quinta-feira, 21 de maio de 2026

Como um país abandona aqueles que formam suas futuras gerações?

A crise docente como sintoma moral, político e civilizatório do Brasil


Lide

A pergunta mais séria não é apenas por que tantos professores tiveram desempenho insuficiente na Prova Nacional Docente. A pergunta mais profunda é: como um país chegou ao ponto de abandonar justamente aqueles que carregam a responsabilidade de formar suas futuras gerações? A resposta exige sair da indignação fácil e entrar no terreno mais difícil: formação precária, desvalorização salarial, mercantilização das licenciaturas, enfraquecimento da autoridade pedagógica, excesso de cobrança social, adoecimento docente e ausência de um projeto nacional de educação.


1. O dado que deveria constranger o país inteiro

Os resultados divulgados sobre a Prova Nacional Docente indicaram que 35% dos participantes ficaram abaixo da proficiência básica, aproximadamente 266 mil entre 760 mil avaliados; a situação mais grave apareceu em Matemática, área em que mais da metade não alcançou o nível básico. A PND foi criada para apoiar a qualificação do ingresso no magistério e auxiliar redes públicas em processos seletivos docentes.  

Esse dado é grave. Mas ele pode ser lido de duas formas. A leitura superficial dirá: “os professores não sabem ensinar”. A leitura séria dirá: “o país formou mal, pagou mal, cobrou demais, apoiou pouco e agora se espanta com o resultado”.

A segunda leitura é a única intelectualmente honesta.

O professor não nasce pronto. Ele é formado por escolas, universidades, políticas públicas, condições de trabalho, cultura profissional, salário, tempo de estudo e reconhecimento social. Quando esse conjunto falha, o resultado aparece na sala de aula, na aprendizagem dos estudantes e, finalmente, em avaliações nacionais.

A PND não revelou apenas uma deficiência individual. Ela revelou uma falência estrutural.


2. O abandono começa quando a docência deixa de ser projeto de nação

Nenhum país sério trata seus professores como peça periférica. A recomendação histórica da OIT/UNESCO sobre o estatuto dos professores, adotada em 1966, já reconhecia que a docência exige condições adequadas de formação, trabalho, carreira, estabilidade profissional e participação nas decisões educacionais.  

Ou seja: o mundo sabe há décadas que professor não é improviso.

Mesmo assim, muitos sistemas educacionais — e o Brasil entre eles — construíram uma contradição cruel: exigem professores excelentes, mas oferecem formação desigual, carreira pouco atrativa e ambiente escolar frequentemente hostil.

A docência passou a ser vista como missão moral, quase sacerdócio. Mas professor não vive de homenagem no Dia dos Professores. Vive de salário, carreira, tempo de planejamento, biblioteca, laboratório, formação continuada, segurança institucional e respeito social.

Quando uma sociedade transforma o professor em herói, muitas vezes está apenas escondendo que não quer tratá-lo como profissional estratégico.


3. Paulo Freire e a dignidade negada ao educador

Paulo Freire lembrava que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua construção. Essa ideia, tão citada e tão pouco compreendida, exige um professor intelectualmente vivo, culturalmente alimentado e socialmente respeitado.

Mas como criar possibilidades de aprendizagem quando o próprio professor está esgotado?

Como desenvolver pensamento crítico se a rotina docente é marcada por excesso de turmas, burocracia, insegurança, cobrança familiar, pressão por indicadores e baixos salários?

Freire nunca defendeu uma educação romantizada. Sua pedagogia parte da realidade concreta. E a realidade concreta do professor brasileiro, em muitos lugares, é dura: trabalha muito, estuda pouco porque não tem tempo, adoece em silêncio e ainda carrega a culpa pelo fracasso de um sistema inteiro.

O abandono docente é também uma negação da pedagogia freireana. Porque não há educação libertadora com educador socialmente aprisionado.


4. Anísio Teixeira e o fracasso da escola pública como projeto republicano

Anísio Teixeira compreendia a escola pública como base da democracia. Para ele, educação não era favor, caridade ou ornamento retórico. Era infraestrutura da República.

Quando o Estado negligencia o professor, ele enfraquece a própria democracia. Uma escola pública forte precisa de docentes bem formados, selecionados com rigor, acompanhados com seriedade e valorizados institucionalmente.

O que aconteceu no Brasil foi diferente. A expansão do acesso escolar ocorreu sem a mesma intensidade na valorização docente. Colocaram mais crianças na escola, o que foi necessário e positivo, mas não construíram com igual força as condições de qualidade.

A escola se expandiu. A profissão docente se precarizou.

Essa equação não fecha.


5. A mercantilização das licenciaturas

Uma das raízes mais profundas da crise está na formação inicial.

Parte expressiva da formação docente brasileira foi absorvida por uma lógica de mercado. Cursos baratos, rápidos, muitas vezes a distância, com baixa exigência acadêmica e pouca prática supervisionada real, transformaram a licenciatura em produto.

Aqui mora uma tragédia silenciosa.

Formar professor exige muito mais do que entregar apostilas, videoaulas e avaliações padronizadas. Exige domínio do conteúdo, didática, epistemologia, psicologia da aprendizagem, estágio real, leitura intensa, acompanhamento, cultura científica e prática reflexiva.

Quando a licenciatura vira mercadoria de baixa densidade formativa, o diploma existe, mas a formação pode não existir plenamente.

Theodor Adorno chamaria isso de semiformação: uma aparência de formação que não produz autonomia intelectual profunda.


6. Matemática: o ponto em que a crise aparece com mais força

A Matemática é o lugar onde a falha educacional aparece de maneira mais visível porque ela é acumulativa.

Quem não compreende bem aritmética sofre em álgebra. Quem não compreende álgebra sofre em funções. Quem não compreende funções sofre em física, estatística, cálculo, programação e ciência de dados.

Por isso o dado da PND em Matemática é tão preocupante.

Não se trata apenas de uma disciplina escolar. Trata-se da linguagem básica da ciência, da tecnologia, da engenharia, da inteligência artificial, da economia e da cidadania estatística.

Um país que forma mal seus professores de Matemática compromete seu futuro tecnológico.


7. A sociedade que exige tudo da escola, mas entrega pouco a ela

A escola brasileira virou depósito de todas as urgências sociais.

Quer-se que ela ensine conteúdo, eduque valores, acolha sofrimento emocional, corrija desigualdades familiares, resolva violência, enfrente fake news, ensine tecnologia, prepare para o mercado, forme cidadãos, reduza desigualdades e ainda entregue bons resultados em avaliações externas.

Mas quem cuida de quem cuida?

O professor virou para-raios de uma sociedade desorganizada.

Famílias transferem responsabilidades. Governos transferem culpas. Plataformas digitais fragmentam a atenção dos estudantes. Gestores cobram resultados. A imprensa simplifica diagnósticos. E, no final, o professor é apontado como culpado.

Esse ciclo é perverso.


8. O problema é global, mas o Brasil tem suas próprias feridas

A crise docente não é exclusivamente brasileira. A UNESCO estima necessidade global de 44 milhões de professores para alcançar educação primária e secundária universal até 2030, destacando desafios de recrutamento, retenção, formação e valorização da carreira.  

A OCDE também monitora condições de trabalho, salários, formação inicial e desenvolvimento profissional docente como variáveis centrais da qualidade educacional.  

Mas o Brasil possui agravantes próprios: desigualdade regional brutal, redes municipais frágeis, formação superior heterogênea, carreira pouco atrativa, infraestrutura desigual e histórico de descontinuidade nas políticas públicas.

Enquanto países bem-sucedidos tratam o professor como eixo estratégico, o Brasil frequentemente o trata como despesa administrativa.

Essa é a diferença entre política educacional e retórica educacional.


9. A culpa individual é a explicação dos preguiçosos

É muito fácil dizer que “o professor não sabe”. Difícil é perguntar quem formou esse professor.

Foi a escola básica brasileira.

Foi a licenciatura brasileira.

Foi a política pública brasileira.

Foi o mercado educacional brasileiro.

Foi a cultura nacional de desvalorização do conhecimento.

O professor avaliado pela PND não caiu do céu. Ele é produto histórico de uma cadeia de negligências.

Culpar apenas o docente é como culpar a última peça de uma ponte que desabou, ignorando que todo o projeto estrutural estava comprometido.


10. O abandono docente é também abandono dos estudantes pobres

A elite sempre encontra saídas privadas: escola cara, professor particular, intercâmbio, plataforma paga, cursinho, mentoria, reforço.

Quem depende integralmente da escola pública não tem rota alternativa.

Por isso, quando o Estado abandona o professor, ele abandona principalmente o estudante pobre.

A crise docente aprofunda desigualdades. Quem nasce em família com capital cultural consegue compensar parte da fragilidade escolar. Quem nasce sem esse suporte fica preso à escola que o Estado entrega.

Bourdieu e Passeron já mostravam que a escola pode reproduzir desigualdades quando não enfrenta as diferenças sociais de origem.

No Brasil, a desvalorização docente é uma engrenagem dessa reprodução.


11. O professor foi abandonado materialmente, simbolicamente e politicamente

O abandono tem três dimensões.

A primeira é material: salário, carreira, infraestrutura, jornada e condições reais de trabalho.

A segunda é simbólica: perda de prestígio, ataques à autoridade docente, desprezo pelo conhecimento e banalização da formação pedagógica.

A terceira é política: ausência de projeto nacional duradouro, políticas fragmentadas, reformas descontínuas e decisões tomadas sem escuta profunda dos professores.

Quando essas três dimensões se combinam, a profissão perde atratividade. Jovens talentosos migram para outras áreas. A licenciatura torna-se alternativa de menor prestígio. O ciclo se retroalimenta.

O país cria a escassez que depois lamenta.


12. O que os grandes educadores diriam diante desse cenário?

Comenius provavelmente lembraria que ensinar exige método, ordem e cuidado com a formação humana.

Rousseau diria que não se educa bem uma criança sem compreender sua natureza e seu desenvolvimento.

Pestalozzi insistiria na educação integral: cabeça, coração e mãos.

Dewey perguntaria se a escola ainda prepara para a vida democrática ou apenas reproduz rotinas mortas.

Montessori lembraria que a criança precisa de ambiente preparado — e professor preparado.

Freire denunciaria a contradição de um sistema que pede emancipação, mas oprime educadores.

Anísio Teixeira perguntaria onde ficou o projeto republicano de escola pública.

Darcy Ribeiro talvez fosse mais duro: a crise educacional brasileira não é acidente; muitas vezes parece projeto.


13. Inteligência Artificial e o novo abismo

A chegada da inteligência artificial torna essa discussão ainda mais urgente.

Num mundo orientado por algoritmos, dados, automação e plataformas inteligentes, a formação matemática, científica e crítica será cada vez mais decisiva.

Se o Brasil não fortalecer seus professores agora, a desigualdade educacional se transformará em desigualdade cognitiva extrema.

Uma pequena elite saberá usar IA para produzir, pesquisar, programar, empreender e governar. A maioria usará tecnologia apenas como consumo passivo.

A diferença entre usuário e sujeito crítico será determinada, em grande parte, pela qualidade da educação básica.

E essa qualidade passa pelo professor.


14. Como chegamos a esse ponto?

Chegamos a esse ponto porque o Brasil naturalizou absurdos.

Naturalizou professor trabalhar em várias escolas.

Naturalizou levar trabalho para casa.

Naturalizou licenciatura frágil.

Naturalizou aluno chegar ao ensino médio sem base.

Naturalizou universidade formar sem rigor.

Naturalizou gestor cobrar resultado sem dar condição.

Naturalizou agressão verbal contra docente.

Naturalizou baixos salários.

Naturalizou dizer que educação é prioridade enquanto o professor continua sendo tratado como peça substituível.

O abandono não aconteceu de uma vez.

Foi construído lentamente.

Ano após ano.

Reforma após reforma.

Discurso após discurso.


15. O que precisa mudar

A resposta não pode ser apenas punitiva. Avaliar professores é necessário, mas avaliação sem política de formação vira mecanismo de exposição pública.

O país precisa de uma agenda séria:

  1. Reformar profundamente as licenciaturas, com mais rigor, prática supervisionada real e domínio de conteúdo.
  2. Valorizar a carreira docente, tornando-a competitiva para atrair bons estudantes.
  3. Criar residência pedagógica robusta, semelhante à lógica da formação médica, com acompanhamento intensivo.
  4. Garantir formação continuada permanente, vinculada à prática real da escola.
  5. Reduzir sobrecarga burocrática, devolvendo tempo ao planejamento e ao estudo.
  6. Fortalecer Matemática, Ciências e Língua Portuguesa, sem desprezar formação humana, artística e crítica.
  7. Construir políticas de Estado, não programas passageiros de governo.

O Banco Mundial destaca que políticas docentes só funcionam quando consideram como os professores realmente vivenciam essas políticas e quais barreiras impedem sua implementação em escala.  

Esse ponto é fundamental: não basta desenhar política em gabinete. É preciso compreender a vida concreta do professor.


Conclusão — O país que abandona seus professores abandona a si mesmo

Como um país chegou ao ponto de abandonar justamente aqueles responsáveis por formar suas futuras gerações?

Chegou porque confundiu discurso com política pública.

Chegou porque tratou professor como vocação barata.

Chegou porque permitiu que a formação docente fosse precarizada.

Chegou porque aceitou que a escola pública funcionasse no limite.

Chegou porque cobrou excelência sem garantir estrutura.

Chegou porque transformou educação em slogan eleitoral, mas não em prioridade civilizatória.

A crise revelada pela PND não deve ser usada para humilhar professores. Deve ser usada para constranger o Estado, a sociedade, as universidades, os sistemas de ensino e todos aqueles que passaram décadas fingindo que a docência poderia sobreviver apenas de amor.

Não pode.

Professor precisa de amor à profissão, sim. Mas precisa também de salário, estudo, carreira, respeito, tempo, biblioteca, laboratório, tecnologia, segurança e formação sólida.

Um país que abandona seus professores não está apenas falhando com uma categoria profissional.

Está renunciando ao próprio futuro.


Referências

ADORNO, Theodor W. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

BECKER, Gary. Human capital: a theoretical and empirical analysis, with special reference to education. Chicago: University of Chicago Press, 1993.

BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Petrópolis: Vozes, 1992.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

INEP. MEC abre as adesões à PND e divulga calendário de 2026. Brasília, 2026.  

OCDE. Education at a Glance 2024. Paris: OECD Publishing, 2024.  

OIT; UNESCO. Recommendation concerning the Status of Teachers. Paris: UNESCO, 1966.  

UNESCO. Global Report on Teachers: Addressing teacher shortages and transforming the profession. Paris: UNESCO, 2024.  

WORLD BANK. Making Teacher Policy Work. Washington, DC: World Bank, 2023.


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