quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Brasil: Nunca Mais — quando o Estado tortura, o Direito mente e a sociedade adoece

A eleição de um governo que elogia e condecora torturadores não é apenas uma escolha política controversa: é um colapso moral que reabilita a barbárie como linguagem pública. Brasil: Nunca Mais prova, com documentos do próprio Estado, que a tortura foi método e o Judiciário, muitas vezes, sua chancela; e mostra por que flertar com esse passado não é “saudosismo”, mas uma ameaça concreta ao presente. O mesmo país que relativizou os porões pagou, décadas depois, o preço do desprezo pela vida quando o negacionismo virou política durante a COVID-19 — e a morte deixou de ser acidente para se tornar consequência previsível.


Introdução

Há livros que não “passam”: eles permanecem como uma cicatriz — e, como toda cicatriz, doem mais quando a sociedade insiste em reabrir o ferimento. Brasil: Nunca Mais é um desses. Não é apenas uma obra sobre a ditadura; é um raio-X do modo como um Estado pode se organizar para sequestrar a realidade, transformar dor em rotina e, depois, pedir que o país “siga em frente” como se nada tivesse acontecido.

O projeto que deu origem ao livro explicitou seu objetivo com uma frase simples e devastadora: “que nunca mais se repitam” as violências e ignomínias de um passado recente  . É aqui que começa a dimensão política do debate: se o “nunca mais” é um pacto civilizatório, então eleger um governo que valoriza, elogia e trata torturador como herói é, sim, uma forma de insanidade pública — porque rompe a barreira moral mínima que sustenta a convivência democrática.

E, pior: esse elogio não é só simbólico. Ele reeduca a sociedade para aceitar a brutalidade como linguagem legítima, e isso tem consequências práticas quando crises reais exigem empatia, ciência, responsabilidade e Estado de Direito.



O que é o Brasil: Nunca Mais e por que ele ainda dói

O livro é uma grande reportagem-investigação sobre violações de direitos humanos, construída com uma peculiaridade metodológica que o torna difícil de ser descartado por relativismos: não se trata de “memórias” apenas, mas de evidências extraídas de processos que circularam pela Justiça Militar — isto é, do próprio aparato estatal  . O projeto nasce no final dos anos 1970, ainda sob o regime, e é executado em sigilo por mais de cinco anos.

O que incomoda, até hoje, é o seguinte: Brasil: Nunca Mais mostra que não foi “excesso”, nem “caso isolado”, nem “desvio de conduta”. Foi sistema. E quando a sociedade tenta normalizar esse sistema — chamando torturador de “herói”, por exemplo — ela normaliza a ideia de que o Estado pode violar corpos e depois editar a narrativa.


Metodologia: a repressão narrada pelos próprios autos

O núcleo metodológico do projeto é direto: reunir cópias da quase totalidade dos processos políticos que transitaram pela Justiça Militar entre 1964 e 1979, em especial os que chegaram ao STM  . O trabalho acumulou 707 processos completos, mais dezenas incompletos, somando mais de 1 milhão de páginas, imediatamente microfilmadas em duas vias — uma delas guardada fora do país  . Isso não é detalhe: é arquitetura de preservação da prova contra a destruição institucional.


O achado central: a burocracia como prova

Há uma ironia trágica na burocracia autoritária: ela registra o que não deveria existir. A engrenagem repressiva, ao processar “subversivos”, deixou rastros nos autos — depoimentos, contradições, laudos, confissões, procedimentos. O projeto explorou exatamente isso: a repressão “confessada” em papel timbrado, mesmo quando tentava se esconder.

Do ponto de vista historiográfico e jurídico, trata-se de uma inversão potente: a vítima não precisa “convencer” o público; o documento estatal passa a falar — e, ao falar, expõe a violência como método.


“Testemunho e apelo”: a chave ética do prefácio

No prefácio, Dom Paulo Evaristo Arns estabelece a moldura moral do livro: a tortura, além de desumana, é também o meio mais inadequado para buscar a verdade e chegar à paz  . Essa frase é mais do que religiosa; ela é epistemológica: tortura produz “verdade” sob colapso, medo, dor, coação — logo, produz falsidade com aparência de prova.

Aqui está um ponto crucial para qualquer artigo destinado a A Terra é Redonda: a tortura é, simultaneamente, crime contra a pessoa e sabotagem contra o próprio conhecimento público. Ela destrói o corpo e corrompe a verdade. E um país que aprende a tolerar isso aprende a tolerar, também, a mentira como política de Estado.


A tortura como política pública informal

O livro descreve a passagem da tortura de abuso eventual para instituição. Não é metáfora. Há depoimentos judiciais que afirmam que “as torturas são uma instituição” e que presos serviram como instrumentos de demonstração em aulas para dezenas e até mais de cem militares.


Aula prática: quando presos viram “material didático”

Há trechos em que se relata uma aula em que, enquanto se projetavam slides sobre tortura, ela era demonstrada “na prática” em presos, usados como “cobaias”, diante de uma plateia de militares  . O texto ainda registra que a prova do caráter institucional não está só na aplicação, mas no ensino do método.

Esse é um marco conceitual: quando o Estado ensina a torturar, ele transforma a crueldade em currículo. E quando uma sociedade elege quem celebra esse passado, ela reabilita o currículo da barbárie.



Tecnologias do sofrimento: instrumentos, métodos, rotina

O catálogo de técnicas — pau-de-arara, choques, afogamento, isolamento — não é “curiosidade histórica”. É a cartografia de uma política. Cada método tem uma função: quebrar identidade, impor medo, produzir delação, fabricar confissão.

Há um detalhe que precisa ser sublinhado: não se trata apenas de “violência física”. A tortura é também engenharia psicológica: privação sensorial, humilhação, ameaça a familiares, manipulação do tempo, degradação. É a conversão do ser humano em objeto administrativo.


Violência sexual: humilhar para dominar

Em regimes de exceção, a violência sexual aparece como arma de domínio: não é “desvio”, é linguagem de poder. Ela comunica à vítima — e ao grupo social ao redor — que o Estado pode invadir o que há de mais íntimo. Do ponto de vista político, é uma “pedagogia do medo”: ensina que não há limite, nem pudor, nem proteção.



O alcance da repressão: sem idade, sem pudor, sem limite

Quando se diz que a tortura atingiu “todos”, isso não pode ser tratado como figura de estilo. O impacto moral é objetivo: não há fronteira etária, biológica ou familiar que seja respeitada por um Estado que decide torturar. O poder que se autoriza a fazer isso não está “combatendo o crime”; está combatendo a própria cidadania.



Perfil dos atingidos: juventude, escolaridade, capilaridade

Uma das contribuições centrais do projeto foi transformar a complexidade processual em dados para processamento estatístico  . Em 695 processos, foram levantados 7.367 nomes de pessoas levadas ao banco dos réus, com média próxima de 10 réus por processo — e casos extremos com 284 denunciados em uma única ação .

O dado que fere como um soco: 38,9% tinham 25 anos ou menos  . E, entre esses, há registro de pessoas que nem tinham 18 anos quando a ação penal começou a ser formada  . Em termos sociais, isso significa: a repressão escolheu a juventude como alvo preferencial — justamente o segmento que mais simboliza futuro e mudança.

Quem foi perseguido: estudantes, sindicalistas, militares legalistas, religiosos

A repressão é seletiva no discurso (“contra subversivos”), mas expansiva na prática. Ela invade a universidade, o sindicato, a caserna, a paróquia. O motivo é simples: regimes autoritários não temem só armas — temem redes sociais de sentido, organização e solidariedade.

E aqui aparece uma tese incômoda: a ditadura perseguiu não apenas opositores armados, mas também a possibilidade de um país politicamente adulto, capaz de discordar, organizar-se e exigir direitos.


Doutrina de Segurança Nacional: o “inimigo interno” como licença para tudo

A Doutrina de Segurança Nacional opera como gramática justificadora: inventa a figura do “inimigo interno” e, com isso, autoriza a suspensão de direitos como “necessidade”. É a fórmula clássica: para “salvar” a nação, destrói-se o cidadão.

Quando essa doutrina ressurge no debate público, travestida de saudosismo, ela faz algo perigosíssimo: reintroduz a ideia de que a democracia é dispensável quando “a ordem” está ameaçada.


DOI-CODI, OBAN e o aparelho operacional da tortura

A tortura não acontece no vácuo; ela precisa de prédio, cadeia de comando, logística, agentes, protocolos e encobrimento. O aparelho policial-militar foi essa infraestrutura. E quando se reabilita simbolicamente o torturador, reabilita-se, por tabela, a legitimidade do aparelho.


A subversão do Direito: quando a Justiça passa a premiar a prova imoral

A perversão não termina na sala de interrogatório. Ela chega ao processo. O livro descreve a valorização de interrogatórios em que, “pela tortura”, ocorreram acusações mútuas entre cônjuges e parentes — e a Justiça Militar, em vez de invalidar, ressaltava, havendo sentenças apoiadas exclusivamente nesse tipo de “prova”  .


Confissão sob coação: a “prova” que condena

O texto é explícito: as confissões extrajudiciais, geralmente obtidas sob “insuportáveis coações”, eram o suporte principal da acusação  . E, mesmo quando a lei exige espontaneidade e liberdade para a confissão valer como prova, a Justiça Militar considerava válidas as versões da polícia  .

Em linguagem simples: o processo foi sequestrado. O Direito virou cenário. A verdade virou refém.


Laudos e necropsias: a mentira com carimbo

O encobrimento alcançou a medicina legal. O livro relata que laudos necroscópicos frequentemente coincidiam com a “versão oficial” — “atropelamentos”, “suicídios”, “mortes em tiroteio” — omitindo evidências de tortura  . Há referência a médicos-legistas envolvidos no acobertamento e até na ocultação de cadáveres  , com exemplos nominados  .

Quando o Estado manipula laudo, ele faz mais do que mentir: ele institucionaliza a mentira como documento. E isso destrói o pacto mínimo de confiança que sustenta qualquer sociedade.


Eleger quem elogia e condecora torturador é insano

Aqui é preciso ser frontal, como pede o nosso tempo: não há normalidade democrática possível quando a sociedade naturaliza a exaltação de torturador.

Em 2016, Jair Bolsonaro, ainda deputado, dedicou seu voto no impeachment à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido judicialmente como torturador — episódio amplamente registrado e criticado à época (VEJA, 2019). 

Em 2019, já na Presidência, Bolsonaro voltou a exaltá-lo como “herói nacional” (REUTERS, 2019). 

O ponto não é “opinião”. É sanidade institucional. Um governo que eleva torturador à condição de herói está dizendo, na prática:

  • a violência de Estado pode ser justificada;
  • a dor do outro é negociável;
  • a democracia é secundária;
  • e o Estado de Direito pode ser flexionado “quando necessário”.


Esse tipo de cultura política não fica restrito ao passado. Ela reaparece — como padrão — quando o país enfrenta crises que exigem cuidado coletivo.



Da ditadura à pandemia: quando o negacionismo vira política de morte

A Organização Mundial da Saúde encerrou, em 5 de maio de 2023, a Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (PHEIC) referente à COVID-19, após mais de três anos de crise global. 

No Brasil, o saldo foi devastador: mais de 700 mil mortes aparecem reiteradamente em sínteses internacionais e jornalísticas recentes, além de painéis oficiais e bases consolidadas (OWID, s.d.; AP, 2025). 


Quando o Brasil elegeu um governo que apoiava a ditadura, pagou com mortes na pandemia

Não porque a ditadura “causou” o vírus — isso seria desonesto. Mas porque o imaginário político que romantiza a ditadura tende a romantizar a violência, desprezar a ciência, tratar empatia como fraqueza e responsabilidade pública como obstáculo. Em crise sanitária, isso vira política de Estado.

Há literatura científica descrevendo omissões do governo federal, obstrução de medidas de controle e uso de desinformação durante a pandemia (BIGONI et al., 2022). 

No plano institucional, a CPI da Pandemia, no Senado, produziu relatório com imputações e apontamentos de condutas graves associadas à gestão federal (SENADO FEDERAL, 2021). 

A ponte entre os dois mundos — ditadura e pandemia — é moral e administrativa:

  • Ditadura: tortura como método, mentira como laudo, confissão como prova, justiça como encenação.    
  • Pandemia: negação do risco, guerra contra medidas sanitárias, atraso e sabotagem de consensos técnicos, politização da morte e da vacina (BIGONI et al., 2022; SENADO FEDERAL, 2021).  


O resultado é o mesmo em termos de Estado: a vida vira variável política.

Se Brasil: Nunca Mais nos ensina que a tortura corrompe a verdade, a pandemia nos mostrou outro capítulo do mesmo livro: a desinformação corrompe o cuidado. E quando o cuidado é corrompido, o país enterra gente.

Conclusão: memória não é vingança — é defesa civil da democracia

O projeto Brasil: Nunca Mais deixou claro que não buscava “revanchismo” nem um “Nuremberg brasileiro”; buscava impacto moral e político: revelar o segredo dos porões para que “nunca mais se repitam” violências e injustiças  . Isso é, em essência, um pacto de civilização.

Mas pacto exige reciprocidade. Se uma sociedade decide eleger — e aplaudir — quem glorifica torturador, ela não apenas trai o pacto: ela sabota o futuro, porque reabilita a brutalidade como linguagem de governo. E, quando chega a próxima crise (sanitária, climática, econômica), esse mesmo repertório retorna: desprezo pela vida, desprezo pela verdade, desprezo pelo outro.

Por isso, o “nunca mais” não é um slogan. É uma infraestrutura ética: protege o corpo, protege o Direito, protege a ciência e protege a democracia. Sem ele, a história não volta como repetição exata — ela volta como padrão. E o padrão mata.


Referências


ARNS, Paulo Evaristo (Org.). Brasil: Nunca Mais: um relato para a história. Petrópolis: Vozes, 1985. 

BIGONI, A. et al. Brazil’s health system functionality amidst of the COVID-19 pandemic: an analysis of federal government omissions, obstruction, and disinformation. The Lancet Regional Health – Americas, 2022. 

FRANCE 24. Bolsonaro praises accused torturer and symbol of Brazil’s dictatorship as a “national hero”. 12 ago. 2019. 

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Statement on the fifteenth meeting of the IHR (2005) Emergency Committee regarding the COVID-19 pandemic. 5 maio 2023. 

OUR WORLD IN DATA (OWID). Brazil: Coronavirus Pandemic Country Profile. s.d. 

REUTERS. Brazil’s Bolsonaro extols convicted torturer as a “national hero”. 8 ago. 2019. 

SENADO FEDERAL. CPI da Pandemia: principais pontos do relatório / apresentação do relatório. Brasília, 2021. 

VEJA. Bolsonaro afirma que torturador Brilhante Ustra é um “herói nacional”. 2019. 

ASSOCIATED PRESS (AP). Bolsonaro’s conviction brings vindication for some Brazilians who lost loved ones to COVID-19. 2025. 


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

O esquecimento como projeto: morte, cinismo e a política das migalhas no Brasil

A pandemia de COVID-19 começou em março de 2020 e teve sua emergência sanitária internacional encerrada apenas em maio de 2023. Foram mais de três anos marcados por mortes, omissões e decisões políticas que custaram vidas no Brasil. Ainda assim, o país parece ter optado por esquecer. Para não esquecer — e para lembrar em 2026 — é preciso afirmar com clareza: não se tratou apenas de uma tragédia sanitária, mas de um divisor moral e político da história recente. Vidas se perderam não só por causa de um vírus, mas por escolhas deliberadas, desprezo público pela ciência e instrumentalização da fé e do medo. Lembrar não é revanchismo; é responsabilidade histórica. Esquecer, ao contrário, é permitir que o apagamento da memória coletiva e a política das migalhas se repitam, ferindo, desorientando e depois exigindo gratidão, como se nada tivesse acontecido.



Até quando o povo brasileiro correrá atrás das migalhas?

A pandemia de COVID-19 começou oficialmente em março de 2020. O estado de emergência sanitária internacional só foi encerrado pela Organização Mundial da Saúde em maio de 2023. Foram mais de três anos de uma crise que atravessou governos, instituições, famílias e corpos. Ainda assim, o Brasil parece ter decidido apagar essa história recente como se ela fosse um episódio incômodo demais para ser lembrado.

Não houve luto nacional. Não houve memória pública estruturada. Não houve responsabilização proporcional à dimensão da tragédia. Houve pressa. Pressa em “virar a página”, em declarar que “acabou”, em tratar como exagero qualquer tentativa de lembrar que centenas de milhares de mortes não foram apenas consequência de um vírus, mas também de decisões políticas concretas.

O esquecimento, aqui, não é distração. É projeto.


A pandemia não foi apenas sanitária. Foi política.

Entre março de 2020 e maio de 2023, o Brasil viveu uma das maiores crises sanitárias de sua história sob um governo que optou sistematicamente por confrontar a ciência. O negacionismo não foi acidente, foi discurso. O desprezo pela morte não foi deslize, foi método. A desinformação não foi ruído, foi estratégia.

Vacinas foram desdenhadas. Medicamentos ineficazes foram promovidos. Medidas de proteção coletiva foram ridicularizadas. A imprensa foi atacada. Especialistas foram desacreditados. Tudo isso enquanto o número de mortos crescia e a dor se acumulava nos lares brasileiros.

Encerrar o estado de emergência sanitária não encerra a responsabilidade histórica. Decretos expiram; decisões permanecem. Mortes não prescrevem.


A dança dos ministros e a escolha que revelou o método

Durante a pandemia, Jair Bolsonaro trocou sucessivamente os ministros da Saúde. Saíram aqueles que defendiam medidas baseadas em evidências científicas. Saíram os que insistiam em coordenação nacional, diálogo com estados, respeito às orientações sanitárias internacionais. Permaneceram apenas os que aceitavam subordinar a saúde pública à vontade política do presidente.

Ao final, Bolsonaro nomeou um general do Exército, Eduardo Pazuello, para comandar o Ministério da Saúde. Um militar sem formação médica, sem experiência em saúde pública, sem histórico de gestão sanitária. A pergunta precisa ser feita com clareza: por quê?

Porque não se buscava competência técnica. Buscava-se obediência. Um médico poderia resistir. Um sanitarista poderia dizer “não”. Um general obedece. A frase que se tornaria símbolo daquele período — “um manda, outro obedece” — não foi retórica: foi a síntese de uma doutrina de governo.

A militarização da saúde não foi solução; foi blindagem política. Substituiu-se ciência por hierarquia. Debate por ordem. Evidência por disciplina. O resultado foi previsível: descoordenação, caos logístico, atraso na compra de vacinas, colapsos regionais e mortes evitáveis. A população pagou o preço. O poder se protegeu.


O esquecimento como comportamento coletivo induzido

Passada a fase mais aguda da crise, algo ainda mais inquietante se consolidou: o silêncio. A ausência de memória. A normalização do apagamento. Como se lembrar fosse um incômodo moral grande demais para quem preferiu continuar apoiando, justificando ou relativizando.

Esse esquecimento não nasce da ignorância pura. Ele é induzido. Funciona como mecanismo de autoproteção psicológica e política. Esquecer para não confrontar. Esquecer para não admitir cumplicidade. Esquecer para seguir adiante sem ter de responder às perguntas difíceis.

Não é que o povo brasileiro seja incapaz de compreender. É que foi violentado simbolicamente, exaurido emocionalmente e bombardeado por uma guerra permanente de desinformação.


A galinha depenada: da parábola à realidade brasileira

Circula há anos uma história conhecida como a “parábola da galinha depenada”, falsamente atribuída a Hitler ou Stalin. Não há evidência histórica de que tal episódio tenha ocorrido. Mas sua força não está na literalidade — está no que ela descreve.

A alegoria é simples e cruel: primeiro, a violência. Depois, a humilhação. Em seguida, a fome. Por fim, pequenas migalhas lançadas pelo próprio agressor, suficientes para manter a dependência e a obediência.

No Brasil recente, essa não é uma fábula distante. É um padrão político reconhecível. Parte da população, ferida pela perda de familiares, empobrecida, desorientada, segue defendendo o líder que negou a ciência, atacou instituições e tratou a morte com desprezo. Não por lealdade consciente, mas por captura emocional e simbólica.

A galinha não corre atrás das migalhas por gratidão. Corre porque está ferida e com fome.


Fascismo como lógica, não como insulto

Quando se fala em fascismo ou nazismo neste contexto, não se trata de xingamento vazio. Trata-se de lógica de poder. Culto ao líder. Desprezo pela vida do “outro”. Ataque à ciência e à imprensa. Moralismo seletivo. Uso instrumental da fé. Militarização do discurso. Inversão constante entre vítima e algoz.

Essa lógica esteve presente no bolsonarismo. Foi sustentada pela família do ex-presidente, por aliados políticos, por setores do Congresso, por influenciadores digitais e por líderes religiosos que transformaram fé em anestésico político.


Família, princípios e fé depois da morte

É aqui que o cinismo se revela em sua forma mais cruel. Após centenas de milhares de mortes, emergem discursos sobre família, valores, princípios e Deus. A pergunta que se impõe é inevitável: que tipo de fé aceita a morte como método? Que princípio absolve a negligência deliberada? Que defesa da família ignora famílias inteiras destruídas pelo luto?

A fé, quando instrumentalizada politicamente, deixa de ser espiritualidade e passa a ser ferramenta de controle. O sofrimento vira prova de fidelidade. A crítica vira pecado. O silêncio vira virtude.


As migalhas: favor no lugar de direito

Depois da violência, vêm as migalhas. Auxílios tratados como favor pessoal. Políticas emergenciais convertidas em propaganda. Gratidão exigida em troca do mínimo. O mesmo líder que negou a ciência se apresenta como salvador. O mesmo grupo que produziu o caos exige reconhecimento.

É a política da dependência simbólica: retirar, ferir, humilhar — e depois oferecer o suficiente para manter o vínculo.


O ciclo que ameaça se repetir

Quem esquece, absolve. Quem absolve, repete. O apagamento da pandemia prepara o terreno para novas tragédias. A ausência de responsabilização normaliza a morte como custo político aceitável. A democracia se fragiliza quando a memória coletiva é sabotada.



Até quando o povo brasileiro correrá atrás das migalhas?

A emergência sanitária internacional terminou em maio de 2023. A responsabilidade histórica, não. Um povo que esquece seus mortos corre o risco de seguir novamente quem o feriu. Não por maldade, mas por desorientação. Não por burrice, mas por violência simbólica acumulada.

A pergunta que fica não é retórica. É ética e política: até quando aceitaremos migalhas depois da morte, da mentira e do desprezo pela vida?