Por que a IA obriga a esquerda a sair da crítica abstrata e disputar a produção da vida
Índice
- A questão central: a IA não é apenas ferramenta
- Morozov, Benanav e o ponto real da divergência
- O neoliberalismo como tecnologia cotidiana
- O problema marxista: propriedade, trabalho e subjetividade
- A IA generativa e a promessa de “criação sem atrito”
- Socialismo, planejamento e desejo social
- A armadilha da esquerda: responder com procedimento a uma crise existencial
- Para uma economia política concreta da tecnologia
- Conclusão
- Referências
Lide
A discussão entre Evgeny Morozov e Aaron Benanav, divulgada pela Boitempo, toca em um ponto decisivo: a inteligência artificial não pode ser tratada apenas como uma ferramenta técnica que o capitalismo usa mal e que o socialismo usaria bem. A IA reorganiza desejos, práticas, formas de trabalho, expectativas de liberdade e modos de criação. Por isso, ela força o marxismo a enfrentar uma questão antiga, muitas vezes adiada: não basta disputar a propriedade das máquinas; é preciso disputar o tipo de humanidade que essas máquinas ajudam a produzir.
1. A questão central: a IA não é apenas ferramenta
A inteligência artificial tornou impossível sustentar uma visão ingênua da tecnologia. Durante muito tempo, parte da tradição socialista e marxista tratou as forças produtivas como se fossem, em si mesmas, neutras: máquinas, fábricas, ferrovias, computadores, redes digitais e algoritmos seriam instrumentos que, sob controle capitalista, serviriam à exploração; sob controle socialista, serviriam à emancipação.
Essa leitura tem uma força intuitiva. Afinal, uma máquina pode produzir lucro privado ou bem-estar coletivo. Um sistema de dados pode vigiar trabalhadores ou organizar políticas públicas. Uma plataforma pode precarizar entregadores ou coordenar serviços sociais. O problema é que essa leitura, embora parcialmente correta, é insuficiente. Ela esquece que a tecnologia não apenas executa fins previamente definidos. Ela também molda os próprios fins que uma sociedade passa a considerar naturais, desejáveis e possíveis.
É nesse ponto que a IA generativa torna o debate explosivo. Ela não é apenas uma máquina que acelera tarefas. Ela interfere diretamente na linguagem, na criatividade, na organização do conhecimento, na produção simbólica, na educação, na gestão, na política e no imaginário social. A IA não apenas responde perguntas; ela altera a forma como as perguntas são formuladas. Não apenas produz textos; altera o modo como se compreende autoria, estudo, trabalho intelectual e aprendizagem.
Morozov percebe esse ponto com agudeza. Em “Socialismo após a IA”, publicado originalmente em inglês e posteriormente em português, ele sustenta que o socialismo não pode simplesmente imaginar a apropriação das tecnologias capitalistas como se elas fossem estruturas vazias esperando novos donos. A própria tecnologia já carrega formas de vida, valores, expectativas e modelos de ação social.
2. Morozov, Benanav e o ponto real da divergência
A polêmica entre Morozov e Aaron Benanav não é apenas uma disputa de egos intelectuais. Ela revela duas formas diferentes de pensar a relação entre tecnologia e emancipação.
Benanav, conhecido por suas análises sobre automação, trabalho e pós-capitalismo, tende a enfatizar a reorganização democrática da produção, a redistribuição do tempo de trabalho e a construção institucional de uma economia pós-capitalista. Sua réplica a Morozov, publicada no Blog da Boitempo como “Uma real economia política da tecnologia”, busca recolocar o debate no terreno das estruturas econômicas, da coordenação produtiva e das mediações institucionais.
Morozov, por sua vez, parece dizer: isso ainda é pouco. O problema não é apenas quem controla a tecnologia, nem apenas como ela será planejada. O problema é mais profundo: que tipo de sujeito, desejo, criatividade e vida social essa tecnologia produz?
A tréplica de Morozov, publicada pela Boitempo sob o título “Tábua de Frios Socialista”, radicaliza essa crítica ao sugerir que uma resposta demasiadamente institucional, procedimental e administrativa pode não tocar o núcleo do problema. Para ele, uma alternativa socialista à IA precisa ser mais do que uma máquina de conselhos, comitês, mandatos e planos setoriais; precisa produzir legitimidade existencial, desejo coletivo e formas de vida pelas quais as pessoas estejam dispostas a lutar.
Aqui está o ponto mais forte do debate: o socialismo não pode ser apenas uma técnica superior de administração da escassez. Ele precisa ser uma proposta de mundo.
3. O neoliberalismo como tecnologia cotidiana
A frase mais forte dos anexos é a ideia de que os neoliberais “mineraram este terreno por décadas” enquanto parte da esquerda permanecia ocupada com notas de rodapé. A provocação é dura, mas toca num ponto real.
O neoliberalismo venceu não apenas porque formulou bons argumentos econômicos. Ele venceu porque se transformou em experiência cotidiana. O mercado deixou de ser apenas uma categoria econômica e passou a ser uma pedagogia da existência. O sujeito neoliberal aprendeu a se perceber como empresa de si mesmo: deve investir em si, vender sua imagem, otimizar sua produtividade, transformar tempo em performance e relações em oportunidades.
Essa é uma das grandes contribuições de autores como Michel Foucault, Pierre Dardot e Christian Laval. O neoliberalismo não é somente uma política econômica de privatização, austeridade e desregulação. Ele é uma racionalidade que reorganiza o modo como os indivíduos se conduzem. O sujeito passa a viver como capital humano, como portfólio, como marca, como empreendimento permanente (Foucault, 2008; Dardot; Laval, 2016).
A IA entra exatamente nesse terreno. Ela promete remover atritos entre intenção e execução. Quer escrever? Ela escreve. Quer vender? Ela cria a campanha. Quer estudar? Ela resume. Quer programar? Ela codifica. Quer parecer competente? Ela produz a aparência textual da competência.
Essa promessa é sedutora porque se encaixa perfeitamente no imaginário neoliberal: cada indivíduo como microempresa aumentada por ferramentas digitais. A IA generativa torna a autogestão neoliberal mais eficiente, mais íntima e mais invisível. Ela oferece ao sujeito precarizado uma espécie de prótese simbólica: mesmo sem tempo, sem formação sólida, sem equipe, sem estrutura, ele pode produzir como se tivesse tudo isso.
O perigo é evidente. A ferramenta que parece libertar o indivíduo pode, ao mesmo tempo, aprofundar sua integração a um regime de produtividade total.
4. O problema marxista: propriedade, trabalho e subjetividade
A tradição marxista oferece instrumentos poderosos para compreender essa questão. Em Marx, a técnica nunca aparece isolada da forma social. A máquina capitalista não é apenas um objeto mecânico; ela é incorporada ao processo de valorização do capital. No capitalismo, o desenvolvimento das forças produtivas ocorre submetido à lógica da acumulação, da exploração do trabalho e da ampliação do controle sobre o tempo social (Marx, 2013).
Mas há uma tensão interna. Parte do marxismo posterior, especialmente em leituras produtivistas, passou a imaginar que bastaria socializar os meios de produção para libertar seu potencial emancipatório. A fábrica capitalista, sob propriedade coletiva, se tornaria fábrica socialista. A técnica capitalista, sob outro comando político, serviria ao bem comum.
Morozov tensiona essa herança. A pergunta dele é incômoda: e se certas tecnologias não forem apenas meios de produção, mas meios de formação de subjetividade? E se elas não apenas produzirem mercadorias, mas produzirem comportamentos, desejos e horizontes de imaginação?
A IA generativa é exatamente esse tipo de tecnologia. Ela não apenas automatiza tarefas; ela interfere na linguagem. E quem interfere na linguagem interfere no pensamento, na política, na educação e na cultura. Não por acaso, a disputa pela IA é também uma disputa sobre atenção, verdade, criatividade, autoria e confiança pública.
Nesse sentido, a crítica marxista precisa ampliar sua própria gramática. A exploração continua central, mas não basta. A extração de dados, a captura de atenção, a dependência de plataformas, a formação algorítmica de preferências e a automação da decisão compõem uma nova camada de dominação. Autores como Shoshana Zuboff e Nick Srnicek ajudam a compreender esse capitalismo orientado por plataformas, dados, vigilância e infraestrutura digital (Srnicek, 2017; Zuboff, 2021).
5. A IA generativa e a promessa de “criação sem atrito”
O ponto mais interessante dos anexos está na ideia de que a IA generativa comprime a distância entre intenção e execução. Isso é decisivo.
Na cultura moderna, criar sempre envolveu resistência: aprender a escrever, errar, revisar, estudar, tentar, fracassar, recomeçar. A criação humana se formava nesse intervalo entre o desejo e a obra. A IA generativa promete reduzir esse intervalo. O sujeito digita um comando e recebe um texto, uma imagem, uma música, um código, uma estratégia.
Isso tem um lado extraordinário. Pode democratizar ferramentas, ampliar capacidades, auxiliar estudantes, apoiar professores, reduzir barreiras técnicas e permitir que pessoas sem recursos especializados expressem ideias com mais potência.
Mas há também um lado perigoso. Quando a execução se torna fácil demais, a formação pode ser empobrecida. A pessoa obtém o produto sem atravessar plenamente o processo. Recebe a resposta sem amadurecer a pergunta. Produz aparência de domínio sem necessariamente construir domínio.
Na educação, esse é um dilema central. A IA pode ser uma tutora, uma biblioteca interativa, uma parceira de revisão e uma ferramenta de inclusão. Mas também pode se tornar uma máquina de terceirização cognitiva. A diferença não está apenas na ferramenta, mas na pedagogia institucional que orienta seu uso.
Na política, o risco é ainda maior. A IA pode ampliar participação democrática, traduzir informações complexas e apoiar deliberações públicas. Mas também pode produzir propaganda automatizada, manipulação afetiva, falsas evidências e simulação de consenso social.
Portanto, a IA não é boa nem má em abstrato. Mas também não é neutra. Ela vem incorporada a modelos de negócio, infraestruturas, assimetrias de poder, bancos de dados, interesses geopolíticos e formas de captura econômica.
6. Socialismo, planejamento e desejo social
A crítica de Morozov a Benanav parece mirar um ponto delicado: a esquerda frequentemente responde a crises de desejo com desenhos institucionais. Quando o neoliberalismo oferece velocidade, personalização, promessa de autonomia e sensação de potência individual, parte da esquerda responde com conselhos, comitês, assembleias, regimentos e planos.
Esses instrumentos são necessários. Sem instituição não há democracia durável. Sem planejamento não há política pública consistente. Sem coordenação não há transição ecológica, justiça social ou reorganização produtiva.
Mas procedimento não basta. Nenhuma sociedade se mobiliza apenas por fluxogramas. As pessoas não lutam por organogramas; lutam por vida digna, reconhecimento, pertencimento, esperança, tempo livre, beleza, segurança, futuro para os filhos, sentido para o trabalho e participação real no mundo.
Esse é o ponto que a esquerda precisa enfrentar. O neoliberalismo não venceu apenas pela economia; venceu porque colonizou o desejo. Transformou liberdade em escolha de mercado. Transformou autonomia em empreendedorismo. Transformou criatividade em produtividade. Transformou sofrimento social em fracasso individual.
Uma alternativa socialista à IA precisa disputar esse terreno. Precisa mostrar que tecnologia emancipatória não é apenas tecnologia estatal, pública ou cooperativa. É tecnologia orientada por outra concepção de vida: menos competição, menos vigilância, menos aceleração vazia, menos precarização; mais tempo, mais comunidade, mais formação, mais cuidado, mais criação compartilhada.
7. A armadilha da esquerda: responder com procedimento a uma crise existencial
A crítica mais dura presente nos anexos é a ideia de que um socialismo que responde apenas com “os conselhos deliberarão” pode soar como um formulário de imposto. A frase é cruel, mas politicamente útil.
A esquerda, muitas vezes, tem razão no diagnóstico e fracassa na forma. Denuncia a exploração, mas não encanta. Explica a estrutura, mas não cria pertencimento. Aponta a injustiça, mas não oferece experiência concreta de futuro.
A IA intensifica esse desafio. O Vale do Silício não vende apenas software. Vende imaginação. Vende a promessa de que cada pessoa pode ser mais criativa, mais eficiente, mais livre, mais capaz. É claro que essa promessa esconde exploração de trabalho, concentração de poder, mineração de dados, dependência infraestrutural e precarização. Mas ela tem aderência porque toca desejos reais.
A resposta crítica não pode ser apenas “isso é ideologia”. Sim, é ideologia. Mas ideologias fortes não são apenas mentiras; são respostas distorcidas a necessidades verdadeiras. O trabalhador quer autonomia. O estudante quer aprender melhor. O professor quer apoio. O gestor quer eficiência. O cidadão quer serviços públicos menos burocráticos. O artista quer ampliar sua expressão. A IA aparece como promessa de resolução imediata desses desejos.
Uma política emancipatória precisa reconhecer esses desejos, não ridicularizá-los. O problema não é desejar potência criativa. O problema é entregar esse desejo a monopólios privados que transformam toda criatividade em dado, dependência e lucro.
8. Para uma economia política concreta da tecnologia
Uma economia política séria da IA precisa enfrentar pelo menos cinco dimensões.
Primeiro, a dimensão material. IA depende de data centers, energia, semicondutores, água, mineração, infraestrutura de nuvem e cadeias globais de trabalho. Não existe inteligência artificial “imaterial”. Há servidores, cabos submarinos, chips, terras raras, eletricidade e trabalhadores invisíveis.
Segundo, a dimensão econômica. A IA está concentrada em poucas corporações capazes de financiar modelos gigantescos, controlar infraestrutura computacional e capturar mercados. Isso reforça tendências monopolistas do capitalismo de plataforma (Srnicek, 2017).
Terceiro, a dimensão trabalhista. A IA não elimina simplesmente o trabalho; ela reorganiza tarefas, intensifica controles, desloca ocupações, barateia certas atividades cognitivas e cria novas formas de subordinação.
Quarto, a dimensão epistemológica. A IA altera a relação com o conhecimento. Ela produz respostas plausíveis, mas nem sempre verdadeiras. Por isso, exige letramento crítico, supervisão humana, validação científica e responsabilidade institucional.
Quinto, a dimensão política. Quem controla a IA controla parte crescente da mediação social: informação, linguagem, decisão, vigilância, propaganda, educação e gestão pública.
Uma economia política da tecnologia, portanto, não pode perguntar apenas “quem é o dono?”. Precisa perguntar também: quem define os fins? Quem treina os modelos? Quem audita os sistemas? Quem se beneficia? Quem é prejudicado? Quem fica dependente? Quem decide o que deve ou não ser automatizado? Que capacidades humanas devem ser preservadas, ampliadas ou protegidas?
9. Conclusão
A inteligência artificial obriga o marxismo, a esquerda democrática e todos os projetos emancipatórios a abandonarem duas ilusões. A primeira é a ilusão tecnofóbica, segundo a qual a IA seria apenas ameaça, alienação e dominação. A segunda é a ilusão tecnocrática, segundo a qual bastaria colocar a IA sob boa gestão para que ela se tornasse instrumento de libertação.
A questão é mais profunda. A IA é uma tecnologia de produção, mas também de subjetivação. Produz textos, imagens, códigos e decisões; mas também produz hábitos, desejos, dependências, expectativas e formas de imaginar o possível. Por isso, a disputa não será vencida apenas com propriedade pública, regulação estatal ou conselhos deliberativos, embora tudo isso seja necessário. Será vencida quando uma alternativa política conseguir oferecer uma forma de vida mais desejável que a promessa neoliberal de eficiência solitária.
O desafio é construir uma tecnologia que não transforme cada pessoa em empresa, cada gesto em dado, cada criação em mercadoria e cada relação em métrica. Uma tecnologia emancipatória precisa ampliar capacidades humanas sem destruir os processos formativos que nos tornam humanos. Precisa reduzir sofrimento sem empobrecer a experiência. Precisa organizar a produção sem burocratizar o desejo. Precisa planejar sem sufocar o inesperado.
A IA força o marxismo a confrontar o que muitas vezes ficou adiado: a emancipação não é apenas uma questão de distribuição dos frutos da produção, mas de criação coletiva de mundos. Não basta perguntar quem ficará com a máquina. É preciso perguntar que humanidade essa máquina ajuda a formar.
Referências
BENANAV, Aaron. Uma real economia política da tecnologia: réplica a Morozov. Blog da Boitempo, 2 abr. 2026.
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política: Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
MOROZOV, Evgeny. Socialismo após a IA. Blog da Boitempo, 23 mar. 2026.
MOROZOV, Evgeny. Socialism After AI. The Ideas Letter, 11 dez. 2025.
MOROZOV, Evgeny. Tábua de Frios Socialista. Blog da Boitempo, 17 abr. 2026.
SRNICEK, Nick. Platform capitalism. Cambridge: Polity Press, 2017.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
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