women, 2025. 


UN WOMEN. Gender snapshot for Gaza Strip. New York: UN Women, 2025. 


UN WOMEN. Two years of relentless conflict in Sudan have triggered the world’s worst humanitarian crisis for 6 million displaced women and girls. New York: UN Women, 2025.


UNITED NATIONS. Conflict-related sexual violence. New York: United Nations, 2025.