domingo, 24 de maio de 2026

E agora, Brasil?

O eleitor brasileiro como o “José” de Drummond em tempos eleitorais


Lide

Em tempos eleitorais, o Brasil parece voltar sempre à pergunta de Carlos Drummond de Andrade: “E agora, José?”. A festa democrática acontece, a urna se abre, os discursos se multiplicam, os candidatos prometem futuro; mas, depois do voto, muitas vezes sobra ao cidadão comum a sensação de estar sozinho no escuro, perguntando para onde marchar. Este artigo defende que o “José” drummondiano pode ser lido como metáfora do eleitor brasileiro: cansado, desconfiado, muitas vezes desiludido, mas ainda obrigado pela história a caminhar.


1. O “José” de Drummond e o Brasil que pergunta por si mesmo

Carlos Drummond de Andrade publicou José em 1942, em uma fase marcada pela tensão entre indivíduo, cidade, política e modernidade. A própria página dedicada à obra informa que o livro foi publicado originalmente em 1942 e que o verso inicial do poema se tornou uma espécie de frase-emblema da vida brasileira, repetida em reportagens, slogans e usos políticos diversos (Carlos Drummond de Andrade, 2012).  

Não é difícil entender por quê. O poema não fala apenas de um homem chamado José. Fala de um sujeito em impasse. Um sujeito que perdeu referências, discurso, amparo, destino. O José de Drummond é alguém que continua andando mesmo sem saber exatamente para onde. É aí que nasce a analogia com o Brasil eleitoral.

O Brasil, em ano de eleição, também vira José. Tem a chave na mão, mas nem sempre encontra a porta. Tem voto, mas nem sempre encontra representação. Tem Constituição, mas convive com desigualdade brutal. Tem partidos, mas frequentemente não se reconhece neles. Tem discursos de mudança, mas muitas vezes vê a política se repetir como peça cansada de teatro.

A tese deste artigo é simples: o eleitor brasileiro é o José contemporâneo da democracia nacional. Ele é chamado a decidir o destino do país, mas muitas vezes é colocado diante de alternativas fabricadas por máquinas partidárias, marketing político, interesses econômicos, fake news, medo, ressentimento e promessas que desaparecem depois da apuração.


2. A festa acabou: a eleição como ritual e frustração

A eleição é, em tese, a grande festa da democracia. É o momento em que o povo soberano se pronuncia. No Brasil, essa festa é numericamente imensa. Em 2024, o país tinha mais de 155 milhões de eleitoras e eleitores aptos a votar nas eleições municipais (Tribunal Superior Eleitoral, 2024a).  

Mas a pergunta incômoda é: festa para quem?

Em 2022, no primeiro turno das eleições gerais, 156,4 milhões de pessoas estavam aptas a votar, mas a abstenção chegou a 20,95%, com mais de 32,7 milhões de eleitores ausentes (Tribunal Superior Eleitoral, 2022).   Em 2024, no primeiro turno das eleições municipais, a abstenção foi de 21,71%, segundo balanço do TSE (Tribunal Superior Eleitoral, 2024b).  

Esses números dizem muito. Não significam apenas preguiça, desinteresse ou irresponsabilidade cívica. Muitas vezes expressam distância entre povo e política. O eleitor olha para o sistema e pergunta: “voto em quem, se ninguém me representa plenamente?”. A festa acontece, mas uma parte relevante da população não entra no salão.

O problema não está no voto em si. O voto é conquista civilizatória. O problema está quando o voto se transforma em ato isolado, sem formação política, sem participação permanente, sem controle social, sem memória coletiva e sem cobrança institucional. Nesse caso, a democracia vira um calendário: aparece de dois em dois anos, pede adesão, produz emoção e depois se recolhe aos gabinetes.

É nesse ponto que José aparece. Ele participou da festa? Talvez. Acreditou nos discursos? Talvez. Mas, quando a luz apaga, ele fica só com a pergunta: e agora?


3. O eleitor sem nome: representação, invisibilidade e abandono

No poema, José é um nome comum. Justamente por isso é universal. Ele é qualquer um. É o brasileiro que pega ônibus lotado. É a mãe que espera consulta no SUS. É o jovem que conclui o ensino médio sem perspectiva clara de trabalho. É o trabalhador que paga imposto sobre consumo, mas não vê retorno suficiente em segurança, saneamento, transporte, educação e renda.

O eleitor brasileiro muitas vezes é tratado como número. Número de intenção de voto. Número de pesquisa. Número de urna. Número de abstenção. Número de engajamento em rede social. Mas, depois da eleição, seu nome desaparece.

A crise de representação não é invenção brasileira. O relatório Latinobarómetro 2024 registra que a confiança nos partidos políticos na América Latina estava em 17%, classificando os partidos como uma das instituições democráticas pior avaliadas, associadas à percepção de que defendem interesses próprios e não representam a população (Latinobarómetro, 2024).  

Esse dado ajuda a compreender o nosso José. Ele não rejeita necessariamente a democracia. Ele rejeita a sensação de ser usado pela democracia formal sem ser incluído na democracia real. Ele vota, mas não governa. Ele escolhe, mas não delibera. Ele comparece, mas não participa. Ele legitima, mas não é ouvido.

A pergunta eleitoral mais importante talvez não seja “em quem José vai votar?”, mas “quem, depois de eleito, continuará vendo José?”.


4. O discurso, a promessa e a máquina da esperança

Toda eleição produz esperança. Isso é bom. Sem esperança, a política morre. Mas a esperança também pode ser manipulada. Em tempos eleitorais, candidatos prometem resolver problemas históricos em poucos meses. Prometem segurança sem enfrentar desigualdade. Prometem saúde sem discutir financiamento. Prometem educação sem valorizar professores. Prometem emprego sem projeto econômico. Prometem soberania sem política industrial, ciência, tecnologia e diplomacia.

Aqui entra uma distinção essencial: proposta não é slogan.

Slogan é frase de impacto. Proposta é diagnóstico, planejamento, orçamento, equipe, prazo, meta, indicador e mecanismo de controle. O eleitor José precisa aprender a separar emoção de programa. Não basta o candidato dizer que ama o povo. É preciso perguntar: qual povo? Com qual política pública? Com qual financiamento? Com qual prioridade? Com qual transparência?

A democracia brasileira sofre quando o debate público é capturado pela estética da campanha. A propaganda transforma problemas estruturais em imagens fáceis. O marketing político vende personalidade antes de vender projeto. A eleição vira espetáculo. E, quando o espetáculo termina, José continua com os mesmos problemas.

A chave está na mão, mas a porta não aparece.


5. O Brasil que marcha no escuro: polarização, medo e desinformação

O José eleitoral brasileiro também marcha no escuro porque vive cercado por excesso de informação e falta de compreensão. Redes sociais aceleram afetos, simplificam conflitos e transformam adversários em inimigos. A política deixa de ser disputa de projetos e vira guerra moral permanente.

Esse ambiente é perigoso porque reduz a capacidade de pensar. O eleitor passa a reagir antes de refletir. Compartilha antes de verificar. Odeia antes de compreender. E vota, muitas vezes, não por adesão racional a um programa, mas por medo do outro lado.

A democracia exige conflito, mas não sobrevive à destruição completa do adversário. A política democrática pressupõe pluralidade, negociação, mediação e reconhecimento institucional. Quando tudo vira guerra, o eleitor é empurrado para trincheiras emocionais. José deixa de perguntar “qual projeto melhora o país?” e passa a perguntar “quem derrota o inimigo?”.

Essa substituição é gravíssima. Ela empobrece a democracia e infantiliza o debate público.


6. O voto como chave: poder, limite e responsabilidade

Apesar de todas as frustrações, o voto continua sendo uma chave. Não resolve tudo, mas sem ele a porta sequer pode ser procurada. O problema é acreditar que a cidadania começa e termina na urna.

Votar é apenas uma parte da democracia. A outra parte é acompanhar orçamento público, cobrar vereadores, deputados, prefeitos, governadores e presidentes; participar de conselhos, audiências, associações, sindicatos, entidades acadêmicas, movimentos sociais e instituições comunitárias.

O Brasil precisa sair da cultura do eleitor-consumidor e avançar para a cultura do cidadão-fiscalizador. O eleitor-consumidor escolhe uma marca política e espera resultado. O cidadão-fiscalizador entende que democracia é trabalho contínuo.

José não pode ser chamado apenas no domingo de votação. José precisa estar na segunda-feira da cobrança, na terça-feira do orçamento, na quarta-feira da escola, na quinta-feira da saúde pública, na sexta-feira da fiscalização e no sábado da memória histórica.


7. O que perguntar a um candidato?

Em vez de perguntar apenas se o candidato é “de esquerda” ou “de direita”, José deveria perguntar:

Qual é seu plano para segurança alimentar?
Qual é sua proposta para saúde pública com financiamento real?
Como pretende melhorar transporte, moradia, segurança pública e educação?
Qual é sua compreensão de orçamento público?
Como lidará com desenvolvimento econômico, microeconomia, macroeconomia e soberania nacional?
Quais indicadores usará para medir resultados?
Quem financia sua campanha?
Qual é seu histórico público?
Como votou ou atuou quando teve oportunidade?

Essas perguntas tiram a eleição do campo da paixão cega e a colocam no campo da responsabilidade pública.

O candidato que não suporta perguntas difíceis não está preparado para governar. O eleitor que não faz perguntas difíceis entrega seu futuro à retórica.


8. José, para onde?

A pergunta final do poema permanece atual porque não oferece saída fácil. José marcha, mas não sabe para onde. O Brasil também marcha. Marcha entre avanços e retrocessos, entre Constituição e autoritarismo, entre participação e apatia, entre esperança e ressentimento.

Mas há uma diferença importante: o Brasil não está condenado ao escuro. A democracia brasileira tem instituições, história de resistência, imprensa livre, universidades, movimentos sociais, servidores públicos, professores, pesquisadores, artistas, lideranças comunitárias e milhões de cidadãos que ainda acreditam na política como construção coletiva.

O problema é que essa energia precisa ser organizada. Sem organização, a indignação vira desabafo. Sem educação política, o voto vira impulso. Sem memória, o povo repete erros. Sem projeto nacional, a eleição vira troca de nomes sem mudança estrutural.


Conclusão: José somos nós

O “José” de Drummond não é apenas um homem sem saída. É uma consciência em crise. E talvez seja exatamente isso que o Brasil precise reconhecer em tempos eleitorais: estamos em crise, mas ainda estamos caminhando.

O eleitor brasileiro não pode aceitar ser tratado como figurante da democracia. Não pode ser lembrado apenas como massa de manobra, número de pesquisa, alvo de propaganda ou soldado de polarização. O eleitor precisa recuperar sua centralidade política. Precisa perguntar mais, estudar mais, cobrar mais, desconfiar mais de promessas fáceis e exigir mais seriedade de quem deseja governar.

A pergunta “E agora, José?” não deve ser lida como derrota. Deve ser lida como convocação. Agora, José, é hora de sair da condição de espectador. Agora, José, é hora de transformar voto em consciência, consciência em cobrança, cobrança em participação e participação em projeto de país.

Porque, se José não souber para onde marcha, outros decidirão o caminho por ele.


Referências

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE. José. Fundação Carlos Drummond de Andrade, 2012. Disponível em: página oficial do autor. Acesso em: 24 maio 2026.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE. Sentimento do mundo. Fundação Carlos Drummond de Andrade, 2012. Disponível em: página oficial do autor. Acesso em: 24 maio 2026.

LATINOBARÓMETRO. Informe 2024. Santiago: Corporación Latinobarómetro, 2024.

SILVA, Felipe Cabañas da. José e a cidade: incursão geográfica na poesia política de Carlos Drummond de Andrade. GEOUSP Espaço e Tempo, São Paulo, 2021.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. 100% das seções totalizadas: confira como ficou o quadro eleitoral após o 1º turno. Brasília: TSE, 2022.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Brasil tem mais de 155 milhões de eleitoras e eleitores aptos a votar em 2024. Brasília: TSE, 2024a.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Presidente do TSE apresenta balanço do 1º turno das Eleições 2024. Brasília: TSE, 2024b.


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