segunda-feira, 16 de março de 2026

Feminismo: o nome político de uma longa recusa

 Mais do que caricatura, o feminismo é a linguagem histórica usada para recusar que desigualdade seja tratada como destino



Índice

  1. Lide
  2. O problema das caricaturas
  3. O que o feminismo realmente recusou
  4. Das primeiras formulações à pluralização do movimento
  5. Feminismo não é bloco único: correntes, disputas e inflexões
  6. Direitos, linguagem e transformação institucional
  7. O feminismo diante de suas próprias tensões
  8. Por que o antifeminismo precisa deformar o feminismo
  9. O caso brasileiro: desigualdade, reação e reinvenção
  10. Feminismo como gramática crítica do presente
  11. Conclusão
  12. Perguntas frequentes
  13. Pontos relevantes
  14. Indicação de livros
  15. Referências




Lide



Poucas palavras foram tão atacadas, simplificadas e caricaturadas quanto “feminismo”. Para alguns, ela foi reduzida a exagero. Para outros, a guerra entre sexos. Em discursos mais reativos, tornou-se sinônimo de radicalismo irracional, ressentimento ou negação dos homens. Essas caricaturas, porém, dizem menos sobre o feminismo do que sobre o incômodo que ele provoca. Porque, em seu núcleo histórico mais profundo, o feminismo nunca foi simples identidade emocional nem slogan de ocasião. Foi, e continua sendo, uma linguagem política de recusa. Recusa a aceitar que a desigualdade entre homens e mulheres seja lida como natureza. Recusa a tratar violência como costume. Recusa a chamar subordinação de destino. Recusa a confundir tradição com justiça. Ao longo do tempo, essa recusa assumiu formas diferentes, correntes distintas, agendas às vezes convergentes e às vezes conflitivas. Mas permaneceu ligada a uma ideia central: a de que a ordem social, tal como foi organizada, distribuiu de maneira desigual liberdade, poder, reconhecimento e dignidade. Chamar isso pelo nome foi, desde o início, um ato político.



O problema das caricaturas



Toda força crítica relevante costuma ser atacada por caricaturas. Com o feminismo, isso ocorreu de maneira sistemática. Em vez de ser discutido como tradição intelectual, ética e política complexa, ele foi frequentemente apresentado como raiva difusa, ressentimento organizado ou tentativa de inverter hierarquias sem produzir justiça. A caricatura cumpre função clara: evita o debate real.


Quando alguém reduz o feminismo a “ódio aos homens”, dispensa-se de enfrentar sua crítica às estruturas que normalizaram a desigualdade. Quando o trata como moda ideológica, foge da história concreta de exclusão educacional, política, econômica e simbólica das mulheres. Quando o transforma em exagero contemporâneo, apaga séculos de lutas por cidadania, trabalho digno, autonomia corporal, proteção contra a violência e reconhecimento intelectual.


Bell hooks foi especialmente precisa ao lembrar que o feminismo, em seu sentido político mais sério, não é hostilidade aos homens, mas enfrentamento do sexismo, da exploração sexista e da opressão baseada em gênero (Hooks, 2018). Essa formulação é importante porque devolve o debate ao seu eixo. O problema nunca foi a existência de homens como indivíduos. O problema é a estrutura que naturalizou privilégios masculinos e subalternizou mulheres em múltiplos planos da vida social.


A caricatura também produz outro efeito: torna o feminismo desnecessário no imaginário público. Se ele é apenas exagero, não há por que levá-lo a sério. Se é guerra entre sexos, pode ser descartado como paixão ideológica. Se é caricatural, não precisa ser lido. É precisamente por isso que a leitura rigorosa se impõe. O feminismo não deve ser defendido como palavra intocável, mas compreendido como tradição de crítica social cuja existência histórica responde a uma desigualdade histórica real.



O que o feminismo realmente recusou



Se fosse preciso condensar o feminismo numa fórmula breve, talvez a mais honesta fosse esta: o feminismo recusou a naturalização da subordinação. Essa recusa atingiu diversos campos. Recusou a ideia de que a mulher seria intelectualmente menor por natureza. Recusou a crença de que seu lugar social legítimo estaria restrito ao lar. Recusou a normalização da violência doméstica e sexual. Recusou a exclusão da educação, do voto, da vida pública e da produção do conhecimento. Recusou, por fim, que tudo isso fosse tratado como destino inevitável.


Simone de Beauvoir formulou uma das frases mais célebres do pensamento feminista ao afirmar que “não se nasce mulher: torna-se mulher” (Beauvoir, 2009). A força dessa ideia está em mostrar que aquilo que parecia natureza era, em larga medida, produção social. O feminino, tal como organizado historicamente, não era dado puro da biologia, mas resultado de processos educativos, morais, jurídicos e culturais que transformavam diferença em hierarquia.


O feminismo, então, não surgiu apenas para reclamar respeito abstrato. Surgiu para desmontar mecanismos concretos de desigualdade. Quando mulheres reivindicaram educação, não estavam pedindo ornamento cultural; estavam disputando autonomia. Quando exigiram voto, não pediam delicadeza republicana; exigiam cidadania. Quando denunciaram violência, não dramatizavam a vida privada; expunham a brutalidade de uma ordem patriarcal. Quando criticaram a divisão sexual do trabalho, não rejeitavam a família em si; questionavam sua organização desigual.


Heleieth Saffioti mostrou que patriarcado, violência e desigualdade devem ser lidos como estrutura social, e não como resíduos morais dispersos (Saffioti, 2015). A recusa feminista se dirige exatamente a isso: à transformação histórica da desigualdade em normalidade social.



Das primeiras formulações à pluralização do movimento



O feminismo não nasceu pronto nem único. Ele foi se formando historicamente em meio a contextos diferentes, agendas específicas e disputas internas. Em seus momentos iniciais mais conhecidos, especialmente nos séculos XVIII e XIX, destacou-se a crítica à exclusão feminina da educação, da cidadania civil e da vida política. Mary Wollstonecraft, por exemplo, já denunciava que a suposta inferioridade das mulheres devia muito mais à negação de formação adequada do que a qualquer limitação natural (Wollstonecraft, 2016).


Com o avanço da industrialização e da modernidade política, novas pautas ganharam força: sufrágio, trabalho, direitos civis, participação pública, legislação matrimonial, acesso à universidade. Em contextos operários e socialistas, o feminismo dialogou com crítica ao capitalismo e à exploração do trabalho feminino. Em contextos liberais, insistiu mais fortemente em igualdade jurídica e representação política. Em ambientes conservadores, enfrentou barreiras morais e religiosas mais diretas. Em todos eles, porém, permaneceu a mesma pergunta de fundo: por que a mulher continua sendo tratada como sujeito menor?


Ao longo do século XX, o feminismo se pluralizou ainda mais. A crítica deixou de se limitar ao acesso a direitos formais e passou a enfrentar sexualidade, corpo, maternidade, violência, divisão do trabalho doméstico, linguagem, cultura, mídia, produção do conhecimento e representação simbólica. Não se tratava mais apenas de incluir mulheres na ordem existente, mas também de interrogar a própria ordem.


Essa pluralização foi importante porque mostrou que a desigualdade de gênero não estava concentrada num único ponto. Ela atravessava toda a vida social. O feminismo passou, então, de pauta específica a gramática crítica ampla.



Feminismo não é bloco único: correntes, disputas e inflexões



Um dos erros mais frequentes no debate público é falar do feminismo como se ele fosse bloco homogêneo, sem tensões, diferenças ou disputas internas. Não é. Existem feminismos. E essa pluralidade não enfraquece o campo; revela sua vitalidade histórica.


Há feminismos liberais, mais focados em igualdade jurídica e de oportunidades. Há feminismos socialistas e marxistas, que articulam gênero à crítica do trabalho, da propriedade e da exploração econômica. Há feminismos radicais, preocupados em identificar o patriarcado como sistema profundo de dominação. Há feminismos negros, que denunciam a universalização indevida da experiência de mulheres brancas e mostram a centralidade de raça e classe. Há feminismos decoloniais e latino-americanos, que criticam os limites eurocêntricos de certas formulações e colocam colonialidade, território e violência histórica no centro da análise.


Angela Davis foi decisiva ao mostrar que não é possível pensar a condição das mulheres sem raça e classe, sob pena de se construir um feminismo parcial, confortável e excludente (Davis, 2016). Lélia Gonzalez, no contexto brasileiro e latino-americano, aprofundou esse movimento ao evidenciar que o feminismo precisa ser atravessado pela experiência histórica de mulheres negras, pobres e periféricas, e não apenas agregar essas experiências como apêndice posterior (Gonzalez, 2020).


Essas diferenças importam porque impedem dogmatismo. Também revelam que o feminismo não é seita ideológica rigidamente uniforme. É campo de disputa, elaboração e crítica. Seu mérito histórico não está em oferecer unanimidade, mas em abrir espaço para que desigualdades antes naturalizadas fossem nomeadas, discutidas e enfrentadas.



Direitos, linguagem e transformação institucional



O feminismo produziu efeitos concretos. Alterou leis, mudou currículos, pressionou instituições, reconfigurou linguagens, ampliou direitos, transformou sensibilidades e obrigou a política a lidar com temas que antes eram mantidos no silêncio. Sua força não esteve apenas na denúncia, mas também na capacidade de formulação.


Direitos civis, acesso à educação, sufrágio, proteção contra violência, revisão de legislações discriminatórias, crítica à desigualdade salarial, questionamento da sobrecarga do cuidado, enfrentamento do assédio e do controle do corpo feminino: tudo isso foi profundamente marcado por gramáticas feministas. Mesmo pessoas que rejeitam a palavra “feminismo” frequentemente vivem em sociedades transformadas por vitórias que ele ajudou a produzir.


Judith Butler mostrou que parte importante da crítica feminista consiste em questionar os enquadramentos normativos que definem quais vidas serão reconhecidas como plenamente dignas, inteligíveis e protegidas (Butler, 2003). Isso ajuda a entender que o feminismo não age apenas no nível institucional imediato. Ele atua também no plano da linguagem. Muda o que pode ser dito, percebido e denunciado. Torna visíveis dores antes tratadas como privadas. Dá nome a violências antes banalizadas. Expõe estruturas onde antes se falava apenas de casos.


Quando uma sociedade passa a reconhecer que a violência doméstica não é “briga de casal”, que o assédio não é elogio, que o trabalho doméstico não é dever natural da mulher, que desigualdade salarial não é acaso, que o corpo feminino não é território de tutela — há aí, em alguma medida, efeito de longo prazo da crítica feminista. O feminismo altera não apenas normas; altera percepção.



O feminismo diante de suas próprias tensões



Nenhuma tradição crítica madura escapa de tensões internas. O feminismo também não. Houve momentos em que determinadas correntes universalizaram experiências localizadas e trataram como padrão a trajetória de mulheres brancas, ocidentais e de classe média. Houve disputas sobre sexualidade, maternidade, trabalho, prostituição, pornografia, identidades, estratégias de ação e relação com o Estado. Houve, em suma, conflitos reais.


Essas tensões não invalidam o feminismo. Ao contrário, mostram que ele é campo vivo. O que seria intelectualmente fraco é fingir que não existem diferenças ou tratar qualquer divergência como prova de fracasso. Um movimento que atravessa séculos, países, classes, raças e regimes políticos inevitavelmente se diversifica.


Patricia Hill Collins argumenta que matrizes de dominação diferentes exigem leituras capazes de perceber como opressões se articulam e também como perspectivas feministas podem ampliar ou reduzir seu alcance conforme o ponto de vista que tomam por central (Collins, 2019). Esse alerta ajuda a entender por que o feminismo precisou ser criticado de dentro: para se tornar mais complexo, mais atento e mais justo.


Há, portanto, um aprendizado importante aqui. A pluralidade interna do feminismo não é defeito acidental. É parte de sua história. Porque a desigualdade de gênero nunca incide sobre uma humanidade abstrata. Incide sobre mulheres situadas em posições sociais diferentes. Se o feminismo quer levar isso a sério, precisa também suportar a complexidade de sua própria autocrítica.



Por que o antifeminismo precisa deformar o feminismo



Se o feminismo é, em sua essência, uma recusa da desigualdade naturalizada, torna-se fácil entender por que ele provoca reações tão intensas. Toda estrutura de privilégio tende a se defender. E uma das formas mais eficientes de defesa é a deformação do adversário. O antifeminismo precisa caricaturar o feminismo porque, se o tratasse com precisão, teria de enfrentar a força de suas perguntas.


É mais fácil dizer que feministas odeiam homens do que responder por que mulheres ainda recebem menos reconhecimento, carregam mais cuidado, sofrem mais violência e enfrentam mais barreiras à autoridade. É mais confortável ridicularizar o termo do que discutir a história da exclusão feminina da cidadania, do conhecimento e do poder. A caricatura funciona como blindagem.


Susan Faludi mostrou como momentos de avanço feminino costumam ser acompanhados por reações culturais que tentam recolocar mulheres em posição anterior, frequentemente por meio de narrativas de medo, ridicularização ou culpa (Faludi, 2001). Esse padrão continua atual. O feminismo é atacado porque mexe com estruturas que, embora desgastadas, ainda organizam muito da vida social.


O antifeminismo não combate apenas uma palavra. Combate a possibilidade de que desigualdades antigas deixem de parecer normais.



O caso brasileiro: desigualdade, reação e reinvenção



No Brasil, o feminismo ganhou formas específicas ao dialogar com racismo estrutural, desigualdade social profunda, tradição patriarcal, colonialidade e violência histórica. Aqui, a crítica feminista não podia limitar-se a replicar esquemas europeus ou norte-americanos. Precisou enfrentar uma sociedade em que gênero se combina fortemente com classe e raça.


Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro foram fundamentais nesse processo, ao demonstrar que a condição das mulheres negras brasileiras exigia deslocamento decisivo na pauta feminista, sob pena de universalização indevida da experiência das mulheres brancas (Gonzalez, 2020; Carneiro, 2011). Isso produziu uma ampliação real do debate. O feminismo brasileiro se tornou mais denso quando passou a escutar mais seriamente as vozes que a desigualdade empurrava para a margem.


Ao mesmo tempo, o Brasil vive forte reação antifeminista, muitas vezes travestida de defesa da família, da moral ou da tradição. Nessa reação, o feminismo é tratado como ameaça cultural, e não como crítica legítima à desigualdade. O padrão é antigo: quando mulheres ampliam autonomia e visibilidade, cresce o esforço para recolocar seu avanço sob suspeita.


Ainda assim, o feminismo no Brasil segue reinventando linguagem, prática e alianças. Está presente na universidade, nas ruas, nos movimentos negros, em coletivos periféricos, nas disputas por memória, nas críticas ao trabalho invisível, nas denúncias de violência e nos debates sobre representação política. Sua força está justamente nessa capacidade de continuar nomeando o que a sociedade gostaria de naturalizar.



Feminismo como gramática crítica do presente



Depois de percorrer trabalho, corpo, educação, voto, apagamento histórico, interseccionalidade, experiência das mulheres negras, dupla jornada, violência, política e produção do conhecimento, torna-se mais fácil perceber por que o feminismo não é tema isolado. Ele funciona como gramática crítica que conecta essas dimensões.


O feminismo fornece vocabulário para dizer que a desigualdade não é casual. Dá forma analítica àquilo que antes parecia apenas sofrimento individual. Liga experiência privada a estrutura pública. Traduz dor em categoria política. Permite reconhecer padrões onde antes se via apenas azar ou destino. É por isso que sua relevância ultrapassa a identidade militante. Ele se tornou uma das grandes linguagens contemporâneas de crítica à naturalização da injustiça.


Isso não significa transformar o feminismo em doutrina única ou acima de crítica. Significa reconhecer sua estatura histórica. Poucas tradições conseguiram expor com tanta persistência o quanto a ordem social dependeu de transformar a subordinação das mulheres em hábito, norma e moral.



Conclusão



Feminismo é o nome político de uma longa recusa porque, desde suas formulações mais antigas até suas expressões mais complexas do presente, ele se voltou contra a tentativa de tratar desigualdade como natureza e subordinação como destino. Foi caricaturado, sim, porque toda crítica forte incomoda. Foi plural, disputado e por vezes contraditório, porque nenhuma tradição viva atravessa a história sem tensões. Mas sua contribuição é incontornável: deu linguagem à denúncia da desigualdade e ajudou a formular direitos, críticas e horizontes de transformação.


O feminismo não precisa ser romantizado para ser levado a sério. Basta ser lido com honestidade histórica. O que ele recusou foi profundo demais para caber nas caricaturas que lhe lançaram. Recusou a exclusão educacional, o silêncio político, a naturalização da violência, a tutela sobre o corpo, a divisão desigual do trabalho, o apagamento intelectual e a redução da mulher à função que a ordem patriarcal lhe reservava.


Depois dessa travessia, a série chega à sua pergunta final. Se a história das mulheres não cabe em homenagens vazias, então como homenagear de verdade? A resposta já começa a se insinuar: não com reverência abstrata, mas com memória, lucidez e compromisso concreto com transformação.



Perguntas frequentes




1. Feminismo é a mesma coisa que ódio aos homens?



Não. Feminismo é crítica ao sexismo, à desigualdade de gênero e às estruturas que naturalizam a subordinação das mulheres.



2. Existe apenas um feminismo?



Não. Existem correntes e tradições feministas diferentes, com ênfases e disputas internas diversas.



3. O feminismo é só um movimento contemporâneo?



Não. Ele tem longa trajetória histórica, ligada a lutas por educação, voto, trabalho, autonomia corporal, proteção contra violência e igualdade política.



4. Por que o feminismo é tão caricaturado?



Porque ele questiona privilégios e estruturas naturalizadas. A caricatura funciona como forma de evitar enfrentar suas críticas reais.



5. Reconhecer as tensões internas do feminismo enfraquece sua importância?



Não. Mostra apenas que se trata de tradição viva, plural e capaz de autocrítica.



Pontos relevantes



  • O feminismo recusou a naturalização histórica da subordinação das mulheres.
  • Suas caricaturas escondem a força real de sua crítica social.
  • Não existe um único feminismo, mas um campo plural de disputas e formulações.
  • O feminismo ajudou a transformar linguagem, direitos e instituições.
  • Sua relevância está em ligar experiências individuais a estruturas históricas de poder.




Indicação de livros



  • Beauvoir, Simone de. O segundo sexo.
  • Hooks, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras.
  • Gonzalez, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos.




Referências



Beauvoir, S. de. O segundo sexo. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. 2 v.


Butler, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.


Carneiro, S. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011.


Collins, P. H. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. São Paulo: Boitempo, 2019.


Davis, A. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.


Faludi, S. Backlash: o contra-ataque na guerra não declarada contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.


Gonzalez, L. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.


Hooks, B. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.


Saffioti, H. I. B. Gênero, patriarcado, violência. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2015.


Wollstonecraft, M. Reivindicação dos direitos da mulher. São Paulo: Boitempo, 2016.


Liberalismo social, neoliberalismo e democracia sob pressão: Entender como a promessa de liberdade passou a disputar espaço com a desigualdade, o mercado e a crise das instituições


Lide

Compreender a política contemporânea exige enfrentar uma pergunta desconfortável: de que liberdade se está falando? Em nome dela, defender o mercado; em nome dela, defender direitos sociais; em nome dela, atacar o Estado; em nome dela, exigir que o próprio Estado proteja os mais vulneráveis. O conflito não é pequeno. Ele estrutura boa parte das disputas do presente. De um lado, afirmar que a liberdade individual só se realiza plenamente quando existir acesso concreto a educação, saúde, alimentação e oportunidades. De outro, sustentar que a intervenção estatal tende a sufocar a autonomia e a corroer a vitalidade econômica. No meio dessa tensão, manter a democracia em funcionamento, ainda que ela própria esteja cercada por desigualdade, judicialização, polarização e manipulação informacional. Esse é o terreno real do debate político atual (Dionizio, 2019).

Ler a liberdade para além do slogan

A palavra “liberdade” costuma circular no debate público como se fosse autoexplicativa. Não é. A tradição liberal preserva, em suas diferentes correntes, dois eixos permanentes: a centralidade da liberdade individual e a preservação de espaço para a ação do mercado. Mas isso está longe de encerrar a discussão. A divergência decisiva aparece quando surge a desigualdade social como problema concreto. Nesse ponto, as famílias liberais se separam. Algumas entendem que a competitividade e a liberdade econômica tenderiam a produzir, por si, soluções sociais. Outras sustentam que sem alguma regulação pública a liberdade vira ficção para amplas parcelas da população (Dionizio, 2019).

O impasse é profundo. Não basta proclamar direitos abstratos em uma sociedade atravessada por fome, precarização, desemprego estrutural e concentração de renda. A liberdade formal pode existir no papel e ainda assim fracassar na vida concreta. O sujeito é declarado livre, mas lhe faltam as condições mínimas para exercer essa liberdade. É nesse ponto que o liberalismo social ganha relevância teórica e política.

Discutir o liberalismo social

O liberalismo social parte de uma distinção decisiva: a diferença entre garantir liberdade apenas em sentido negativo e construir condições para que ela seja exercida de maneira efetiva. Nessa formulação, a ausência de educação, alimentação e saúde pode representar uma ameaça direta à liberdade do indivíduo. A liberdade deixa de ser entendida apenas como ausência de impedimento e passa a ser pensada também como capacidade real de viver, escolher e participar (Dionizio, 2019).

Os chamados “novos liberais”, entre eles Leonard Trelawny Hobhouse e Thomas Hill Green, defenderam que o indivíduo necessita de apoio estatal para atingir a liberdade que a tradição liberal promete. Isso significa admitir intervenção do Estado na cultura, na economia e na sociedade, não para abolir a autonomia individual, mas para torná-la possível. A formulação é importante porque desloca o debate: não se trata de opor liberdade e Estado como se fossem inimigos naturais, mas de avaliar quando a ação estatal pode ser condição de possibilidade da própria liberdade (Dionizio, 2019).

Essa corrente não propõe um Estado totalitário. Pelo contrário. Sua lógica é a de um Estado regulador, legítimo enquanto garante acesso e reduz assimetrias abusivas entre instituições e indivíduos. Nessa perspectiva, não caberia ao poder público monopolizar toda a provisão de bens e serviços, mas assegurar que as pessoas possam efetivamente acessar direitos básicos. Daí a defesa de políticas públicas, da colaboração social de instituições privadas, da saúde básica custeada pelo Estado, da regulação econômica e da existência de salário mínimo (Dionizio, 2019).

Em síntese, o liberalismo social organiza-se em torno de três fundamentos: preservar a liberdade individual, admitir regulação estatal para proteger essa liberdade no plano concreto e compreender a justiça como esforço de redução das desigualdades sociais. Não se trata de negar o mercado, mas de recusar sua transformação em instância suprema da vida coletiva. O mercado pode organizar trocas; não pode, sozinho, produzir justiça (Dionizio, 2019).

Esse ponto merece atenção crítica. Em sociedades muito desiguais, a defesa abstrata da liberdade pode facilmente converter-se em privilégio socialmente blindado. Quem dispõe de renda, escolaridade, redes de proteção e patrimônio consegue transformar liberdade formal em liberdade efetiva. Quem não dispõe, muitas vezes recebe apenas o discurso. Nesse sentido, insistir no liberalismo social é insistir que não basta abrir a porta; é preciso garantir que a travessia seja possível.

Carlos Estevam Martins aprofunda esse problema ao examinar a tensão entre liberalismo e justiça social. Ao discutir o social-liberalismo, o autor destaca formulações que afirmam a indissolubilidade entre liberdade e igualdade, além da necessidade de reconhecer a liberdade também em sentido positivo, como poder de realizar coisas meritórias ou delas usufruir. A crítica é relevante porque impede reduzir o liberalismo a uma versão dogmática do individualismo econômico (Martins, 2003).

Explicar o neoliberalismo

Se o liberalismo social busca compatibilizar liberdade e proteção social, o neoliberalismo recoloca o mercado no centro da organização da vida econômica e política. Seu sentido histórico mais conhecido está na retomada, entre as décadas de 1970 e 1980, de fundamentos do liberalismo clássico, especialmente o princípio do laissez-faire, o “deixar fazer”. Nessa gramática, o mercado seria a esfera mais apta para coordenar escolhas, distribuir recursos e impulsionar eficiência, enquanto o Estado passa a ser visto com profunda desconfiança (Dionizio, 2019).

Ludwig von Mises aparece como referência importante dessa inflexão. Em sua formulação, o Estado e suas estruturas de poder não seriam confiáveis, sobretudo no que diz respeito à proteção das liberdades individuais. A Escola Austríaca, em seguida, consolidaria parte significativa da reflexão neoliberal, aprofundando a crítica ao intervencionismo. Friedrich Hayek se tornaria um de seus principais nomes ao adaptar o liberalismo clássico ao século XX e sustentar que a intervenção estatal conduz à perda de liberdade, chegando a associar formas extremas de intervencionismo a experiências autoritárias (Dionizio, 2019).

A Escola de Chicago, particularmente com Milton Friedman, reforçou essa reorientação. A crítica a regulamentações econômicas, ao salário mínimo e ao papel expansionista do Estado fez do neoliberalismo mais que uma doutrina econômica; fez dele um projeto de reorganização social. Seu efeito histórico foi amplo: reduzir o peso do Estado em determinadas áreas, ampliar a confiança no mercado, promover reformas pró-competição e converter eficiência econômica em critério predominante de legitimidade.

Mas o neoliberalismo não pode ser analisado apenas por sua promessa de eficiência. É preciso observar seus efeitos concretos. Margaret Thatcher tornou-se um dos símbolos mais conhecidos dessa agenda. Seu governo estabilizou a libra esterlina e reduziu a carga tributária, mas também aprofundou a desigualdade: os mais ricos ampliaram sua renda, enquanto os mais pobres não acompanharam esse movimento (Dionizio, 2019).

No caso chileno, o vínculo entre neoliberalismo e autoritarismo tornou-se ainda mais perturbador. Augusto Pinochet implementou reformas econômicas de inspiração neoliberal com apoio intelectual da Escola de Chicago e de Hayek, porém em um contexto marcado por golpe, torturas, assassinatos e graves violações de direitos humanos. Isso desmonta uma simplificação recorrente: não existir vínculo automático entre liberalização econômica e ampliação da dignidade humana. Mercado livre e sociedade justa não são sinônimos necessários (Dionizio, 2019).

A crítica de Martins ajuda a tensionar ainda mais esse quadro. Para o autor, o liberalismo, em muitas de suas versões, tenta apresentar-se como inclusivo e ecleticamente aberto, embora mantenha um núcleo duro de defesa da liberdade individual e resistência a concepções mais densas de justiça social. A disputa, portanto, não é apenas econômica; é ideológica. Está em jogo o esforço de definir o que deve ser tratado como liberdade legítima e o que será descartado como excesso democrático ou demanda igualitária indevida (Martins, 2003).

Descrever o cenário democrático contemporâneo

Apesar de suas falhas, a democracia continua sendo o regime mais apto a preservar escolha, oposição, divergência e pluralidade. Seu valor não reside em eliminar o conflito, mas em permitir que ele seja processado politicamente sem que a diferença seja, por princípio, aniquilada. Esse ponto é central no debate contemporâneo. Democracia não é paz artificial; é conflito institucionalizado sob regras que impedem a conversão do adversário em inimigo absoluto (Dionizio, 2019).

Ainda assim, o cenário atual é de pressão permanente. A democracia contemporânea convive com a ascensão de lideranças autoritárias eleitas pelo próprio voto popular, com a intensificação da polarização, com o desgaste da representação e com a corrosão do debate público por meio da desinformação. A expansão tecnológica multiplicou vozes, mas também barateou a mentira em escala industrial. A fake news deixou de ser ruído lateral e passou a funcionar como método de disputa do imaginário político (Dionizio, 2019).

Somar a isso a judicialização da política significa entrar em uma zona ainda mais delicada. A ampliação do protagonismo judicial pode responder a impasses institucionais reais, mas também pode produzir desequilíbrios entre os poderes. Quando um poder cresce sem contrapesos proporcionais, a democracia continua existindo formalmente, porém sua mecânica perde estabilidade. O que deveria ser sistema de equilíbrio corre o risco de tornar-se arranjo assimétrico.

Há ainda um conflito de fundo entre tradição liberal e exigência democrática. Martins observa que democracia e liberalismo não são conceitos idênticos. A democracia implica governo do povo; o liberalismo, em muitas formulações, procura limitar o alcance da ação estatal às relações formais entre indivíduos, resistindo a funções mais amplas de configuração das esferas econômica e cultural. Daí a tensão permanente: a democracia frequentemente exige mais do que o liberalismo clássico está disposto a conceder (Martins, 2003).

Essa observação é crucial para o presente. Em momentos de crise, parte do discurso liberal tende a desconfiar da maioria, do popular, da mobilização social e da ampliação substantiva da igualdade. Ao mesmo tempo, democracias que não enfrentam desigualdades estruturais tornam-se frágeis, manipuláveis e vulneráveis a soluções autoritárias vendidas como respostas simples. A democracia adoece tanto por excesso de arbítrio quanto por déficit de cidadania material.

Mas o quadro não é apenas regressivo. A contemporaneidade democrática também é marcada pela maior visibilidade de grupos historicamente marginalizados e por lutas por reconhecimento, proteção e igualdade. Mulheres, população negra, população LGBT e outros grupos minorizados ampliaram presença pública e capacidade de reivindicação. Isso não é detalhe lateral. É parte substantiva da vitalidade democrática. Onde há democracia viva, há disputa por direitos. Onde toda reivindicação é tratada como ameaça à ordem, costuma faltar democracia de verdade.

Concluir o impasse do presente

Chegar ao coração do problema significa reconhecer que liberdade, mercado e democracia não se articulam automaticamente em harmonia. O liberalismo social procura mostrar que sem condições materiais mínimas a liberdade vira retórica. O neoliberalismo insiste em devolver ao mercado a primazia organizadora da vida econômica e, por extensão, da própria imaginação política. A democracia, por sua vez, precisa equilibrar pluralismo, legitimidade institucional e participação popular em meio a um ambiente de desigualdade, judicialização e desinformação.

O grande risco contemporâneo está em naturalizar a falsa escolha entre liberdade e justiça. Quando isso acontece, a liberdade costuma ficar para os fortes e a justiça, para o discurso. O desafio político mais sério talvez seja outro: construir um arranjo institucional no qual a liberdade individual não sirva de álibi para o abandono social, no qual o Estado não se converta em máquina opressiva e no qual a democracia preserve sua capacidade de garantir oposição, crítica e expansão de direitos.

Defender a democracia, hoje, exige mais do que celebrar eleições. Exige enfrentar a desigualdade que esvazia a cidadania, conter a mentira organizada que contamina a deliberação pública e recusar a idolatria do mercado como se ele pudesse, sozinho, produzir civilização. Liberdade sem condições concretas tende a virar privilégio. Mercado sem limites tende a produzir concentração. Democracia sem compromisso material com a cidadania tende a tornar-se casca institucional. O nome do impasse é esse. E adiá-lo já não parece uma opção razoável.

Referências

Dionizio, M. J. Política contemporânea. In: Filosofia contemporânea. Porto Alegre: Sagah, 2019.

Martins, C. E. Liberalismo: o direito e o avesso. Dados: Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 46, n. 4, p. 619-660, 2003.


Transformação digital não é aplicativo novo: é mudança de poder, cultura e estratégia

Quando a tecnologia entra sem revisão de processos, sem liderança preparada e sem inteligência organizacional, o que se moderniza é a aparência — não o negócio


A expressão “transformação digital” já foi tão repetida que, em muitos ambientes, perdeu densidade. Virou palavra de reunião, slide de consultoria, promessa de eficiência e senha de modernidade. Mas basta olhar com um pouco mais de rigor para perceber que boa parte das organizações ainda trata o tema de forma superficial. Compra-se software, abre-se canal on-line, automatiza-se uma etapa, digitaliza-se um formulário e, de repente, anuncia-se uma revolução. Não é. Na maior parte das vezes, isso é apenas informatização do que já existia.

A transformação digital real é mais exigente. Ela não muda apenas as ferramentas; muda a lógica da organização. Altera a forma de produzir valor, de tomar decisão, de se relacionar com clientes, de organizar fluxos internos, de lidar com dados, de treinar pessoas e de competir. Em outras palavras, não se trata apenas de colocar tecnologia dentro da empresa. Trata-se de reorganizar a empresa a partir das novas condições tecnológicas, informacionais e competitivas do presente. O material-base desta discussão deixa isso claro ao mostrar que a transformação digital vai além da adoção de recursos tecnológicos e alcança estratégias, estruturas, processos e cultura organizacional.

Esse ponto é decisivo porque separa duas coisas que frequentemente aparecem misturadas no debate público: modernização tecnológica e transformação organizacional. A primeira pode ocorrer com compras, contratos e sistemas. A segunda exige revisão de mentalidade, de prioridades e de modelo de negócio. A primeira pode ser rápida. A segunda quase nunca é.

Antes da transformação, vieram a digitização e a digitalização

Para entender melhor o tema, vale recuperar um percurso conceitual que costuma ser negligenciado. O texto-base distingue etapas que ajudam a clarificar o debate.

A primeira é a digitização, isto é, a conversão da informação analógica em formato digital, permitindo que ela passe a ser processada por recursos computacionais. Em seguida vem a digitalização, etapa em que a tecnologia começa a reorganizar rotinas, processos e serviços em diferentes segmentos. Só depois se chega à transformação digital, que ocorre quando a tecnologia deixa de ser uma ferramenta acessória e passa a remodelar o funcionamento da organização em um nível mais profundo.

Essa distinção parece técnica, mas ela é politicamente importante. Por quê? Porque impede a banalização do conceito. Uma empresa pode digitalizar documentos sem transformar seu processo decisório. Pode automatizar tarefas sem rever sua cultura. Pode criar um portal moderno e continuar presa a práticas lentas, hierarquizadas e desarticuladas. É como trocar a fachada de um edifício em ruínas: melhora a imagem, mas não resolve o problema estrutural.

Transformação digital, portanto, não é um ato isolado. É uma passagem de estágio. Ela marca o momento em que tecnologia, informação, gestão e estratégia deixam de operar separadamente.

O maior erro das organizações: confundir ferramenta com mudança

Há um equívoco recorrente no mundo corporativo e institucional: imaginar que a presença da tecnologia, por si só, representa transformação. Essa visão é confortável porque simplifica tudo. Se o problema é só técnico, basta contratar solução técnica. Mas o texto trabalhado nesta conversa mostra justamente o contrário: a transformação digital não se resume ao uso da internet nem à introdução de tecnologia em tarefas cotidianas. Ela busca impactar estratégias de negócio e promover mudanças estruturais.

Isso significa que a tecnologia não é o fim. É o meio. O objetivo é reorganizar a capacidade da organização de gerar resultado, responder ao ambiente e atender melhor suas demandas. Quando esse sentido se perde, a empresa cai numa armadilha conhecida: adota plataformas sofisticadas para sustentar processos mal desenhados. Nesse cenário, o digital apenas acelera a ineficiência.

A pergunta correta não é “qual tecnologia comprar?”. A pergunta correta é: que problema precisa ser resolvido, que valor precisa ser criado e que mudança organizacional é necessária para isso?

Sem esse diagnóstico, o digital vira cosmética gerencial.

O cliente deixou de ser alvo e passou a ser agente

Uma das grandes mudanças da era digital é a transformação da posição do cliente. O material-base destaca que a tecnologia passou a facilitar a comunicação, dar voz aos clientes e tornar a interação entre as partes mais intensa e mais interativa. As organizações passaram a ser avaliadas em tempo real, e a experiência do cliente ganhou peso crescente na reputação e na competitividade.

Esse deslocamento altera profundamente a lógica empresarial. Antes, muitas organizações operavam como emissoras: produziam, anunciavam e distribuíam. Agora, precisam ouvir, responder, adaptar e aprender. O cliente não é mais apenas destinatário de campanhas; ele participa da formação do valor, influencia outros consumidores, pressiona mudanças e expõe falhas.

É uma mudança silenciosa, mas brutal. Em vez de uma relação vertical, passa a existir uma relação mais horizontal, dinâmica e instável. Nessa nova configuração, empresas que continuam tratando o cliente apenas como público-alvo tendem a perder relevância. Já aquelas que conseguem transformar informação em escuta qualificada e escuta em melhoria concreta ampliam sua capacidade competitiva.

A concorrência ficou mais dura porque deixou de ser óbvia

Outro aspecto central é a mudança na competição. O texto mostra que, na era digital, a concorrência se tornou mais ampla e assimétrica. Isso quer dizer que a organização já não disputa espaço apenas com quem oferece o mesmo produto no mesmo setor. Passa a disputar atenção, conveniência, tempo e experiência com agentes de segmentos distintos, muitas vezes estruturados em plataformas e ecossistemas.

Esse ponto é crucial e, ao mesmo tempo, frequentemente subestimado. O concorrente de hoje nem sempre se parece com o concorrente de ontem. Às vezes ele não tem a mesma estrutura, não opera com os mesmos ativos e nem pertence ao mesmo ramo. O que ele faz é resolver de outra maneira o mesmo problema que o cliente deseja ver resolvido.

Essa mudança embaralha fronteiras tradicionais. E é por isso que a transformação digital exige inteligência estratégica. Não basta observar o mercado imediato; é preciso observar o ambiente ampliado, as mudanças de comportamento, as novas formas de intermediação e a velocidade com que modelos inovadores podem deslocar estruturas antes consideradas sólidas.

Os três pilares sem os quais a transformação desaba

O anexo organiza a transformação digital em três pilares: gestão, infraestrutura e pessoas. Essa divisão é especialmente útil porque mostra que o processo depende de equilíbrio. Se um desses pilares falha, todo o edifício tende a ficar instável.

Gestão: sem direção, a tecnologia anda em círculos

A gestão envolve responsabilidades, planejamento, custos, orçamento e definição do modelo de negócio. É o pilar que dá direção ao processo. Também está associada, no material, a benefícios como redução de custos por meio de processos e melhoria da experiência do cliente.

O problema é que muitas lideranças ainda tratam o digital como departamento, e não como estratégia. Delegam tudo à TI, como se transformação fosse assunto de infraestrutura. Não é. Trata-se de decisão organizacional. É a gestão que precisa definir prioridades, coordenar integração, estabelecer critérios, medir resultados e impedir que a tecnologia vire um conjunto de soluções desconectadas.

Uma liderança sem visão digital pode até autorizar investimentos. O que ela dificilmente fará é transformar esses investimentos em coerência institucional.

Infraestrutura: não se constrói futuro sobre base improvisada

A infraestrutura inclui dispositivos, redes, equipamentos, aplicações e serviços em que a informação é armazenada, processada e transmitida. O material também associa esse pilar à otimização da produtividade e à integração com plataformas digitais, além de reconhecer a necessidade de planejamento técnico, planejamento estratégico e gestão de riscos.

Aqui a metáfora é simples: ninguém ergue um edifício complexo sobre terreno instável. Quando a infraestrutura é frágil, o sistema cai, o fluxo trava, a segurança falha e a confiança interna se rompe. A organização até tenta avançar, mas passa a viver de remendos.

Transformação digital séria exige interoperabilidade, estabilidade, segurança, integração e capacidade de crescimento. Sem isso, a dependência tecnológica aumenta mais rápido do que a maturidade institucional.

Pessoas: o centro do processo continua sendo humano

O ponto mais importante do material talvez esteja aqui. O texto afirma explicitamente que, mesmo com a transformação digital, o fator humano continua sendo o mais importante, pois são as pessoas que criam, implementam, desenvolvem e garantem a funcionalidade das aplicações e da infraestrutura. O pilar pessoas ainda aparece ligado à redução de problemas operacionais.

Isso desmonta uma narrativa simplista muito comum: a de que a era digital é, sobretudo, a era da substituição das pessoas. Na verdade, o que a transformação digital faz é elevar a exigência sobre o trabalho humano. Exige novas competências, novas formas de cooperação, maior capacidade analítica, maior adaptação e mais responsabilidade no uso da informação.

Quando a organização ignora isso, o resultado é previsível: tecnologia nova, equipe insegura, processos confusos e erros multiplicados. O digital não corrige automaticamente a falta de preparo. Em muitos casos, ele a torna mais visível.

Os cinco domínios que redefinem o negócio

Além dos pilares, o material apresenta cinco domínios decisivos da transformação digital: clientes, inovação, valor, competição e dados. Eles ajudam a perceber onde, concretamente, a organização precisa rever sua posição.

No domínio dos clientes, a mudança está na conectividade, na interação contínua e na ampliação da capacidade de resposta. No domínio da inovação, o que se altera é a lógica do desenvolvimento: a melhoria deixa de ser episódica e passa a ser contínua. No domínio do valor, a organização precisa adaptar suas entregas às necessidades variáveis do cliente. Na competição, precisa enxergar a assimetria do novo ambiente. E, nos dados, precisa transformar volume informacional em inteligência útil.

Esses cinco domínios mostram que a transformação digital não é apenas uma agenda de tecnologia. É uma agenda de reposicionamento. Quem não se reposiciona nesses eixos pode até parecer moderno, mas continuará operando com lógica ultrapassada.

Onde as organizações mais travam

Se a transformação digital fosse apenas uma promessa técnica, bastaria orçamento. Mas o próprio material evidencia que o processo enfrenta dificuldades múltiplas. Entre elas, aparecem conhecimento tecnológico insuficiente, investimento financeiro, mudanças na estrutura organizacional, concorrência e outros obstáculos operacionais e gerenciais.

A primeira grande dificuldade é a falta de visão estratégica. Muitas organizações implementam ferramentas antes de definirem objetivos claros. O resultado é gasto sem direção.

A segunda é a resistência cultural. O anexo reconhece que alterações na estrutura organizacional e em elementos da cultura são necessárias. Isso não é detalhe. Cultura organizacional costuma ser o lugar onde inovações entram para morrer lentamente.

A terceira é o investimento mal direcionado. O texto fala em investimentos adequados, e essa palavra importa. Adequado não é sinônimo de alto. É sinônimo de coerente, necessário e alinhado ao problema real.

A quarta é a pressão concorrencial. No quadro sobre concorrência, o material sugere a valorização da relação com clientes e parceiros como forma de fortalecimento organizacional diante do novo ambiente competitivo.

A quinta é o déficit de qualificação. Sem aprendizado contínuo, a equipe passa a operar tecnologias que não domina plenamente. Nesse cenário, erros operacionais, insegurança e retrabalho tornam-se quase inevitáveis.

Transformar de verdade exige princípios, não improviso

Se a organização pretende avançar com consistência, alguns princípios fundamentais precisam ser observados.

O primeiro é o alinhamento entre tecnologia e estratégia. A organização deve mapear necessidades, definir resultados esperados e associá-los aos seus pilares de gestão, infraestrutura e pessoas.

O segundo é a centralidade das pessoas. Não há transformação sustentável sem formação, liderança, distribuição inteligente de tarefas e aprendizagem contínua.

O terceiro é a governança dos dados. Num ambiente de grande produção informacional, não basta armazenar; é preciso interpretar, proteger, integrar e usar as informações para melhorar decisão e desempenho.

O quarto é a inovação contínua. O material mostra que melhorias não se encerram no lançamento inicial de um produto ou solução. Elas precisam continuar.

O quinto é a capacidade de adaptação competitiva. A organização precisa entender que a concorrência mudou de natureza, e que o valor oferecido precisa acompanhar essa nova dinâmica.

Em síntese, a transformação digital só ganha sentido quando a organização aprende a combinar tecnologia, inteligência estratégica, capacidade humana e clareza de propósito.

O que está em jogo não é apenas eficiência

Há um aspecto mais profundo nessa discussão. Quando se fala em transformação digital, fala-se com frequência em produtividade, agilidade e redução de custos. Tudo isso importa. Mas não é tudo. O que está em jogo também é a capacidade de a organização permanecer relevante, responsiva e inteligível num ambiente em que informação, tecnologia e expectativa social se movem com velocidade crescente.

Uma organização incapaz de transformar seus processos não perde apenas eficiência. Perde leitura do presente. Perde capacidade de resposta. Perde densidade estratégica. Perde competitividade. E, aos poucos, perde legitimidade.

Por isso, o debate sobre transformação digital não deveria ser tratado como modismo administrativo. Trata-se de uma questão de sobrevivência organizacional, de inteligência institucional e de reposicionamento histórico.

Conclusão

Transformação digital não é sinônimo de modernização estética nem de mera adoção de ferramentas tecnológicas. Seu núcleo está na reorganização profunda da forma como a organização pensa, decide, opera, se comunica, cria valor e responde ao ambiente. O material discutido ao longo desta análise mostra que esse processo nasce de etapas conceituais claras, apoia-se em pilares estruturantes — gestão, infraestrutura e pessoas —, atravessa domínios centrais como clientes, inovação, valor, competição e dados, e enfrenta obstáculos concretos que vão muito além da técnica. O fracasso, quase sempre, não decorre da ausência de tecnologia, mas da ausência de direção, preparo e coerência. Em última instância, transformar digitalmente uma organização significa aceitar que o futuro não cabe dentro de velhas rotinas. E esse talvez seja o ponto mais difícil de todos: não é a tecnologia que mais desafia as organizações, mas a disposição real de mudar.

Cinco pontos relevantes

  1. Transformação digital não é apenas uso de tecnologia, mas mudança estrutural, estratégica e cultural.

  2. Os três pilares centrais são gestão, infraestrutura e pessoas.

  3. Os clientes ganharam voz e poder, alterando a lógica da relação entre organização e mercado.

  4. A concorrência tornou-se assimétrica, exigindo leitura estratégica mais ampla.

  5. Os maiores entraves costumam ser liderança frágil, cultura resistente, qualificação insuficiente e investimento mal orientado.

Perguntas frequentes

1. Transformação digital e digitalização são a mesma coisa?

Não. A digitalização é parte do processo. A transformação digital é mais ampla e envolve mudanças na estrutura, na gestão, na cultura e na estratégia da organização.

2. Basta adquirir tecnologia para transformar uma organização?

Não. Sem alinhamento com objetivos, sem preparo humano e sem revisão de processos, a tecnologia apenas informatiza práticas antigas.

3. Qual é o papel das pessoas na transformação digital?

Central. O material-base afirma que o fator humano é o mais importante, pois são as pessoas que criam, implementam e mantêm os sistemas e processos digitais.

4. Quais são as principais dificuldades nesse processo?

Entre as principais dificuldades estão falta de visão estratégica, resistência cultural, investimento inadequado, pressão concorrencial e qualificação insuficiente.

5. O que define uma transformação digital bem-sucedida?

A capacidade de integrar tecnologia, estratégia, dados, pessoas e criação de valor de modo coerente, contínuo e orientado a resultados.

Referências

Calado, J. M. R. Bring your own device (BYOD): primeiros passos para implantação. DevMedia, 2014.

Kotler, P.; Kartajaya, H.; Setiawan, I. Marketing 4.0: do tradicional ao digital. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.

Morais, F. Transformação digital. São Paulo: Saraiva Educação, 2020.

Ribeiro, W. Transformação digital: quem são os seus concorrentes hoje? 2021.

Rogers, D. L. Transformação digital: repensando o seu negócio para a era digital. São Paulo: Autêntica, 2017.

Schweitzer, C. Inovação, digitalização, transformação digital. Campinas: Unitá, 2021.

Silva, P. R. O que é transformação digital? Inovação Aberta, 2020.


Quando o ataque é à escola, o alvo é o país: Institutos Federais, universidades públicas e a nova ofensiva contra o pensamento no Brasil



Assisti a O Agente Secreto pensando no passado, mas saí do filme olhando para o presente. O que mais incomoda na obra de Kleber Mendonça Filho não é apenas a violência visível da ditadura, e sim a percepção de que regimes autoritários não precisam destruir a educação pública com tanques na porta. Muitas vezes, basta cercá-la por dentro: com desinformação, hostilidade moral, asfixia orçamentária, campanhas de difamação e intimidação constante contra professores, estudantes e dirigentes. Essa chave de leitura não é apenas histórica. Ela ajuda a entender por que, no Brasil de hoje, universidades públicas e Institutos Federais continuam sob pressão recorrente de setores da extrema direita e de uma cultura política que trata o pensamento crítico como suspeita permanente. 


Nos últimos meses, essa ofensiva apareceu de forma muito concreta. Em 12 de março de 2026, o Conif divulgou nota oficial para rebater declarações do economista Marcos Mendes em programa da GloboNews, classificadas pela entidade como desinformação sobre o papel e o funcionamento dos Institutos Federais. Na resposta, o conselho lembrou que os IFs foram criados pela Lei nº 11.892/2008, têm modelo institucional próprio, forte presença no interior do país, cerca de 1,8 milhão de matrículas e missão articulada entre educação básica, técnica, superior, pesquisa aplicada e extensão. A nota também ressaltou que 85% dos estudantes da Rede Federal têm renda familiar de até dois salários mínimos, o que mostra o peso social e territorial dessas instituições. 


Esse episódio é revelador porque a tentativa de reduzir os Institutos Federais a caricaturas administrativas não é um simples erro conceitual. É parte de uma disputa política mais ampla. Quando uma instituição pública é apresentada de forma distorcida, como se fosse um luxo disfuncional ou uma espécie de desvio da função do Estado, prepara-se o terreno para sua deslegitimação pública. Primeiro se espalha a dúvida; depois se naturaliza o corte; por fim, vende-se o enfraquecimento como racionalidade. É um método conhecido. A ditadura também precisou construir narrativas para justificar vigilância, intervenção e silenciamento nas instituições de ensino e pesquisa. Hoje, o repertório mudou de forma, mas preserva um núcleo antigo: hostilidade à autonomia, medo da crítica e aversão ao conhecimento socialmente organizado. 


Essa pressão não se limita ao plano discursivo. Em 2025, o Decreto nº 12.448, de 30 de abril, impôs novas restrições à execução orçamentária federal. Na prática, segundo o Conif, a medida limitou a execução mensal a 1/18 do total autorizado e empurrou parte relevante da liberação para dezembro, dificultando compromissos essenciais das 685 unidades da Rede Federal, como bolsas estudantis, manutenção de campi, contratos de energia, limpeza, segurança e projetos de pesquisa e extensão. A Andifes, por sua vez, afirmou que a limitação afetava diretamente a capacidade de planejamento e gestão das universidades federais, comprometendo assistência estudantil, bolsas acadêmicas, restaurantes universitários, água, energia e terceirização. 


É verdade que, em 27 de maio de 2025, o Ministério da Educação anunciou recomposição de R$ 400 milhões no orçamento das universidades e institutos federais, além da liberação de R$ 300 milhões que haviam ficado retidos por decreto. O governo também informou que as instituições sairiam da regra de 1/18 e voltariam ao patamar de 1/12 na execução mensal. Ainda assim, o próprio ministro Camilo Santana reconheceu que o orçamento discricionário, corrigido pela inflação, segue abaixo do que era em 2014, e que essa é uma das principais queixas dos reitores. Em outras palavras: houve alívio, mas não solução estrutural. 


É exatamente aqui que o filme encontra o presente. O ataque às instituições do pensamento não acontece apenas quando há censura explícita. Ele também ocorre quando a universidade e o instituto passam a funcionar em estado de sufocamento crônico, sempre no limite, obrigados a gastar energia demais apenas para sobreviver. A precarização orçamentária, quando se torna contínua, produz efeitos políticos profundos: interrompe planejamento, desmobiliza equipes, enfraquece a permanência estudantil, reduz pesquisa, compromete inovação e desgasta simbolicamente a legitimidade da instituição diante da sociedade. O corte de verba, nessas condições, deixa de ser mero problema fiscal e passa a operar como tecnologia de enfraquecimento institucional. 


Mas a ofensiva recente não tem sido apenas financeira. Em março de 2025, a Universidade de Brasília tornou-se palco de uma série de ações de grupos de extrema direita. O Conselho Universitário da UnB declarou, em nota de 21 de março, que essas ações faziam parte de um “contínuo e articulado ataque” às instituições públicas de ensino superior, incluindo gravações manipuladas de aulas, filmagens clandestinas para distorcer a realidade universitária, propagação de mentiras e estímulo ao vandalismo contra patrimônio público. A própria nota afirma que, desde 2016, as universidades públicas brasileiras enfrentam “ofensiva sistemática” baseada em fake news, campanhas negacionistas, sucateamento deliberado e tentativas reiteradas de desqualificação do conhecimento produzido nesses ambientes. 


Poucos dias depois, em 24 de março de 2025, estudantes, docentes, técnicos e parlamentares participaram de ato na UnB contra ataques recentes organizados por bolsonaristas. O protesto ocorreu após ações contra o Centro Acadêmico de Artes Visuais, descritas como “ações de limpeza da UnB”, e foi acompanhado por manifestações da reitoria em defesa da democracia e contra o extremismo. O caso é emblemático porque explicita uma prática típica da nova extrema direita: transformar a universidade em palco de provocação calculada, produzir imagens descontextualizadas, alimentar redes de desinformação e, depois, apresentar a reação institucional como prova da própria tese conspiratória. 


Na USP, o quadro também se agravou em 2025 e 2026. Em setembro de 2025, a direção da FFLCH denunciou que um grupo ligado a parlamentares de extrema direita invadiu novamente o vão de História e Geografia, partiu para violência física, agrediu um professor egresso, machucou estudantes e tentou forçar a porta de um laboratório, acuando uma funcionária. Em outubro, a própria USP informou que o ato “Em Defesa da FFLCH: a Universidade Pública É do Povo” era resposta aos ataques promovidos por grupos de extrema direita que vinham ocorrendo desde maio, nas dependências físicas da instituição e também contra sua comunidade acadêmica. Já em março de 2026, a Adusp noticiou novo ataque à USP, com estudantes feridos em ação protagonizada pelo vereador Lucas Pavanato e seus seguranças. 


Esses episódios não são marginais. Eles mostram uma mudança preocupante de patamar. Não se trata mais apenas de discurso agressivo nas redes sociais ou de opinião hostil contra universidades. Em vários casos, há tentativa concreta de invasão simbólica e física dos espaços acadêmicos, de intimidação de docentes, de constrangimento de estudantes e de produção deliberada de cenas de conflito para abastecer ecossistemas políticos que vivem da desmoralização da educação pública. O que está em disputa, portanto, não é somente orçamento. É a possibilidade de a universidade e os Institutos Federais permanecerem como territórios de liberdade intelectual, pluralismo, pesquisa, dissenso e formação crítica. 


Nesse cenário, a decisão aprovada pelo Senado em 10 de março de 2026, extinguindo a lista tríplice e estabelecendo que o presidente deverá nomear o candidato mais votado pela comunidade acadêmica nas universidades e institutos federais, tem peso simbólico e institucional importante. A medida, ainda pendente de sanção presidencial na data das reportagens, responde a um longo histórico de intervenções sobre a autonomia universitária e sobre a legitimidade das escolhas internas das instituições. Em contextos de avanço autoritário, controlar a direção das instituições de ensino é controlar parte da vida intelectual do país. Por isso, defender eleição respeitada e autonomia não é detalhe corporativo; é defesa da arquitetura democrática da educação pública. 


Para quem trabalha em Instituto Federal, tudo isso é especialmente sensível. Os IFs não são apenas escolas técnicas expandidas, nem pequenas universidades, nem anexos burocráticos do Estado. São uma das experiências mais capilares de educação pública, ciência aplicada e desenvolvimento regional do Brasil contemporâneo. Estão no interior, dialogam com o território, formam jovens de baixa renda, articulam ensino médio integrado, licenciaturas, tecnologia, pesquisa e extensão. Atacar essas instituições, desinformar sobre elas ou asfixiá-las financeiramente é atacar justamente uma das raras infraestruturas públicas que ainda conectam conhecimento, mobilidade social e soberania territorial. 


É por isso que a lembrança da ditadura não pode ser tratada como museu político. Ela precisa funcionar como critério de leitura do presente. A ditadura não perseguiu apenas indivíduos; perseguiu ecossistemas de pensamento. Não destruiu apenas carreiras; destruiu ambientes de pesquisa, redes de debate, autonomia universitária e confiança pública no saber crítico. Quando setores da extrema direita hoje elegem universidades e Institutos Federais como alvos de desinformação, hostilidade moral, invasões, gravações clandestinas, campanhas de difamação e pressão política, o sinal de alerta é evidente. O léxico mudou, a tecnologia mudou, a estética mudou. O impulso de fundo, porém, continua reconhecível: a vontade de domesticar o pensamento para tornar o país mais obediente, menos crítico e mais vulnerável à mentira organizada. 


Um país que aprende a desconfiar de seus professores, ridicularizar seus pesquisadores e tratar suas instituições públicas de ensino como problema acaba por mutilar o próprio futuro. Sem universidade forte e sem Rede Federal robusta, não há projeto nacional sério de desenvolvimento, inovação, soberania tecnológica ou democracia substantiva. O obscurantismo pode até mobilizar paixões momentâneas, mas não constrói laboratórios, não forma engenheiros, não sustenta políticas públicas, não reduz desigualdade e não produz autonomia. A ignorância, quando vira programa político, pode render votos; mas cobra seu preço em atraso histórico. E esse preço, como o filme sugere e o presente confirma, quase sempre é pago pelas próximas gerações.



Referências



AGÊNCIA BRASIL. MEC fará recomposição de R$ 400 milhões do orçamento das universidades. Brasília, 27 maio 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2025-05/mec-fara-recomposicao-de-r-400-milhoes-do-orcamento-das-universidades. Acesso em: 15 mar. 2026. 


ANDIFES. Nota da Andifes sobre situação do orçamento das universidades federais. Brasília, 14 maio 2025. Disponível em: https://www.andifes.org.br/2025/05/14/nota-da-andifes-sobre-situacao-do-orcamento-das-universidades-federais/. Acesso em: 15 mar. 2026. 


ADUSP. Estudantes são feridos em novo ataque da extrema-direita à USP, protagonizado pelo vereador Lucas Pavanato (PL) e seus seguranças. São Paulo, 6 mar. 2026. Disponível em: https://adusp.org.br/universidade/fflch-agressao/. Acesso em: 15 mar. 2026. 


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CONIF. Nota Oficial: Impactos do Decreto nº 12.448/2025 na Rede Federal de EPCT. Brasília, 14 maio 2025. Disponível em: https://portal.conif.org.br/geral/nota-oficial-impactos-do-decreto-no-12-448-2025-na-rede-federal-de-epct. Acesso em: 15 mar. 2026. 


CONIF. Conif esclarece informações sobre os Institutos Federais após declarações em programa da GloboNews. Brasília, 12 mar. 2026. Disponível em: https://portal.conif.org.br/geral/conif-esclarece-informacoes-sobre-os-institutos-federais-apos-declaracoes-em-programa-da-globonews. Acesso em: 15 mar. 2026. 


FFLCH-USP. Em defesa da FFLCH. São Paulo, 6 set. 2025. Disponível em: https://www.fflch.usp.br/175971. Acesso em: 15 mar. 2026. 


JORNAL DA USP. Ato na USP manifesta apoio à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas após ataques. São Paulo, 1 out. 2025. Disponível em: https://jornal.usp.br/universidade/ato-na-usp-manifesta-apoio-a-faculdade-de-filosofia-letras-e-ciencias-humanas-apos-ataques/. Acesso em: 15 mar. 2026. 


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