sábado, 28 de março de 2026

Quando a ONU chama a escravidão pelo nome

A resolução histórica que recoloca reparação, memória e responsabilidade no centro da ordem internacional


Índice

  1. Lide
  2. Introdução
  3. Por que a decisão da ONU é histórica
  4. A batalha pelas palavras: memória, crime e reparação
  5. Quem apoiou, quem se opôs e o que isso revela
  6. Os três votos contra e as 52 abstenções: o que estava realmente em disputa
  7. O Brasil no centro da história que o mundo volta a encarar
  8. Reparação não é só dinheiro
  9. O argumento dos opositores e seus limites
  10. A decisão da ONU e a disputa sobre o futuro
  11. Conclusão
  12. Referências




Lide



A Assembleia Geral da ONU aprovou, em 25 de março de 2026, a resolução A/80/L.48, que declara o tráfico transatlântico de africanos escravizados e a escravização racializada de africanos como “o crime mais grave contra a humanidade”. A proposta, liderada por Gana e apoiada por países africanos e caribenhos, foi aprovada por 123 votos a favor, 3 contrários e 52 abstenções. Embora não tenha força jurídica vinculante, a resolução desloca o debate global: a escravidão deixa de ser tratada apenas como tragédia histórica e volta ao centro da agenda internacional como questão de memória, responsabilidade e justiça reparatória. 



Introdução



Há momentos em que a diplomacia internacional produz mais do que um documento: produz uma mudança de linguagem, e mudanças de linguagem alteram a forma como o poder tenta organizar a memória. Foi isso que ocorreu quando a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a resolução que reconhece a escravização transatlântica de africanos como o crime mais grave contra a humanidade. O texto não obriga Estados a pagar reparações amanhã, nem cria automaticamente um tribunal, um fundo compulsório ou uma sanção internacional. Mas muda o enquadramento moral e político do problema. E isso, em assuntos históricos de longa duração, é tudo menos secundário. 


O núcleo da decisão é simples e poderoso. A ONU afirma que a escravidão atlântica não pode mais ser tratada como um passado remoto, encerrado nos livros ou dissolvido em homenagens genéricas. Ela a recoloca no centro da ordem internacional como uma estrutura histórica cujas consequências persistem em desigualdades raciais, subdesenvolvimento, marginalização e espoliação cultural. A resolução também encoraja os Estados a considerarem pedidos de desculpas, medidas de justiça reparatória e a devolução de artefatos saqueados durante a era colonial. 


A força histórica do gesto aparece justamente na reação que ele provocou. Três países votaram contra — Estados Unidos, Israel e Argentina — enquanto 52 se abstiveram, incluindo Reino Unido e Estados-membros da União Europeia. Esse desenho revela uma linha divisória muito clara: condenar a escravidão em abstrato é relativamente fácil; difícil é admitir que seu legado possa gerar efeitos políticos, patrimoniais, educacionais e institucionais no presente. 


Para o Brasil, essa resolução tem peso ainda maior. O país foi o principal destino do tráfico transatlântico nas Américas. As estimativas do projeto SlaveVoyages indicam cerca de 12,5 milhões de africanos embarcados para as Américas e mostram o Brasil como o maior receptor desse sistema, com cerca de 4,9 milhões de desembarques. Isso significa que a resolução da ONU não trata apenas da história do mundo; trata diretamente da formação social, econômica e racial brasileira. 



Por que a decisão da ONU é histórica



A decisão é histórica, em primeiro lugar, porque rompe um padrão diplomático de contenção. Durante décadas, a escravidão atlântica foi amplamente reconhecida como horror histórico, mas frequentemente tratada em linguagem memorial, pedagógica ou simbólica, sem avançar com a mesma força para o terreno da responsabilidade e da reparação. A resolução A/80/L.48 move a discussão para outro patamar ao declarar expressamente a gravidade singular desse sistema e ao vinculá-lo à necessidade de justiça reparatória. 


Em segundo lugar, a relevância da decisão está em sua natureza normativa, ainda que não vinculante. Resoluções da Assembleia Geral não têm o mesmo efeito jurídico das decisões obrigatórias do Conselho de Segurança, mas possuem peso político e simbólico considerável. Elas ajudam a consolidar consensos morais, orientam agendas multilaterais, influenciam organismos regionais, estimulam debates legislativos e servem de referência para futuras iniciativas diplomáticas, acadêmicas e jurídicas. Foi exatamente assim que a própria cobertura internacional interpretou a votação: como um marco político, não como um simples rito retórico. 


Em terceiro lugar, a resolução fortalece a ação coordenada de países africanos e caribenhos. Gana liderou a iniciativa com apoio da União Africana e da Comunidade do Caribe, vinculando a discussão sobre escravidão à agenda contemporânea da justiça reparatória. A União Africana saudou a adoção do texto como passo importante no enfrentamento das consequências persistentes da escravidão e do colonialismo, reforçando que o debate não é apenas histórico, mas estrutural. 


Por fim, a decisão é histórica porque desafia o esquecimento. O presidente de Gana, John Mahama, afirmou antes da votação que a resolução serviria como “proteção contra o esquecimento” e como enfrentamento das cicatrizes persistentes da escravidão. Essa formulação é decisiva: o que estava em jogo não era apenas classificar um crime passado, mas impedir que o sistema internacional continue tratando seus efeitos como irrelevantes, inevitáveis ou politicamente intocáveis. 



A batalha pelas palavras: memória, crime e reparação



As disputas diplomáticas muitas vezes parecem formais, mas não são. Palavras em resoluções da ONU importam porque delimitam o horizonte do que poderá ou não ser reivindicado depois. Por isso, a expressão “o crime mais grave contra a humanidade” tornou-se o ponto sensível da votação. Defensores da resolução a utilizaram para marcar a dimensão singular do tráfico transatlântico e da escravização racializada de africanos; opositores e abstencionistas reagiram dizendo que o uso desse superlativo criaria uma hierarquia entre atrocidades históricas. 


Mas essa objeção não é neutra. Em termos diplomáticos, ela funciona como um mecanismo de contenção. Ao deslocar o foco da escravidão para o problema abstrato da “comparação entre atrocidades”, muitos Estados evitaram enfrentar a questão central: a escravidão atlântica não foi apenas um episódio entre outros, e sim um sistema econômico, racial, transcontinental e de longa duração que ajudou a moldar a modernidade, a acumulação de riqueza no Atlântico Norte, a subordinação colonial e a racialização estrutural de povos africanos e seus descendentes. A batalha pelas palavras, portanto, era também uma batalha pelo alcance político da memória. 


O segundo eixo da disputa foi a palavra “reparação”. A resolução não fixou valores, nem estabeleceu indenizações compulsórias, mas defendeu que os Estados considerem desculpas formais, justiça reparatória, restituição, compensação, reformas institucionais e devolução de artefatos culturais. A reação negativa de parte do Ocidente mostra que o problema não está em recordar a escravidão, e sim em aceitar que a lembrança possa gerar responsabilidade contemporânea. É aí que memória e reparação deixam de ser campos separados. 



Quem apoiou, quem se opôs e o que isso revela



O apoio majoritário à resolução revela uma reconfiguração importante da sensibilidade internacional. A proposta foi puxada por Gana, recebeu respaldo da União Africana e da CARICOM, e obteve 123 votos favoráveis na Assembleia Geral. Isso mostra que, para boa parte do Sul Global, a escravidão não pode mais ser tratada apenas como memória moral; ela precisa ser reconhecida como estrutura histórica com efeitos persistentes sobre desenvolvimento, dignidade e desigualdade racial. 


Os votos contrários e as abstenções também são eloquentes. Estados Unidos, Israel e Argentina votaram contra. Reino Unido e os membros da União Europeia se abstiveram, acompanhados por outros países ocidentais. Em termos geopolíticos, o quadro sugere uma divisão entre, de um lado, Estados que buscam tornar o vocabulário da reparação mais legítimo no plano multilateral e, de outro, potências ou aliados ocidentais interessados em limitar o potencial jurídico, político e financeiro desse reconhecimento. 


Esse padrão de votação desmonta uma ilusão frequente: a de que há consenso pleno sobre como lembrar a escravidão. Não há. O que existe é um acordo amplo sobre sua condenação moral, mas um desacordo profundo sobre suas consequências contemporâneas. Em outras palavras, muitos Estados aceitam a história enquanto ela permanece no museu; resistem quando ela tenta entrar na política internacional do presente. 



Os três votos contra e as 52 abstenções: o que estava realmente em disputa



A controvérsia central da votação não era sobre a existência do tráfico atlântico nem sobre a brutalidade da escravidão. O que se disputou foi outra coisa: até onde o reconhecimento histórico poderia avançar em direção à responsabilidade atual. Os votos contrários e as abstenções devem ser lidos precisamente nesse registro. Eles indicam o ponto em que parte do sistema internacional aceita a memória, mas tenta frear sua tradução em linguagem jurídica, patrimonial e política. 



Estados Unidos



Entre os três votos contrários, o caso dos Estados Unidos é o mais claramente documentado. O representante norte-americano argumentou que o país não reconhece um direito legal a reparações por injustiças históricas que não eram consideradas ilegais pelo direito internacional à época em que ocorreram. Também criticou a criação de uma suposta hierarquia de atrocidades e rejeitou o que chamou de uso cínico de injustiças históricas para redistribuição de recursos atuais. Trata-se de uma posição simultaneamente jurídica, fiscal e ideológica: rejeita a retroatividade, busca bloquear pressões futuras por reparações e se articula ao ambiente político da atual administração norte-americana, criticada por Gana por políticas de apagamento da história negra. 



Israel



No caso de Israel, as fontes públicas abertas consultadas não apresentam, até aqui, uma explicação oficial detalhada equivalente à dos Estados Unidos, da União Europeia ou do Reino Unido. O dado verificável é o voto contrário. A interpretação mais plausível, e aqui se trata de inferência analítica, é a de alinhamento diplomático com Washington e convergência com a crítica ao uso de um superlativo que poderia criar distinção entre atrocidades históricas. Essa leitura é coerente com o padrão do voto e com a posição do bloco ocidental mais resistente à formulação aprovada, mas não pode ser tratada como justificativa oficial expressamente documentada nas fontes primárias acessíveis consultadas. 



Argentina



A Argentina também votou contra, mas, assim como no caso israelense, não aparece nas fontes abertas consultadas uma justificativa oficial tão detalhada quanto as declarações dos EUA, da UE e do Reino Unido. A hipótese mais consistente é a de alinhamento ideológico e diplomático com o eixo anti-reparação, sobretudo por votar ao lado de Washington e de Israel, e não simplesmente optar pela abstenção. Ainda assim, o cuidado analítico é indispensável: trata-se de inferência política plausível, e não de motivação oficialmente comprovada nas fontes primárias abertas examinadas. 



As 52 abstenções



As 52 abstenções não decorreram de uma única razão homogênea declarada por todos os países, mas as explicações públicas disponíveis, especialmente da União Europeia e do Reino Unido, permitem identificar um núcleo comum de argumentos. O primeiro foi a rejeição à expressão “gravest”, por supostamente criar hierarquia entre crimes ou atrocidades históricas. O segundo foi a objeção à retroatividade do direito internacional: UE e Reino Unido afirmaram que o texto poderia sugerir deveres jurídicos atuais relativos a fatos que, à época, não eram formalmente proibidos pelo direito internacional vigente. O terceiro foi o desconforto com o que a UE chamou de redação problemática e referências históricas controversas. E o quarto, menos dito em voz alta, mas politicamente evidente, é o receio de que a resolução fortaleça reivindicações futuras por desculpas oficiais, restituição patrimonial e fundos reparatórios. 


A posição europeia é particularmente reveladora. A União Europeia afirmou reconhecer a gravidade da escravidão e a necessidade de enfrentar seus efeitos duradouros, mas absteve-se por discordar da redação final e de suas implicações. O Reino Unido seguiu lógica semelhante: reconheceu os danos incalculáveis causados pelo tráfico transatlântico, porém afirmou que nenhum conjunto de atrocidades deveria ser tratado como mais ou menos significativo do que outro. Traduzido em linguagem política, o gesto significa o seguinte: reconhece-se a dor histórica, mas busca-se evitar que esse reconhecimento se converta em precedente moral forte demais para exigir responsabilidades concretas. 



O Brasil no centro da história que o mundo volta a encarar



Nenhum país que tenha levado a sério sua história pode olhar essa resolução de fora. No caso brasileiro, isso é ainda mais evidente. As estimativas do projeto SlaveVoyages apontam que cerca de 12,5 milhões de africanos foram embarcados no tráfico transatlântico, e o Brasil aparece como o maior destino desse sistema, com cerca de 4,9 milhões de desembarques. Isso coloca o país no coração histórico do problema. 


Esse dado não é apenas numérico. Ele ajuda a entender por que a escravidão não foi periférica na formação brasileira; ela foi constitutiva. Foi base econômica, fundamento de acumulação, engrenagem da produção colonial e imperial, matriz de hierarquias raciais e parte central da estrutura social brasileira. Quando a ONU reabre a discussão sobre memória e reparação, ela toca diretamente na arquitetura histórica do Brasil e no modo como o país ainda convive com desigualdades raciais profundas. A resolução, por isso, não interpela o Brasil apenas como ex-colônia; interpela-o como sociedade moldada, em larga medida, pela escravidão atlântica. 


Há ainda um segundo ponto decisivo. A comparação com os Estados Unidos, tão frequente no debate público, costuma obscurecer a magnitude brasileira. A BBC destacou que, enquanto os EUA receberam cerca de 389 mil africanos escravizados, o Brasil recebeu 4,9 milhões. Essa diferença histórica ajuda a explicar por que, aqui, a discussão sobre reparação não pode ser tratada como importação de pauta estrangeira. Trata-se de tema intrinsecamente brasileiro. 



Reparação não é só dinheiro



Um dos erros mais persistentes do debate é reduzir reparação à imagem estreita de um cheque estatal. A própria formulação defendida por Gana e apoiada pelos articuladores da resolução é mais ampla. O texto menciona pedidos de desculpas, restituição, compensação, reformas institucionais, devolução de artefatos culturais e medidas voltadas ao enfrentamento das consequências persistentes da escravidão. Autoridades ganesas também falaram em fundos educacionais, patrimoniais e programas de formação profissional. Reparação, portanto, não se esgota em transferência monetária; ela envolve memória institucional, restituição cultural, justiça simbólica e reequilíbrio estrutural. 


Esse ponto é essencial porque desmonta caricaturas. Quando opositores apresentam a agenda reparatória como mero mecanismo de distribuição arbitrária de dinheiro entre gerações distantes, simplificam deliberadamente uma discussão muito mais complexa. O que está em jogo é saber se a comunidade internacional reconhece que certos crimes históricos produziram efeitos duradouros e se esses efeitos demandam respostas também duradouras. Nessa perspectiva, reparação pode significar políticas de preservação de memória, devolução de bens espirituais e culturais, revisão curricular, financiamento educacional, apoio patrimonial a comunidades afetadas e reconhecimento público da verdade histórica. 


A devolução de artefatos saqueados durante a era colonial é exemplo eloquente disso. A resolução também pede que esses objetos retornem aos seus países de origem. Não se trata de detalhe decorativo. Artefatos são memória material, e sua permanência em museus ou coleções estrangeiras reproduz, de outra forma, a lógica colonial de apropriação do patrimônio alheio. A restituição, nesse caso, é parte da reparação porque devolve não apenas objetos, mas dignidade histórica. 



O argumento dos opositores e seus limites



O argumento mais forte dos opositores e de boa parte dos abstencionistas foi jurídico: não haveria base para impor reparações por atos históricos que não eram ilegais segundo o direito internacional do tempo em que ocorreram. À primeira vista, parece uma objeção técnica. Mas, examinada de perto, ela mostra seus limites. Primeiro, porque o debate travado na ONU não se resume à responsabilidade judicial estrita; ele envolve responsabilidade moral, histórica, política e institucional. Segundo, porque esse raciocínio tende a proteger a ordem herdada de crimes passados justamente porque ela foi construída antes que a linguagem jurídica internacional moderna pudesse nomeá-los como tal. 


Há uma falácia implícita nesse raciocínio: a de que a ausência de tipificação internacional contemporânea à época dissolveria a exigência atual de enfrentamento. Mas não é assim que as sociedades lidam com grandes crimes históricos. Elas o fazem por meio de memória, verdade, pedidos de desculpas, restituições, reformas e reconhecimento institucional. A resolução da ONU aponta justamente nessa direção. Ela não transforma automaticamente a história em sentença judicial; ela transforma o silêncio em problema político. 


O segundo limite do argumento opositor é separar artificialmente passado e presente. Quando EUA, UE e Reino Unido resistem a partes da redação, o que está em jogo não é apenas técnica jurídica. O temor, amplamente sugerido pela cobertura internacional e pelas explicações de voto, é que o reconhecimento mais contundente da escravidão fortaleça movimentos por reparações, restituições e revisão patrimonial. Em outras palavras, a defesa do formalismo jurídico funciona também como proteção estratégica contra consequências concretas. 



A decisão da ONU e a disputa sobre o futuro



O maior mérito da resolução talvez seja este: ela recoloca a escravidão no centro de uma disputa sobre o futuro, e não apenas sobre o passado. Ao afirmar que suas consequências persistem na forma de desigualdades raciais e subdesenvolvimento, o texto recusa a ideia de que a escravidão possa ser tratada como capítulo encerrado. O que está em questão é a continuidade histórica entre o sistema escravista, o colonialismo, a marginalização econômica de sociedades africanas e a discriminação estrutural sofrida por descendentes da diáspora africana em várias partes do mundo. 


Por isso, a resolução também toca na luta contemporânea contra o racismo estrutural. Quando a ONU reconhece a escravidão como crime de gravidade máxima e associa esse reconhecimento a justiça reparatória, ela não está apenas julgando antepassados; está questionando a legitimidade de uma ordem que ainda distribui privilégios e desvantagens sobre bases racializadas herdadas daquele sistema. A memória, nesse quadro, deixa de ser mero ato comemorativo e se converte em crítica da ordem presente. 


Não é por acaso que o texto tenha provocado resistência exatamente entre países mais expostos, por sua história ou por sua posição geopolítica, ao debate sobre responsabilidades materiais. O futuro da discussão internacional sobre reparações dependerá menos da força coercitiva imediata da resolução e mais de sua capacidade de reorganizar o vocabulário legítimo do debate global. Nesse sentido, a votação de 25 de março de 2026 marca um ponto de inflexão. Mesmo sem obrigar, ela autoriza moralmente; mesmo sem sancionar, ela isola; mesmo sem condenar judicialmente, ela dificulta o conforto político do esquecimento. 



Conclusão



A decisão da Assembleia Geral da ONU é histórica porque altera o lugar da escravidão atlântica no sistema internacional. Ela não cria, por si, obrigação jurídica imediata de reparação, mas redefine o enquadramento moral e político do problema. A partir de agora, torna-se mais difícil sustentar que o tráfico transatlântico e a escravização racializada de africanos pertencem apenas ao arquivo do passado. A própria votação demonstrou isso: 123 países apoiaram o texto, enquanto os votos contrários e as abstenções revelaram o desconforto de Estados que aceitam recordar a história, mas resistem a qualquer formulação que possa transformar lembrança em responsabilidade. 


O ponto central da resolução, portanto, não está em prometer uma reparação automática, mas em recolocar a justiça reparatória no centro da agenda internacional. Os Estados Unidos votaram contra com argumentos explícitos de não retroatividade e recusa de reparações; Israel e Argentina acompanharam esse polo, ainda que sem justificativas oficiais tão detalhadas nas fontes abertas consultadas; Reino Unido e União Europeia se abstiveram sob a fórmula de reconhecer a gravidade da escravidão, mas contestar a redação e suas implicações. O quadro geral é claro: a disputa real não é mais sobre a gravidade da escravidão, e sim sobre o que fazer com essa gravidade no presente. 


Para o Brasil, a resolução tem importância especial. Como maior destino da escravidão atlântica nas Américas, o país não pode tratar esse debate como problema alheio. Se a ONU chamou a escravidão pelo nome, a história brasileira também precisará ser chamada pelo seu. E isso exige mais do que reverência memorial: exige debate sério sobre desigualdade racial, patrimônio, educação, memória pública e formas contemporâneas de reparação. A resolução não encerra a discussão. Ela a torna incontornável. 



Referências



ASSOCIATED PRESS. UN calls for reparations to remedy the “historical wrongs” of trafficking enslaved Africans. 25 mar. 2026. Disponível em: AP News. Acesso em: 28 mar. 2026. 


ASSOCIATED PRESS. What to know as Africans welcome UN vote on slavery reparations. 26 mar. 2026. Disponível em: AP News. Acesso em: 28 mar. 2026. 


AFRICAN UNION. Statement of the Chairperson of the AU Commission on the Adoption of UN General Assembly Resolution A/80/L.48 declaring the trafficking of enslaved Africans and racialized chattel enslavement of Africans as the gravest crime against humanity. 26 mar. 2026. Disponível em: African Union. Acesso em: 28 mar. 2026. 


EUROPEAN UNION. EU Explanation of Vote – UN General Assembly: Action on A/80/L.48 – Declaration of the Trafficking of Enslaved Africans and Racialized Chattel Enslavement of Africans as the Gravest Crime Against Humanity. 25 mar. 2026. Disponível em: European External Action Service. Acesso em: 28 mar. 2026. 


GHANA. Ghana Leads Historic UN Vote Declaring Slave Trade the Gravest Crime Against Humanity. 25 mar. 2026. Disponível em: United Nations Ghana. Acesso em: 28 mar. 2026. 


REINO UNIDO. UK Explanation of Vote on the Declaration of the trafficking of enslaved Africans and racialised chattel enslavement of Africans as the gravest crime. 25 mar. 2026. Disponível em: GOV.UK. Acesso em: 28 mar. 2026. 


REUTERS. UN adopts Ghana’s slavery resolution, defying resistance from US, Europe. 25 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026. 


SLAVEVOYAGES. Estimates: Trans-Atlantic Slave Trade. s.d. Disponível em: SlaveVoyages. Acesso em: 28 mar. 2026. 


SLAVEVOYAGES. The Trans-Atlantic Slave Trade Database. 24 ago. 2025. Disponível em: SlaveVoyages. Acesso em: 28 mar. 2026. 


UNITED NATIONS. Declaration of the Trafficking of Enslaved Africans and Racialized Chattel Enslavement of Africans as the Gravest Crime against Humanity. A/80/L.48. 17 mar. 2026. Disponível em: United Nations Documents. Acesso em: 28 mar. 2026. 



Trump, o Irã e a pergunta de Garrincha: Quando a maior potência do mundo parece esquecer que o adversário também joga



Há uma imagem simples, quase folclórica, que ajuda a compreender o impasse geopolítico criado pela escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã em março de 2026: a célebre pergunta atribuída a Garrincha antes de Brasil x União Soviética, em 1958. Diante de uma preleção minuciosa, o craque teria reagido com ironia: tudo bem, mas alguém já combinou com o outro lado? É exatamente essa chave que o professor Leonardo Trevisan mobiliza em sua análise para a BandNews FM, e o ponto central de sua leitura parece correto: a política externa de Donald Trump, no atual conflito, mostra força tática, mas exibe debilidade estratégica. Ela ataca, ameaça, anuncia, proclama vitória; porém faz isso como se o tabuleiro fosse unilateral, como se o adversário fosse um objeto inerte, e não um ator histórico, estatal, militar e simbólico capaz de reorganizar sua resposta. Essa assimetria entre espetáculo e estratégia não é detalhe. É o núcleo do problema. 


O argumento do professor ganha consistência quando confrontado com os fatos mais recentes do conflito. Um mês após o início da campanha militar, a própria cobertura internacional descreve a situação de Trump como um acúmulo de “escolhas difíceis”, e não como uma operação de objetivos claros, delimitados e politicamente estabilizados. A guerra começou em 28 de fevereiro de 2026; desde então, o Irã retaliou, o Estreito de Ormuz foi parcialmente bloqueado, os preços de energia dispararam, aliados ocidentais passaram a cobrar clareza sobre os fins da operação, e o governo norte-americano passou a emitir sinais contraditórios: de um lado, fala em êxito rápido; de outro, desloca mais tropas e prepara “opções flexíveis” para cenários imprevisíveis (Reuters, 2026). 


É aqui que a metáfora de Garrincha deixa de ser anedota e se torna diagnóstico. O erro de Trump, na leitura de Trevisan, não está apenas em ter um plano. O erro está em agir como se o plano bastasse. O governo norte-americano parece ter apostado que a eliminação de lideranças, a destruição de alvos militares e o uso combinado de pressão bélica e retórica maximalista produziriam, quase automaticamente, o colapso do regime iraniano ou sua rápida capitulação. Mas esse raciocínio ignora o básico da política internacional: Estados sob ataque tendem a recalibrar comando, intensificar centralização e ativar mecanismos de continuidade institucional. Foi precisamente isso que se viu no Irã. Mesmo após mortes no alto escalão, o sistema político-militar iraniano mostrou capacidade de recomposição, com substituições rápidas em órgãos centrais de segurança e preservação da cadeia decisória (Reuters, 2026). 


Esse dado é decisivo para validar a crítica do professor. Se o adversário dispõe de redundância institucional, de um aparelho ideológico consolidado e de uma estrutura militar com capilaridade, a eliminação de chefes não equivale automaticamente à vitória estratégica. Ao contrário: pode reforçar a lógica de resistência, endurecer a sucessão e aprofundar a coesão defensiva. Reuters registrou, por exemplo, que a estrutura iraniana seguiu operando com forte protagonismo da Guarda Revolucionária e com reposição acelerada de postos-chave. Em outras palavras, o golpe tático não se converteu, por si só, em ruptura do regime. Trevisan está certo ao afirmar que a Casa Branca parece ter superestimado o efeito político do dano militar. 


Há ainda um segundo ponto forte da análise: a distinção entre guerra real e guerra narrada. Trevisan sugere que Trump opera, muitas vezes, num plano comunicacional próprio, no qual a declaração de vitória importa mais do que a estabilização efetiva do terreno. Isso não é apenas impressão retórica. A imprensa internacional tem mostrado que o governo norte-americano enfrenta dificuldade crescente para sustentar uma narrativa coerente sobre o conflito. Reuters relatou a luta da Casa Branca para “moldar a narrativa” da guerra, ao mesmo tempo em que Trump passou a pressionar aliados reticentes e a oscilar entre ameaça, triunfalismo e acenos diplomáticos. O que aparece, então, não é uma grande estratégia inteligível, mas uma comunicação errática, pensada para consumo político doméstico e não necessariamente para a consistência diplomática externa (Reuters, 2026). 


Nesse aspecto, a referência de Trevisan a Steve Bannon também não é gratuita. A ideia de “flood the zone with shit” — inundar o espaço público com excesso, ruído e versões simultâneas — tornou-se um dos resumos mais conhecidos do estilo comunicacional trumpista (Vox, 2020). Quando aplicada a um teatro de guerra, essa lógica é especialmente perigosa. Em política doméstica, a confusão já produz erosão do debate racional; em política internacional, ela pode produzir erro de cálculo, desalinhamento entre aliados e dificuldade de calibrar saídas negociadas. A retórica de vitória permanente passa, então, a substituir a clareza sobre fins, custos e condições de encerramento. 


Trevisan também acerta ao insistir que o Irã, nesse conflito, não precisa “vencer” no sentido clássico. Basta não colapsar. Basta resistir. Basta prolongar o custo. Essa é uma das lições mais incômodas da história militar contemporânea para Washington: superpotências tecnológicas frequentemente têm dificuldade em transformar supremacia operacional em solução política durável. A literatura sobre opinião pública e guerra mostra que o apoio social a conflitos armados não é um cheque em branco; ele responde a custos visíveis, sobretudo baixas e sensação de impasse. Estudos clássicos e posteriores indicam que o aumento de fatalidades e a deterioração perceptível do conflito tendem a corroer o apoio público, especialmente quando os objetivos se tornam difusos (Gartner, 2008). Ao mesmo tempo, o projeto Costs of War, da Brown University, mostra o peso humano e econômico prolongado das guerras lideradas pelos EUA desde 2001, com centenas de milhares de mortos diretos e custos sistêmicos muito além do campo de batalha (Brown University, 2026). 


É por isso que a analogia de Trevisan com Vietnã e Afeganistão não deve ser lida como mera retórica histórica. O paralelo não significa dizer que o Irã repetirá exatamente esses cenários, mas que há uma lógica recorrente: quando os objetivos políticos são nebulosos, quando o adversário aceita o desgaste prolongado e quando o custo interno para a democracia intervencionista cresce mais rápido do que sua capacidade de converter força em legitimidade, a superioridade militar deixa de ser garantia de êxito estratégico. O professor identifica precisamente esse risco: os Estados Unidos podem destruir muito e, ainda assim, sair menores politicamente. 


Outro eixo em que a análise do professor se sustenta é o do isolamento diplomático. A guerra revelou desconforto explícito entre aliados tradicionais dos EUA. A Alemanha manifestou dúvida sobre os objetivos da campanha. França, Reino Unido e outros parceiros do G7 priorizaram linguagem de contenção, proteção a civis e restauração da navegação, sem endossar automaticamente a lógica ofensiva inicial. A Associated Press registrou que vários aliados enfatizaram não terem sido consultados previamente e insistiram numa solução diplomática. Reuters acrescentou que líderes europeus vêm deixando claro que a guerra “não é assunto da OTAN” e que qualquer participação exigiria mandato, base legal e aprovação parlamentar (AP, 2026; Reuters, 2026). Isso confirma diretamente o ponto de Trevisan: Trump age como se liderasse um bloco coeso, mas o bloco já não responde como no passado. 


Essa fissura diplomática é ainda mais séria porque ocorre em torno de um dos pontos mais sensíveis da economia mundial: o Estreito de Ormuz. Reuters e The Economist destacaram que o estreito se tornou um gargalo estratégico de dimensão global, afetando cerca de um quinto do fluxo mundial de petróleo e gás natural liquefeito e produzindo impacto imediato sobre energia, fertilizantes, petroquímicos e inflação internacional (Reuters, 2026; The Economist, 2026). A ONU, diante do risco sistêmico, anunciou inclusive a criação de um mecanismo para tentar salvaguardar o comércio pela rota. Quando Trevisan recorre à imagem do “gargalo” e diz que Trump parece não controlar as consequências econômicas de sua própria escalada, ele não está exagerando: está descrevendo um problema material concreto. 


Não se trata apenas de petróleo mais caro. O que está em jogo é a vulnerabilidade estrutural da globalização quando um ponto geográfico concentra fluxos decisivos de energia e insumos. Reuters mostrou que a guerra já vinha comprimindo cadeias petroquímicas, elevando preços de plásticos e insumos industriais, além de pressionar serviços, seguros, logística marítima e investimentos no setor de energia. A guerra, portanto, deixa de ser regional apenas no mapa. Ela se torna mundial em seus efeitos econômicos. E esse talvez seja um dos aspectos mais fortes da leitura de Trevisan: Trump pode vender internamente a estética da força, mas não controla a difusão externa dos danos. 


Há ainda o argumento institucional, talvez o mais grave de todos: a ausência dos “adultos na sala”. A expressão remete ao diagnóstico, amplamente difundido durante o primeiro mandato de Trump, de que certos quadros militares, diplomáticos e burocráticos funcionavam como freios de contenção. Bob Woodward mostrou, em seu trabalho sobre a presidência Trump, que figuras centrais da administração frequentemente se viam obrigadas a conter impulsos presidenciais e explicar o básico da ordem estratégica norte-americana; a própria Reuters resumiu esse contexto ao relatar episódios em que assessores precisavam refrear decisões abruptas do presidente (Reuters, 2018). Quando Trevisan afirma que esses freios desapareceram ou perderam densidade, seu alerta é plausível: quanto menos filtros institucionais, maior o risco de que impulsos de comunicação sejam convertidos em atos de guerra. 


Naturalmente, nem toda formulação do comentário radiofônico precisa ser lida literalmente. Metáforas sobre humilhação ministerial, submissão cômica ou fidelidade caricatural cumprem papel interpretativo, não documental. Mas o diagnóstico de fundo permanece sólido: a personalização extrema da política externa aumenta a imprevisibilidade e enfraquece a capacidade de autocorreção institucional. Em cenário de guerra, isso é explosivo. Uma grande potência sem estratégia clara já é um problema. Uma grande potência sem estratégia clara e sem mecanismos internos robustos de contenção é um problema muito maior. 


No fim, a força da análise de Leonardo Trevisan está em recolocar a política internacional num plano de realidade. O professor desmonta a tentação de ler o conflito apenas pelo vocabulário da superioridade tecnológica norte-americana. Sim, os EUA têm mais poder militar. Sim, podem destruir mais, mais rápido e a maior distância. Mas guerra não é apenas destruição; é relação entre meios, fins, tempo, legitimidade, custo e capacidade de transformar violência em resultado político. Quando esses elementos deixam de convergir, o poder bruto perde inteligência estratégica. E é precisamente isso que a pergunta de Garrincha ilumina com brutal simplicidade: não basta desenhar a jogada; é preciso considerar que o outro lado também decide, reage, resiste e, por vezes, transforma a força do adversário em armadilha para ele mesmo. 


Se o conflito atual já oferece alguma lição preliminar, ela é esta: a maior fraqueza de uma potência pode ser a ilusão de que sua própria narrativa substitui a complexidade do mundo. Trump parece falar como quem já venceu. Mas o campo geopolítico mostra outra coisa: aliados céticos, gargalos energéticos, custos globais crescentes, um adversário ainda funcional e uma estratégia de saída cada vez menos nítida. Em outras palavras, a pergunta de Garrincha continua em pé. E, ao que tudo indica, ela ainda não foi respondida. 



Referências



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