quinta-feira, 14 de maio de 2026

Quando a política vira delírio performático: pneus, chinelos, celulares, detergente e a crise da razão pública no Brasil

Uma análise pessoal, jornalística e didática sobre como a desinformação, o fanatismo político e a guerra simbólica transformam objetos banais em instrumentos de mobilização eleitoral.



Introdução: quando o absurdo deixa de ser piada

Eu confesso: há cenas da política brasileira recente que me causam mais do que riso ou espanto. Elas me causam preocupação. Não porque um cidadão isolado tenha feito algo estranho, exagerado ou ridículo. Isso sempre existiu. Toda sociedade produz seus excêntricos, seus fanáticos, seus exagerados. O problema começa quando essas cenas deixam de ser exceção e passam a compor uma linguagem política repetida, incentivada, compartilhada, monetizada e convertida em identidade coletiva.

Cantar o Hino Nacional em torno de um pneu, fazer sinais luminosos com celulares diante de quartéis, destruir chinelos por causa de uma propaganda interpretada como ataque ideológico, transformar uma medida sanitária da Anvisa em guerra cultural e, em alguns casos, flertar com o uso perigoso de produtos de limpeza como gesto político: tudo isso parece absurdo quando visto isoladamente. Mas, quando colocado em sequência, revela algo mais grave. Revela uma erosão da racionalidade pública.

O episódio do pneu ocorreu em novembro de 2022, em Irati, no Paraná, durante manifestações de apoiadores de Jair Bolsonaro contra o resultado das eleições presidenciais; segundo reportagem de O Povo, manifestantes fecharam uma via, colocaram um pneu no centro da pista e cantaram o Hino Nacional ao redor dele (Duarte, 2022).   Em Porto Alegre, manifestantes usaram lanternas de celulares para formar pedidos simbólicos de ajuda às Forças Armadas, episódio posteriormente satirizado como tentativa de “avisar extraterrestres”, embora o gesto original estivesse ligado à convocação militarista típica daquele período (Correio do Povo, 2022).   Em 2025, a campanha de boicote à Havaianas ganhou repercussão nacional e internacional após políticos e apoiadores da direita interpretarem uma propaganda com Fernanda Torres como provocação política; Eduardo Bolsonaro chegou a publicar vídeo descartando chinelos da marca (CNN Brasil, 2025; The Guardian, 2025).   Já em 2026, o caso Ypê mostrou como uma decisão sanitária da Anvisa poderia ser convertida em narrativa conspiratória, com ataques ao órgão regulador e circulação de vídeos de apoiadores usando o produto como gesto de provocação política (Anvisa, 2026; Diário do Comércio, 2026).  

O ponto central deste artigo não é chamar pessoas de “loucas”. Essa seria uma simplificação perigosa, além de politicamente pobre. O ponto é mais sério: que tipo de ambiente informacional, emocional e eleitoral tem levado parte da população a abandonar critérios elementares de prudência, proporcionalidade e realidade? O que acontece com uma democracia quando a política deixa de ser disputa de projetos e passa a ser encenação permanente de fé, medo, ressentimento e obediência simbólica?


1. O pneu, o chinelo, o celular e o detergente: objetos banais transformados em totens políticos

A política sempre utilizou símbolos. Bandeiras, hinos, cores, gestos, slogans e imagens fazem parte da vida pública. O problema não está no símbolo em si. O problema surge quando o símbolo substitui completamente a razão.

O pneu, nesse contexto, não era apenas um pneu. Ele virou objeto de condensação emocional. Representava estrada bloqueada, resistência antieleitoral, negação do resultado das urnas, ressentimento contra instituições e esperança de ruptura. O chinelo, por sua vez, deixou de ser um produto comercial e passou a ser interpretado como sinal de alinhamento ideológico. O celular na cabeça virou dispositivo ritualístico de convocação militar imaginária. O detergente, produto de limpeza, foi deslocado para o centro de uma guerra narrativa contra um órgão técnico de vigilância sanitária.

Essas cenas não são apenas engraçadas. Elas mostram o que acontece quando a política vira teatro de pertencimento. O indivíduo já não pergunta: “isso é verdadeiro?”, “isso é seguro?”, “isso faz sentido?”, “isso melhora a vida coletiva?”. Ele pergunta, ainda que inconscientemente: “isso mostra que estou do lado certo?”. A ação deixa de ser racional e passa a ser identitária.

É exatamente aí que mora o perigo. Quando a identidade política se torna mais importante do que a realidade, qualquer objeto pode virar arma simbólica. Um pneu vira altar. Um chinelo vira inimigo. Um celular vira antena mística. Um detergente vira desafio tribal. O que parece caricatura é, na verdade, sintoma de um processo profundo de desorganização da esfera pública.


2. A política como religião secular e a fabricação do inimigo

As democracias modernas dependem de uma ideia simples: adversários políticos não são inimigos existenciais. Eles discordam, disputam eleições, apresentam projetos diferentes e devem respeitar regras comuns. Quando essa fronteira se rompe, a política deixa de ser convivência conflitiva e passa a ser guerra moral.

Nesse ambiente, o líder político deixa de ser representante e passa a ser figura messiânica. A eleição deixa de ser procedimento democrático e passa a ser batalha espiritual. A imprensa vira inimiga. O Judiciário vira perseguidor. A ciência vira conspiração. A agência reguladora vira instrumento de vingança. A derrota eleitoral vira fraude. O consumo de determinada marca vira traição.

Essa lógica é conhecida nos estudos sobre populismo, autoritarismo e psicologia das massas. Não se trata apenas de manipulação “de cima para baixo”. Há também desejo de pertencimento “de baixo para cima”. Muita gente quer fazer parte de uma comunidade que ofereça explicações simples para angústias complexas. O mundo contemporâneo é difícil: inflação, desemprego, endividamento, violência, precarização, redes sociais, solidão, medo do futuro. Nesse cenário, discursos simplificadores oferecem conforto emocional. Eles dizem: “você não está perdido; existe um culpado; existe um salvador; existe uma guerra; escolha seu lado”.

O problema é que esse conforto cobra um preço alto: a perda da dúvida. E sem dúvida não há pensamento crítico. Sem pensamento crítico, o cidadão vira peça de mobilização.


3. Desinformação, bolhas digitais e dissonância cognitiva

A desinformação contemporânea não funciona apenas pela mentira direta. Ela funciona pela repetição, pela saturação e pelo vínculo afetivo. Uma pessoa pode até duvidar de uma informação no começo. Mas, quando ela recebe a mesma narrativa no grupo da família, no canal de vídeo, no perfil do influenciador, na fala do político e no comentário do amigo, aquilo ganha aparência de verdade.

Cass Sunstein e Adrian Vermeule analisaram como teorias conspiratórias se fortalecem em ambientes fechados, nos quais as pessoas passam a confiar mais no grupo do que em fontes externas de verificação (Sunstein; Vermeule, 2009). Estudos de Jan-Willem van Prooijen e Karen Douglas também mostram que crenças conspiratórias tendem a crescer em momentos de crise, ameaça social e perda de controle percebido (Van Prooijen; Douglas, 2017; 2018).  

A dissonância cognitiva ajuda a explicar parte do fenômeno. Quando uma pessoa investiu anos de sua identidade em uma liderança política, admitir que essa liderança errou, mentiu ou perdeu pode ser psicologicamente doloroso. Para reduzir esse desconforto, ela pode preferir uma explicação alternativa: “houve fraude”, “a imprensa manipula”, “o sistema está contra nós”, “a agência técnica persegue patriotas”, “a marca de chinelo declarou guerra à direita”.

Nesse ponto, a realidade não é mais avaliada por evidências, mas por lealdade. O fato só é aceito se protege o grupo. A prova só vale se confirma a narrativa. A autoridade técnica só é respeitada se concorda com o líder. É uma inversão grave: a política deixa de ser orientada pela realidade e passa a tentar forçar a realidade a obedecer à política.


4. O risco sanitário como performance ideológica

O caso do detergente é especialmente preocupante porque ultrapassa o campo simbólico e toca diretamente a saúde pública. Uma coisa é rasgar cartaz, jogar chinelo fora ou cantar diante de um pneu. Outra coisa é brincar com produto de limpeza para provar fidelidade política.

A Anvisa é uma instituição técnica. Pode errar? Sim, qualquer instituição pode. Deve ser fiscalizada? Evidentemente. Mas fiscalização não é o mesmo que linchamento simbólico. Questionar decisões públicas faz parte da democracia; transformar uma decisão sanitária em conspiração partidária é outra coisa.

Quando um órgão regulador determina restrição, suspensão ou recolhimento de produtos, a discussão deve ocorrer com base em laudos, normas, riscos, procedimentos e direito de defesa. Não com bravatas digitais. Não com desafio tribal. Não com gesto perigoso para ganhar curtidas.

Esse tipo de cena mostra como a guerra cultural pode contaminar áreas que deveriam ser protegidas por critérios técnicos mínimos. Saúde pública não pode depender de torcida. Vigilância sanitária não pode ser julgada como se fosse Fla-Flu ideológico. Produto de limpeza não é manifesto político.


5. Essas pessoas têm direito de votar?

Aqui é preciso ter clareza democrática. Sim, têm. O direito ao voto não pode ser retirado porque alguém acredita em teoria conspiratória, participa de ato irracional ou adere a uma liderança política extremada. A Constituição brasileira veda a cassação de direitos políticos fora das hipóteses específicas previstas no art. 15, como cancelamento de naturalização, incapacidade civil absoluta, condenação criminal transitada em julgado enquanto durarem seus efeitos, recusa de cumprir obrigação imposta a todos e improbidade administrativa (Brasil, 1988).  

Esse ponto é fundamental. Defender a democracia exige resistir à tentação autoritária de tratar o eleitor adversário como incapaz. O problema não se resolve retirando direitos políticos de quem pensa mal, vota mal ou acredita em absurdos. Isso seria abrir uma porta perigosa.

A pergunta correta não é: “essas pessoas deveriam votar?”. A pergunta correta é: “que condições sociais, educacionais, informacionais e emocionais estão formando eleitores tão vulneráveis à manipulação?”. A resposta democrática não é cassar o voto. É qualificar a esfera pública.

É preciso investir em educação crítica, alfabetização midiática, responsabilização de redes de desinformação, transparência algorítmica, jornalismo profissional, fortalecimento institucional e cultura democrática. O voto não deve ser retirado; a manipulação deve ser enfrentada.


6. O eleitor como alvo de engenharia emocional

As campanhas políticas modernas não disputam apenas opinião. Disputam atenção, medo, raiva, esperança e pertencimento. Redes sociais são ambientes especialmente propícios para isso porque premiam conteúdo emocionalmente intenso. O algoritmo não pergunta se algo é verdadeiro; ele mede engajamento. E poucas coisas engajam mais do que indignação.

Por isso, a extrema direita contemporânea aprendeu a operar com eficiência no território da provocação. Ela cria inimigos simbólicos, transforma fatos banais em batalhas morais e produz escândalos em sequência. Quando um escândalo perde força, outro ocupa seu lugar. O objetivo não é necessariamente convencer racionalmente. O objetivo é manter a tropa mobilizada.

Essa estratégia é eleitoralmente poderosa. Uma população permanentemente indignada tende a pensar menos em programa de governo, orçamento público, política industrial, educação, saúde, tributação, meio ambiente e ciência. Ela passa a reagir a estímulos. Vota contra inimigos imaginários. Vota para punir. Vota para pertencer.

É nesse ponto que a política eleitoreira se torna perigosa. Ela não quer formar cidadãos. Quer formar torcedores. Não quer debate público. Quer guerra permanente. Não quer consciência crítica. Quer fidelidade emocional.


7. O ridículo também é político

Muitas pessoas olham para essas cenas e dizem: “é só meme”. Não é só meme. O meme é uma linguagem política poderosa. Ele simplifica, viraliza, ridiculariza, mobiliza e fixa imagens na memória coletiva. O problema é que o ridículo pode funcionar em duas direções.

Por um lado, expõe o absurdo. O pneu virou piada porque a cena era realmente desproporcional. O celular na cabeça virou piada porque parecia ficção científica involuntária. O chinelo no lixo virou piada porque mostrava como uma propaganda comum podia ser convertida em guerra cultural. O detergente virou símbolo perigoso da disposição de negar até a prudência sanitária para sustentar identidade política.

Por outro lado, o ridículo também pode fortalecer a bolha. Quando o grupo se sente zombado, ele pode se fechar ainda mais. A piada externa é reinterpretada como perseguição. A crítica vira prova de que “estamos certos”. A vergonha é transformada em orgulho. E o ciclo continua.

Por isso, a crítica precisa ser firme, mas inteligente. Não basta rir. É preciso explicar. Não basta ironizar. É preciso desmontar o mecanismo. Não basta chamar de absurdo. É preciso mostrar como o absurdo é produzido, distribuído e explorado politicamente.


8. A responsabilidade das lideranças políticas

Nenhum movimento de massa se sustenta apenas pela ação espontânea de indivíduos isolados. Há lideranças, influenciadores, canais, parlamentares, empresários da atenção e operadores digitais que lucram com a radicalização. Quando uma autoridade política transforma dúvida técnica em conspiração, ela autoriza milhares de pessoas a fazerem o mesmo. Quando um parlamentar joga chinelo no lixo como gesto performático, ele ensina sua base a transformar consumo em batalha ideológica. Quando líderes insinuam fraude sem prova, produzem um exército de pessoas dispostas a desacreditar instituições.

A responsabilidade é ainda maior quando essas lideranças sabem o que fazem. E muitas sabem. Sabem que o vídeo viraliza. Sabem que a provocação rende engajamento. Sabem que o absurdo ocupa espaço. Sabem que a imprensa cobrirá. Sabem que a base reagirá. Sabem que o inimigo responderá. E sabem que, no fim, a política será reduzida a espetáculo.

Essa é uma das tragédias da democracia digital: quanto mais grotesco o gesto, maior a chance de circulação. O extremismo performático vira método de campanha.


9. A minha preocupação: a democracia não morre apenas por tanques

A democracia pode morrer por golpe, censura, violência e autoritarismo institucional. Mas também pode adoecer lentamente pela corrosão da razão pública. Quando milhões de pessoas deixam de confiar em qualquer instituição que desagrade seu líder, a democracia perde o chão comum. Quando fatos deixam de importar, o debate vira gritaria. Quando a ciência vira opinião, a saúde pública entra em risco. Quando eleição só é legítima se “meu lado” vence, a alternância de poder fica ameaçada.

Minha preocupação é exatamente essa. Não se trata de desprezar pessoas simples ou ridicularizar eleitores comuns. Pelo contrário. Trata-se de defender essas pessoas contra uma máquina política que explora medo, fé, ressentimento e desinformação.

O cidadão que canta para um pneu pode ser uma pessoa trabalhadora, honesta, sofrida, com dificuldades reais. O problema é que sua angústia foi capturada por uma narrativa que o empurra para o absurdo. O cidadão que joga chinelo fora talvez esteja apenas tentando demonstrar lealdade. O problema é que essa lealdade foi colonizada por uma política que precisa inventar inimigos todos os dias. O cidadão que acredita em conspirações talvez esteja buscando sentido. O problema é que encontrou sentido em uma fábrica de ilusões.


Conclusão: o Brasil precisa recuperar a sobriedade democrática

O Brasil não pode normalizar a transformação da política em delírio performático. Pneus, chinelos, celulares e detergentes não são o centro da crise. Eles são sintomas visíveis de uma doença mais profunda: a substituição da cidadania pela torcida, da razão pela crença tribal, da política pública pela guerra cultural, da prudência pela performance.

A democracia exige conflito, divergência e disputa. Mas exige também um mínimo de realidade compartilhada. Sem esse chão comum, ninguém debate; todos apenas reagem. Ninguém convence; todos atacam. Ninguém governa; todos encenam.

A extrema direita brasileira tem demonstrado grande capacidade de transformar objetos comuns em armas simbólicas, fatos técnicos em conspirações e frustrações sociais em combustível eleitoral. Isso precisa ser enfrentado com firmeza, mas sem perder o compromisso democrático. Não se enfrenta irracionalidade com autoritarismo. Enfrenta-se com educação, ciência, jornalismo, responsabilização, cultura política e coragem intelectual.

O voto dessas pessoas deve ser preservado. Mas a manipulação dessas pessoas deve ser denunciada. A democracia não precisa de eleitores obedientes; precisa de cidadãos conscientes. E talvez essa seja a grande tarefa brasileira dos próximos anos: reconstruir uma esfera pública em que o povo não seja tratado como massa de manobra, mas como sujeito político capaz de pensar, duvidar, comparar, aprender e decidir com liberdade real.


Referências

ANVISA. Anvisa suspende fabricação e determina recolhimento de produtos da marca Ypê. Brasília, 2026. Disponível em: site oficial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Acesso em: 14 maio 2026.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

CNN BRASIL. Entenda por que políticos de direita querem boicotar marca de sandálias. São Paulo, 22 dez. 2025.

CORREIO DO POVO. Apoiadores de Bolsonaro fazem ato simbólico pedindo ajuda às Forças Armadas em Porto Alegre. Porto Alegre, 2022.

DIÁRIO DO COMÉRCIO. Diretores defendem Anvisa em meio ao caso Ypê e denunciam desinformação e ataques racistas. 2026.

DUARTE, Júlia. Bolsonaristas cantam Hino Nacional para pneu no Paraná. O Povo, Fortaleza, 3 nov. 2022.

SUNSTEIN, Cass R.; VERMEULE, Adrian. Conspiracy theories: causes and cures. Journal of Political Philosophy, v. 17, n. 2, p. 202-227, 2009.

THE GUARDIAN. Bolsonaro supporters ‘cancel’ Havaianas flip-flop brand over television ad. Londres, 23 dez. 2025.

VAN PROOIJEN, Jan-Willem; DOUGLAS, Karen M. Conspiracy theories as part of history: the role of societal crisis situations. Memory Studies, v. 10, n. 3, p. 323-333, 2017.

VAN PROOIJEN, Jan-Willem; DOUGLAS, Karen M. Belief in conspiracy theories: basic principles of an emerging research domain. European Journal of Social Psychology, v. 48, n. 7, p. 897-908, 2018.


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