OPINIÃO | De 2018 para cá, bolsonarismo e petismo deixaram de ser apenas preferências eleitorais e passaram a funcionar como marcadores de pertencimento — com queda de civilidade, recusa de convivência e um ecossistema de desinformação que transforma divergência em hostilidade.
A polarização política no Brasil não é mais um fenômeno restrito às campanhas. Ela atravessa o cotidiano, coloniza conversas familiares, reorganiza amizades e encurta a distância entre discordância e desprezo. Quando a política deixa de ser disputa de projeto e passa a ser disputa de identidade, o adversário deixa de ser alguém com quem se debate e vira alguém de quem se “desvia”. É aí que a democracia começa a perder algo que quase nunca aparece nos discursos, mas sem o qual nada funciona: o tecido social mínimo que sustenta a convivência entre diferentes.
Esse diagnóstico não se apoia apenas em impressão subjetiva. O Edelman Trust Barometer 2023, amplamente repercutido no Brasil, captura com números o que a rua já sente: 78% dizem perceber o país “mais dividido ideologicamente do que no passado” e 80% observam aumento da falta de respeito mútuo — um retrato de queda de civilidade em patamar crítico (URIBE, 2023).
A pergunta decisiva, então, não é “quem tem razão”. É outra, mais dura e mais institucional: o que acontece com um país quando a política vira um filtro de convivência básica? A resposta importa porque não é só uma questão moral; é uma questão de governabilidade democrática.
O salto qualitativo: de opinião para identidade
Toda democracia vive de conflito — mas de um conflito com regras. O problema começa quando o conflito deixa de ter “bordas” e passa a engolir a vida social. O relatório brasileiro da Edelman descreve esse mecanismo com uma formulação-chave: “ideologia vira identidade” (EDELMAN, 2023).
Quando ideologia vira identidade, o desacordo não é interpretado como divergência legítima; vira ameaça pessoal. Nesse ambiente, a política produz “tribos” e o debate público tende a operar com lógica de guerra: o objetivo deixa de ser persuadir; passa a ser desmoralizar. A consequência é a naturalização de dois comportamentos corrosivos:
- A desumanização do outro (o opositor vira “inimigo moral”);
- A desinstitucionalização do conflito (regras, órgãos e mediações passam a ser vistos como “aparelhados” sempre que contrariam o próprio lado).
O dado mais grave não é a divisão: é a recusa de convivência
Há um ponto em que polarização deixa de ser “tensão política” e vira segregação social. O mesmo recorte brasileiro do Edelman Trust Barometer é explícito: apenas 29% dizem que ajudariam alguém que pensa muito diferente; 29% aceitariam morar na mesma vizinhança; 21% aceitariam ser colegas de trabalho; 22% conviveriam no mesmo ambiente profissional (EDELMAN, 2023).
Repare no que isso significa na prática: não se trata de “discordar”. Trata-se de negar o outro como parceiro mínimo de mundo. Democracias não exigem concordância; exigem coexistência. Quando a coexistência se fragiliza, o país entra num território perigoso: o conflito político começa a atacar a infraestrutura social que torna o pluralismo possível.
Redes, desinformação e o incentivo à raiva
Num cenário como esse, a desinformação não entra como “ruído”. Ela entra como combustível. E há uma razão estrutural: nas plataformas digitais, o conteúdo que mais circula é, com frequência, o que mais ativa emoções fortes — especialmente indignação, medo e ressentimento. A fake news “boa” (no sentido funcional) raramente tenta apenas informar; ela tenta mobilizar.
A CNN Brasil, ao repercutir os dados do Edelman, enfatiza esse ambiente de perda de civilidade e alerta para a percepção de riscos: violência urbana, discriminação social, enfraquecimento da democracia e atraso econômico como consequências temidas da polarização (URIBE, 2023).
É importante notar a engenharia emocional desse processo:
- primeiro, o conteúdo cria um culpado;
- depois, oferece uma explicação total (“é tudo culpa deles”);
- por fim, convoca uma identidade (“nós contra eles”).
Quando isso se torna hábito, a sociedade passa a viver sob estímulos permanentes de conflito. E o conflito, repetido, vira cultura.
Por que a polarização se tornou tão “pegajosa” no Brasil
Há quatro motores que se alimentam mutuamente.
1) Crise de confiança e disputa pelo “árbitro”
Quando instituições são percebidas como parciais, cada decisão vira prova de perseguição. A democracia precisa de árbitros imperfeitos, mas reconhecidos. Sem isso, cresce a tentação de resolver tudo “na força” — seja força simbólica (linchamento), seja força institucional (atalhos), seja força física.
2) Economia emocional do ressentimento
Desigualdade, insegurança material e frustração com serviços públicos criam terreno fértil para narrativas binárias. Em tempos de medo, a complexidade perde. O discurso mais eficiente é o que dá culpado e promete restauração.
3) Moralização da política
Quando o debate vira tribunal moral, não há negociação possível. Se o outro é “mal”, ceder é pecado. E se ceder é pecado, governar se torna quase impossível sem violência simbólica.
4) Plataformas com incentivo ao extremismo
O ecossistema premia o conteúdo “de impacto”. O impacto costuma ser emoção; e emoção costuma ser conflito. O resultado é um ambiente em que posições moderadas parecem “sem graça”, enquanto a radicalização parece “autêntica”.
O risco sistêmico: democracia sem confiança mínima vira governo por crise
Polarização intensa não destrói apenas relações pessoais. Ela corrói a capacidade do Estado de produzir decisões legítimas. E isso acontece de três formas bem objetivas:
- Paralisia decisória: tudo vira sinalização de lado; até política técnica vira guerra;
- Deslegitimação das regras: a norma vale quando favorece “o meu lado”;
- Escalada de tolerância à violência simbólica: a ideia de “humilhar” o adversário vira estratégia aceita.
O Nexo Políticas Públicas, ao tratar do tema, ressalta que “polarização política” está associada a conflitos disfuncionais e seus efeitos sobre a vida democrática e social (NEXO, 2024).
Isso ajuda a entender por que a polarização não é “apenas debate acalorado”. Ela é uma ameaça à qualidade do regime quando passa a erodir a confiança — e confiança, na democracia, é uma peça institucional, não um sentimento privado.
O que fazer: civilidade não é “paz”, é método
O caminho de saída não é pedir que as pessoas “se amem”. Isso é ingênuo e, na prática, inútil. O ponto é reconstruir mecanismos que reduzam a recompensa do extremismo e reabilitem o pluralismo como normalidade.
1) Reabilitar a civilidade como regra de jogo
Civilidade não é “falar manso”. É reconhecer legitimidade do outro e aceitar que conflito não autoriza destruição pessoal. Sem isso, a política vira guerra social.
2) Alfabetização midiática: imunidade cognitiva básica
Não se trata de formar especialistas, mas de instaurar hábitos mínimos: checar origem, desconfiar de prints, diferenciar opinião de fato, reconhecer manipulação emocional. O Brasil paga caro por repasses automáticos.
3) Responsabilização e transparência nas plataformas
Se o modelo de negócio premia o conteúdo que polariza, o resultado é previsível: mais polarização. Reduzir alcance de desinformação comprovada, aumentar transparência algorítmica e criar fricções ao compartilhamento impulsivo são medidas de saúde democrática, não censura.
4) Lideranças e instituições: previsibilidade e prestação de contas
O “Quem Somos” do Congresso em Foco enfatiza a cobertura apartidária e o compromisso com transparência e fortalecimento do debate público (CONGRESSO EM FOCO, 2026). Esse é o ponto: instituições ganham confiança não por discurso, mas por método — coerência, auditabilidade, correção de erros e responsabilidade pública.
Conclusão
A polarização no Brasil não é inevitável, mas ela é funcional para quem lucra com conflito: politicamente, financeiramente ou simbolicamente. O dado que deveria preocupar mais não é o país “dividido”; é o país inapto a conviver. Quando só uma minoria se dispõe a trabalhar, morar ou ajudar alguém do “outro lado”, o pluralismo deixa de ser prática e vira apenas palavra (EDELMAN, 2023).
Democracia não é ausência de conflito: é conflito civilizado com instituições capazes de produzir decisões legítimas. Se a política continuar a operar como identidade total — um filtro moral que separa “gente” de “não gente” — o Brasil tende a normalizar a guerra como cultura e a crise como método de governo. Reverter isso exige menos moralismo e mais engenharia institucional: educação informacional, incentivos digitais menos tóxicos, instituições previsíveis e uma reconstrução deliberada do mínimo comum.
Referências
CONGRESSO EM FOCO. Quem somos. Brasília: Congresso em Foco, 2026. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/quem-somos. Acesso em: 9 fev. 2026.
EDELMAN. 2023 Edelman Trust Barometer: Brazil Report (POR). São Paulo: Edelman, 2023. Disponível em: https://www.edelman.com.br/sites/g/files/aatuss291/files/2023-04/2023%20Edelman%20Trust%20Barometer_Brazil%20Report_POR%20%281%29_0.pdf. Acesso em: 9 fev. 2026.
NEXO JORNAL (NEXO POLÍTICAS PÚBLICAS). A polarização política, em 9 pontos. São Paulo: Nexo, 19 nov. 2024. Disponível em: https://pp.nexojornal.com.br/perguntas-que-a-ciencia-ja-respondeu/2024/11/19/a-polarizacao-politica-em-9-pontos/. Acesso em: 9 fev. 2026.
URIBE, Gustavo. Pesquisa aponta aumento da polarização e queda da civilidade no Brasil. CNN Brasil, São Paulo, 18 abr. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/pesquisa-aponta-aumento-da-polarizacao-e-queda-da-civilidade-no-brasil/. Acesso em: 9 fev. 2026.
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