Como a manosfera radicaliza jovens e redefine o ódio de gênero
Introdução — o despertar no front digital
É preciso encarar sem rodeios: a misoginia contemporânea deixou de ser apenas uma herança cultural antiga, repetida em piadas de mau gosto, frases de família ou conselhos de botequim. Ela se reorganizou tecnologicamente. Ganhou estética de podcast, vocabulário pseudocientífico, cortes de vídeo, mentorias de masculinidade, discursos de “alta performance” e, sobretudo, a força invisível dos algoritmos de recomendação.
Durante muito tempo, acreditou-se que as novas gerações seriam automaticamente mais progressistas. A juventude, por estar mais conectada, escolarizada e exposta à diversidade, caminharia naturalmente para relações mais igualitárias. Mas os dados recentes quebram essa expectativa. Pesquisas internacionais indicam que parte dos homens da Geração Z manifesta posições mais conservadoras sobre gênero do que homens mais velhos. Em 2026, levantamento Ipsos/King’s College London apontou que homens da Geração Z eram mais propensos do que baby boomers a defender ideias como obediência feminina no casamento e papéis tradicionais rígidos de gênero . Em 2024, pesquisa divulgada pelo The Guardian já mostrava que jovens homens britânicos eram mais propensos que baby boomers a considerar que o feminismo teria feito “mais mal do que bem” .
Esse paradoxo não nasce do nada. Ele se alimenta de uma engrenagem digital chamada manosfera: um ecossistema de comunidades, influenciadores e discursos que apresentam a masculinidade como território sitiado, as mulheres como ameaça e a igualdade de gênero como humilhação masculina. A ONU Mulheres define a manosfera como redes on-line que promovem versões hostis da masculinidade, frequentemente baseadas na dominação, no ressentimento e na desumanização das mulheres .
A tese é direta: a misoginia algorítmica não é apenas uma crise de relacionamento. É problema de saúde mental, educação, segurança pública e democracia. Quando jovens inseguros são capturados por conteúdos que transformam frustração afetiva em ódio político, o resultado não é “opinião masculina”. É radicalização.
1. A engrenagem do funil algorítmico
A captura raramente começa com ódio explícito. Começa com academia, disciplina, dinheiro, autocuidado, produtividade, sedução, confiança. Um jovem inseguro, solitário ou recém-rejeitado procura na internet alguma explicação para sua dor. O algoritmo percebe a vulnerabilidade e oferece conteúdo cada vez mais intenso. Primeiro: “melhore seu corpo”. Depois: “mulheres só valorizam status”. Em seguida: “o feminismo destruiu os homens”. Por fim: “você foi traído por uma sociedade dominada por mulheres”.
Esse funil é perigoso porque parece espontâneo, mas é estrutural. Plataformas de vídeos curtos monetizam atenção; e nada prende mais atenção do que conflito, humilhação e ressentimento. Pesquisa recente da Movember sobre o TikTok mostrou camadas de conteúdo que vão de saúde masculina e autocuidado até materiais que associam masculinidade a domínio, invulnerabilidade emocional, risco, discurso de ódio e violência . Outro estudo sobre YouTube Shorts identificou presença dominante de conteúdo da manosfera em recomendações feitas a perfis analisados .
O problema não é um vídeo isolado. O problema é a sequência. O algoritmo não precisa convencer o jovem de uma vez. Ele só precisa mantê-lo descendo a escada. E cada degrau torna o próximo mais aceitável.
2. A pseudociência como verniz do preconceito
A manosfera não se apresenta como ódio. Ela se apresenta como “realismo”. Fala em biologia, evolução, hierarquia, instinto, mercado sexual, hipergamia, testosterona, macho alfa. O vocabulário parece técnico, mas sua função é antiga: naturalizar desigualdades sociais como se fossem leis da natureza.
A falácia do “macho alfa” é exemplar. A ideia popular de que lobos seriam comandados por um líder brutal e dominante nasceu de interpretações antigas de animais em cativeiro. O próprio pesquisador David Mech, associado à difusão inicial do conceito, depois revisou essa visão, mostrando que alcateias selvagens funcionam muito mais como grupos familiares do que como ditaduras de dominação . A Scientific American também sintetiza esse ponto: a imagem do alfa como tirano vem de estudos ultrapassados com lobos confinados, não da dinâmica natural das alcateias .
Outro mito recorrente é a regra “80/20”, segundo a qual mulheres só se interessariam pelos 20% mais atraentes dos homens. Essa leitura costuma usar dados antigos de aplicativos de relacionamento como se fossem prova da natureza humana. Mas aplicativo não é sociedade: é mercado gamificado, mediado por imagem, escassez artificial, competição e design corporativo. Estudos e análises mais recentes mostram que esse tipo de conclusão exagera diferenças e ignora o comportamento real de aproximação, reciprocidade e contexto .
A pseudociência cumpre uma função psicológica: absolve o sujeito de qualquer autocrítica. Se tudo é biologia, então não há necessidade de amadurecer. Se tudo é culpa das mulheres, então não há necessidade de rever atitudes. Se o mundo é um “mercado sexual”, então o outro deixa de ser pessoa e vira mercadoria.
3. Da sedução ao extremismo
A radicalização masculina costuma operar em degradê. Muitos entram por comunidades de sedução, musculação, dinheiro ou “autodesenvolvimento”. Depois encontram a red pill, que promete revelar a “verdade” sobre mulheres e relações. Em alguns casos, esse caminho desce para a black pill: a crença fatalista de que a vida afetiva estaria biologicamente determinada pela aparência, pela altura ou por atributos imutáveis.
Esse ponto é devastador. A promessa inicial era fortalecer o jovem. O resultado pode ser isolamento, ressentimento e adoecimento. Fóruns extremistas oferecem pertencimento, mas frequentemente reforçam desespero, raiva e desesperança. A violência de gênero facilitada por tecnologia já é reconhecida como fenômeno global. Relatório da Georgetown Institute for Women, Peace and Security afirma que a misoginia on-line pode funcionar como via de radicalização e ferramenta de recrutamento para extremismos violentos .
No Brasil, a discussão ganha contornos ainda mais urgentes quando se observa a conexão entre violência escolar, extremismo juvenil e comunidades digitais. Publicação do Instituto Aurora aponta que a violência contra escolas no país deve ser compreendida também dentro do campo do extremismo violento, com componente ideológico relevante . A revista Pesquisa Fapesp também destaca que racismo e misoginia não podem ser reduzidos a “bullying”, pois isso esconde as motivações ideológicas e os vínculos com grupos extremistas on-line .
Não se trata de dizer que todo jovem exposto à manosfera cometerá violência. Isso seria falso e irresponsável. Trata-se de reconhecer que determinados ambientes digitais transformam frustração em identidade, identidade em ódio e ódio em fantasia de revanche.
4. A falha das respostas tradicionais
A resposta pública costuma chegar tarde e mal. Depois de tragédias, fala-se em mais policiamento, mais punição, mais vigilância física. Essas medidas podem ter lugar em contextos específicos, mas são insuficientes. A arquitetura do problema é digital, afetiva, educacional e cultural.
Também é preciso cobrar responsabilidade da imprensa. A espetacularização de ataques, com exposição de nomes, imagens e manifestos, pode alimentar o ciclo de notoriedade buscado por agressores. Pesquisas sobre efeito de contágio em massacres apontam que a cobertura midiática pode influenciar novos episódios quando transforma autores de violência em figuras públicas . O movimento No Notoriety defende justamente reduzir a exposição de nomes e imagens de perpetradores, concentrando a cobertura nas vítimas, na prevenção e nas causas estruturais .
A resposta também não pode ser apenas censura improvisada. É preciso regulação séria das plataformas, transparência algorítmica, responsabilização de redes que lucram com conteúdos nocivos e formação de educadores, famílias e profissionais de saúde para reconhecer sinais de isolamento, radicalização e sofrimento emocional.
Conclusão — reconstruir a alteridade
A emancipação social e financeira das mulheres mudou o mundo. E mudou para melhor. Mulheres estudam, trabalham, escolhem, recusam, desejam, terminam, recomeçam. O problema não são mulheres livres. O problema é a incapacidade de parte dos homens de viver em um mundo onde o afeto não é mais garantido por dependência econômica, submissão religiosa ou coerção social.
A manosfera vende uma mentira cruel: diz aos jovens que eles serão fortes se dominarem as mulheres. Na prática, torna-os mais frágeis, mais solitários e mais dependentes da aprovação de outros homens ressentidos.
A saída passa por educação emocional, convivência saudável, letramento digital, crítica à pseudociência, acolhimento psicológico e responsabilização das plataformas. Meninos precisam aprender que rejeição não é humilhação ontológica; é parte da vida. Precisam aprender que mulheres não são prêmios, inimigas ou algoritmos a serem hackeados. São pessoas.
Resgatar a masculinidade da toxicidade algorítmica é proteger os próprios homens de uma fábrica de ressentimento — e proteger as mulheres de uma cultura que ainda insiste em transformar liberdade feminina em ameaça.
Referências
BAEKGAARD, K. Technology-Facilitated Gender-Based Violence. Georgetown Institute for Women, Peace and Security, 2024.
DHOEST, Alexander. Representations of Masculinity on TikTok. International Journal of Communication, 2025.
INSTITUTO AURORA. Violência contra escolas no Brasil: perspectivas sobre o extremismo entre jovens e estratégias de prevenção. Curitiba: Instituto Aurora, 2024.
MEINDL, James N.; IVY, Jonathan W. Mass shootings: the role of the media in promoting generalized imitation. American Journal of Public Health, 2017.
MOVEMBER. Inside the Manosphere: a world-first look at what young men actually see on TikTok. 2026.
ONU MULHERES. What is the manosphere and why should we care? 2025.
PAPPAS, Stephanie. Is the alpha wolf idea a myth? Scientific American, 2023.
THE GUARDIAN. Gen Z boys and men more likely than baby boomers to believe feminism harmful, says poll. 2024.
UNESCO. From Momentum to Meaningful Change: Addressing Technology-Facilitated Gender-Based Violence. 2026.
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