terça-feira, 19 de maio de 2026

O direito de existir em tempos de ódio

Negacionismo, extrema direita e a difícil reconstrução de um mundo comum


Lide

Há um tipo de sofrimento político que nasce antes da violência física: é o sofrimento de ter que justificar a própria existência. Quando alguém precisa provar que merece direitos, dignidade, universidade, vacina, ciência, afeto, futuro e humanidade, a democracia já foi ferida em sua raiz. O problema não é apenas discordar. O problema é quando a discordância se transforma em negação do outro.

Texto

Conviver democraticamente não significa aceitar qualquer absurdo como se todas as opiniões tivessem o mesmo peso. Uma sociedade livre precisa permitir divergências, mas não pode colocar no mesmo plano a ciência e o delírio, a dignidade humana e o discurso de ódio, a complexidade social e a simplificação brutal. Quando alguém diz que a Terra é plana, que universidades públicas são inferiores porque se tornaram mais diversas, que pobres, negros, indígenas, mulheres, pessoas LGBTQIA+, migrantes ou trabalhadores precisam “merecer” direitos, já não estamos apenas diante de uma opinião. Estamos diante de uma fratura profunda no mundo comum.

Hannah Arendt formulou uma das expressões mais importantes do pensamento político moderno: o “direito a ter direitos”. Em Origens do totalitarismo, a autora mostra que a destruição política começa quando determinados grupos deixam de ser reconhecidos como pertencentes a uma comunidade capaz de lhes garantir direitos (Arendt, 2012). A cidadania, nesse sentido, não é apenas possuir documentos ou votar. É ser reconhecido como alguém cuja vida importa no espaço público. Estudos sobre Arendt destacam exatamente esse ponto: o direito a ter direitos envolve a possibilidade de ser tratado como semelhante em um mundo compartilhado.  

O drama contemporâneo é que parte da extrema direita transformou essa recusa do outro em método político. Jason Stanley analisa o fascismo como uma política do “nós contra eles”, marcada pela fabricação de inimigos internos, pelo anti-intelectualismo, pela nostalgia de um passado mítico e pela normalização da mentira política (Stanley, 2018). O fascismo contemporâneo não precisa aparecer com os mesmos uniformes do século XX. Ele pode surgir com linguagem religiosa, moralista, patriótica, digital, familiar e aparentemente “popular”. Sua força está em transformar medo em identidade e ressentimento em projeto de poder.  

É por isso que conversar com certas pessoas se torna tão difícil. Não porque pensem diferente, mas porque abandonaram a disposição mínima para reconhecer a realidade compartilhada. A política democrática exige conflito, mas também exige chão comum. Sem esse chão, tudo vira gritaria. A ciência vira “opinião”. A universidade vira “doutrinação”. A diversidade vira “ameaça”. A pobreza vira “culpa individual”. A violência vira “ordem”. A compaixão vira “fraqueza”. E o ódio passa a se apresentar como coragem.

Theodor Adorno e seus colaboradores, ao estudarem a personalidade autoritária, mostraram que o fascismo não depende apenas de ideias políticas explícitas, mas também de estruturas afetivas: submissão à autoridade, agressividade contra grupos considerados inferiores, rigidez moral, pensamento estereotipado e hostilidade contra a diferença (Adorno et al., 1950). A chamada Escala F buscava compreender justamente essas tendências autoritárias presentes em sujeitos aparentemente comuns. Pesquisas brasileiras recentes retomam esse debate para mostrar como o autoritarismo se reorganiza em novas linguagens sociais e midiáticas.  

A extrema direita compreendeu algo que muitos democratas demoraram a perceber: política não se faz apenas com argumentos; faz-se também com afetos. Medo, raiva, ressentimento, humilhação, inveja e desejo de vingança podem ser politicamente mobilizados. Quando uma pessoa se sente diminuída, abandonada ou frustrada, o discurso autoritário oferece uma explicação simples: “a culpa é deles”. Deles quem? Dos professores, dos artistas, dos pobres, dos negros, das feministas, dos comunistas, dos imigrantes, dos estudantes cotistas, das universidades, dos direitos humanos. O inimigo muda conforme a conveniência, mas a estrutura permanece.

Essa linguagem seduz porque organiza o caos interno do sujeito. Em vez de enfrentar a complexidade da vida, ela oferece atalhos emocionais. Em vez de perguntar por que há desigualdade, aponta um culpado. Em vez de discutir economia, grita contra minorias. Em vez de pensar políticas públicas, promete punição. Em vez de construir futuro, vende apocalipse. É mais fácil imaginar o fim do mundo do que admitir que seria possível construir um mundo melhor.

Achille Mbembe ajuda a compreender esse ponto ao discutir a necropolítica: o poder de decidir quem pode viver e quem pode morrer (Mbembe, 2018). A política de morte não aparece apenas no ato extremo de matar; aparece também quando certos grupos são tratados como descartáveis, quando suas dores não geram comoção, quando suas perdas são naturalizadas, quando suas mortes são explicadas como “efeito colateral”. O discurso de ódio prepara o terreno simbólico para essa indiferença. Antes de eliminar corpos, elimina-se a empatia.  

Por isso, o negacionismo não é um detalhe. Ele é uma tecnologia política. Negar a ciência, negar a história, negar a universidade, negar a violência, negar a desigualdade, negar a dor do outro: tudo isso serve para desmontar a capacidade de julgamento coletivo. Quando a verdade se torna apenas “narrativa”, o poder fica livre para impor sua versão. A mentira deixa de ser acidente e vira instrumento de governo.

Paulo Freire já advertia que a desumanização não é destino, mas resultado histórico. Em Pedagogia do oprimido, ele mostra que a vocação humana é a humanização, ainda que ela seja constantemente negada por estruturas de opressão (Freire, 2019). Esse é um ponto essencial: não basta denunciar o ódio; é preciso reconstruir pedagogicamente a esperança. Não uma esperança ingênua, mas uma esperança ativa, organizada, politicamente consciente.

A grande tarefa democrática de nosso tempo talvez seja esta: reaprender a conversar sem ceder ao absurdo. Isso significa distinguir diálogo de submissão. Dialogar não é aceitar racismo, misoginia, homofobia, negacionismo científico ou desprezo pelos pobres como “opiniões legítimas”. Dialogar é disputar o sentido do mundo sem abrir mão da dignidade humana como ponto de partida.

Também é preciso recuperar o valor das instituições públicas, especialmente das universidades. A universidade pública não se torna inferior por ser diversa; ela se torna mais fiel à democracia quando amplia o acesso ao conhecimento. A diversidade não empobrece a inteligência: ela amplia a experiência social da ciência. Uma universidade composta apenas pelos mesmos grupos sociais, pelos mesmos sobrenomes, pelas mesmas trajetórias e pelos mesmos privilégios pode até parecer “ordenada”, mas será intelectualmente estreita. Conhecimento verdadeiro nasce do encontro, do conflito argumentativo, da pluralidade e da crítica.

O ódio empobrece o pensamento porque transforma o outro em caricatura. Quem odeia não precisa compreender. Basta rotular. Por isso, a extrema direita gosta tanto de palavras que encerram o debate: “comunista”, “globalista”, “doutrinador”, “vitimista”, “inimigo da família”, “inimigo da pátria”. São palavras usadas não para pensar, mas para impedir o pensamento. Elas funcionam como muros.

A democracia, ao contrário, exige pontes. Mas pontes não se constroem sobre a negação da humanidade. Uma sociedade democrática precisa afirmar com clareza: ninguém deve ter que merecer existir. Direitos não são prêmio por obediência ideológica. Direitos não pertencem apenas aos que se encaixam em determinada religião, moral, raça, classe, gênero ou visão política. Direitos são a condição mínima para que a vida humana não seja entregue à força bruta.

O desafio é afetivo, intelectual e político. Afetivo, porque precisamos reconstruir a capacidade de sentir a dor do outro. Intelectual, porque precisamos defender a ciência, a universidade, a história e o pensamento complexo contra as soluções fáceis. Político, porque nenhuma democracia sobrevive quando parcelas da população são tratadas como inimigas internas.

No fundo, a pergunta decisiva é simples: que tipo de mundo queremos habitar? Um mundo em que a política se alimenta da destruição do outro? Ou um mundo em que a divergência ainda seja possível porque existe um pacto anterior, mais profundo, de reconhecimento humano?

A extrema direita costuma oferecer o apocalipse como horizonte. Tudo está perdido. Tudo está corrompido. Tudo precisa ser destruído. Mas talvez a verdadeira coragem esteja no gesto oposto: insistir na construção. Defender a escola pública. Defender a universidade. Defender a ciência. Defender a dignidade. Defender a política como cuidado com o comum. Defender a vida contra todos os discursos que tentam torná-la descartável.

Pensar um mundo melhor não é ingenuidade. Ingenuidade é acreditar que o ódio produzirá justiça. Ingenuidade é imaginar que simplificações brutais resolverão problemas complexos. Ingenuidade é supor que uma sociedade pode destruir seus vínculos de solidariedade e, ainda assim, permanecer humana.

A luta democrática começa quando se recusa a naturalizar o absurdo. Começa quando se diz: a Terra não é plana; a ciência importa; a universidade pública é patrimônio social; a diversidade é força democrática; direitos não são favores; e nenhuma vida precisa pedir licença para existir.

Referências

ADORNO, Theodor W. et al. The authoritarian personality. New York: Harper, 1950.

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: n-1 edições, 2018.

STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Porto Alegre: L&PM, 2018.


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