sábado, 23 de maio de 2026

A inteligência artificial como forma histórica do capitalismo contemporâneo

Racionalização, vigilância, expropriação social, desigualdade e crise democrática

Resumo

Este artigo analisa a inteligência artificial como forma histórica do capitalismo contemporâneo. Sustenta-se que a IA não representa uma ruptura emancipatória em relação ao capitalismo, mas a intensificação de tendências estruturais já inscritas em sua longa duração: racionalização da vida social, vigilância comportamental, concentração de riqueza, expropriação contínua e corrosão da autonomia democrática. Em diálogo com Branko Milanović, Mark Fisher, Nancy Fraser e Shoshana Zuboff, argumenta-se que a IA condensa a passagem de uma centralidade da exploração do trabalho para formas ampliadas de expropriação social, nas quais experiência humana, atenção, comportamento, sociabilidade e tempo futuro tornam-se recursos economicamente capturáveis. Ao mesmo tempo, a IA reforça a reprodução das elites e aprofunda desigualdades sociais e financeiras, deslocando poder, renda e capacidade de decisão da maioria para minorias corporativas e tecnofinanceiras. A hipótese central é que a inteligência artificial funciona hoje como infraestrutura estratégica de um capitalismo que, para ampliar a acumulação, empobrece material, política, social e subjetivamente a maioria da população mundial. Essa dinâmica ajuda a compreender por que a promessa contemporânea de eficiência tecnológica convive com o aumento da insegurança social, da concentração patrimonial e da fragilização democrática.

Palavras-chave: inteligência artificial; capitalismo contemporâneo; expropriação social; desigualdade; democracia.

Abstract

This article analyzes artificial intelligence as a historical form of contemporary capitalism. It argues that AI does not represent an emancipatory rupture from capitalism, but rather the intensification of structural tendencies already inscribed in its long-term development: rationalization of social life, behavioral surveillance, concentration of wealth, continuous expropriation, and the erosion of democratic autonomy. Drawing on Branko Milanović, Mark Fisher, Nancy Fraser, and Shoshana Zuboff, the article contends that AI condenses a transition from the centrality of labor exploitation to expanded forms of social expropriation, in which human experience, attention, behavior, sociability, and future time become economically capturable resources. At the same time, AI reinforces elite reproduction and deepens social and financial inequalities by shifting power, income, and decision-making capacity from the majority to corporate and techno-financial minorities. The central hypothesis is that artificial intelligence currently functions as the strategic infrastructure of a capitalism that expands accumulation by materially, politically, socially, and subjectively impoverishing the majority of the world’s population.

Keywords: artificial intelligence; contemporary capitalism; social expropriation; inequality; democracy.


1 Introdução

A inteligência artificial ocupa posição central no imaginário contemporâneo. Ela é apresentada como promessa de inovação, eficiência, produtividade e ampliação das capacidades humanas. Essa narrativa, embora influente, torna-se insuficiente quando dissocia a IA das estruturas históricas e sociais que condicionam seu surgimento, sua apropriação e seus efeitos. A inteligência artificial não emerge em vazio institucional, tampouco se difunde como tecnologia neutra. Ela se desenvolve no interior do capitalismo contemporâneo e participa ativamente de suas formas de acumulação, controle, hierarquização e legitimação.

Nessa perspectiva, a IA deve ser compreendida menos como ruptura emancipatória e mais como expressão histórica de um capitalismo que, no século XXI, articula racionalização ampliada, vigilância comportamental, financeirização da vida, concentração patrimonial e reconfiguração das relações entre economia, política e subjetividade. Em Milanović (2020), esse cenário aparece vinculado à consolidação de um capitalismo sem rival sistêmico global, marcado por desigualdades persistentes, homoplutia, formação de elites duráveis e estreitamento entre riqueza e poder político. Em Fisher (2020), o mesmo processo assume a forma de realismo capitalista, isto é, a naturalização do capitalismo como única realidade concebível, bloqueando a imaginação política e transformando a adaptação ao sistema em destino subjetivo. Fraser (2024) amplia o foco ao demonstrar que o capitalismo não se sustenta apenas pela exploração do trabalho assalariado, mas também por dinâmicas contínuas de expropriação que recaem sobre reprodução social, natureza, poder público e populações vulneráveis. Zuboff (2021), por sua vez, mostra que o capitalismo de vigilância transforma a experiência humana em matéria-prima para mercados de predição e modulação comportamental, deslocando para infraestruturas privadas capacidades inéditas de conhecer, antecipar e orientar a conduta social.

O problema central, portanto, já não consiste apenas em saber se a inteligência artificial substituirá empregos, aumentará a produtividade ou aperfeiçoará serviços. A questão decisiva é compreender de que modo ela se tornou infraestrutura estratégica de um regime de acumulação que depende crescentemente da captura de dados, da extração da experiência humana, da mercantilização do comportamento, da concentração de riqueza e da erosão das condições democráticas da vida coletiva. Quando observada sob essa lente, a IA aparece como mediação decisiva de uma transição histórica em que a exploração econômica se articula cada vez mais estreitamente a formas ampliadas de expropriação social.

É nesse ponto que o tema das desigualdades ganha centralidade. A inteligência artificial tende a ampliar vantagens já concentradas, pois sua infraestrutura depende de capital intensivo, capacidade computacional, propriedade intelectual, domínio de dados e controle de plataformas. Em vez de distribuir espontaneamente seus benefícios, tende a reforçar assimetrias entre corporações e populações, entre centros tecnológicos e periferias, entre elites cognitivas e trabalhadores precarizados, entre sujeitos protegidos e grupos expostos a monitoramento, classificação e descartabilidade. O resultado potencial não é apenas aumento da desigualdade de renda, mas um empobrecimento ampliado da maioria da população mundial: empobrecimento material, social, político e subjetivo.

Diante disso, este artigo parte do pressuposto de que a crítica da inteligência artificial não pode restringir-se à ética aplicada ou ao debate técnico sobre regulação. Ela exige análise de economia política, teoria social e crítica democrática. O objetivo do estudo é interpretar a IA como forma histórica do capitalismo contemporâneo, demonstrando como ela intensifica racionalização, vigilância, expropriação social, desigualdade e crise democrática.


2 Problema de pesquisa, hipótese e objetivos

O problema de pesquisa pode ser formulado nos seguintes termos: como a inteligência artificial, enquanto forma histórica do capitalismo contemporâneo, intensifica processos de racionalização, vigilância, expropriação social e concentração de riqueza, contribuindo para o aumento das desigualdades sociais e financeiras e para o empobrecimento ampliado da maioria da população mundial?

A hipótese central sustenta que a inteligência artificial intensifica a lógica do capitalismo contemporâneo ao transformar experiência humana, comportamento, atenção, sociabilidade e tempo futuro em recursos expropriáveis, reforçando a concentração de riqueza, a reprodução das elites, a modulação privada da vida social e a erosão das condições materiais e democráticas de existência da maioria da população mundial.

O objetivo geral consiste em analisar a inteligência artificial como forma histórica do capitalismo contemporâneo, demonstrando como ela articula racionalização, vigilância, expropriação social, aumento das desigualdades e crise democrática.

Como objetivos específicos, o artigo busca: examinar a IA como expressão da racionalização ampliada da vida social; demonstrar como ela participa da passagem da exploração predominantemente salarial para formas ampliadas de expropriação social; analisar o vínculo entre IA, capitalismo de vigilância e mercantilização da experiência humana; investigar como a IA reforça a reprodução das elites e aprofunda desigualdades sociais e financeiras; e discutir seus impactos sobre a democracia, a autonomia e a capacidade coletiva de imaginar futuros alternativos.


3 Metodologia

Este estudo caracteriza-se como pesquisa de natureza básica, com abordagem qualitativa, objetivos exploratórios e explicativos e procedimento técnico bibliográfico, desenvolvida por meio de análise teórico-interpretativa e orientada por hipótese central de pesquisa.

A natureza básica decorre do propósito de produzir conhecimento teórico sobre a inteligência artificial como forma histórica do capitalismo contemporâneo, ampliando a compreensão crítica de suas relações com racionalização, vigilância, expropriação social, desigualdade e crise democrática (Prodanov; Freitas, 2013). A abordagem qualitativa justifica-se pela complexidade do objeto, que envolve estruturas históricas, formas de poder, mecanismos de legitimação, processos de subjetivação e transformações nas condições sociais de reprodução da vida. Por isso, a investigação exige interpretação de significados, relações e processos, em vez de mensuração isolada de variáveis (Minayo, 2001).

Quanto aos objetivos, a pesquisa é exploratória e explicativa. É exploratória porque busca delimitar teoricamente um problema ainda frequentemente tratado de modo fragmentado no debate sobre inteligência artificial; e é explicativa porque procura identificar e interpretar os nexos estruturais que articulam IA, capitalismo contemporâneo, vigilância, expropriação social, concentração de riqueza e crise democrática (Gil, 2008). Do ponto de vista dos procedimentos técnicos, trata-se de pesquisa bibliográfica, desenvolvida com base em obras de referência da teoria social, da economia política crítica e dos estudos sobre tecnologia. Conforme Gil (2008), a pesquisa bibliográfica permite examinar criticamente contribuições já produzidas sobre determinado problema; Lakatos e Marconi (2003) ressaltam que ela não se limita à reprodução de conteúdos, mas possibilita novo tratamento analítico e síntese interpretativa do tema.

Em razão da natureza teórica do estudo, a hipótese não é submetida a comprovação experimental ou estatística. Seu exame ocorre por meio de testagem analítico-interpretativa, isto é, pela verificação de sua coerência interna, consistência teórica, suficiência explicativa e plausibilidade crítica diante do problema formulado (Severino, 2016). A operacionalização metodológica foi organizada em quatro etapas: leitura exploratória das obras centrais; fichamento analítico e temático do corpus; análise relacional e comparativa das categorias; e síntese interpretativa final.

O corpus principal reúne Milanović, Fisher, Fraser e Zuboff. Milanović fundamenta a análise das formas contemporâneas do capitalismo e da reprodução estrutural da desigualdade; Fisher contribui para a compreensão da naturalização ideológica do capitalismo e de seus efeitos subjetivos; Fraser oferece a base conceitual para a discussão sobre expropriação, reprodução social e capitalismo como ordem social institucionalizada; e Zuboff permite examinar a transformação da experiência humana em matéria-prima para mercados de predição e modulação comportamental. Como suporte complementar, mobilizam-se Weber, Harvey, Bauman, Wang, Williams, Schumpeter, Hobson e Collier, a fim de ampliar a densidade histórica, sociológica e política da análise.

A interpretação foi estruturada a partir de cinco categorias analíticas centrais: racionalização, vigilância, expropriação social, desigualdade estrutural e crise democrática. A validade argumentativa do estudo foi examinada a partir de quatro critérios: coerência interna entre problema, hipótese, objetivos e desenvolvimento analítico; consistência teórica no uso dos conceitos; capacidade explicativa da hipótese para integrar diferentes dimensões do fenômeno estudado; e plausibilidade crítica, entendida como força interpretativa superior às leituras tecnodeterministas ou meramente celebratórias da IA.

Como limite do estudo, importa registrar que o artigo não realiza pesquisa de campo, entrevistas, análise estatística ou estudo de caso empírico delimitado. Seu escopo é teórico-bibliográfico. Tal delimitação, contudo, não reduz sua relevância científica. Ao contrário, estudos teóricos são fundamentais para formular categorias, hipóteses e modelos interpretativos capazes de orientar investigações empíricas futuras.


4 Capitalismo contemporâneo, racionalização e formas históricas da desigualdade

A compreensão da inteligência artificial como forma histórica do capitalismo contemporâneo exige situá-la numa dinâmica de longa duração. A IA não surge como evento isolado, nem como simples desdobramento técnico da inovação científica. Ela se desenvolve no interior de uma ordem social já marcada por racionalização crescente, novas formas de coordenação econômica e mecanismos sofisticados de produção e reprodução da desigualdade.

Um ponto de partida fecundo encontra-se em Weber (2004). Ao discutir o espírito do capitalismo, o autor não toma o capitalismo apenas como sistema econômico, mas como forma de condução metódica da vida, orientada por cálculo, disciplina, previsibilidade e racionalização cotidiana. Essa formulação permite compreender a inteligência artificial como intensificação histórica de uma racionalidade social já inscrita no desenvolvimento capitalista. A IA radicaliza o imperativo do cálculo, da antecipação, da previsão e da quantificação. Se o capitalismo moderno já exigia sujeitos disciplinados e instituições orientadas por conduta metódica, o capitalismo algorítmico amplia esse horizonte ao submeter comportamentos, fluxos de atenção, relações de trabalho e processos decisórios à lógica da mensuração permanente.

Entretanto, a racionalização precisa ser situada nas formas históricas do próprio capitalismo. Milanović (2020) oferece contribuição central ao propor uma tipologia das formas históricas do capitalismo, distinguindo o capitalismo meritocrático liberal como forma prototípica do capitalismo contemporâneo ocidental. Tal forma caracteriza-se por carreiras formalmente abertas ao talento, redução relativa dos mecanismos de correção distributiva e tendência crescente à formação de uma elite de classe alta fundada na convergência entre altas rendas do trabalho e do capital.

A relevância desse diagnóstico é dupla. Em primeiro lugar, mostra que o capitalismo contemporâneo não eliminou a desigualdade; ao contrário, passou a reproduzi-la sob novas formas moralmente legitimadas. Em segundo, revela que a desigualdade atual não se organiza apenas pela posse passiva de patrimônio, mas por mecanismos mais sofisticados de autoperpetuação social. Milanović identifica, nesse contexto, o fenômeno da homoplutia, isto é, a crescente coincidência entre indivíduos ricos em capital e indivíduos ricos em renda do trabalho. Tal processo torna mais difícil, do ponto de vista político, a crítica à concentração de riqueza, pois os estratos superiores aparecem não apenas como proprietários, mas também como sujeitos de alta qualificação e produtividade, capazes de justificar moralmente seus privilégios como frutos do mérito.

Esse ponto é decisivo para uma análise da IA. A retórica dominante em torno da inteligência artificial tende a reforçar exatamente essa legitimação meritocrática. O controle de infraestrutura computacional, propriedade intelectual, bases de dados, capacidade de pesquisa e plataformas globais aparece como resultado de competência técnica e inovação empresarial, quando, na realidade, opera também como mecanismo de concentração estrutural de renda, poder e conhecimento. A IA, nesse sentido, não inaugura a desigualdade, mas aprofunda uma forma de capitalismo em que a elite já reúne credenciais educacionais, patrimônio, influência política e comando tecnológico.

Fraser e Jaeggi (2020) aprofundam essa leitura ao tratarem o capitalismo não apenas como modo de produção, mas como ordem social institucionalizada, que compartimenta e hierarquiza diferentes esferas da vida, como economia, reprodução social, natureza e Estado. Essa concepção impede que a análise da inteligência artificial permaneça confinada à esfera econômica estrita. Se o capitalismo deve ser entendido como totalidade social, então a IA também precisa ser interpretada como fenômeno que reorganiza simultaneamente trabalho, cuidado, ecologia, Estado, subjetividade e democracia.

Na mesma direção, Harvey (2016) observa que a tecnologia, para o capital, não se reduz ao hardware das máquinas, mas envolve também software e formas organizacionais, todos orientados ao aumento de produtividade, eficiência e lucratividade. Nesse quadro, inteligência artificial, administração de dados, computação em nuvem e transações eletrônicas aparecem como componentes internos das tecnologias do capital, não como esfera externa ou neutra em relação a ele.

Pode-se, então, sintetizar o argumento desta seção: a inteligência artificial emerge na confluência entre a racionalização moderna da vida social e a consolidação de uma forma contemporânea de capitalismo marcada por desigualdade estrutural, homoplutia, transmissão intergeracional de vantagens e subordinação crescente das condições sociais de existência à lógica da acumulação. A IA não é exterior a esse processo. Ela o intensifica.


5 Da exploração à expropriação social no século XXI

Para compreender a inteligência artificial como forma histórica do capitalismo contemporâneo, não basta descrevê-la como inovação produtiva ou tecnologia de automação. É necessário situá-la numa transformação mais profunda da própria lógica de acumulação. Nesse ponto, a categoria de expropriação social torna-se decisiva. Ela permite demonstrar que o capitalismo do século XXI já não depende apenas da exploração do trabalho assalariado no sentido clássico, mas de formas ampliadas de apropriação de recursos, capacidades, tempos, infraestruturas e experiências humanas que extrapolam a relação salarial direta.

Fraser (2024) oferece a chave mais consistente para essa passagem. Em sua formulação, exploração e expropriação não são realidades separadas, nem momentos históricos totalmente distintos, mas dimensões articuladas da ordem capitalista. A exploração diz respeito à apropriação do excedente produzido por trabalhadores formalmente livres, cujo custo de reprodução é ao menos parcialmente reconhecido. A expropriação, por sua vez, refere-se à tomada de trabalho, terra, recursos e capacidades sem compensação equivalente, sustentada por diferenciais políticos de status, vulnerabilidade e desproteção. Por isso, Fraser insiste que o capitalismo não vive apenas da exploração; ele depende estruturalmente de zonas de expropriação contínua.

Esse ponto altera profundamente a leitura do presente. A expropriação não deve ser pensada como resíduo colonial já superado ou como violência excepcional situada apenas nas origens do sistema. Ela aparece como mecanismo permanente de sustentação da acumulação. Em vez de desaparecer com a modernização, reconfigura-se. Populações formalmente livres podem continuar submetidas a formas híbridas de exploração e expropriação, sobretudo quando lhes falta proteção política efetiva, acesso real a direitos ou capacidade de resistir às engrenagens da acumulação.

É exatamente por isso que a noção de expropriação social se mostra adequada ao século XXI. Hoje, o capital não extrai apenas trabalho produtivo em sentido estrito. Ele se apropria de tempos de cuidado, vínculos comunitários, recursos públicos, condições ambientais, infraestrutura digital, dados pessoais, traços comportamentais e capacidades cognitivas dispersas na vida cotidiana. Em Fraser (2024), o sistema exaure as energias necessárias para cuidar das famílias, manter as casas, sustentar comunidades, nutrir amizades, construir redes políticas e estabelecer solidariedades. Em outras palavras, o capital não apenas explora a força de trabalho; ele corrói os próprios fundamentos sociais que tornam a vida e a produção possíveis.

Quando essa análise é articulada ao debate sobre inteligência artificial, a atualidade da categoria se torna ainda mais evidente. A IA não participa apenas da exploração do trabalho. Ela se insere diretamente em processos ampliados de expropriação social. Isso ocorre porque sua expansão depende da transformação de dimensões não mercantis da vida em insumos econômicos. Atenção, linguagem, deslocamentos, emoções, hábitos, interações, preferências e padrões de comportamento passam a ser capturados, processados e convertidos em valor. A experiência humana cotidiana deixa de ser mero pano de fundo da economia e se converte em matéria-prima estratégica.

A expropriação social no século XXI possui, assim, pelo menos cinco dimensões articuladas: econômica, pela captura de valor via dados, dívida e plataformas; reprodutiva, pela corrosão das capacidades de cuidado e reposição da vida; política, pelo deslocamento de poder para infraestruturas privadas; subjetiva, pela colonização da atenção e do desejo; e civilizatória, pela naturalização de uma ordem em que a maioria perde densidade material, proteção social e horizonte compartilhado.

A exploração continua central. Mas já não basta para explicar o presente. A inteligência artificial amplia o raio de ação do capital sobre domínios antes menos diretamente submetidos à lógica da mercantilização. É por isso que a crítica da IA precisa ser, ao mesmo tempo, crítica da acumulação, da desigualdade, da captura da reprodução social e da corrosão democrática.


6 IA, capitalismo de vigilância e mercantilização da experiência humana

A passagem da exploração à expropriação social ampliada adquire sua forma mais sofisticada quando a própria experiência humana se converte em matéria-prima de processos econômicos. É nesse ponto que a inteligência artificial assume posição estratégica. Ela não deve ser interpretada apenas como tecnologia de automação produtiva, mas como infraestrutura central de um regime de acumulação baseado na captura de dados, na previsão de comportamentos e na intervenção sobre condutas. A IA, portanto, não opera apenas sobre o trabalho; ela opera sobre a vida social.

Zuboff (2021) oferece a formulação mais precisa dessa mutação ao definir o capitalismo de vigilância como uma ordem econômica que reivindica unilateralmente a experiência humana como matéria-prima gratuita para sua tradução em dados comportamentais. Parte desses dados pode ser utilizada para aperfeiçoar produtos e serviços, mas o restante é apropriado como superávit comportamental, alimentando processos de inteligência de máquina e sendo transformado em produtos de predição voltados a mercados de comportamentos futuros. Em sua fase mais avançada, o objetivo já não é apenas conhecer o comportamento, mas moldá-lo em escala; por isso, os meios de produção passam a ser subordinados a meios de modificação comportamental.

Essa definição é decisiva porque permite compreender que a inteligência artificial não é apenas instrumento auxiliar do capitalismo de vigilância; ela é uma de suas condições operacionais mais importantes. Sem sistemas de aprendizagem de máquina, sem capacidade de processamento massivo, sem modelos preditivos e sem infraestruturas algorítmicas, a transformação da experiência humana em ativo econômico perderia escala, velocidade e poder de intervenção. A IA funciona, assim, como mediação entre vida cotidiana e acumulação de capital: converte gestos, rotinas, cliques, percursos, preferências e afetos em dados; converte esses dados em padrões; converte esses padrões em previsões; e converte essas previsões em valor econômico e poder social.

Essa lógica implica mutação qualitativa da mercantilização. Não se trata mais apenas de vender mercadorias ou serviços diretamente. O que se mercantiliza agora é a própria possibilidade de antecipar e orientar o comportamento. O mercado deixa de se contentar com a troca de bens e passa a disputar o controle sobre a conduta. A mercadoria mais valiosa já não é apenas o objeto consumido, mas a capacidade de saber o que os indivíduos farão, desejarão ou temerão.

A leitura articulada com Fraser (2024) permite ir um passo além: no capitalismo algorítmico, a experiência humana cotidiana torna-se um dos terrenos ocultos apropriáveis pelo capital. A vida vivida, em suas dimensões mais ordinárias, é incorporada ao circuito de valorização sem remuneração equivalente. Conversar, circular, hesitar diante de uma escolha, consumir conteúdo, interagir com dispositivos, dirigir, estudar ou permanecer online tornam-se atividades passíveis de captura, processamento e rentabilização.

Essa mutação tem efeitos diretos sobre a desigualdade. O capitalismo de vigilância concentra riqueza de modo inédito porque monopoliza não apenas meios de produção tradicionais, mas também meios de conhecimento sobre populações inteiras. A assimetria não é apenas econômica; é também epistêmica e política. Corporações e plataformas passam a deter capacidades de observação, classificação, previsão e intervenção em escala incomparavelmente superior à dos indivíduos e, em muitos casos, dos próprios Estados. A IA amplia esse desnível porque transforma dados dispersos em inteligibilidade operacional, oferecendo ao capital vantagem estratégica sobre comportamentos futuros.

Zuboff (2021) mostra ainda que esse processo não é marginal, mas estrutural. O capitalismo de vigilância constitui uma nova espécie de poder, o poder instrumentário, cuja finalidade é conhecer e moldar o comportamento humano em prol dos objetivos de terceiros. A IA, ao ser incorporada a arquiteturas computacionais ubíquas, deixa de ser apenas ferramenta técnica e passa a funcionar como meio privado de governo da conduta.

Jackie Wang (2024) ajuda a ampliar essa discussão ao mostrar que a tecnologia, longe de ser neutra, participa de formas de controle racializado, punitivismo e produção de populações descartáveis. A mercantilização da experiência humana não produz apenas novos mercados; ela também reforça hierarquias. Certos grupos são mais intensamente monitorados, mais facilmente classificados como risco e mais vulneráveis à transformação de seus dados em instrumentos de controle.

Em síntese, a inteligência artificial ocupa posição central no capitalismo contemporâneo porque torna operacional a mercantilização da experiência humana em escala inédita. Ao articular extração de dados, inteligência de máquina, predição e modificação comportamental, ela intensifica a expropriação social e amplia assimetrias econômicas, epistêmicas e políticas.


7 Desigualdade social e financeira no capitalismo algorítmico

Se a inteligência artificial constitui uma infraestrutura decisiva da mercantilização da experiência humana, ela também deve ser analisada como vetor de reorganização das desigualdades no capitalismo contemporâneo. A promessa segundo a qual a IA ampliaria oportunidades, democratizaria o conhecimento e elevaria de forma generalizada a produtividade tende a ocultar um aspecto estrutural: os benefícios econômicos, cognitivos e políticos dessa tecnologia não se distribuem espontaneamente. Sua apropriação depende de condições altamente assimétricas, como acesso a capital intensivo, controle de infraestrutura computacional, disponibilidade de grandes volumes de dados, domínio de propriedade intelectual, inserção em ecossistemas globais de pesquisa e poder de coordenação sobre plataformas e mercados.

Milanović (2020) mostra que a desigualdade contemporânea decorre de forças sistêmicas que moldam a distribuição da renda e favorecem a constituição de uma elite de classe alta. Entre essas forças, destacam-se a elevada concentração da renda do capital, a convergência entre altos rendimentos do trabalho e do patrimônio, o acasalamento preferencial entre estratos superiores e a forte transmissão intergeracional das vantagens sociais.

Esse quadro torna-se ainda mais relevante quando articulado à inteligência artificial. A economia da IA tende a premiar de forma desproporcional aqueles que já ocupam posições privilegiadas na estrutura social. A posse de capital financeiro permite investimento em pesquisa, aquisição de infraestrutura e absorção de riscos tecnológicos. A posse de capital educacional assegura o domínio das competências altamente valorizadas no novo regime. A posse de capital social e institucional facilita o acesso a redes de inovação, a centros de excelência e a oportunidades globais. E a posse de capital político garante capacidade de influenciar regulações, regimes tributários, regras concorrenciais e políticas de dados.

É nesse ponto que a categoria de homoplutia ganha nova atualidade. No capitalismo algorítmico, executivos de tecnologia, investidores, fundadores de plataformas, engenheiros de ponta, proprietários de modelos, controladores de infraestrutura de nuvem e detentores de direitos sobre sistemas de IA frequentemente ocupam posições nas quais rendas do trabalho altamente qualificadas se combinam com participação acionária, patrimônio financeiro e capacidade de capturar rendas monopolistas ou quase monopolistas. A elite tecnofinanceira, assim, não é apenas elite patrimonial clássica, nem apenas elite meritocrática de credenciais. Ela é ambas ao mesmo tempo. Isso amplia sua capacidade de reproduzir-se e de apresentar essa reprodução como fruto natural da inovação.

Harvey (2016) complementa essa análise ao ressaltar que as tecnologias do capital incluem não apenas máquinas e dispositivos, mas também softwares, formas organizacionais, sistemas de administração de dados, computação em nuvem e mecanismos de transação eletrônica. A centralização tecnológica favorece a centralização econômica. Quanto maior a dependência de infraestrutura cara e concentrada, maior a dificuldade de entrada de novos atores e maior a tendência de captura dos benefícios por um número reduzido de corporações e fundos.

Hobson (1985) ajuda a historicizar esse problema ao indicar a relação entre produção mecanizada, concentração, superprodução e poder crescente do capital financeiro. A atual centralização trazida pela IA não é fenômeno totalmente inédito. Há continuidades históricas claras: mecanização, aumento de produtividade, concentração e necessidade de absorção dos excedentes gerados. A novidade da IA está menos em criar do nada essas tendências e mais em radicalizá-las por meio da dataficação da vida social e da fusão entre capital tecnológico, financeiro e cognitivo.

Do ponto de vista da desigualdade, isso significa que a IA pode operar como mecanismo de aceleração da distância entre topo e base social. Mas essa distância não deve ser lida apenas em termos de renda monetária. Ela precisa ser compreendida em sentido ampliado: desigualdade de legibilidade, de inteligibilidade, de governabilidade e de capacidade de ação.

Fraser (2024) é decisiva para evitar compreensão estreita da desigualdade. O problema da IA não é apenas que alguns ganham muito e outros ganham pouco. O problema é que sua expansão pode contribuir para um processo mais amplo de empobrecimento social ampliado. Esse empobrecimento manifesta-se no plano material, financeiro, social, político e subjetivo. A riqueza da IA tende a se concentrar, enquanto seus custos se difusam sobre a maioria.

Bauman (2010) oferece uma metáfora útil ao descrever o capitalismo como sistema parasitário, incapaz de prosperar sem encontrar continuamente novos hospedeiros. A inteligência artificial pode ser lida, nesse sentido, como nova fronteira de expansão parasitária: abre novas pastagens para a acumulação ao converter dados, atenção, linguagem, comportamento e relações sociais em recursos exploráveis. O problema é que, como todo parasitismo, esse movimento tende a enfraquecer o próprio hospedeiro de que depende.

Em síntese, a inteligência artificial reforça a reprodução das elites porque opera num ambiente em que capital econômico, capital cognitivo, capital tecnológico e poder político se entrelaçam de maneira crescente. Ela aprofunda desigualdades porque seus ganhos se concentram onde já existem ativos estratégicos e porque seus custos sociais são distribuídos de forma difusa, desigual e muitas vezes invisível.


8 Realismo capitalista, resignação e crise democrática na era algorítmica

A inteligência artificial não transforma apenas a economia, o trabalho ou os circuitos de acumulação. Ela também altera as condições de percepção do mundo social e reorganiza a própria experiência do possível. Por isso, sua análise crítica não pode limitar-se à desigualdade econômica ou à infraestrutura tecnológica. É necessário compreender de que modo ela se articula a uma forma histórica de poder que produz resignação, naturaliza hierarquias e estreita o horizonte da imaginação política.

Ao formular a noção de realismo capitalista, Fisher (2020) designa uma condição histórica na qual o capitalismo deixa de aparecer como sistema contingente e passa a ser percebido como única realidade viável. Essa atmosfera ideológica é fundamental para compreender a era algorítmica. A inteligência artificial tende a aprofundar o realismo capitalista porque acrescenta a ele uma camada de legitimidade técnica. Se antes o capitalismo já aparecia como inevitável em razão de sua hegemonia econômica e cultural, agora também passa a ser reforçado por sistemas automatizados apresentados como objetivos, neutros, mais eficientes e supostamente superiores ao juízo humano.

Essa naturalização manifesta-se na forma como decisões baseadas em dados são tratadas como tecnicamente incontestáveis. Sistemas de recomendação, classificação de risco, filtragem de conteúdo, ranqueamento e avaliação automatizada são frequentemente aceitos como se fossem expressões de racionalidade pura, e não construções técnicas moldadas por interesses econômicos e escolhas políticas. O resultado é o deslocamento do debate da esfera pública para a esfera da gestão técnica. Perguntas sobre justiça, poder, finalidade e desigualdade tendem a ser substituídas por perguntas sobre eficiência, escalabilidade e desempenho.

Fisher (2020) mostra ainda que o realismo capitalista produz impotência reflexiva: as pessoas sabem que há algo profundamente errado na organização da vida social, mas sentem que nada pode ser feito em escala estrutural. Na era da IA, essa impotência pode intensificar-se. Quanto mais o funcionamento social é mediado por sistemas opacos e tecnicamente complexos, mais difícil tende a ser a percepção de que tais sistemas são passíveis de disputa democrática.

Zuboff (2021) ajuda a compreender por que esse processo possui implicações democráticas profundas. Ao analisar o capitalismo de vigilância, a autora demonstra que não estamos diante apenas de nova forma de mercado, mas de novo arranjo de poder. Quem controla essas arquiteturas sabe mais sobre os indivíduos do que os próprios indivíduos sabem sobre os sistemas que os observam, classificam e influenciam. O resultado não é apenas concentração econômica, mas deslocamento de soberania. Esse regime compromete bases fundamentais da ordem democrática, pois substitui contrato legítimo, Estado de direito, deliberação política e confiança social por mecanismos privados de previsão e reforço comportamental.

A gestão algorítmica da atenção e da visibilidade altera também as condições pelas quais os indivíduos acessam fatos, discursos, prioridades e afetos públicos. A esfera pública tende a fragmentar-se em circuitos modulados por lógica comercial, maximização de engajamento e predição de comportamento. Nesse contexto, o debate democrático deixa de repousar sobre base relativamente compartilhada e passa a ser mediado por sistemas cujo objetivo prioritário não é a formação cidadã, mas a extração de valor do comportamento.

Fraser (2024) reforça essa leitura ao sustentar que o capitalismo contemporâneo corrói as próprias bases políticas e institucionais de que depende. Quando infraestruturas privadas passam a organizar informação, atenção, comportamento e previsão social em escala massiva, a democracia se vê esvaziada em dois sentidos: perde capacidade de controle sobre tecnologias que afetam diretamente a vida coletiva e forma cidadãos em ambientes informacionais moldados por interesses privados e arquiteturas opacas de influência.

A crítica de Fisher (2020) à burocracia neoliberal ajuda a complementar esse quadro. O neoliberalismo não reduz a burocracia; ele a transforma em nova burocracia de auditorias, metas, indicadores, autoavaliações e monitoramentos constantes. A IA intensifica esse processo ao automatizar classificação, medição, ranqueamento, previsão e avaliação. O sujeito contemporâneo é cada vez mais chamado a existir em ambientes nos quais quase tudo pode ser monitorado, comparado, pontuado ou filtrado. O que conta deixa de ser discutido politicamente e passa a ser calculado tecnicamente.

Em síntese, a era algorítmica aprofunda o realismo capitalista porque transforma o comando técnico em aparência de necessidade histórica. A IA naturaliza-se como destino, a desigualdade se apresenta como consequência inevitável da inovação, a vigilância aparece como preço da conveniência, e a modulação comportamental se disfarça de personalização eficiente. O resultado é forma agravada de resignação social, na qual a política perde densidade, a crítica perde horizonte e a democracia perde terreno material.


9 A inteligência artificial como forma histórica do empobrecimento social ampliado

As seções anteriores permitiram demonstrar que a inteligência artificial não pode ser compreendida adequadamente nem como simples inovação técnica, nem como desdobramento neutro do progresso científico. Sua emergência histórica ocorre no interior de um capitalismo marcado por racionalização crescente, por expansão de mecanismos de vigilância, por intensificação de formas de expropriação social e por aprofundamento de desigualdades estruturais. Nesse sentido, a IA deve ser interpretada como mediação tecnopolítica pela qual o capital reorganiza a acumulação, amplia seu poder de extração e reconfigura as condições materiais, subjetivas e democráticas da vida social.

Quando os aportes de Weber, Milanović, Fraser, Zuboff, Fisher, Harvey e Bauman são articulados, a inteligência artificial aparece como condensação histórica de tendências mais antigas e, ao mesmo tempo, como radicalização qualitativa do capitalismo contemporâneo. Ela condensa a racionalização porque amplia o império do cálculo, da classificação, da previsão e da mensuração sobre dimensões cada vez mais densas da vida social. Ela radicaliza a vigilância porque transforma experiência, comportamento, linguagem e atenção em objetos permanentes de captura e processamento. Ela intensifica a desigualdade porque se desenvolve em contextos de forte concentração de capital, infraestrutura, conhecimento e poder regulatório. E ela aprofunda a crise democrática porque desloca crescentes capacidades de observação, decisão e modulação para arquiteturas privadas que escapam ao controle público efetivo.

Sob essa perspectiva, a inteligência artificial não deve ser lida apenas como força produtiva. Ela é também força expropriadora. Seu funcionamento depende de apropriar, sem restituição equivalente, dimensões da vida que antes não apareciam tão claramente como insumos econômicos diretos. Tempo de atenção, experiência de navegação, expressão linguística, deslocamentos cotidianos, interações interpessoais, hábitos de consumo, sinais emocionais e traços de comportamento passam a ser incorporados ao circuito de valorização. O capital já não depende apenas da extração do excedente produzido no trabalho formal; depende também da conversão contínua da vida social em ativo econômico.

É precisamente nesse ponto que a noção de empobrecimento social ampliado se torna conceitualmente necessária. O avanço da inteligência artificial não implica apenas risco de perda de ocupações ou concentração de renda. Seu efeito mais profundo pode ser o empobrecimento da maioria da população mundial em sentido muito mais abrangente. Esse empobrecimento é multidimensional e cumulativo.

Há empobrecimento material, pela maior vulnerabilidade econômica; empobrecimento financeiro, pela concentração dos ganhos e difusão dos riscos; empobrecimento social, pela corrosão de vínculos de cuidado, pertencimento e reciprocidade; empobrecimento político, pela perda de controle coletivo sobre as infraestruturas que organizam a vida pública; e empobrecimento subjetivo, pela colonização da atenção, pela adaptação compulsória e pelo estreitamento da imaginação do futuro.

Tomadas em conjunto, essas dimensões mostram que a inteligência artificial pode operar como forma histórica de um capitalismo que, para enriquecer minorias tecnofinanceiras, empobrece estruturalmente a maioria. Esse empobrecimento não ocorre por acidente. Ele decorre da forma como a IA é apropriada, organizada e integrada a um regime de acumulação já orientado por concentração, extração e blindagem do topo social.


10 Conclusão

A análise desenvolvida ao longo deste artigo permitiu sustentar que a inteligência artificial não deve ser compreendida como fenômeno técnico autônomo, tampouco como simples etapa superior do progresso científico. Sua emergência e expansão se dão no interior de uma forma histórica específica de capitalismo, marcada por racionalização intensificada, vigilância comportamental, expropriação social ampliada, concentração de riqueza e fragilização democrática. Nessa perspectiva, a IA aparece menos como ruptura emancipatória e mais como mediação tecnopolítica pela qual o capitalismo contemporâneo reorganiza sua capacidade de acumulação, comando e legitimação.

O primeiro resultado central do estudo foi demonstrar que a IA aprofunda a racionalização da vida social. Em continuidade com a longa trajetória moderna de cálculo, previsão, classificação e disciplina, ela amplia o alcance da mensuração técnica sobre trabalho, consumo, circulação, atenção, linguagem e conduta. Contudo, essa racionalização não é neutra. Ela se desenvolve dentro de estruturas capitalistas que já distribuem desigualmente poder, conhecimento e oportunidades. Por isso, a expansão da inteligência artificial tende a reforçar a assimetria entre aqueles que controlam infraestruturas computacionais, dados, propriedade intelectual e plataformas, e aqueles cuja vida cotidiana se converte em objeto de monitoramento, classificação e intervenção.

O segundo resultado consistiu em mostrar que a categoria de expropriação social é indispensável para interpretar a fase atual do capitalismo. A inteligência artificial não amplia apenas a exploração do trabalho em sentido clássico. Ela participa de uma lógica mais abrangente, na qual experiência humana, sociabilidade, atenção, tempo e comportamento tornam-se recursos economicamente capturáveis. A acumulação deixa de depender apenas da apropriação do excedente produzido no emprego formal e passa a incorporar elementos difusos da vida social como matéria-prima de mercados de previsão e modulação.

O terceiro resultado foi evidenciar que a IA tende a aprofundar desigualdades sociais e financeiras já inscritas no capitalismo contemporâneo. A economia algorítmica reforça a constituição de uma elite tecnofinanceira capaz de reunir patrimônio, renda qualificada, domínio técnico e influência política. Em contrapartida, a maioria tende a experimentar os custos da transição tecnológica sob a forma de precarização, dependência, instabilidade e perda de poder sobre as condições de sua própria existência.

O quarto resultado foi demonstrar que a crise produzida pela IA não é apenas econômica, mas também democrática e subjetiva. Em diálogo com Fisher, argumentou-se que o realismo capitalista encontra na era algorítmica nova camada de legitimidade: a naturalização da gestão técnica como destino inevitável. Em diálogo com Zuboff, mostrou-se que essa naturalização favorece a formação de soberania privada fundada em assimetrias radicais de conhecimento e intervenção, deslocando da esfera pública para arquiteturas corporativas capacidades crescentes de orientação do comportamento. O resultado é o enfraquecimento da autonomia coletiva, da deliberação democrática e da própria abertura do futuro como campo de construção política.

À luz desses resultados, a hipótese do artigo mostrou-se teoricamente consistente: a inteligência artificial intensifica a lógica do capitalismo contemporâneo ao transformar experiência humana, comportamento, atenção, sociabilidade e tempo futuro em recursos expropriáveis, reforçando a concentração de riqueza, a reprodução das elites, a modulação privada da vida social e a erosão das condições materiais e democráticas de existência da maioria da população mundial.

Do ponto de vista substantivo, a principal conclusão é que a IA pode funcionar como forma histórica de empobrecimento social ampliado. Esse empobrecimento não deve ser reduzido à queda de renda de determinados grupos, embora ela possa ocorrer. Ele deve ser compreendido em sentido mais amplo: empobrecimento material, financeiro, social, político e subjetivo. Em suma, a promessa de inteligência pode conviver, historicamente, com a expansão de pobreza ampliada da experiência humana.

Essa conclusão possui implicações teóricas e políticas importantes. Teoricamente, sugere que a crítica da inteligência artificial precisa abandonar leituras tecnodeterministas e recolocar o debate no interior da história do capitalismo. Politicamente, indica que enfrentar os efeitos da IA não se resume a aperfeiçoar governança, ética aplicada ou transparência algorítmica. Tais medidas podem ser necessárias, mas serão insuficientes enquanto a infraestrutura central da inteligência artificial continuar subordinada a um regime de acumulação baseado em vigilância, concentração, expropriação e poder privado.

Em última instância, o problema não é que a inteligência artificial seja demasiadamente poderosa, mas que sua potência esteja sendo historicamente organizada por uma forma de capitalismo que transforma quase tudo em recurso apropriável e quase todos em fontes potenciais de extração. Sob essa forma social, o desenvolvimento técnico tende a beneficiar poucos, governar muitos e empobrecer estruturalmente a maioria. É precisamente por isso que pensar a inteligência artificial, hoje, exige muito mais do que discutir tecnologia: exige recolocar em questão a própria forma histórica do capitalismo contemporâneo.


Referências

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