Como a modernidade prometeu aproximar os indivíduos, mas produziu uma das formas mais silenciosas de abandono humano
Lide
Nunca estivemos tão conectados. Nunca falamos tanto. Nunca fomos tão visíveis. Ainda assim, talvez nunca tenhamos experimentado uma solidão tão profunda, tão silenciosa e tão estrutural. A modernidade prometeu comunicação, velocidade, liberdade e aproximação. Mas, no caminho, transformou presença em disponibilidade, vínculo em consumo emocional e reconhecimento em algoritmo. A solidão contemporânea não é apenas uma dor íntima: é um sintoma histórico de uma sociedade que multiplicou contatos e empobreceu relações.
Introdução — a multidão conectada e o indivíduo sozinho
Há uma cena que se repete todos os dias, em todos os lugares. Uma pessoa senta-se à mesa, pega o celular, responde mensagens, vê vídeos curtos, curte fotografias, acompanha notícias, lê comentários, troca figurinhas digitais, participa de grupos, recebe notificações e, mesmo assim, sente uma espécie de vazio que não sabe nomear.
Não é falta de comunicação. Há comunicação demais.
Não é ausência de informação. Há informação em excesso.
Não é silêncio exterior. O mundo fala o tempo inteiro.
A questão é outra: falta presença. Falta escuta. Falta vínculo. Falta aquele tipo de encontro humano que não precisa performar, vender, convencer, competir ou parecer feliz.
A modernidade prometeu conexão. As cidades aproximaram corpos. A internet aproximou vozes. As redes sociais aproximaram imagens. Os aplicativos aproximaram desejos. A comunicação instantânea aproximou agendas, compromissos e afetos. Mas talvez, no fundo, essa proximidade tenha produzido uma distância ainda mais sofisticada: estamos permanentemente acessíveis e profundamente indisponíveis.
A Organização Mundial da Saúde tem tratado a solidão e o isolamento social como questões relevantes de saúde pública. Em relatório recente, a Comissão da OMS sobre Conexão Social afirmou que cerca de uma em cada seis pessoas no mundo experimenta solidão, com impactos importantes sobre saúde, bem-estar e vida social. O alerta também aparece no relatório do Surgeon General dos Estados Unidos, que relaciona a falta de conexão social ao aumento de riscos para saúde física e mental.
Mas os dados apenas confirmam aquilo que a vida cotidiana já nos mostra: a solidão deixou de ser exceção e tornou-se paisagem. Ela mora nos apartamentos das grandes cidades, nas salas de aula, nos ambientes de trabalho, nas famílias que não conversam, nos grupos de WhatsApp lotados de mensagens e vazios de presença, nas redes sociais onde todos aparecem felizes, produtivos e acompanhados.
Para compreender essa tragédia discreta, é preciso recorrer a autores que enxergaram, cada um a seu modo, o lado sombrio da modernidade: Georg Simmel, Walter Benjamin, Émile Durkheim, Zygmunt Bauman e Byung-Chul Han. Eles não escreveram todos sobre redes sociais, algoritmos ou smartphones. Mas escreveram sobre algo ainda mais profundo: a transformação da vida humana em uma sociedade acelerada, fragmentada, individualizada e emocionalmente exausta.
1. Georg Simmel: a cidade moderna e a defesa emocional pela indiferença
Georg Simmel percebeu cedo que a metrópole moderna não era apenas um espaço físico. Era uma máquina psicológica. A grande cidade não reorganizava apenas ruas, prédios, transportes e comércio. Ela reorganizava também os nervos, os afetos e a percepção humana.
Em seu ensaio clássico “As grandes cidades e a vida do espírito”, Simmel argumenta que a vida metropolitana produz uma intensificação dos estímulos nervosos. O indivíduo passa a viver cercado por sons, imagens, multidões, vitrines, horários, dinheiro, concorrência e velocidade. A cidade moderna exige atenção constante. Tudo muda rapidamente. Tudo solicita resposta. Tudo chama o olhar.
Diante desse excesso, o sujeito desenvolve uma proteção: a atitude blasé. Essa atitude é uma espécie de indiferença emocional diante do mundo. Não significa necessariamente maldade ou ausência de sensibilidade. É, antes, uma defesa. Como ninguém consegue sentir tudo o tempo inteiro, o indivíduo moderno aprende a reduzir a intensidade com que sente.
Aqui está uma chave poderosa para entender a solidão contemporânea. Vivemos em um mundo que exige resposta permanente. Mensagens, notificações, chamadas, alertas, vídeos, notícias, imagens e demandas atravessam o dia inteiro. O resultado não é uma humanidade mais sensível. Muitas vezes, é o contrário: quanto mais somos estimulados, mais nos anestesiamos.
Simmel ajuda a compreender por que uma pessoa pode estar cercada de gente e continuar profundamente sozinha. A multidão não garante comunhão. A proximidade física não garante encontro. A cidade aproxima corpos, mas pode afastar consciências.
O mesmo vale para o ambiente digital. As redes sociais são uma espécie de metrópole invisível. Nelas circulam multidões, vitrines, mercadorias, opiniões, afetos, performances e disputas por atenção. O indivíduo olha para todos e, ao mesmo tempo, não vê ninguém em profundidade. O outro aparece como imagem, frase, perfil, reação, curtida, comentário. O rosto humano é convertido em interface.
A solidão, nesse sentido, não nasce apenas da ausência de pessoas. Ela nasce do excesso de presenças superficiais. Há tanta gente passando diante de nós que já não conseguimos parar diante de ninguém.
Simmel nos ensina que a modernidade criou uma contradição brutal: quanto mais intensamente a vida social se expande, mais o indivíduo precisa se proteger dela. E essa proteção cobra um preço alto: a perda da delicadeza afetiva.
2. Walter Benjamin: a fragmentação da experiência humana
Walter Benjamin olhou para a modernidade como quem observa uma tempestade. Para ele, a vida moderna não apenas acelerou o tempo; ela fragmentou a experiência. O sujeito moderno passa por muitos acontecimentos, mas nem sempre consegue transformá-los em memória, narrativa e sentido.
Em textos como “O narrador” e “Sobre alguns temas em Baudelaire”, Benjamin distingue a experiência profunda da vivência imediata. A experiência é aquilo que pode ser elaborado, transmitido, narrado e compartilhado. A vivência fragmentada, por outro lado, é o acontecimento rápido, isolado, consumido e logo substituído por outro.
Essa distinção é decisiva para entender a solidão atual. A sociedade contemporânea oferece uma quantidade gigantesca de vivências. Vemos vídeos, notícias, tragédias, debates, escândalos, memes e imagens em ritmo contínuo. Mas pouca coisa se transforma em experiência real. Tudo passa rápido demais. O mundo nos atravessa, mas nem sempre permanece em nós.
Benjamin também viu que a modernidade enfraqueceu a arte de narrar. Narrar não é apenas contar fatos. É organizar a experiência em forma de sentido. É permitir que a dor, o espanto, a perda, a alegria e a memória sejam compartilhados. Onde não há narrativa, há isolamento interior.
Hoje, muita gente posta a própria vida, mas não consegue narrá-la. Expõe a rotina, mas não elabora a existência. Mostra o prato, a viagem, o corpo, o sorriso, o diploma, o trabalho, a conquista, mas raramente encontra espaço para dizer: “estou cansado”, “estou perdido”, “não sei o que fazer”, “preciso ser ouvido”.
A rede social registra, mas nem sempre acolhe. Ela arquiva imagens, mas nem sempre produz memória. Ela gera visibilidade, mas nem sempre cria reconhecimento.
Benjamin ajuda a perceber que a solidão contemporânea é também uma crise da experiência. O sujeito não está apenas distante dos outros; está distante de si mesmo. Ele vive muito, consome muito, reage muito, mas elabora pouco. E aquilo que não é elaborado retorna como angústia muda.
A modernidade, portanto, não nos deixou apenas mais apressados. Ela nos deixou mais pobres de experiência. E uma vida pobre de experiência é uma vida com dificuldade de construir vínculos profundos, porque vínculo exige tempo, escuta, repetição, memória e presença.
3. Émile Durkheim: anomia e enfraquecimento dos vínculos coletivos
Émile Durkheim compreendeu que nenhuma sociedade vive apenas de indivíduos. Para ele, a vida social depende de vínculos, normas, instituições, valores comuns e formas coletivas de pertencimento. Quando esses elementos se enfraquecem, o indivíduo fica solto no mundo, sem orientação simbólica suficiente para sustentar a própria existência.
O conceito de anomia é fundamental. A anomia expressa uma situação de desregulação social, na qual normas coletivas perdem força e os indivíduos passam a experimentar desorientação, isolamento e ausência de pertencimento. Durkheim analisou esse fenômeno em uma sociedade moderna marcada por transformações econômicas, urbanas, familiares e morais.
A solidão contemporânea pode ser lida como uma forma de anomia afetiva. As pessoas estão mais livres em muitos aspectos, mas também mais desamparadas. As tradições perderam parte de sua força. As comunidades se enfraqueceram. As famílias se fragmentaram. O trabalho se tornou instável. A vizinhança deixou de ser espaço de convivência. A política se tornou disputa agressiva. A religião, muitas vezes, deixou de ser comunidade de cuidado e tornou-se mercado de identidade, medo ou promessa.
Não se trata de defender nostalgicamente o passado. O passado também tinha exclusões, violências e silenciamentos. Mas é preciso reconhecer que a modernização dissolveu muitos vínculos sem construir outros suficientemente fortes no lugar.
Durkheim nos lembra que o indivíduo não suporta carregar sozinho todo o peso da vida. A sociedade contemporânea, porém, repete o tempo inteiro que cada um deve resolver sua dor individualmente. Se fracassou, faltou esforço. Se adoeceu, faltou equilíbrio. Se está sozinho, faltou habilidade social. Se está cansado, faltou organização. Tudo é devolvido ao indivíduo como culpa privada.
Essa é uma das violências morais do nosso tempo: problemas sociais são convertidos em falhas pessoais.
A solidão, portanto, não pode ser tratada apenas como problema psicológico. Ela também é sintoma de uma arquitetura social que enfraqueceu os espaços de pertencimento. Durkheim permite afirmar que uma sociedade pode adoecer quando perde sua capacidade de produzir solidariedade.
E talvez seja exatamente isso que esteja ocorrendo: temos redes, mas pouca comunidade; temos contatos, mas pouca solidariedade; temos opinião, mas pouca escuta; temos identidade, mas pouco compromisso comum.
4. Zygmunt Bauman: amor líquido e vínculos descartáveis
Zygmunt Bauman talvez seja um dos autores mais precisos para compreender a fragilidade dos vínculos contemporâneos. Sua ideia de modernidade líquida descreve uma sociedade em que nada permanece sólido por muito tempo: empregos, relações, identidades, valores, compromissos e projetos de vida tornam-se instáveis, provisórios e substituíveis.
Em “Amor líquido”, Bauman analisa a fragilidade dos laços humanos em um mundo dominado pela lógica do consumo. As relações passam a ser tratadas como mercadorias emocionais: devem satisfazer, oferecer prazer, conforto, validação e leveza. Quando exigem esforço, conflito, paciência ou renúncia, tornam-se descartáveis.
Essa análise ilumina profundamente a frase do anexo: a sociedade transformou “vínculo em consumo emocional”. O outro deixa de ser alguém com quem se constrói uma história e passa a ser alguém que precisa fornecer bem-estar imediato. O relacionamento deixa de ser encontro entre duas incompletudes e passa a ser contrato instável entre expectativas de satisfação.
A lógica é simples e cruel: se não me serve, substituo. Se me cobra, bloqueio. Se me frustra, descarto. Se exige profundidade, fujo. Se mostra dor, silencio. Se demora, troco.
O problema é que vínculos verdadeiros não funcionam como produtos. Relações humanas exigem tempo, espera, tolerância, escuta, perdão, conflito, maturação. Uma amizade profunda não nasce de disponibilidade instantânea. Um amor maduro não se constrói apenas com afinidade inicial. Uma comunidade real não se sustenta apenas por interesses comuns momentâneos.
Bauman mostra que a modernidade líquida produz indivíduos ambivalentes: querem liberdade absoluta, mas sofrem por não pertencer; querem relações leves, mas se angustiam com a descartabilidade; querem autonomia, mas sentem falta de permanência; querem não depender de ninguém, mas se desesperam quando ninguém permanece.
Essa contradição é central para a solidão atual. O sujeito contemporâneo teme vínculos fortes porque eles podem limitar sua liberdade. Mas, sem vínculos fortes, sua liberdade se transforma em abandono.
As redes sociais intensificam esse processo. Elas oferecem a ilusão de abundância relacional. Sempre há alguém novo, uma conversa nova, uma imagem nova, uma possibilidade nova. Mas a abundância de opções pode enfraquecer a capacidade de permanência. Quando tudo parece substituível, o vínculo perde densidade moral.
A solidão líquida não é a solidão de quem não encontra ninguém. É a solidão de quem encontra muitos, mas não consegue construir permanência com quase ninguém.
5. Byung-Chul Han: desempenho, cansaço e autoexploração
Byung-Chul Han aprofunda a crítica da sociedade contemporânea ao mostrar que o poder mudou de forma. Antes, segundo ele, predominava uma sociedade disciplinar, marcada por proibições, ordens, vigilância e repressão. Hoje, vivemos uma sociedade do desempenho, marcada por positividade, produtividade, motivação e autoexigência.
O sujeito contemporâneo já não escuta apenas “você deve”. Ele escuta “você consegue”. Parece libertador, mas é uma armadilha. Se tudo depende de mim, então todo fracasso também é meu. Se eu posso tudo, não realizar tudo vira culpa. A liberdade se transforma em cobrança.
Em “Sociedade do cansaço”, Han afirma que o indivíduo contemporâneo se torna explorador de si mesmo. Ele trabalha, se cobra, se compara, se expõe, se vende, se melhora, se otimiza. Não precisa haver um opressor externo visível o tempo inteiro, porque a exigência foi internalizada.
Essa análise é essencial para compreender a solidão atual. O sujeito cansado não tem energia para vínculos profundos. Ele responde mensagens, mas não escuta. Está online, mas exausto. Está disponível, mas emocionalmente ausente. Quer companhia, mas não suporta demandas. Quer afeto, mas não tem tempo interior para acolher o outro.
Han também ajuda a entender a transformação da presença em disponibilidade. Hoje, estar presente muitas vezes significa responder rápido, visualizar mensagens, manter redes atualizadas, demonstrar produtividade, publicar conquistas, parecer bem. A presença deixa de ser experiência humana e se torna desempenho comunicacional.
O indivíduo precisa mostrar que vive, que trabalha, que ama, que viaja, que estuda, que vence, que supera, que está feliz. A vida vira vitrine. E toda vitrine, por definição, mostra apenas a parte iluminada.
Mas ninguém suporta viver sempre iluminado.
A solidão contemporânea nasce também dessa obrigação de aparecer. Quanto mais o sujeito performa uma vida bem-sucedida, menos espaço encontra para confessar sua fragilidade. O sofrimento torna-se vergonhoso. A tristeza precisa ser escondida. O cansaço precisa ser estetizado. A dor precisa ser convertida em aprendizado motivacional.
Han mostra que a sociedade do desempenho não elimina apenas o descanso. Ela elimina a possibilidade de fraqueza compartilhada. E sem fraqueza compartilhada não há intimidade verdadeira.
6. A conectividade como promessa frustrada
A grande promessa tecnológica do nosso tempo foi a conexão. A internet aproximaria pessoas, democratizaria vozes, facilitaria encontros, ampliaria amizades, reduziria distâncias. Em parte, isso aconteceu. Seria injusto negar os benefícios da comunicação digital. Famílias distantes conversam por vídeo. Estudantes acessam conteúdos antes indisponíveis. Movimentos sociais se organizam. Pessoas isoladas encontram comunidades de apoio.
Mas a promessa não se cumpriu plenamente. A conexão técnica não garante conexão humana.
A comunicação digital acelerou o contato, mas também empobreceu muitos vínculos. O tempo da resposta substituiu o tempo da conversa. O emoji substituiu, em muitos casos, a expressão demorada do afeto. A visualização substituiu a presença. A curtida substituiu o reconhecimento. O grupo substituiu a comunidade. O feed substituiu a praça.
Há uma diferença profunda entre estar conectado e estar vinculado. Conexão é contato. Vínculo é compromisso. Conexão pode ser instantânea. Vínculo exige duração. Conexão pode ser interrompida com um clique. Vínculo exige responsabilidade diante da existência do outro.
O problema não está simplesmente na tecnologia. Está na forma social que a organiza. As plataformas digitais não foram construídas apenas para aproximar pessoas. Foram construídas para capturar atenção, coletar dados, modular comportamentos e transformar interação em valor econômico. Nesse ambiente, a solidão também vira mercado.
A pessoa solitária consome mais conteúdo. Busca mais validação. Permanece mais tempo online. Procura pertencimento em comunidades frágeis. Entrega seus dados em troca de reconhecimento. O algoritmo percebe suas carências e oferece estímulos. Não necessariamente cuidado. Estímulos.
Por isso, a frase do anexo é tão precisa: o reconhecimento foi transformado em algoritmo. O sujeito já não pergunta apenas “quem me ama?” ou “quem me escuta?”. Ele pergunta, mesmo sem perceber: “quem me viu?”, “quem curtiu?”, “quem reagiu?”, “quantas pessoas acompanharam?”.
A métrica substitui o olhar.
E quando a métrica substitui o olhar, a alma fica sem abrigo.
7. A solidão como problema moral e político
É preciso insistir: a solidão contemporânea não é apenas um problema emocional. Ela é também um problema moral e político.
É moral porque revela a forma como tratamos uns aos outros. Uma sociedade que normaliza a indiferença, a pressa, o descarte e a ausência de escuta produz sofrimento. Quando o outro é visto apenas como concorrente, consumidor, eleitor, seguidor, contato, cliente ou ameaça, sua humanidade desaparece.
É político porque diz respeito à organização da vida coletiva. Cidades sem espaços públicos de convivência produzem solidão. Jornadas de trabalho exaustivas produzem solidão. Transporte precário produz solidão. Desigualdade produz solidão. Educação competitiva produz solidão. Cultura do medo produz solidão. Redes sociais organizadas por engajamento agressivo produzem solidão.
A solidão não é distribuída igualmente. Pobres, idosos, jovens, pessoas com deficiência, moradores de periferias, trabalhadores precarizados e grupos socialmente discriminados podem experimentar formas ainda mais duras de isolamento. A OMS destaca que a solidão e o isolamento têm impactos sociais amplos e exigem respostas institucionais, comunitárias e de saúde pública.
Portanto, falar de solidão é falar de sociedade. É falar de como organizamos o tempo, o trabalho, a cidade, a escola, a família, a política e a tecnologia.
A pergunta central não é apenas: “por que as pessoas estão sozinhas?”
A pergunta mais profunda é: “que tipo de sociedade estamos construindo para que tanta gente se sinta sozinha mesmo cercada de conexões?”
8. O empobrecimento da presença
A presença humana é uma das experiências mais profundas da vida. Estar presente não é apenas estar no mesmo lugar. É oferecer atenção. É suspender a pressa. É reconhecer que o outro existe para além de sua utilidade.
Mas a sociedade contemporânea empobreceu a presença. Muitas vezes, estamos com alguém, mas olhando para a tela. Estamos em família, mas respondendo mensagens. Estamos na sala de aula, mas mentalmente capturados por notificações. Estamos em reuniões, mas divididos entre várias abas. Estamos no encontro, mas pensando na postagem.
A presença foi sequestrada pela disponibilidade.
Estar disponível, no entanto, não é o mesmo que estar presente. Disponibilidade é acesso. Presença é entrega. Disponibilidade responde. Presença escuta. Disponibilidade aparece. Presença permanece.
Essa distinção é decisiva. O mundo atual nos tornou disponíveis demais e presentes de menos. O resultado é uma convivência rarefeita, na qual os corpos se aproximam, mas as consciências se dispersam.
Talvez por isso tanta gente sinta saudade de algo que nem sempre sabe nomear. Saudade de conversas longas. Saudade de visitas sem pressa. Saudade de refeições partilhadas. Saudade de amizades que não dependiam de performance. Saudade de ser ouvido sem que o outro estivesse esperando a própria vez de falar.
Essa saudade não é apenas nostalgia. É sintoma de uma carência antropológica: o ser humano precisa de vínculo real.
9. A solidão como perda de mundo comum
Hannah Arendt, embora não citada no anexo, ajuda a ampliar a reflexão. Para ela, a vida política depende da existência de um mundo comum, isto é, um espaço compartilhado onde as pessoas podem aparecer, falar, agir e reconhecer umas às outras. Quando esse mundo comum se dissolve, os indivíduos ficam entregues ao isolamento e à manipulação.
A solidão contemporânea também tem esse aspecto: estamos perdendo mundo comum. Cada pessoa habita sua bolha informacional, seu feed personalizado, sua comunidade ideológica, seu conjunto de recomendações algorítmicas. O espaço comum se fragmenta em realidades paralelas.
Isso aprofunda a distância entre as pessoas. Não apenas sentimos coisas diferentes; muitas vezes já nem vemos o mesmo mundo. A política vira guerra moral. O debate vira ataque. A divergência vira inimização. A escuta vira fraqueza. O diálogo vira risco.
Nesse ambiente, a solidão cresce porque o outro deixa de ser interlocutor e passa a ser ameaça. A convivência democrática exige suportar a presença do diferente. Mas uma sociedade emocionalmente exausta e algoritmicamente excitada perde essa capacidade.
A solidão, então, não é apenas estar sem amigos. É viver em um mundo onde o tecido comum foi rasgado.
10. Reconstruir vínculos: uma tarefa civilizatória
Se a solidão é histórica, social e estrutural, sua superação também precisa ser mais ampla do que conselhos individuais. Não basta dizer às pessoas: “saia mais”, “faça amigos”, “procure ajuda”, “use menos celular”. Tudo isso pode ajudar, mas não resolve a raiz do problema.
É preciso reconstruir condições sociais de vínculo.
Isso passa pela valorização do tempo livre, pela criação de espaços públicos de convivência, pelo fortalecimento da escola como comunidade, pela humanização do trabalho, pela proteção da saúde mental, pela regulação responsável das plataformas digitais, pela recuperação da cultura da escuta e pela defesa de instituições que produzam pertencimento.
Também passa por uma mudança moral: precisamos reaprender a permanecer.
Permanecer diante do outro sem transformá-lo imediatamente em utilidade. Permanecer na conversa difícil. Permanecer na amizade que atravessa fases. Permanecer na família sem reduzir tudo a obrigação. Permanecer na comunidade mesmo quando ela exige paciência. Permanecer na democracia mesmo quando ela exige escuta.
O vínculo é uma forma de resistência em uma sociedade do descarte.
A escuta é uma forma de resistência em uma sociedade do ruído.
A presença é uma forma de resistência em uma sociedade da disponibilidade permanente.
Conclusão — a solidão como espelho de uma civilização cansada
A solidão contemporânea talvez seja uma das formas mais sinceras pelas quais a sociedade revela sua doença. Ela mostra que não basta conectar máquinas, acelerar mensagens, multiplicar telas e expandir redes. O ser humano não vive apenas de contato. Vive de sentido, pertencimento, reconhecimento e presença.
Simmel nos mostrou que o excesso de estímulos pode produzir indiferença. Benjamin nos ensinou que a modernidade fragmenta a experiência. Durkheim revelou que o enfraquecimento dos vínculos coletivos gera desorientação. Bauman explicou a fragilidade líquida das relações. Byung-Chul Han expôs o cansaço de uma sociedade que transformou o indivíduo em empresário e carrasco de si mesmo.
Juntos, esses autores ajudam a compreender que a solidão atual não é acidente. Ela é consequência de uma civilização que confundiu comunicação com encontro, liberdade com abandono, desempenho com realização, visibilidade com reconhecimento e conexão com vínculo.
A grande tragédia do nosso tempo talvez não seja estarmos sozinhos. É estarmos sozinhos enquanto fingimos estar acompanhados. É sorrir na vitrine e adoecer no silêncio. É responder a todos e não ser escutado por ninguém. É ter centenas de contatos e não saber para quem dizer a verdade.
A modernidade prometeu aproximar os indivíduos. Aproximou sinais, imagens, vozes e dados. Mas a tarefa humana continua inacabada: reconstruir a presença.
Porque, no fim, nenhuma tecnologia substitui aquilo que ainda nos salva: alguém que olha, escuta e permanece.
Referências
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudo de sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes, 2018.
SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. Mana, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 577-591, 2005.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Report of the WHO Commission on Social Connection. Geneva: WHO, 2025.
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