terça-feira, 24 de março de 2026

Quando a política vira profecia, quando a profecia vira política

Devoção, poder, misticismo e pseudociência na construção de narrativas políticas e geopolíticas



Índice

  1. Lide
  2. Introdução: o problema de fundo
  3. Profecia, religião, misticismo e pseudociência: distinções necessárias
    3.1 Profecia como linguagem moral
    3.2 Misticismo como busca humana de sentido
    3.3 Pseudociência como simulação de conhecimento
  4. Quando a política se veste de sagrado
    4.1 O líder ungido
    4.2 A eleição como batalha escatológica
    4.3 O inimigo como força demonizada
  5. Casos contemporâneos no mundo
    5.1 Estados Unidos: Trump, profecias e nacionalismo cristão
    5.2 Brasil: devoção, guerra cultural e imaginação providencial
    5.3 Nigéria: o “profeta eleitoral”
    5.4 Rússia: guerra, missão civilizacional e sacralização do Estado
    5.5 Índia: mito, maioria religiosa e poder nacional
    5.6 Oriente Médio e sionismo cristão: geopolítica como cumprimento profético
  6. Por que isso funciona? Psicologia social, medo e necessidade de certeza
  7. O elo com a pseudociência e com a desinformação
  8. Geopolítica, narrativa e manipulação simbólica do futuro
  9. Conclusão
  10. Perguntas frequentes
  11. Pontos centrais do artigo
  12. Indicação de livros
  13. Referências




Lide



Em períodos de crise, insegurança e polarização, sociedades inteiras se tornam mais receptivas a narrativas que prometem decifrar o futuro. É nesse terreno que profecias, profetas midiáticos, líderes “ungidos”, astrologias políticas, visões apocalípticas e discursos pseudocientíficos deixam de ser apenas expressões marginais de crença e passam a disputar o centro do poder. A política, então, deixa de ser apresentada como arena de escolhas humanas, conflito de interesses e deliberação democrática, para ser convertida em destino, revelação ou missão sagrada. O problema não está apenas na fé. Está no momento em que o sagrado se transforma em instrumento de legitimação do poder e no instante em que o poder se apropria do sagrado para blindar líderes, guerras, projetos nacionais e agendas geopolíticas contra a crítica racional. 



1. Introdução: o problema de fundo



Há uma diferença decisiva entre religião como experiência humana de transcendência e religião como tecnologia simbólica de poder. A primeira pertence ao campo da consciência, da ética, da comunidade e da espiritualidade. A segunda opera como linguagem de mobilização coletiva, disciplina afetiva e legitimação política. Quando se diz que determinado governante foi “escolhido por Deus”, que certa guerra cumpre “um plano superior” ou que uma nação está destinada a exercer uma missão redentora sobre o mundo, o debate político sofre uma mutação profunda: sai do plano da responsabilidade humana e entra no plano do destino sacralizado. 


Esse deslocamento não é periférico. Ele aparece em democracias, regimes híbridos, conflitos internacionais e campanhas eleitorais. Em contextos distintos, a retórica profética pode sustentar populismos, nacionalismos religiosos, guerras culturais, leituras conspiratórias da história e projetos geopolíticos apresentados como inevitáveis. O que está em jogo, portanto, não é somente a crença em profecias, mas a transformação da narrativa religiosa em mecanismo de gestão simbólica do poder. 


A questão central deste artigo é a seguinte: por que, em pleno século XXI, com abundância de dados, redes digitais, instituições científicas e sistemas de informação globais, tantas pessoas ainda aderem a discursos políticos estruturados por profecias, misticismo e pseudociência? A resposta exige uma abordagem cruzada entre sociologia da religião, ciência política, psicologia social e estudos da desinformação. O ser humano não busca apenas fatos; busca sentido. E, em tempos de medo, o sentido simples costuma derrotar a complexidade verdadeira. 



2. Profecia, religião, misticismo e pseudociência: distinções necessárias



Antes de aprofundar o tema, convém separar conceitos que frequentemente aparecem misturados no debate público.



2.1 Profecia como linguagem moral



Em tradições religiosas, a profecia nem sempre significa previsão literal do futuro. Muitas vezes, ela é denúncia ética do presente. O profeta, nesse sentido clássico, não é apenas alguém que antecipa eventos, mas alguém que lê o seu tempo à luz de um horizonte moral e convoca a comunidade à responsabilidade. O problema começa quando essa linguagem deixa de interpelar a consciência e passa a funcionar como chancela política: o governante é justificado porque seria “enviado”, o programa de governo se torna “vontade superior”, e o conflito histórico é reconfigurado como roteiro já escrito. 



2.2 Misticismo como busca humana de sentido



O misticismo, em sentido amplo, decorre da tendência humana de buscar conexões ocultas, sinais, correspondências, ciclos e significados profundos por trás da realidade visível. Em momentos de instabilidade, essa busca se intensifica. Crises econômicas, guerras, pandemias, transformações tecnológicas e colapsos institucionais ampliam a ansiedade coletiva. Quando o mundo parece opaco, as pessoas passam a valorizar narrativas que prometem revelar a “verdade escondida” dos acontecimentos. Essa necessidade psicológica de previsibilidade e coerência é amplamente reconhecida na literatura sobre crenças conspiratórias e adesão a explicações simplificadas em contextos de incerteza. 



2.3 Pseudociência como simulação de conhecimento



A pseudociência, por sua vez, não é mera crença religiosa. Trata-se de algo mais específico: um sistema que pretende explicar fenômenos com aparência de método, mas sem atender aos critérios de validação científica. A Encyclopaedia Britannica define pseudociência como um sistema que tenta explicar fenômenos físicos, mas que não pode ser demonstrado pelo método científico. Quando astrologia política, numerologia eleitoral, “mapas vibracionais de governos”, videntes de mercado ou “analistas místicos da geopolítica” são apresentados como fontes confiáveis de previsão objetiva, o que se tem não é ciência, mas simulação de ciência. 


Essa distinção é crucial. A fé pertence ao campo do sentido; a ciência, ao da verificação empírica; a pseudociência ocupa indevidamente o lugar da explicação objetiva sem aceitar os controles do conhecimento rigoroso. É exatamente por isso que ela é tão funcional politicamente: oferece certeza forte, linguagem técnica aparente e baixa exigência de comprovação. 



3. Quando a política se veste de sagrado




3.1 O líder ungido



Um dos mecanismos mais poderosos da política sacralizada é a figura do líder ungido. O governante não aparece apenas como administrador ou representante, mas como instrumento providencial da história. Essa operação é extremamente eficaz porque desloca a crítica política para o campo da blasfêmia simbólica. Criticar o líder passa a soar, para sua base, como atacar uma missão transcendente. Pesquisas recentes sobre populismo mostram justamente que muitas experiências populistas contemporâneas assumem dimensões sagradas, carismáticas, redentivas e até apocalípticas. 



3.2 A eleição como batalha escatológica



Outro mecanismo recorrente é a transformação da eleição em guerra espiritual ou batalha final entre bem e mal. A disputa entre projetos de sociedade é recodificada como confronto absoluto entre salvação e perdição. Nesse enquadramento, o voto deixa de ser ato político deliberativo e vira gesto de fidelidade moral, religiosa ou civilizacional. O eleitor não escolhe apenas um programa; ele “toma partido” numa narrativa totalizante. Esse recurso retórico produz altíssimo engajamento, porque simplifica o mundo e atribui ao ato político uma gravidade cósmica. 



3.3 O inimigo como força demonizada



Quando a política entra nesse registro, o adversário não é apenas errado: ele é impuro, maligno, anticristão, antinacional ou anticivilizacional. A demonização do outro reduz a possibilidade de mediação democrática e legitima práticas de exclusão mais duras. Se o inimigo representa uma ameaça cósmica, quase tudo passa a parecer permitido em nome da “defesa da verdade”. A retórica religiosa, então, deixa de ser linguagem de comunidade e se transforma em combustível para intolerância, autoritarismo e suspensão prática do pluralismo. 



4. Casos contemporâneos no mundo




4.1 Estados Unidos: Trump, profecias e nacionalismo cristão



Nos Estados Unidos, a relação entre profecia e política tornou-se particularmente visível no entorno de Donald Trump. Pesquisas acadêmicas analisaram o fenômeno das chamadas “Trump prophecies”, isto é, declarações de lideranças evangélicas carismáticas que apresentaram Trump como escolhido por Deus para restaurar a nação. Um dos enquadramentos mais conhecidos foi a analogia com Ciro, rei persa do texto bíblico: alguém moralmente imperfeito, mas usado por Deus para cumprir um propósito histórico. Esse enquadramento teve forte efeito político, porque ofereceu uma solução teológica para a contradição entre o perfil pessoal do líder e a expectativa religiosa de parte de sua base. 


Não se tratou de detalhe retórico. A literatura também relaciona esse fenômeno ao nacionalismo cristão norte-americano e ao crescimento de formas de dominionismo carismático, nas quais a política é vista como espaço de conquista espiritual e restauração moral da nação. A noção de que os Estados Unidos teriam um destino providencial, somada à crença em líderes ungidos, fortalece a disposição para enxergar derrotas eleitorais, decisões judiciais ou críticas da imprensa como ataques a uma missão divina, e não como parte normal da vida democrática. 



4.2 Brasil: devoção, guerra cultural e imaginação providencial



No Brasil, o entrelaçamento entre devoção e política ganhou enorme intensidade nas últimas décadas, especialmente com o crescimento da presença evangélica na esfera pública e a consolidação de discursos de guerra cultural. Pesquisas recentes mostram que, em determinados setores, a política externa, o debate moral e a própria identidade nacional foram articulados à ideia de defesa da “civilização judaico-cristã” e da nação como espaço de combate espiritual. A figura do governante como “defensor da fé” ajuda a sacralizar agendas políticas e a reduzir a crítica a elas a um suposto ataque à religião. 


Esse processo não se limita à teologia. Ele se conecta à lógica da mídia digital, da circulação de símbolos religiosos e da estética emocional da política. Fotografias, gestos, orações públicas, slogans religiosos e interpretações providencialistas da história funcionam como marcadores de autenticidade. Em vez de demonstração programática, oferece-se identificação moral. Em vez de análise complexa, entrega-se pertencimento espiritual. É uma política de afeto, mas também uma política de blindagem. 



4.3 Nigéria: o “profeta eleitoral”



A Nigéria fornece um caso particularmente didático do chamado “electoral prophetism”. Estudos mostram que períodos eleitorais são marcados por profecias públicas sobre vencedores, derrotas, tragédias e mudanças de poder. Nesse contexto, profetas religiosos não atuam apenas como líderes espirituais, mas como atores de influência política, capazes de produzir expectativas, tensionar reputações e disputar capital simbólico no espaço público. 


O elemento sociologicamente mais importante é que a profecia eleitoral não depende apenas de acerto empírico. Mesmo previsões equivocadas podem ser reinterpretadas, adiadas ou justificadas em termos espirituais. Isso preserva o prestígio do profeta e demonstra que seu valor social não está somente em prever, mas em organizar narrativas de sentido. O profeta, nesse cenário, funciona como mediador entre o caos do presente e a promessa de inteligibilidade do futuro. 



4.4 Rússia: guerra, missão civilizacional e sacralização do Estado



No caso russo, estudos recentes mostram a persistência de narrativas religiosas e civilizacionais que vinculam o Estado a uma missão histórica superior. A ideia de Moscou como “Terceira Roma”, embora antiga, continua relevante como imaginário político. Mais recentemente, análises sobre o Conselho Mundial do Povo Russo e a retórica da Igreja Ortodoxa Russa destacaram enquadramentos da guerra contra a Ucrânia como “guerra santa”, com componentes escatológicos e apocalípticos. Isso revela uma perigosa fusão entre religião, nacionalismo e militarização do destino coletivo. 


Quando a guerra é narrada como missão civilizacional, ela deixa de aparecer como decisão humana sujeita a julgamento moral e passa a adquirir ares de necessidade histórica sagrada. O sofrimento concreto de populações civis, a devastação material e a responsabilidade política tendem a ser absorvidos por uma gramática de grandeza, defesa espiritual e combate metafísico. Esse tipo de sacralização da guerra é uma das formas mais perigosas de teologização da política contemporânea. 



4.5 Índia: mito, maioria religiosa e poder nacional



Na Índia, o crescimento do nacionalismo hindu associado ao ciclo político de Narendra Modi reforçou debates sobre o papel dos mitos e narrativas civilizacionais na legitimação do poder. A noção de “mythopolitics”, discutida em estudos recentes, ajuda a compreender como histórias sagradas, memórias civilizacionais e imaginários de restauração nacional passam a operar como instrumentos de disputa política concreta. O mito, nesse caso, não é resíduo do passado; é tecnologia contemporânea de mobilização. 


O ponto decisivo aqui é que a política se apresenta menos como gestão plural de uma sociedade complexa e mais como recuperação de uma essência perdida da nação. A maioria religiosa torna-se sujeito histórico privilegiado, e as minorias podem ser tratadas como obstáculos à realização dessa verdade nacional. Não se trata apenas de fé. Trata-se de transformar identidade religiosa em fundamento de hierarquia política. 



4.6 Oriente Médio e sionismo cristão: geopolítica como cumprimento profético



No campo geopolítico, poucas convergências entre religião e estratégia são tão visíveis quanto o sionismo cristão. Pesquisas recentes mostram sua expansão no Sul Global e seu impacto sobre imaginários políticos em diferentes países. Para muitos grupos, Israel não é visto apenas como ator estatal do sistema internacional, mas como peça central de uma narrativa profética sobre o fim dos tempos e o cumprimento da história sagrada. 


Essa leitura tem efeitos políticos reais. Quando conflitos, ocupações, deslocamentos populacionais e alianças militares são absorvidos por uma gramática profética, o debate diplomático tende a perder espaço para a lógica do destino. A geopolítica é reescrita como escatologia. E, nesse registro, a dor humana corre o risco de ser narrada como etapa necessária de um roteiro transcendente. É justamente aí que o sagrado deixa de ser consolo e passa a funcionar como legitimador de violência histórica. 



5. Por que isso funciona? Psicologia social, medo e necessidade de certeza



A força dessas narrativas não pode ser explicada apenas por manipulação externa. Elas funcionam porque dialogam com necessidades humanas profundas. Em tempos de crise, as pessoas procuram coerência, previsibilidade e pertencimento. Explicações simplificadas, com culpados claros e futuros inteligíveis, oferecem alívio cognitivo. Pesquisas em psicologia social mostram que crenças conspiratórias e formas correlatas de raciocínio ganham força em contextos de incerteza porque fornecem sensação de ordem diante do caos. 


Há também a dimensão carismática. Lideranças associadas a profecias, sinais e missões sagradas parecem maiores do que os próprios cargos que ocupam. Elas não se apresentam como meros administradores, mas como intérpretes privilegiados de uma história oculta. Isso fortalece o vínculo afetivo com a base e enfraquece o papel de instituições impessoais, regras procedimentais e critérios técnicos. A autoridade deixa de se apoiar apenas no direito ou no desempenho e passa a se apoiar em excepcionalidade simbólica. 


Além disso, a mente humana possui forte tendência a reconhecer padrões, inclusive quando eles são frágeis, arbitrários ou inexistentes. Coincidências, datas, gestos, doenças, tragédias e resultados eleitorais podem ser encaixados numa narrativa providencial. Esse processo transforma o acaso em sinal e a analogia em suposta prova. Em um ambiente digital saturado por imagens, cortes e repetições emocionais, a circulação desse tipo de interpretação se torna ainda mais veloz. 



6. O elo com a pseudociência e com a desinformação



A política profética contemporânea nem sempre se limita ao campo religioso. Muitas vezes ela se articula com pseudociências e práticas discursivas que imitam a ciência. Astrologia eleitoral, numerologia de campanhas, mapas energéticos de líderes, “análises quânticas” de governos e previsões políticas baseadas em métodos esotéricos são exemplos de conteúdos que ganham verniz técnico sem qualquer base empírica robusta. O objetivo não é conhecer melhor a realidade, mas oferecer ao público a sensação de que existe um método oculto capaz de revelar a verdade final dos acontecimentos. 


Esse ponto é central porque a pseudociência se encaixa perfeitamente na lógica da desinformação. Ela oferece explicações fáceis, retórica de autoridade e baixa verificabilidade. Em vez de abrir o debate, ela o fecha. Em vez de admitir incerteza, ela performa precisão. Em vez de permitir revisão, ela exige crença. A literatura recente sobre misinformation destaca justamente que ambientes digitais favorecem a circulação de conteúdos enganosos, rumores e narrativas simplificadas, especialmente quando eles mobilizam emoção, identidade e sensação de revelação. 


O falso profeta moderno não precisa mais ocupar apenas um púlpito. Ele pode operar como influenciador, comentarista geopolítico, mentor espiritual, consultor financeiro, “cientista alternativo” ou youtuber de previsões. Seu capital não depende de método rigoroso, mas de confiança afetiva, repetição e performance de convicção. Em muitos casos, ele combina elementos religiosos, conspiratórios e pseudocientíficos num mesmo discurso. É a fusão perfeita entre carisma, mercado e desinformação. 



7. Geopolítica, narrativa e manipulação simbólica do futuro



Na geopolítica, o uso de profecias e imaginários escatológicos cumpre função particularmente estratégica. Ele transforma disputas concretas por território, poder militar, recursos, prestígio e influência em dramas civilizacionais ou sagrados. O conflito deixa de parecer contingente e negociável; passa a parecer inevitável. Esse enquadramento é extremamente útil para governos e movimentos que desejam consolidar coesão interna, justificar sacrifícios e desqualificar vozes dissidentes. 


Existe, aqui, uma inversão decisiva. O futuro, que deveria ser entendido como campo aberto de possibilidades históricas, é tratado como roteiro já revelado. Ao fazer isso, a narrativa profética diminui o peso da responsabilidade humana. Se tudo já está escrito, líderes apenas cumprem papel. Se a guerra seria inevitável, a política deixa de ser escolha e passa a ser execução. Se a nação teria uma missão sagrada, qualquer crítica pode ser enquadrada como traição. A profecia, então, não descreve o futuro: ela organiza o presente para produzir adesão. 


Por isso, o ponto central não é discutir apenas se determinada profecia “acerta” ou “erra”. A pergunta mais importante é outra: o que essa narrativa faz politicamente? Ela amplia o pensamento crítico ou o bloqueia? Ela humaniza o adversário ou o demoniza? Ela fortalece a prudência institucional ou a enfraquece? Ela incentiva o debate público ou o substitui por obediência carismática? Essas são as questões realmente decisivas. 



8. Conclusão



Quando a política vira profecia, o poder tenta adquirir a aura da inevitabilidade. Quando a profecia vira política, a transcendência é convertida em instrumento de governo. Nos dois casos, o resultado costuma ser perigoso para a democracia, para a racionalidade pública e para a paz. O problema não está em reconhecer que a experiência religiosa continua viva no mundo contemporâneo. Tampouco está em negar que seres humanos busquem sentido, transcendência e esperança. O problema começa quando essas dimensões são instrumentalizadas para blindar líderes, naturalizar guerras, transformar adversários em encarnações do mal e substituir o debate racional por narrativas absolutas.


A pesquisa contemporânea mostra que esse fenômeno não é local nem episódico. Ele atravessa os Estados Unidos, o Brasil, a Nigéria, a Rússia, a Índia e as disputas geopolíticas em torno do Oriente Médio. Em todos esses casos, aparecem variações de um mesmo padrão: crise social, ansiedade coletiva, necessidade de certeza, carisma político, linguagem religiosa e ecossistemas de desinformação. A profecia oferece sentido; a pseudociência oferece aparência de método; a política oferece o campo de aplicação. Juntas, elas podem produzir uma máquina simbólica de enorme poder.


É precisamente por isso que uma sociedade democrática madura precisa aprender a fazer distinções firmes. Respeitar a fé não significa submeter a política à revelação. Reconhecer a força do simbólico não significa aceitar a pseudociência como conhecimento. Admitir a importância da religião no espaço público não significa permitir que líderes se apresentem como portadores de imunidade sagrada. A política democrática continua sendo, apesar de tudo, o lugar do dissenso humano, da responsabilidade compartilhada e da escolha histórica. Sempre que se afirma que o futuro já está revelado, corre-se o risco de retirar das pessoas aquilo que a cidadania tem de mais profundo: a capacidade de julgar, decidir e transformar o mundo. 



Perguntas frequentes




1. Toda profecia é pseudociência?



Não. Profecia religiosa e pseudociência não são a mesma coisa. A profecia pode operar como linguagem moral ou espiritual. A pseudociência surge quando uma crença tenta se apresentar como conhecimento objetivo validado sem atender aos critérios do método científico. 



2. O problema está na religião?



Não exatamente. O problema está na instrumentalização política da religião e na conversão do sagrado em blindagem ideológica do poder. 



3. Por que líderes “ungidos” atraem tantas pessoas?



Porque oferecem sentido, certeza, pertencimento e uma narrativa forte em tempos de crise. O carisma funciona como resposta emocional à insegurança social. 



4. Existe relação entre profecia política e desinformação digital?



Sim. Redes digitais favorecem conteúdos emocionalmente intensos, simplificados e difíceis de verificar, o que amplia a circulação de discursos proféticos, conspiratórios e pseudocientíficos. 



5. Qual é o maior risco democrático desse fenômeno?



O maior risco é retirar da política o seu caráter deliberativo e convertê-la em missão sagrada ou destino inevitável, tornando a crítica um pecado e o adversário um inimigo absoluto. 



5 pontos centrais do artigo



  1. Profecia, religião, misticismo e pseudociência são fenômenos distintos, embora muitas vezes apareçam misturados no discurso político.
  2. A sacralização do líder e da nação é uma forma potente de blindagem simbólica do poder.
  3. Casos recentes em vários países mostram que narrativas proféticas influenciam eleições, políticas externas e conflitos internacionais.
  4. A adesão social a essas narrativas cresce em contextos de medo, incerteza e crise de confiança institucional.
  5. O uso político de profecias e pseudociências enfraquece o debate racional e pode corroer a cultura democrática.




Indicação de 3 livros sobre o assunto



  1. Alberto Toscano. Fanatismo: o uso da ideia e sua história.
    Útil para compreender como a acusação de irracionalidade, fervor e excesso é historicamente mobilizada na política e na religião.
  2. Jan-Werner Müller. O que é populismo?
    Não trata apenas de profecia, mas ajuda a entender como lideranças constroem uma moralização do conflito político e uma pretensão de representação exclusiva do “povo verdadeiro”.
  3. Karen Armstrong. Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islã.
    Obra importante para compreender a politização de crenças religiosas e a passagem da fé para projetos de poder.




Referências



BRITANNICA. Pseudoscience. Encyclopaedia Britannica, 13 fev. 2026. Disponível em: Encyclopaedia Britannica. Acesso em: 23 mar. 2026. 


DEHANAS, Daniel Nilsson; SHILLIAM, Robbie. The spirit of populism: sacred, charismatic, redemptive, and apocalyptic politics. Democratization, 2024. Disponível em: Taylor & Francis. Acesso em: 23 mar. 2026. 


DUARTE, Tatiane S. “Our time has come! It’s time for the church to govern”. Vibrant: Virtual Brazilian Anthropology, 2020. Disponível em: SciELO. Acesso em: 23 mar. 2026. 


IKEM, Augustine P. Pentecostalism, Electoral Prophetism and National Security in Nigeria. Journal of African Elections, 2020. Disponível em: Taylor & Francis. Acesso em: 23 mar. 2026. 


ISHIYAMA, John. Christian nationalism and attitudes about democracy in Africa. Politics and Religion, 2025. Disponível em: Cambridge University Press. Acesso em: 23 mar. 2026. 


KILP, Alar. The Mandate of the XXV World Russian People’s Council and the sacralization of war. Religions, 2025. Disponível em: MDPI. Acesso em: 23 mar. 2026. 


KLEIN, Márcio. The African Agenda of Evangelical Christians in Brazilian Foreign Policy. Brazilian Political Science Review, 2024. Disponível em: SciELO. Acesso em: 23 mar. 2026. 


LECLERCQ, S. et al. Conspiracy beliefs and perceptual inference in times of uncertainty. Scientific Reports, 2024. Disponível em: Nature. Acesso em: 23 mar. 2026. 


LIGHT, Ivan. Trump’s Charisma. Critical Sociology, 2023. Disponível em: SAGE Journals. Acesso em: 23 mar. 2026. 


NJOKU, Raphael C.; AMADIFE, Emmanuel N. Prophets, Soothsayers, and the Nigerian Political Kingdom: A Study of the Prophetic Voices in the 2023 Presidential Election. Journal of Religion, Culture & Democracy, 2025. Disponível em: Scholastica. Acesso em: 23 mar. 2026. 


PETER, E. L. et al. The role of personality traits and online behavior in belief in conspiracy theories and misinformation. Humanities and Social Sciences Communications, 2024. Disponível em: Nature. Acesso em: 23 mar. 2026. 


SALOMÓN, Mónica. The Role of Defender of the Faith in Bolsonaro’s Foreign Policy. Contexto Internacional, 2025. Disponível em: SciELO. Acesso em: 23 mar. 2026. 


SEN, Malvika. Mythopolitics: or the Battleground of Stories of Power. Patterns of Prejudice, 2025. Disponível em: Taylor & Francis. Acesso em: 23 mar. 2026. 


TRANGERUD, Hannah A. The Trump Prophecies and the Mobilization of Evangelical Voters. Studies in Religion/Sciences Religieuses, 2022. Disponível em: SAGE Journals. Acesso em: 23 mar. 2026. 


XU, G. et al. Misinformation dissemination on social media. Humanities and Social Sciences Communications, 2025. Disponível em: Nature. Acesso em: 23 mar. 2026. 


CARPENEDO, Manoela et al. The expansion of Christian Zionism in the Global South. Religion, 2025. Disponível em: Taylor & Francis. Acesso em: 23 mar. 2026. 



Quando o mais forte não consegue vencer - A guerra contra o Irã recoloca diante dos Estados Unidos a lição esquecida do Vietnã: destruir mais não significa vencer melhor

 


Introdução


Há uma ideia persistente no imaginário militar e político das grandes potências: a de que superioridade tecnológica, capacidade aérea, inteligência avançada e poder de destruição em larga escala bastam para transformar guerra em vitória. A história mostra o contrário. Em conflitos prolongados, a questão decisiva não é apenas quem causa mais dano, mas quem consegue sustentar por mais tempo a própria capacidade de combate, de coesão política e de legitimidade interna. Foi isso que os Estados Unidos aprenderam de forma traumática no Vietnã. E é justamente esse fantasma estratégico que volta a rondar Washington na guerra contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro de 2026 com ataques coordenados de Estados Unidos e Israel. Em 24 de março de 2026, o conflito seguia ativo, com novas rodadas de ataques, ampliação do deslocamento militar americano e sinais crescentes de desgaste econômico e político. (CFR, 2026; Reuters, 2026a; Reuters, 2026b). 


A comparação com o Vietnã não deve ser feita de modo simplista, como se se tratasse da mesma guerra em outro cenário. Não é disso que se trata. O Vietnã foi uma guerra de contrainsurgência, ocupação e desgaste terrestre em larga escala; o conflito atual com o Irã é uma guerra regional de alta intensidade, marcada por mísseis, drones, ataques de precisão, pressão sobre rotas energéticas e risco de expansão interestatal. A analogia útil não é operacional, mas estratégica: em ambos os casos, os Estados Unidos enfrentam a possibilidade de descobrir que a capacidade de destruir o inimigo não se converte automaticamente em capacidade de submetê-lo politicamente. (Britannica, 2026a; CFR, 2026). 


Este artigo sustenta que a guerra contra o Irã recoloca um velho problema do poder americano: o equívoco de medir êxito pela intensidade do dano causado e não pela capacidade real de transformar esse dano em desfecho político. No Vietnã, o nome desse erro foi guerra de atrito. No conflito atual, ele reaparece sob outra forma: a crença de que a acumulação de ataques, alvos destruídos e pressão militar produzirá, por si, a rendição estratégica de Teerã. A questão é saber se o Irã será derrotado antes que o custo da guerra comece a corroer a própria base política e econômica da intervenção americana. (Britannica, 2026a; Reuters, 2026c). 



1. O Vietnã e a ilusão de que matar mais era vencer mais



A guerra do Vietnã permanece como um dos exemplos mais eloquentes da distância entre superioridade tática e vitória estratégica. Sob o comando do general William Westmoreland, a lógica predominante foi a da war of attrition, a guerra de atrito. Nela, a premissa central era relativamente simples: se os Estados Unidos infligissem baixas suficientes ao Vietnã do Norte e ao Viet Cong, o inimigo acabaria incapaz de repor perdas, perderia fôlego e aceitaria uma solução favorável a Washington. Nessa arquitetura mental, o body count tornou-se indicador central de progresso. A contagem de mortos inimigos passou a funcionar como medida de mérito e eficiência militar. (Britannica, 2026a; Britannica, 2026b). 


O problema é que essa racionalidade estatística ocultava o essencial. O inimigo continuava lutando. A Britannica registra que a estratégia de Westmoreland, baseada em “search and destroy” e na centralidade da contagem de corpos, falhou porque as forças comunistas demonstraram capacidade de recomposição e resistência muito superior ao que Washington presumira. Em outras palavras, os Estados Unidos infligiam baixas severas, mas não quebravam a vontade política, militar e social do adversário. A guerra se tornava, assim, uma máquina de produzir destruição sem produzir decisão. (Britannica, 2026a; Britannica, 2026c). 


A Ofensiva do Tet, iniciada no fim de janeiro de 1968, condensou essa contradição de maneira exemplar. Militarmente, os Estados Unidos e seus aliados conseguiram recuperar posições e impor perdas pesadas às forças comunistas. Politicamente, porém, o Tet operou como uma derrota simbólica para Washington, porque mostrou ao público americano que o inimigo continuava capaz de lançar uma ofensiva ampla e coordenada, apesar de anos de bombardeio, ocupação e retórica oficial sobre progresso. A Britannica resume esse ponto com precisão: o Tet foi um revés militar para os comunistas, mas um sucesso estratégico ao abalar profundamente a confiança americana na guerra. (Britannica, 2026d; Britannica, 2026e). 


Há aqui uma lição estrutural. Uma potência pode dominar o campo de batalha e, ainda assim, fracassar na guerra se não conseguir quebrar a capacidade de resistência do adversário e preservar sua própria sustentação doméstica. Foi o que ocorreu no Vietnã. As perdas americanas cresceram, os protestos internos se ampliaram e a confiança pública no esforço de guerra se deteriorou progressivamente. A Britannica observa que, já em 1967, o apoio à condução presidencial da guerra havia caído para menos de 50% nas pesquisas, e o conflito passou a ser percebido não como caminho para a vitória, mas como impasse sangrento. (Britannica, 2026f). 



2. A guerra contra o Irã em 2026: força esmagadora, solução incerta



No conflito atual, a assimetria militar entre Estados Unidos e Irã é evidente. Washington dispõe de poder aéreo, naval, tecnológico e logístico incomparavelmente superior. Reuters informou que, até 18 de março de 2026, os EUA já haviam realizado mais de 7.800 ataques desde o início da guerra em 28 de fevereiro, além de danificar ou destruir mais de 120 embarcações iranianas, segundo dados do Comando Central americano. Nos dias seguintes, o acúmulo militar aumentou: em 20 de março, Reuters noticiou o envio de milhares de fuzileiros e marinheiros adicionais ao Oriente Médio; em 24 de março, a agência informou a expectativa de novo deslocamento de milhares de soldados da 82ª Divisão Aerotransportada para a região. (Reuters, 2026d; Reuters, 2026e; Reuters, 2026a). 


Do ponto de vista estritamente militar, isso expressa capacidade de escalada. Do ponto de vista estratégico, porém, a pergunta decisiva é outra: essa escalada está produzindo rendição política do Irã ou apenas ampliando o custo geral da guerra? O Council on Foreign Relations registrou, em atualização de 24 de março, que Israel mantinha ataques contínuos sobre o Irã e o Líbano, enquanto forças iranianas lançavam novas ondas de drones e mísseis em direção ao Golfo Pérsico e a Israel. Ou seja: o Estado iraniano, embora pressionado, seguia funcional o suficiente para retaliar e prolongar o conflito. (CFR, 2026). 


É exatamente aqui que o paralelo com o Vietnã se torna intelectualmente produtivo. O Irã não precisa derrotar militarmente os Estados Unidos em sentido clássico. Não precisa ocupar território americano, destruir a totalidade do aparato bélico de Washington nem produzir uma vitória convencional no campo de batalha. Para frustrar a lógica da intervenção americana, basta sobreviver politicamente, manter cadeias decisórias básicas, retaliar de modo recorrente e elevar o custo do conflito para além do teatro militar imediato. Em guerras assimétricas ou semiassimétricas, sobreviver já é uma forma de negar vitória ao mais forte. Essa foi a chave vietnamita. E é parte da lógica iraniana hoje. (Britannica, 2026a; CFR, 2026). 



3. Do “body count” à contabilidade dos alvos destruídos



No Vietnã, a contagem de corpos funcionava como ilusão numérica de controle. Hoje, o equivalente não é exatamente o número de mortos, mas a contabilidade dos alvos atingidos: instalações militares destruídas, embarcações neutralizadas, estoques de drones e mísseis degradados, infraestrutura energética sob pressão, lideranças abatidas. Tudo isso tem relevância militar, mas pode produzir a mesma cegueira analítica do passado se for confundido com vitória política. (Britannica, 2026a; Reuters, 2026d). 


A Reuters sintetizou esse dilema ao informar, em 21 de março, que a guerra havia escalado “além do controle” político de Donald Trump. A reportagem destacou quatro elementos centrais: o Irã resistia aos ataques EUA-Israel; aliados regionais recusavam certas pressões de Washington; analistas apontavam erro de cálculo e ausência de estratégia clara de saída; e os aumentos do preço dos combustíveis, somados ao reforço militar, ameaçavam o apoio político ao governo americano. Trata-se, em essência, do mesmo tipo de descompasso visto no Vietnã: êxitos militares parciais coexistindo com fragilidade crescente da tradução política desses êxitos. (Reuters, 2026b). 


Essa é a armadilha recorrente das potências. Supõe-se que a destruição acumulada contenha, em si mesma, a lógica da vitória. Mas a guerra é uma disputa de vontades organizadas, não apenas de meios materiais. Se o adversário preserva capacidade de resistência e se o próprio agressor começa a pagar custos internos crescentes, a balança estratégica deixa de depender só de quem tem mais poder de fogo. Passa a depender de quem consegue suportar por mais tempo a fricção total da guerra. Foi assim no Vietnã. Pode voltar a ser assim no confronto com o Irã. (Britannica, 2026a; Britannica, 2026f; Reuters, 2026b). 



4. Energia, economia e opinião pública: as novas frentes do desgaste



Uma diferença crucial entre Vietnã e Irã está no peso quase imediato da variável energética e macroeconômica. Em 24 de março de 2026, a Reuters informou que a guerra já começava a atingir as grandes economias globais, com pesquisas empresariais mostrando atividade enfraquecida e expectativas de inflação em alta em razão do salto nos preços da energia e do aumento da incerteza. No mesmo dia, outra reportagem da agência indicou queda da atividade empresarial nos Estados Unidos ao menor nível em 11 meses, associada à guerra e à elevação dos custos energéticos. O conflito, portanto, deixou de ser apenas tema de segurança e passou a afetar produção, preços, expectativas e percepção cotidiana do custo de vida. (Reuters, 2026f; Reuters, 2026g). 


Essa dimensão importa enormemente porque guerras longas se tornam politicamente mais frágeis quando invadem o cotidiano material da sociedade que as financia. Em 9 de março, uma pesquisa Reuters/Ipsos mostrou que 67% dos entrevistados esperavam piora dos preços da gasolina nos EUA no período seguinte, e 60% acreditavam que o envolvimento militar americano no Irã se prolongaria. Em 19 de março, outra sondagem Reuters/Ipsos revelou que 65% dos americanos acreditavam que Trump enviaria tropas a uma guerra terrestre de grande escala, mas apenas 7% apoiavam essa ideia. Em 24 de março, a aprovação presidencial caiu para 36%, novo piso em meio à alta dos combustíveis e à ampliação do conflito. (Reuters, 2026h; Reuters, 2026i; Reuters, 2026j). 


No Vietnã, a corrosão doméstica veio sobretudo pela combinação entre mortes americanas, serviço militar, protestos e impasse estratégico. No caso do Irã, o desgaste pode operar por outra equação: medo de escalada regional, envio adicional de tropas, pressão inflacionária, combustíveis mais caros, desaceleração econômica e sensação de guerra sem desfecho claro. A substância, porém, é a mesma. Em ambos os casos, a sustentabilidade política do conflito torna-se tão importante quanto sua execução militar. A guerra deixa de ser julgada apenas nos mapas de operações e passa a ser julgada também na bomba de combustível, nos indicadores econômicos e na aprovação do governo. (Britannica, 2026f; Reuters, 2026f; Reuters, 2026j). 



5. O que o Irã pode aprender com o Vietnã — e o que os EUA parecem não ter desaprendido



A comparação estratégica sugere que o Irã trabalha sobre uma premissa que Hanoi compreendeu muito bem no século XX: o mais forte pode ser levado ao impasse se o conflito for deslocado para o terreno da duração, da dispersão dos custos e da erosão da vontade política do agressor. Isso não significa que os contextos sejam idênticos, nem que os resultados serão os mesmos. Significa, apenas, que a lógica da resistência organizada continua central. Um Estado sob pressão intensa pode transformar sua própria vulnerabilidade em arma se conseguir sobreviver, retaliar e negar ao inimigo a narrativa da vitória rápida. (Britannica, 2026a; CFR, 2026). 


Já os Estados Unidos parecem novamente confrontados com seu dilema clássico. A superioridade militar continua imensa; o problema continua sendo político. Se Washington destrói muito, mas não obtém submissão estratégica do adversário; se amplia ataques, mas não constrói saída clara; se reforça presença militar, mas enfraquece apoio doméstico; então a guerra passa a operar contra a própria potência que a iniciou. A Reuters observou explicitamente que analistas vinham apontando falta de estratégia de saída e dificuldades crescentes para Trump controlar a narrativa pública da guerra. Esse detalhe é decisivo. Toda guerra prolongada é também uma guerra de narrativa, legitimidade e expectativa social. (Reuters, 2026b; Reuters, 2026j). 


O ponto de fundo é quase paradoxal: uma potência pode continuar capaz de destruir e, ao mesmo tempo, começar a perder as condições de converter destruição em vitória. Essa foi a tragédia americana no Vietnã. É o risco latente agora. O número de ataques, alvos ou baixas não resolve sozinho a questão estratégica. O que a resolve é outra coisa: se o adversário foi realmente incapacitado de continuar resistindo e se a sociedade do agressor continua disposta a pagar o preço da guerra. (Britannica, 2026a; Britannica, 2026d; Reuters, 2026i). 



Conclusão



A guerra entre Estados Unidos e Irã, em março de 2026, ainda está em curso e, por isso mesmo, qualquer juízo definitivo seria precipitado. Mas a história não serve apenas para explicar o que já terminou; serve também para iluminar o que está em processo. O Vietnã oferece, nesse sentido, uma lente dura e necessária. Ele mostrou que o poder militar mais impressionante do mundo pode fracassar quando mede a guerra apenas pela destruição que causa e não pela resistência que precisa quebrar. Mostrou também que o desgaste do agressor não é simples efeito colateral: é parte central da guerra quando o adversário transforma sobrevivência em estratégia. (Britannica, 2026a; Britannica, 2026f). 


O confronto com o Irã recoloca exatamente essa questão. Os Estados Unidos têm força para punir, bombardear, degradar capacidades e ampliar a pressão militar. O que ainda não demonstraram é algo mais difícil: a capacidade de transformar essa força em um resultado político inequívoco e sustentável. Enquanto o Irã continuar respondendo, enquanto o custo econômico se expandir, enquanto a opinião pública americana se mostrar vacilante e enquanto a estratégia de saída permanecer nebulosa, a superioridade militar continuará sendo apenas uma parte da equação. A outra parte é o tempo. E o tempo, como o Vietnã ensinou, nem sempre joga a favor do mais forte. (CFR, 2026; Reuters, 2026b; Reuters, 2026f; Reuters, 2026j). 


No fim, a velha fórmula continua válida: guerras prolongadas não se vencem apenas matando mais, bombardeando mais ou destruindo mais. Vencem-se quando o inimigo perde a capacidade de resistir e quando o próprio agressor preserva intacta sua base política, econômica e moral para continuar lutando. O Vietnã provou o limite da primeira crença. O Irã pode estar testando, agora, o limite da segunda. (Britannica, 2026a; Britannica, 2026d). 



Referências



BRITANNICA. Tet Offensive. Encyclopaedia Britannica, 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Tet-Offensive. Acesso em: 24 mar. 2026. 


BRITANNICA. Vietnam War. Encyclopaedia Britannica, 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/event/Vietnam-War. Acesso em: 24 mar. 2026. 


BRITANNICA. Vietnam War: Firepower comes to naught. Encyclopaedia Britannica, 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/event/Vietnam-War/Firepower-comes-to-naught. Acesso em: 24 mar. 2026. 


BRITANNICA. Vietnam War: Tet brings the war home. Encyclopaedia Britannica, 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/event/Vietnam-War/Tet-brings-the-war-home. Acesso em: 24 mar. 2026. 


BRITANNICA. William Westmoreland. Encyclopaedia Britannica, 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/William-Westmoreland. Acesso em: 24 mar. 2026. 


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REUTERS. Exclusive: Trump’s approval hits new 36% low as fuel prices surge amid Iran war, Reuters/Ipsos poll finds. Reuters, 24 mar. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/us/trumps-approval-hits-new-36-low-fuel-prices-surge-amid-iran-war-reutersipsos-2026-03-24/. Acesso em: 24 mar. 2026. 


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REUTERS. U.S. military is deploying thousands of additional Marines and sailors to the Middle East, officials say. Reuters, 20 mar. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/us-deploy-thousands-additional-troops-middle-east-officials-say-2026-03-20/. Acesso em: 24 mar. 2026. 


REUTERS. U.S. weighs military reinforcements as Iran war enters possible new phase. Reuters, 18 mar. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/us-weighs-military-reinforcements-iran-war-enters-possible-new-phase-2026-03-18/. Acesso em: 24 mar. 2026. 


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