Uma leitura analítica de René Armand Dreifuss sobre a articulação civil-militar que transformou o golpe em projeto de poder
Seção 1 — Introdução
Poucos livros alteraram de modo tão profundo a interpretação do golpe de 1964 quanto 1964: A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe, de René Armand Dreifuss. A força da obra não reside apenas no volume documental mobilizado, mas na mudança de perspectiva que ela impõe: o evento de 31 de março deixa de aparecer como simples quartelada, reação improvisada à “desordem” ou resposta militar autônoma à crise política, e passa a ser analisado como o desfecho de uma longa operação de reorganização do poder. Na leitura de Dreifuss, o centro explicativo não está apenas nas casernas, mas na articulação entre frações empresariais, tecnocracias civis, aparelhos ideológicos privados e setores militares convergentes em torno de um projeto de classe. A recepção historiográfica da obra reconheceu justamente esse ponto: o complexo IPES/IBAD aparece como núcleo organizador da ação burguesa, algo próximo de um “partido” da classe dominante no sentido gramsciano (Benevides, 2003).
Essa mudança interpretativa continua decisiva porque desmonta um dos mitos mais persistentes sobre 1964: o de que a ruptura institucional teria sido produto quase exclusivo da vontade militar. O que Dreifuss demonstra é mais denso e mais perturbador. O golpe não foi apenas uma operação de força; foi, antes disso, uma operação de elaboração política, doutrinária, empresarial e institucional. Houve formulação de interesses, produção de consenso, financiamento de campanhas, ocupação de espaços estratégicos e construção prévia de legitimidade. Em outras palavras, não se tratou apenas de derrubar João Goulart, mas de redefinir quem passaria a dirigir o Estado e em nome de qual projeto de sociedade. Essa chave continua atual porque permite compreender que, em momentos de crise, as classes dominantes não atuam apenas por pressão externa sobre o aparelho estatal: em determinadas conjunturas, elas procuram governá-lo diretamente.
Por isso, uma leitura contemporânea de Dreifuss exige ir além do enunciado clássico de que 1964 foi um “golpe civil-militar”. Essa expressão ainda é correta, mas já não basta. Ela descreve a composição do processo, porém nem sempre revela sua hierarquia interna. O conceito de golpe de classe permanece mais preciso porque desloca a análise do plano meramente institucional para o plano estrutural: a ruptura não serviu apenas para trocar governantes, e sim para consolidar a supremacia política de uma fração do capital que já avançava economicamente no interior do desenvolvimento brasileiro. A crise do populismo, nesse sentido, não foi apenas crise de governo; foi crise de um arranjo de mediação social que se tornara estreito demais para a nova escala de poder do capital multinacional e associado. A ruptura de 1964, então, aparece como solução autoritária para um impasse histórico: bloquear reformas, conter a mobilização popular e reordenar o Estado em favor de uma nova coalizão dominante (Benevides, 2003).
Mas uma reflexão crítica atualizada precisa acrescentar um elemento que hoje não pode mais ser tratado como lateral: a dimensão internacional do golpe, especialmente a participação dos Estados Unidos. Aqui o ponto decisivo é evitar dois erros simétricos. O primeiro é reduzir 1964 a uma conspiração exclusivamente externa, como se os agentes internos fossem simples marionetes sem projeto próprio. O segundo é minimizar o papel norte-americano em nome de uma narrativa estritamente nacional, como se a crise brasileira pudesse ser compreendida fora da geopolítica da Guerra Fria e das estratégias hemisféricas de Washington. A documentação hoje disponível permite uma formulação mais rigorosa: o golpe resultou da convergência entre interesses internos muito bem organizados e apoio externo efetivo, diplomático, financeiro, ideológico e militarmente preparado. A própria historiografia posterior mostrou que o embaixador Lincoln Gordon esteve no centro das operações de apoio ao golpe, articulando conexões e defendendo preparação logística norte-americana caso houvesse guerra civil ou resistência prolongada (Fico, 2004).
Esse aspecto internacional não diminui a centralidade da burguesia brasileira descrita por Dreifuss; ao contrário, ajuda a compreendê-la melhor. O capital multinacional e associado não era uma abstração. Tratava-se de uma estrutura de interesses enraizada no Brasil, mas conectada a redes transnacionais de poder econômico e político. Estudos posteriores sobre as relações financeiras entre Brasil e Estados Unidos no início dos anos 1960 mostraram que a assistência econômica norte-americana se tornou cada vez mais condicionada por critérios políticos, sobretudo pela percepção de Washington de que Goulart se aproximava de forças consideradas perigosas no contexto anticomunista. Em paralelo, pesquisas mais recentes indicam que o apoio dos EUA ao golpe no Brasil incluiu financiamento da oposição em 1962, acompanhamento direto da crise e respaldo à derrubada do governo constitucional. Isso significa que a interpretação de Dreifuss pode hoje ser ampliada: o “golpe de classe” foi também um episódio exemplar da articulação entre dominação interna e tutela geopolítica externa (Loureiro, 2014).
A documentação oficial dos próprios Estados Unidos torna esse quadro ainda mais nítido. Os registros diplomáticos publicados pelo Foreign Relations of the United States mostram que, nos dias imediatamente anteriores ao golpe, a crise brasileira era acompanhada em tempo real pela Casa Branca, pelo Departamento de Estado, pela CIA e pelo aparato militar. Em 31 de março de 1964, o governo norte-americano chegou a ativar as instruções da operação codinome Brother Sam, concebida para apoiar os golpistas caso necessário. A existência de planejamento prévio, comunicações urgentes e coordenação entre embaixada, Estado-Maior e Presidência dos EUA afasta de vez a versão segundo a qual Washington teria sido mero observador passivo dos acontecimentos. Não houve neutralidade. Houve disposição concreta de garantir o êxito da ruptura, caso a correlação de forças internas exigisse suporte adicional (United States of America, [s.d.]).
É nesse ponto que a atualidade de Dreifuss se revela de forma mais aguda. O livro não interessa apenas como interpretação do passado, mas como método de leitura do poder. Sua lição central é que rupturas institucionais duradouras raramente nascem do improviso. Elas costumam ser preparadas por redes de influência, doutrinação, financiamento, articulação empresarial, disputa de opinião pública e construção de legitimidades de exceção. Em 1964, essa engrenagem operou em escala nacional e internacional. O objetivo deste artigo, portanto, não é apenas revisitar um clássico da historiografia brasileira, mas testar sua potência explicativa à luz das evidências posteriores: compreender como a burguesia organizada, seus intelectuais orgânicos, setores militares e o apoio estratégico dos Estados Unidos convergiram para produzir não apenas a queda de um governo, mas a conquista do Estado.
Seção 2 — A crise do populismo e a reconfiguração do capital
A interpretação de René Armand Dreifuss sobre 1964 começa antes do golpe propriamente dito. Esse é um ponto decisivo. Em sua leitura, a ruptura não pode ser entendida apenas como resposta conjuntural à radicalização política do governo João Goulart, nem como simples reação militar ao conflito social crescente. O que estava em curso era uma crise mais profunda: a decomposição de um padrão de mediação política que, por certo tempo, havia permitido algum equilíbrio entre industrialização, nacional-desenvolvimentismo, ampliação controlada da participação popular e acomodação instável entre diferentes frações das classes dominantes. Por isso, o populismo, em Dreifuss, não aparece apenas como estilo de liderança ou técnica de mobilização de massas; ele surge como forma histórica de organização do poder em uma etapa específica do capitalismo brasileiro. A ruptura de 1964 torna-se inteligível quando esse arranjo deixa de servir aos interesses da fração mais dinâmica e internacionalizada do capital (Benevides, 2003).
Nesse ponto, a contribuição de Dreifuss permanece das mais fecundas. O autor parte da ideia de que o avanço econômico do capital multinacional e associado no Brasil já não encontrava correspondente direção política no interior do Estado. Em termos simples, havia uma defasagem entre quem concentrava crescentemente o poder econômico e quem ainda disputava, de forma mais heterogênea e instável, a condução política do país. O regime populista, com sua lógica de barganha, mediação, concessões graduais e abertura a pressões populares, tornava-se estreito demais para uma fração burguesa que exigia previsibilidade macroeconômica, disciplinamento do trabalho, contenção das reformas e reordenação institucional favorável à expansão do grande capital. Essa formulação foi destacada por Carlos Fico ao resumir a hipótese central de Dreifuss: o domínio econômico do capital multinacional na economia brasileira não encontrava liderança política equivalente, e é justamente essa assimetria que ajuda a explicar a passagem da pressão sobre o Estado para a sua captura (Fico, 2004).
Aqui reside uma das teses mais fortes do livro. A crise do populismo não decorreu apenas de “erros” de governo, da inflação, da polarização ou do medo anticomunista, embora tudo isso tenha importado. Em nível mais estrutural, tratava-se da crise de uma forma de dominação que ainda comportava certa negociação entre capital, Estado e setores populares organizados. As reformas de base, nesse contexto, funcionaram como catalisador do conflito porque tocaram precisamente na fronteira do tolerável para as classes dominantes associadas ao capital internacional: reforma agrária, reforma urbana, reforma universitária, reforma fiscal e maior controle nacional sobre recursos estratégicos não eram percebidos apenas como medidas administrativas, mas como sinais de uma possível inflexão no padrão de desenvolvimento e na correlação de forças sociais. O problema, portanto, não era apenas Goulart; era a possibilidade de que o Estado deixasse de operar com a docilidade requerida pela nova escala de acumulação (Dreifuss, 1981).
É por isso que a noção de bloco multinacional e associado é tão importante. Dreifuss não fala de uma burguesia homogênea, abstrata e indiferenciada. Ele identifica a ascensão de um segmento empresarial articulado a corporações multinacionais, a bancos, a grupos industriais altamente concentrados e a redes tecnocráticas que pensavam o país a partir dos imperativos da integração subordinada ao capitalismo internacional. Esse bloco não era externo ao Brasil; ele operava a partir do Brasil, por dentro do Estado, do empresariado, da imprensa, das fundações, dos centros de estudos e das relações civis-militares. Sua especificidade consistia justamente em combinar inserção nacional com dependência estrutural e aliança estratégica com o capital transnacional. Por isso, a oposição entre “burguesia nacional” e “capital estrangeiro”, tão recorrente em certas leituras mais esquemáticas, torna-se insuficiente. Em Dreifuss, a dinâmica é mais complexa: parte decisiva da burguesia interna já se reconfigura como burguesia associada (Dreifuss, 1981).
Essa percepção ajuda a evitar um equívoco recorrente em leituras superficiais sobre 1964. Não se tratou apenas de uma rebelião conservadora contra a esquerda. Tratou-se, mais precisamente, de uma disputa sobre o formato do desenvolvimento capitalista brasileiro. O golpe foi conservador, sem dúvida, mas foi também modernizador em sentido seletivo e excludente. O objetivo não era restaurar um passado agrário puro nem simplesmente devolver o país a formas arcaicas de mando; era reordenar o Estado para uma nova etapa de modernização dependente, financeirizada e tecnocrática, bloqueando ao mesmo tempo qualquer democratização substantiva da ordem social. Essa é uma das razões pelas quais a obra de Dreifuss permanece atual: ela mostra que autoritarismo e modernização capitalista podem caminhar juntos, sobretudo quando a modernização exige desorganizar a capacidade política dos trabalhadores e neutralizar projetos reformistas (Benevides, 2003).
A historiografia posterior, naturalmente, tensionou e refinou alguns aspectos dessa formulação. Maria Victoria Benevides, por exemplo, reconheceu o caráter inovador da interpretação de Dreifuss, mas ponderou que a expressão “golpe de classe”, embora poderosa, não esgota toda a complexidade da dinâmica política de 1964. Sua crítica é útil porque impede o dogmatismo: a operação golpista envolveu frações burguesas, militares, classe média, burocracias, imprensa, igrejas e pressões internacionais em composições nem sempre lineares. Ainda assim, mesmo as revisões críticas não anulam o núcleo duro da hipótese dreifussiana. Ao contrário, muitas vezes o confirmam por outros caminhos: o golpe não pode ser reduzido à ação de uma corporação militar isolada, porque sua preparação exigiu recursos, planejamento, doutrinação, produção de consenso e direção política civil (Benevides, 2003).
É precisamente nesse ponto que a reflexão atualizada precisa incorporar, já nesta seção, a variável norte-americana. A crise do populismo brasileiro não ocorreu em um vazio geopolítico. Ela se deu no auge da Guerra Fria, em uma América Latina traumatizada pela Revolução Cubana e submetida a intensa vigilância estratégica dos Estados Unidos. O governo de Washington via com crescente preocupação qualquer experiência reformista que pudesse ampliar autonomia nacional, mobilização popular e margem de negociação com setores de esquerda. No caso brasileiro, essa percepção se agravou à medida que Goulart passou a ser enquadrado, em memorandos e comunicações diplomáticas, como líder incapaz de conter tendências “radicalizantes” e potencialmente favorável a mudanças consideradas ameaçadoras para os interesses hemisféricos dos EUA. Os documentos oficiais norte-americanos mostram que, já em janeiro de 1964, o embaixador Lincoln Gordon discutia em Washington a situação brasileira em termos de risco estratégico, vinculando a crise interna à necessidade de ação coordenada dos Estados Unidos (United States of America, [s.d.]).
Essa dimensão internacional não invalida a ideia de crise interna do populismo; ela a aprofunda. O esgotamento do arranjo populista interessava tanto ao bloco multinacional e associado no Brasil quanto à estratégia hemisférica norte-americana. Havia, portanto, uma convergência objetiva. Pesquisas sobre as relações financeiras entre Brasil e Estados Unidos no início dos anos 1960 mostram que a assistência econômica de Washington se tornava cada vez mais condicionada pela orientação política do governo brasileiro. A chamada Aliança para o Progresso, que se apresentava como programa de cooperação e desenvolvimento, operava também como mecanismo de pressão, seleção de aliados e contenção de experiências vistas como desviantes. Em vez de simples apoio “técnico”, o que se observa é o uso da política econômica internacional como instrumento de disputa política interna (Loureiro, 2014).
Aqui cabe uma observação crítica importante. Muitas análises antigas tratavam a influência dos Estados Unidos quase como fator acessório, algo que entraria apenas na fase terminal da conspiração ou na eventual ajuda logística aos golpistas. Hoje essa leitura já não se sustenta integralmente. A documentação disponível e a historiografia mais recente permitem afirmar que a intervenção norte-americana foi mais extensa: envolveu financiamento de setores oposicionistas, respaldo diplomático, circulação de doutrinas anticomunistas, apoio a redes de influência e preparação operacional no momento decisivo. Isso não significa que o golpe tenha sido “feito de fora para dentro”, como se a sociedade brasileira não tivesse contradições próprias. Significa algo mais sofisticado e historicamente mais verdadeiro: o colapso do populismo foi explorado e acelerado por uma aliança entre forças internas e interesses externos (United States of America, [s.d.]).
Nesse sentido, a crise do populismo deve ser entendida como crise de hegemonia. O velho arranjo já não conseguia estabilizar os conflitos sociais, mas a nova ordem ainda precisava ser construída. Foi nesse intervalo que se moveram as frações empresariais mais organizadas, seus intelectuais orgânicos, seus operadores políticos e seus aliados militares. A tarefa não era apenas derrubar um governo, mas produzir uma nova forma de direção social, mais centralizada, mais tecnocrática, mais alinhada ao capital internacional e menos permeável às pressões populares. O golpe de 1964, portanto, não caiu do céu nem brotou automaticamente dos quartéis. Ele se formou no interior da crise do populismo, mas ganhou consistência porque essa crise foi lida, organizada e instrumentalizada por um bloco social já em processo de ascensão.
Seção 3 — A elite orgânica, o complexo IPES/IBAD e a ESG
Se a crise do populismo abriu uma janela histórica para a reorganização autoritária do poder, essa reorganização não se realizou de maneira espontânea. Esse é um dos pontos mais originais e fecundos da interpretação de René Armand Dreifuss. Entre a crise do regime e a derrubada de João Goulart, houve um trabalho sistemático de organização política, doutrinária e institucional conduzido por aquilo que o autor denomina elite orgânica. A escolha do conceito não é casual. Inspirado em Gramsci, Dreifuss procura mostrar que certas frações dominantes não agem apenas por meio da propriedade dos meios de produção ou da pressão econômica direta; elas produzem também seus formuladores, seus articuladores, seus operadores ideológicos e seus estrategistas de Estado. Em outras palavras, a burguesia associada não apareceu em 1964 apenas como classe econômica, mas como força dirigente em processo de autoconstrução política. Essa leitura é central no livro e foi posteriormente reconhecida pela crítica historiográfica, inclusive por Maria Victoria Benevides, ao destacar que, em Dreifuss, o complexo IPES/IBAD aparece como verdadeiro “partido” da burguesia, em sentido gramsciano, isto é, como seu Estado-Maior para a ação ideológica, política e militar (Benevides, 2003).
A noção de elite orgânica permite superar uma compreensão simplista do golpe como mera reação conservadora difusa. Não se tratava apenas de empresários descontentes, militares alarmados e setores médios assustados com o avanço das esquerdas. Havia algo mais estruturado: uma camada de dirigentes empresariais, tecnoempresários, altos administradores, formuladores de políticas, publicistas, juristas, economistas e oficiais militares que passaram a operar de forma coordenada, sistematizando interesses particulares como se fossem interesses universais da nação. No texto de Dreifuss, essa formação aparece ligada ao próprio processo de internacionalização da economia. As multinacionais e os grupos associados, ao se consolidarem, favoreceram a constituição de “elites” conectadas organicamente por padrões de vida, aspirações profissionais, vínculos societários e atitudes político-econômicas comuns; desse meio emergiram os tecnoempresários, figuras que se apresentavam como técnicas e neutras, mas que atuavam como vanguarda política do bloco multinacional e associado (Dreifuss, 1981).
Esse ponto continua extremamente atual. A imagem do especialista neutro, do técnico desinteressado, do gestor que apenas “faz o que funciona”, é uma das formas mais eficazes de ocultação do poder de classe na modernidade capitalista. Dreifuss percebeu isso com notável antecedência. Ao descrever economistas, engenheiros, administradores e dirigentes empresariais como tecnoempresários, ele desmonta o mito da neutralidade tecnocrática. Não eram apenas homens competentes ocupando funções de gestão; eram agentes que traduziam interesses empresariais e transnacionais em linguagem de racionalidade administrativa, planejamento e modernização. A técnica, assim, deixava de ser simples meio operacional e se convertia em forma de legitimação política. Não é difícil perceber a atualidade dessa chave analítica: ainda hoje, em muitos contextos, projetos regressivos são apresentados como inevitabilidades técnicas, como se estivessem acima do conflito social.
Foi nesse terreno que se formou o complexo IPES/IBAD, núcleo organizador da ação burguesa antipopulista. O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) não foram meros clubes de opinião conservadora. Em Dreifuss, eles aparecem como centros de elaboração estratégica, captação de recursos, produção ideológica, articulação política e coordenação de uma frente civil voltada à conquista do Estado. O próprio sumário da obra deixa isso inequívoco: há capítulos específicos sobre a formação do IPES, sobre a ação de classe da elite orgânica e sobre o “complexo IPES/IBAD e os militares”, além da ocupação posterior dos postos estratégicos pela elite orgânica. Essa arquitetura do livro é reveladora porque mostra que, para Dreifuss, o golpe não foi um espasmo final, mas o desfecho de uma engrenagem organizativa de longo curso (Dreifuss, 1981).
O IBAD cumpriu função decisiva na frente mais diretamente política e eleitoral. Atuou no financiamento de candidaturas conservadoras, no apoio a campanhas antirreformistas e na tentativa de reorganizar o campo parlamentar contra o governo Goulart. Já o IPES assumiu uma tarefa mais ampla e profunda: formular diagnósticos, treinar quadros, produzir materiais, organizar seminários, aproximar empresários, técnicos e militares, além de elaborar um projeto de reordenação institucional para o país. Nessa divisão funcional, o complexo IPES/IBAD operava como verdadeiro sistema de guerra política. Não por acaso, a fortuna crítica da obra de Dreifuss insiste que o seu mérito foi mostrar a conspiração não como simples trama clandestina, mas como forma de organização social de uma fração de classe que buscava hegemonia (Benevides, 2003).
A Escola Superior de Guerra (ESG) entra nesse processo como peça-chave de articulação entre o mundo empresarial e a oficialidade modernizante-conservadora. O livro de Dreifuss é bastante incisivo nesse ponto. A ESG aparece como centro nodal de doutrinação para uma forma específica de desenvolvimento e segurança nacional, baseada nas premissas do capitalismo hemisférico, da hierarquia social, da disciplina política e da modernização conservadora. Ela não funcionava apenas como escola militar no sentido estrito. Funcionava como espaço de socialização de elites, de circulação de ideias, de encontro entre empresários, tecnoempresários e oficiais, criando vínculos orgânicos entre sociedade civil dominante e aparelho militar. Dreifuss sustenta que muitos empresários e economistas de peso eram conferencistas assíduos da ESG, levando para lá seus próprios valores desenvolvimentistas e empresariais, enquanto oficiais compartilhavam com eles a urgência de reorganizar o país em direção a uma sociedade industrial capitalista rigidamente ordenada (Dreifuss, 1981).
Esse aspecto é ainda mais relevante quando se examina a dimensão norte-americana da formação doutrinária. Dreifuss afirma que oficiais dos Estados Unidos ajudaram na formação da ESG entre 1946 e 1947, que a escola funcionou como equivalente brasileiro do National War College e que oficiais norte-americanos permaneceram vinculados ao seu corpo regular ou como ligação docente por muitos anos. O autor também destaca que as turmas da ESG eram levadas anualmente aos Estados Unidos em viagens cuidadosamente preparadas e que, por meio do Programa de Assistência Militar e de outros acordos bilaterais, a doutrinação político-ideológica era combinada com a informação técnica, alinhando a mentalidade militar latino-americana ao centro hegemônico norte-americano. Não se trata, portanto, apenas de influência abstrata da Guerra Fria, mas de uma pedagogia institucional concreta, articulada entre formação militar, anticomunismo e modelo de desenvolvimento associado (Dreifuss, 1981).
Aqui aparece uma dimensão decisiva para atualizar criticamente Dreifuss. A elite orgânica não se formou apenas como coalizão nacional conservadora; ela se formou dentro de um ecossistema transnacional de poder. O anticomunismo empresarial, a doutrina de segurança nacional, o planejamento econômico favorável ao capital associado e a conversão da técnica em linguagem de despolitização não eram fenômenos isolados do Brasil. Eles integravam uma gramática hemisférica da Guerra Fria, na qual os Estados Unidos atuavam como polo irradiador de doutrina, financiamento, cooperação militar e pressão diplomática. Os documentos do Foreign Relations of the United States mostram que, já em janeiro de 1964, Lincoln Gordon tratava a situação brasileira como tema de alta prioridade estratégica, e em março o governo norte-americano já discutia pedidos de apoio por parte dos conspiradores e autorizava a operação que receberia o codinome Brother Sam. Isso reforça uma leitura importante: a elite orgânica brasileira tinha projeto próprio, mas esse projeto era compatível e convergente com a estratégia hemisférica de Washington (United States of America, [s.d.]).
A presença norte-americana, contudo, não deve ser interpretada de forma mecânica. O ponto forte de Dreifuss não é substituir a agência brasileira por uma agência estrangeira, e sim mostrar como interesses internos se organizaram de maneira autônoma o suficiente para construir direção política, mas integrados o bastante para operar em sintonia com redes transnacionais de poder. A elite orgânica brasileira não foi simples braço passivo do imperialismo; ela foi parceira ativa de um projeto de reorganização do capitalismo dependente no país. Esse é um detalhe teórico importante, porque impede tanto a narrativa nacionalista simplificadora quanto a minimização liberal do problema. O golpe não veio “de fora”, mas tampouco pode ser entendido sem o “fora”.
Outro elemento notável é que a ESG ajudou a transformar a convergência entre civis e militares em algo mais profundo do que uma aliança tática. Ela funcionou como espaço de fusão cultural e estratégica. Dreifuss observa que a escola difundia uma visão estática da sociedade, fundada na separação entre elites e massas, na rejeição a transformações estruturais e na aceitação de formas privadas de apropriação como se fossem naturais. A modernização admitida era seletiva: modernizar sem democratizar, crescer sem redistribuir, planejar sem participação popular, desenvolver sem reforma social. Eis o coração da doutrina. Quando empresários, banqueiros, economistas e oficiais se reconhecem mutuamente nesse horizonte, o golpe deixa de ser apenas solução de emergência e se torna projeto histórico de poder (Dreifuss, 1981).
Sob esse prisma, o complexo IPES/IBAD e a ESG não foram apêndices do golpe; foram laboratórios da nova ordem. No interior deles, a burguesia associada aprendeu a agir politicamente como classe dirigente. Produziu diagnósticos sobre a crise, formulou um vocabulário de salvação nacional, mobilizou recursos privados, cultivou relações com a imprensa, financiou campanhas, penetrou o Legislativo, treinou quadros e construiu pontes duráveis com setores militares. O que se desenhava ali era uma forma sofisticada de poder: uma mistura de hegemonia e coerção, de persuasão e força, de técnica e ideologia. A partir dessa leitura, 1964 deixa de ser visto como simples vitória das armas e aparece como triunfo de uma arquitetura civil-militar muito mais densa.
Por isso, a contribuição de Dreifuss continua intelectualmente incômoda. Ela obriga a reconhecer que as rupturas autoritárias não são obra apenas de generais ou de aventureiros políticos. Elas dependem da existência de classes dominantes capazes de pensar estrategicamente, de formar seus intelectuais orgânicos, de ocupar instituições-chave e de apresentar seus interesses como se fossem o interesse geral da sociedade. A “elite orgânica” é, nesse sentido, uma categoria que permanece útil muito além de 1964. Ela permite compreender como o poder econômico se converte em direção política, como a técnica se transforma em ideologia e como a democracia pode ser minada por agentes que falam em ordem, racionalidade, estabilidade e desenvolvimento.
Seção 4 — Guerra ideológica, classe média e desestabilização da sociedade civil
Nenhum golpe de Estado duradouro se sustenta apenas pela força bruta. Antes dos tanques, quase sempre vêm as palavras; antes da ruptura aberta, vem a fabricação do clima de ruptura. Esse é um dos aspectos mais importantes da leitura de René Armand Dreifuss: a conquista do Estado exigiu, previamente, a conquista de legitimidade social para a exceção. Por isso, o complexo IPES/IBAD não operou apenas como articulador empresarial e parlamentar, mas como máquina de guerra ideológica voltada a produzir medo, desorientação, ressentimento e consentimento conservador. O livro estrutura essa dimensão de forma clara ao tratar da “campanha ideológica e política da elite orgânica”, do “delineamento do consenso antipopulista” e do uso de diversos aparelhos de influência na sociedade civil (Dreifuss, 1981).
Aqui está uma das teses mais fortes do argumento dreifussiano: o golpe não foi apenas preparado nos quartéis nem apenas costurado em gabinetes empresariais; ele foi socialmente trabalhado. Houve produção organizada de narrativas, símbolos, afetos e palavras de ordem. O objetivo não era somente convencer a população de que João Goulart errava, mas fazer parecer que o país se encontrava diante de uma escolha extrema entre “salvação” e “caos”, entre “ordem cristã” e “ameaça comunista”, entre “família” e “subversão”. Nessa gramática, qualquer proposta reformista deixava de ser debatida como política pública e passava a ser encenada como etapa de uma conspiração revolucionária. A arena pública, assim, deixava de funcionar como espaço de deliberação e passava a operar como campo emocional de mobilização antidemocrática. Essa interpretação é reforçada pela recepção historiográfica da obra, que sublinha o papel do IPES/IBAD na produção de consenso antipopulista e na articulação entre sociedade civil dominante e projeto golpista (Benevides, 2003).
O IPES foi central nesse processo porque compreendeu, com notável sofisticação, que a disputa política moderna não se trava apenas no plano institucional, mas também no plano simbólico. O instituto produziu e difundiu livros, folhetos, conferências, cursos, artigos, programas de rádio e televisão, documentários e materiais pedagógicos destinados a formar opinião em diferentes segmentos sociais. Pesquisas sobre as práticas audiovisuais ligadas à preparação do golpe mostram que essa frente de propaganda foi muito mais ampla do que durante muito tempo se imaginou: havia roteirização política, segmentação de públicos, uso coordenado de meios de comunicação e associação entre anticomunismo, moralidade familiar e defesa da livre iniciativa (Gaspar, 2008).
O IBAD, por sua vez, cumpriu papel decisivo na frente mais diretamente político-eleitoral, especialmente por meio do financiamento de candidaturas conservadoras e da organização de uma retaguarda parlamentar antirreformista. Esse trabalho se conectou à Ação Democrática Parlamentar (ADP), que funcionou como polo de agregação de congressistas dispostos a bloquear as iniciativas de João Goulart e a isolar as reformas de base no interior do Legislativo. Em termos práticos, a operação era dupla: fora do Congresso, disseminava-se o pânico moral e político; dentro do Congresso, tentava-se inviabilizar institucionalmente o governo. A combinação entre rua, mídia, empresariado e parlamento foi um dos grandes trunfos da engrenagem golpista. Ela permitiu que a ofensiva contra Goulart aparecesse não como simples conspiração de cúpula, mas como reação social ampla e aparentemente legítima (Benevides, 2003).
Talvez nenhum ponto dessa ofensiva seja tão emblemático quanto a mobilização da classe média. Dreifuss percebeu com clareza que esse segmento não foi mero espectador do processo. Ele foi disputado, trabalhado e convertido em base social de legitimação do golpe. A classe média urbana, sobretudo em grandes centros, foi interpelada por uma linguagem que misturava medo econômico, ansiedade moral, defesa da religião, temor à desordem e repulsa à politização popular. Em vez de se apresentar como expressão crua dos interesses do grande capital, a campanha ideológica foi revestida de linguagem cívica, cristã e familiar. O anticomunismo, nesse registro, deixava de ser apenas doutrina geopolítica e se transformava em sentimento cotidiano: medo da perda de patrimônio, da inversão de hierarquias, da secularização moral, da politização dos trabalhadores e da ampliação do conflito social (Mendes, 2005).
A Marcha da Família com Deus pela Liberdade tornou-se a imagem mais conhecida dessa mobilização, mas ela não deve ser lida como espontâneo levante moral da sociedade. A historiografia já mostrou que as marchas foram parte importante da cristalização pública do campo antirreformista, reunindo empresários, setores médios, lideranças religiosas, associações femininas e elites urbanas sob um vocabulário de defesa da ordem, da fé e da nação. Estudos sobre essas manifestações indicam, inclusive, que elas não foram apenas um ato de “classe média assustada”, mas uma expressão organizada de um bloco social conservador mais amplo, em diálogo com o complexo IPES/IBAD e com a pedagogia anticomunista do período. A imagem da família, nesse contexto, funcionava como metáfora política: proteger a família significava, simbolicamente, proteger a propriedade, a hierarquia e a ordem social ameaçadas (Cordeiro, 2021).
Há aqui uma reflexão crítica importante. Quando a política passa a ser reorganizada por meio do medo moral, a democracia entra em estado de vulnerabilidade extrema. Isso porque o adversário deixa de ser tratado como concorrente legítimo e passa a ser retratado como agente do mal, inimigo da civilização, força dissolvente da pátria. Nesse tipo de ambiente, a exceção ganha verniz de dever cívico. A violência passa a parecer prudência; a suspensão da legalidade passa a ser narrada como defesa da legalidade profunda; a ruptura constitucional aparece como “remédio amargo” para salvar a nação. Em 1964, essa transmutação semântica foi crucial. Ela permitiu que a ofensiva contra Goulart não fosse percebida por muitos de seus apoiadores sociais como destruição da democracia, mas como sua suposta restauração (Mendes, 2005; Cordeiro, 2021).
Essa guerra ideológica também foi internacionalmente alimentada. O anticomunismo que circulava no Brasil não era produto apenas de tradições conservadoras locais; ele se articulava à gramática hemisférica da Guerra Fria, profundamente estimulada pelos Estados Unidos após a Revolução Cubana. A retórica da “segurança continental”, da infiltração vermelha e da necessidade de conter novos processos semelhantes ao cubano atravessou escolas militares, meios empresariais, redes católicas, programas de cooperação e canais diplomáticos. A dimensão religiosa dessa cruzada também se conectou a redes transnacionais: estudos recentes mostram a atuação de lideranças católicas anticomunistas no ambiente das marchas, reforçando a mistura entre devoção, política e guerra cultural. Assim, a sociedade civil brasileira foi trabalhada por uma pedagogia de medo que era ao mesmo tempo nacional e internacional (Codato; Oliveira, 2004).
Isso não significa que os Estados Unidos tenham “fabricado” artificialmente uma sociedade conservadora inexistente. O problema é outro e mais sério: eles atuaram sobre contradições reais, ampliando sua capacidade de coordenação e direção. A intervenção externa foi eficaz porque encontrou ressonância em elites econômicas brasileiras, em redes religiosas, em parte da imprensa, em associações civis e em setores médios dispostos a enxergar a politização popular como ameaça. Em outros termos, a influência norte-americana foi catalisadora, não substitutiva. Ela fortaleceu uma infraestrutura ideológica já em construção no interior do país. É esse entrelaçamento entre agentes internos e suporte externo que torna a leitura de Dreifuss tão produtiva ainda hoje (United States of America, [s.d.]).
Outro aspecto decisivo foi o uso da linguagem da neutralidade e da responsabilidade. A campanha golpista raramente se apresentava como projeto de classe nu e cru. Ao contrário, falava em estabilidade, eficiência, técnica, moralidade administrativa, combate à corrupção e defesa da democracia. Essa operação semântica foi fundamental para ocultar o conteúdo social real do movimento. A burguesia associada não se dizia burguesia associada; apresentava-se como guardiã da racionalidade. Os operadores ideológicos do golpe não se assumiam como propagandistas da exceção; apareciam como educadores cívicos. O resultado foi a construção de um campo discursivo em que o conservadorismo radical pôde vestir a roupa da moderação. Essa capacidade de esconder interesses particulares sob a máscara do interesse geral foi, precisamente, uma das maiores vitórias da elite orgânica no período (Benevides, 2003).
Por isso, a desestabilização da sociedade civil não consistiu apenas em agitação de rua ou em pânico midiático. Ela foi um processo mais profundo de corrosão da legitimidade do conflito democrático. A greve passou a ser vista como sabotagem; a reforma, como subversão; a participação popular, como anarquia; a autonomia nacional, como irresponsabilidade; a política social, como porta de entrada do comunismo. Quando esse léxico se consolida, o espaço para soluções constitucionais estreita-se drasticamente. O golpe torna-se possível porque antes se torna pensável; e torna-se pensável porque foi cuidadosamente narrado como necessário. Em 1964, a guerra ideológica não foi acessório do golpe. Ela foi uma de suas condições de possibilidade.
Seção 5 — A articulação militar e a dimensão norte-americana do golpe
Se a guerra ideológica preparou a atmosfera social da ruptura, a etapa seguinte consistiu em converter essa desestabilização em movimento político-militar efetivo. Aqui também a leitura de Dreifuss permanece decisiva: o golpe não deve ser entendido como explosão autônoma dos quartéis, mas como culminância de uma engrenagem civil-militar cuidadosamente construída. Carlos Fico resume bem esse ponto ao observar que, em Dreifuss, o “complexo IPES/IBAD” atuava em minúcias para articular a conspiração e abrir caminho para a tomada do poder. Ao mesmo tempo, a recepção historiográfica consolidou a ideia de que sua obra inaugurou uma linhagem de estudos sobre a participação do empresariado no golpe, hoje amplamente reconhecida (Fico, 2004).
Esse enquadramento é importante porque corrige um erro recorrente: imaginar que os militares, sozinhos, possuíam unidade política suficiente para derrubar o governo e, depois, reorganizar o Estado segundo um programa coerente. A realidade era mais fragmentada. Havia correntes distintas nas Forças Armadas, com graus variados de legalismo, anticomunismo, pragmatismo e disposição golpista. O que a elite civil organizada fez foi justamente operar como força de coordenação, aproximando facções, criando pontos de convergência, oferecendo respaldo ideológico, financiamento, canais de comunicação e horizonte programático. Em outras palavras, o golpe precisou de militares para se consumar, mas precisou também de empresários, tecnocratas, operadores políticos e doutrinadores para se tornar viável como projeto de poder (Benevides, 2003).
Esse é o ponto em que a expressão golpe civil-militar ganha sua densidade real. Não se trata de mera fórmula conciliadora entre interpretações rivais, como se bastasse dizer que “civis e militares participaram”. O essencial é perceber a assimetria funcional do arranjo. Os militares forneciam a força, a cadeia de comando e a capacidade de ruptura imediata. Já o núcleo civil articulado em torno do grande empresariado e de seus aparelhos privados de hegemonia fornecia algo igualmente indispensável: formulação estratégica, construção de consenso, infiltração institucional, apoio parlamentar, recursos materiais e uma narrativa de legitimação. Sem essa retaguarda, o levante teria sido mais incerto, mais isolado e menos capaz de se converter rapidamente em nova ordem estatal (Benevides, 2003).
A cronologia dos dias finais de março de 1964 reforça essa interpretação. A documentação diplomática dos Estados Unidos mostra que a crise brasileira era acompanhada em tempo real pela embaixada em Brasília e no Rio, pelo Departamento de Estado, pela Casa Branca, pela CIA e pelos comandos militares. Em 18 de março, a embaixada norte-americana já avaliava que a conjuntura havia entrado numa fase “perigosa”, após o comício de 13 de março e o agravamento do conflito político. Em 28 de março, Lincoln Gordon transmitia a Washington, a seu pedido, avaliações sobre o quadro brasileiro. Isso demonstra que os acontecimentos não eram tratados como turbulência interna de baixa relevância, mas como questão estratégica de alta prioridade hemisférica (United States of America, [s.d.]).
Mais do que acompanhar, Washington se preparou para agir. Em 31 de março de 1964, os documentos do Foreign Relations of the United States registram a ativação das instruções da operação que os chefes militares norte-americanos chamaram de Brother Sam. O plano previa envio de combustível, possibilidade de apoio aéreo e deslocamento de força naval para a região, caso a situação evoluísse para guerra civil ou exigisse assistência direta aos golpistas. A própria documentação oficial registra o codinome, os meios envolvidos e a lógica político-militar da operação. Isso afasta definitivamente qualquer narrativa segundo a qual os EUA teriam sido meros observadores passivos do desfecho brasileiro. Houve preparação logística concreta para sustentar a ruptura, se necessário (United States of America, [s.d.]).
É importante qualificar bem essa intervenção. Não se tratou, ao menos no sentido mais rigoroso, de uma invasão clássica ou de uma imposição externa que substituiu a agência dos atores brasileiros. O que houve foi algo mais compatível com a lógica da Guerra Fria na América Latina: apoio estratégico a uma coalizão interna já em movimento, combinando inteligência, diplomacia, pressão política, respaldo logístico potencial e sinalização internacional de reconhecimento. A Library of Congress, ao sintetizar a documentação hoje disponível, destaca que o governo dos EUA apoiou determinados atores políticos brasileiros, acompanhou a crise de perto e participou do contexto que favoreceu a derrubada de Goulart. A especificidade do caso brasileiro está justamente nessa convergência entre projeto interno de classe e alinhamento externo (United States of America, [s.d.]).
Essa convergência ajuda a entender por que o 31 de março deve ser visto menos como começo e mais como momento culminante. Quando as tropas se movem, a batalha decisiva já estava bastante avançada em outros planos: opinião pública, imprensa, doutrinação militar, bloqueio parlamentar, financiamento privado, articulação empresarial e isolamento diplomático do governo. Os militares não entraram em cena num terreno neutro; avançaram sobre um cenário previamente organizado para aumentar a chance de êxito e reduzir o custo político da ruptura. Foi isso que permitiu que a deposição de Goulart se desse com relativa rapidez e que a nova ordem buscasse apresentar-se, de imediato, como solução racional para o país (Fico, 2004).
A figura do embaixador Lincoln Gordon é central para essa etapa final. A documentação oficial mostra sua participação ativa na interpretação da crise, na comunicação com Washington e na defesa de medidas de apoio aos conspiradores em caso de necessidade. Não se trata de exagero retórico: os registros do Departamento de Estado mostram Gordon como interlocutor de alta influência na formulação da resposta norte-americana. Sua atuação confirma que o governo dos EUA não apenas simpatizava com a derrubada de Goulart, mas trabalhava para garantir que, se o confronto se prolongasse, os setores golpistas não ficassem sem respaldo (United States of America, [s.d.]).
Esse ponto exige uma reflexão crítica atualizada. Durante décadas, parte do debate público oscilou entre duas simplificações: ou o golpe era explicado quase integralmente pela ação dos quartéis, ou era atribuído de forma quase total aos Estados Unidos. Ambas as leituras são insuficientes. A primeira apaga a articulação empresarial, ideológica e parlamentar; a segunda reduz a complexidade social brasileira e subestima a autonomia das classes dominantes internas. O que a melhor historiografia permite afirmar hoje é algo mais preciso: houve um encaixe estrutural entre interesses do bloco multinacional e associado no Brasil e a estratégia hemisférica de Washington no contexto da Guerra Fria. Essa sintonia tornou possível a cooperação entre agentes internos e externos sem que um anulasse o outro (Fico, 2004; Loureiro, 2014).
A própria ação político-ideológica norte-americana no Brasil antes de 1964 reforça esse quadro. Estudo recente sobre a atuação da USIA no país mostra que a agência trabalhou para construir consenso em torno de interesses multinacionais e associados e para fortalecer o ambiente político-cultural favorável ao golpe empresarial-militar. Isso é relevante porque amplia o foco para além dos dias finais de março. A intervenção dos EUA não se limitou à possibilidade de apoio naval ou aéreo; ela também se expressou na esfera da propaganda, da produção ideológica e da sedimentação de um anticomunismo compatível com os interesses do grande capital (Mozer, 2024).
Assim, a articulação militar de 1964 precisa ser compreendida em dois níveis. No nível interno, foi a convergência entre frações militares e uma elite civil organizada que transformou a conspiração em capacidade real de ruptura. No nível internacional, foi o respaldo norte-americano — diplomático, ideológico e potencialmente logístico — que elevou a confiança dos conspiradores e ajudou a enquadrar o desfecho brasileiro como parte da política de contenção hemisférica. O golpe, portanto, não foi apenas militar, nem apenas nacional. Foi civil-militar e internacionalmente favorecido (United States of America, [s.d.]).
Essa conclusão altera a própria maneira de nomear 31 de março de 1964. Não se tratou de simples mudança de governo nem de correção episódica de rumo. O que se operou ali foi a vitória de uma coalizão que reunia força armada, poder econômico, capacidade ideológica e convergência geopolítica externa. Quando os tanques saíram às ruas, o projeto já estava amplamente desenhado. A queda de Goulart foi o ato visível; a reorganização do Estado em favor do novo bloco no poder era o conteúdo profundo.
Seção 6 — A conquista do Estado e o fim do mito da tecnocracia neutra
O golpe de 1964 não se esgotou na deposição de João Goulart. Esse é, talvez, o ponto mais decisivo da interpretação de René Armand Dreifuss. Derrubar o governo foi apenas a etapa visível de um processo mais profundo: a conquista do Estado por uma elite civil-empresarial já organizada antes da ruptura. O sentido da expressão é forte e precisa. Não se tratou apenas de influenciar governos, pressionar ministérios ou condicionar políticas públicas. O que ocorreu, na leitura de Dreifuss, foi a passagem de uma fração dominante da condição de grupo de pressão para a condição de força dirigente instalada no próprio aparelho estatal. A burguesia associada, que antes atuava a partir de suas organizações, de seus aparelhos ideológicos e de sua articulação com setores militares, agora passava a governar diretamente por meio de seus quadros, seus técnicos, seus planejadores e seus operadores políticos (Dreifuss, 1981).
É por isso que a etapa posterior ao golpe precisa ser compreendida não como simples “administração militar” do país, mas como reorganização institucional profunda em favor de um novo bloco no poder. A própria estrutura do livro de Dreifuss evidencia isso ao dedicar capítulo específico à “ocupação dos postos estratégicos pela elite orgânica”, seguido da análise da reordenação estatal e da implementação do programa concebido anteriormente no interior do complexo IPES/IBAD. A tese é clara: o golpe não foi apenas destrutivo; ele foi também constitutivo. Destruiu o arranjo anterior e, ao mesmo tempo, construiu uma nova arquitetura institucional, jurídica, econômica e informacional adequada aos interesses do capital multinacional e associado (Dreifuss, 1981).
Esse ponto é central para desmontar outro mito persistente: o da suposta neutralidade dos “técnicos” que assumiram funções-chave após 1964. Uma das grandes contribuições de Dreifuss foi mostrar que esses personagens — economistas, administradores, juristas, banqueiros, executivos, planejadores — não eram figuras pairando acima do conflito social, como se apenas aplicassem soluções racionais a problemas objetivos. Eles eram, ao contrário, agentes ligados por vínculos materiais, profissionais e ideológicos ao novo bloco dominante. A tecnocracia, nesse contexto, funcionou como forma política disfarçada de competência neutra. A força do argumento está justamente aí: aquilo que se apresentava como racionalidade administrativa era, na verdade, racionalidade de classe institucionalizada no Estado. Essa leitura foi depois reforçada por estudos sobre os “ipesianos no poder”, que destacam a presença formal e substantiva dessas frações nos aparelhos estatais como mecanismo de controle da direção do Estado (Codato; Oliveira, 2004).
A nova ordem não surgiu do nada. Muitas de suas instituições mais importantes foram criadas ainda em 1964, logo após o golpe, e ajudam a perceber como o programa anteriormente defendido por setores empresariais e tecnocráticos ganhou forma estatal. Em 13 de junho de 1964, foi criado o Serviço Nacional de Informações (SNI) como órgão da Presidência da República, formalizando desde cedo uma engrenagem central de vigilância, coordenação informacional e segurança política do novo regime (Brasil, 1964a). Em 21 de agosto de 1964, a Lei nº 4.380 criou o Banco Nacional da Habitação (BNH) e organizou o sistema financeiro da habitação, articulando política urbana, financiamento imobiliário e correção monetária em novas bases (Brasil, 1964b). Em 30 de novembro de 1964, foi promulgado o Estatuto da Terra, que regulou a política agrária e redefiniu juridicamente o tema da reforma agrária sob a lógica do novo regime (Brasil, 1964c). E, em 31 de dezembro de 1964, a Lei nº 4.595 criou o Banco Central do Brasil e reorganizou o sistema financeiro nacional (Brasil, 1964d).
Quando se observam essas iniciativas em conjunto, o padrão se torna nítido. O novo poder não se limitou à repressão, embora a repressão fosse estruturalmente indispensável. Ele procurou construir instrumentos duradouros de comando econômico, vigilância estatal, reorganização fundiária e engenharia financeira. Em outras palavras, o regime não queria apenas silenciar adversários; queria reprogramar o Estado. O SNI cuidava da inteligência e do controle político; o Banco Central e a nova institucionalidade financeira consolidavam um arranjo favorável à estabilização monetária sob controle tecnocrático; o BNH conectava habitação, crédito e correção monetária a um modelo de modernização urbana dependente; o Estatuto da Terra enquadrava a questão agrária de modo compatível com a contenção do conflito no campo (Brasil, 1964a, 1964b, 1964c, 1964d).
Aqui aparece uma reflexão crítica importante. O autoritarismo de 1964 não foi mera suspensão da política em nome da força. Ele foi, também, uma forma específica de produção tecnocrática do político. O novo regime procurou fazer parecer que suas decisões não decorriam de interesses sociais determinados, mas de exigências objetivas do desenvolvimento, da segurança e da modernização. Esse mecanismo é essencial para compreender sua estabilidade inicial. A repressão sozinha produz medo; a tecnocracia produz legitimidade funcional. Quando as duas se combinam, o poder torna-se mais sofisticado e mais durável. É exatamente por isso que o mito do técnico neutro precisa ser desmontado: ele encobre a transformação de escolhas de classe em necessidades supostamente universais.
Essa percepção também permite rever a própria expressão “ditadura militar”. Ela continua válida para indicar o papel decisivo das Forças Armadas no comando da coerção, na tutela institucional e na repressão. Mas, isoladamente, ela pode obscurecer o fato de que muitos dos eixos programáticos e administrativos do regime foram formulados e implementados por civis ligados ao empresariado, ao mercado financeiro, à alta burocracia e à intelligentsia conservadora formada no pré-1964. O poder militar foi indispensável, mas a administração do novo projeto de país exigiu algo mais: exigiu quadros civis aptos a transformar interesses empresariais e geopolíticos em desenho institucional. Nisso, Dreifuss continua sendo especialmente incômodo, porque obriga a reconhecer que a ditadura não foi obra apenas dos fardados; ela foi também obra de executivos, banqueiros, juristas, economistas e planejadores.
A dimensão norte-americana reaparece aqui de maneira menos espetacular, mas igualmente profunda. A criação de estruturas como o SNI, a reorganização do sistema financeiro e a consolidação de uma tecnocracia de segurança e desenvolvimento alinharam o Brasil de 1964 a uma gramática mais ampla da Guerra Fria hemisférica. O regime que emergiu do golpe tornou-se rapidamente compatível com as prioridades estratégicas dos Estados Unidos: anticomunismo duro, disciplina social, previsibilidade para o capital internacional, fortalecimento de mecanismos de inteligência e estabilização institucional pró-mercado. A intervenção dos EUA, portanto, não terminou com a preparação do golpe; ela encontra continuidade no tipo de Estado que se consolidou depois dele. A convergência não era apenas negativa, voltada a derrubar Goulart; era também positiva, voltada a construir uma ordem estável, confiável e alinhada (Fico, 2004).
Por isso, a ideia de que a burguesia associada “tornou-se Estado” não deve ser lida como metáfora exagerada. Ela expressa uma mudança efetiva na relação entre poder econômico e aparelho estatal. Antes do golpe, essa fração precisava disputar, pressionar, influenciar e bloquear. Depois do golpe, passou a formular, ocupar, administrar e decidir. Essa passagem é o coração do argumento de Dreifuss e talvez sua contribuição mais duradoura para a interpretação de 1964. O golpe foi bem-sucedido não apenas porque derrubou um governo constitucional, mas porque conseguiu instalar, em seu lugar, uma nova racionalidade de Estado.
É justamente nesse ponto que o livro continua atual. Ele ensina que a forma mais eficaz de dominação não é aquela que se apresenta abertamente como privilégio, mas a que se traveste de neutralidade, eficiência e necessidade técnica. Em 1964, a elite orgânica não tomou o Estado para parecer facção; tomou-o para parecer competência. E talvez seja esse o traço mais moderno — e mais perigoso — do processo analisado por Dreifuss.
Seção 7 — Conclusão: 1964 como conquista do Estado e advertência histórica
A leitura de 1964: A conquista do Estado permanece poderosa porque obriga a deslocar o olhar do episódio para a estrutura, do levante para o projeto, da aparência militar para a profundidade de classe. Ao longo deste artigo, a interpretação de René Armand Dreifuss mostrou que 1964 não pode ser adequadamente compreendido como simples quartelada, nem como reação instantânea à crise política do governo João Goulart. O que se consolidou foi um processo mais amplo de reorganização do poder, no qual uma fração empresarial articulada ao capital multinacional, seus intelectuais orgânicos, seus aparelhos ideológicos e seus aliados militares convergiram para desmontar o arranjo populista e instaurar uma nova forma de direção estatal. A força historiográfica dessa tese continua reconhecida justamente porque recolocou o empresariado, os aparelhos privados de hegemonia e a noção de “golpe de classe” no centro da interpretação sobre 1964 (Benevides, 2003).
Esse é o núcleo mais duradouro da contribuição de Dreifuss: mostrar que a burguesia associada deixou de atuar apenas como força de pressão e passou a buscar — e a exercer — direção política direta sobre o Estado. Em vez de enxergar a ditadura apenas como poder militar imposto de cima para baixo, a obra revela um mecanismo mais complexo e mais moderno: a combinação entre coerção, tecnocracia, propaganda, financiamento, articulação parlamentar e formulação estratégica. O golpe foi militar na forma decisiva de ruptura, mas foi civil-empresarial em sua preparação, em sua legitimação e em boa parte de seu conteúdo programático. A expressão “ditadura militar”, embora correta em um nível, torna-se insuficiente quando não se enxerga a máquina civil que a preparou e o projeto de classe que a atravessou (Benevides, 2003).
Ao mesmo tempo, a reflexão crítica atualizada exige acrescentar um dado incontornável: essa conquista do Estado não ocorreu em espaço geopolítico neutro. A documentação oficial dos Estados Unidos mostra que Washington acompanhou a crise brasileira em tempo real, tratou o tema como prioridade estratégica e chegou a ativar a operação Brother Sam em 31 de março de 1964 para apoiar os golpistas caso fosse necessário. Isso não autoriza uma narrativa simplificadora segundo a qual o golpe teria sido apenas “feito pelos EUA”. Autoriza, isto sim, uma conclusão mais rigorosa: houve uma convergência entre projeto de classe interno e apoio estratégico externo, típica da Guerra Fria hemisférica. O golpe foi brasileiro em sua base social e em sua engenharia política, mas foi internacionalmente favorecido por uma potência que via no Brasil peça crucial de sua política de contenção (United States of America, [s.d.]).
Essa convergência ajuda a qualificar melhor a própria noção de golpe civil-militar. Não basta dizer que civis e militares participaram. É preciso identificar quais civis, em nome de quais interesses, por meio de quais instituições, e em sintonia com qual ordem internacional. O mérito de Dreifuss está em responder a essas perguntas com densidade estrutural. Os civis centrais não eram cidadãos abstratos nem uma sociedade civil genérica; eram empresários, tecnoempresários, publicistas, juristas, economistas, articuladores parlamentares e dirigentes de aparelhos privados de hegemonia como o IPES e o IBAD. Sua atuação não foi periférica. Ela foi constitutiva. Sem ela, o golpe teria sido mais incerto; com ela, tornou-se projeto de Estado.
Outro aspecto que faz a obra permanecer viva é sua crítica implícita ao mito da neutralidade técnica. Uma das grandes lições de 1964 é que formas de dominação particularmente eficazes não costumam se apresentar como privilégio, mas como necessidade, racionalidade, eficiência e competência. A nova ordem surgida do golpe não governou apenas pela censura, pela repressão e pela tutela militar; governou também pela naturalização de escolhas de classe como se fossem imperativos objetivos do desenvolvimento nacional. A tecnocracia foi, nesse sentido, uma das linguagens mais sofisticadas do poder autoritário. Essa percepção ultrapassa o caso brasileiro dos anos 1960 e oferece uma chave analítica valiosa para o presente: em diversas conjunturas, interesses particulares procuram se vestir com a roupagem da inevitabilidade técnica.
Também por isso o livro de Dreifuss permanece atual como advertência democrática. Seu argumento ensina que regimes autoritários não nascem apenas do ímpeto de generais ou da ambição de aventureiros. Eles são preparados por redes de financiamento, doutrinação, propaganda, moralização seletiva da política, fabricação do medo, cooptação de classes médias, captura da linguagem da ordem e esvaziamento gradual da legitimidade do conflito democrático. O golpe torna-se possível quando antes se torna pensável, aceitável e narrável como remédio. Essa lição é histórica, mas não apenas histórica. Ela vale sempre que elites econômicas, atores políticos e aparelhos ideológicos buscam apresentar a exceção como salvação nacional.
Nesse sentido, a maior atualidade de Dreifuss talvez esteja em ter mostrado que a democracia pode ser minada não só por inimigos declarados, mas também por agentes que falam em responsabilidade, estabilidade, moralidade, técnica e normalidade. A erosão democrática raramente se anuncia como erosão democrática. Ela costuma vir travestida de prudência. Em 1964, esse travestimento foi decisivo. A ruptura constitucional foi apresentada a muitos como defesa da ordem; a supressão da política apareceu como restauração da política; a captura do Estado por uma fração de classe foi embalada como modernização nacional.
Por isso, revisitar Dreifuss não é apenas fazer justiça a um clássico da historiografia brasileira. É recuperar uma gramática crítica para compreender como se articulam poder econômico, tutela militar, doutrinação ideológica e influência internacional em momentos de crise. Seu livro continua incômodo porque desfaz álibis. Ele retira das casernas o monopólio da culpa histórica, expõe o empresariado como ator dirigente, revela a importância dos aparelhos privados de hegemonia e mostra que a relação entre capitalismo dependente e autoritarismo não foi acidental. Em 1964, não houve apenas uma mudança de governo. Houve a tentativa bem-sucedida de redefinir quem falaria em nome da nação, quem controlaria o Estado e quais interesses passariam a ser tratados como se fossem o interesse geral.
A advertência final permanece dura e atual: quando uma elite econômica consegue transformar seus medos em doutrina, seus interesses em técnica, sua propaganda em senso comum e sua aliança com a força em razão de Estado, a democracia entra na zona de maior perigo. É precisamente nesse ponto que a obra de Dreifuss continua indispensável.
Perguntas frequentes
1. O livro de Dreifuss afirma que o golpe de 1964 foi apenas militar?
Não. Uma das teses centrais da obra é justamente a recusa dessa simplificação. Dreifuss sustenta que o golpe foi preparado e sustentado por uma coalizão civil-militar, com forte protagonismo de empresários, tecnoempresários, aparelhos ideológicos e setores militares articulados em torno de um projeto de classe (Dreifuss, 1981).
2. O que significa dizer que 1964 foi um “golpe de classe”?
Significa que a ruptura institucional não teve apenas o objetivo de derrubar João Goulart, mas de reorganizar o Estado em favor de uma fração específica da burguesia, ligada ao capital multinacional e associado. Em vez de apenas influenciar o Estado, esse bloco buscou controlá-lo diretamente (Benevides, 2003; Dreifuss, 1981).
3. Qual foi o papel do IPES e do IBAD?
O IPES e o IBAD funcionaram como centros de formulação, propaganda, financiamento e articulação política do campo golpista. O IBAD atuou mais intensamente na frente político-eleitoral e parlamentar; o IPES foi decisivo na formulação ideológica, na produção de consenso conservador e na preparação programática da nova ordem estatal (Dreifuss, 1981; Benevides, 2003).
4. Houve participação dos Estados Unidos no processo?
Sim. A documentação hoje disponível mostra que os Estados Unidos acompanharam a crise brasileira em tempo real, apoiaram setores oposicionistas, atuaram ideologicamente no contexto da Guerra Fria e chegaram a preparar apoio logístico por meio da operação Brother Sam em 31 de março de 1964 (United States of America, [s.d.]; Loureiro, 2014; Mozer, 2024).
5. Por que o livro de Dreifuss continua atual?
Porque ele oferece uma chave analítica poderosa para compreender como elites econômicas transformam interesses particulares em linguagem técnica, moral e nacional. A obra mostra que rupturas autoritárias costumam ser precedidas por campanhas ideológicas, articulações empresariais, cooptação institucional e fabricação de legitimidade para a exceção (Dreifuss, 1981; Benevides, 2003).
5 pontos centrais do artigo
- 1964 não foi apenas uma quartelada, mas a culminância de uma operação de reorganização do poder conduzida por uma coalizão civil-militar.
- A crise do populismo expressou uma crise de hegemonia, em que o arranjo anterior deixou de servir à fração mais internacionalizada e concentrada do capital.
- A elite orgânica e o complexo IPES/IBAD foram decisivos na formulação estratégica, na propaganda, na articulação parlamentar e na produção do consenso antipopulista.
- Os Estados Unidos intervieram de forma relevante no processo, não como únicos autores do golpe, mas como potência que favoreceu, acompanhou e preparou apoio à ruptura no contexto da Guerra Fria.
- O pós-1964 consolidou a conquista do Estado, com ocupação de postos estratégicos, institucionalização da tecnocracia e criação de órgãos e marcos legais ajustados ao novo bloco no poder.
Referências bibliográficas
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