Por que nenhum partido deve ser tratado como religião, torcida ou propriedade privada de seus dirigentes
A política se empobrece quando passa a exigir silêncio em nome da “unidade”. Isso vale para a esquerda, para a direita, para o centro e para qualquer campo partidário que deseje disputar a sociedade com seriedade. Nenhum partido, governo ou liderança deveria estar acima da crítica. Quando a militância deixa de fiscalizar seus próprios representantes, a democracia perde um de seus mecanismos mais importantes: a capacidade de corrigir rumos antes que os erros virem método.
A crítica interna não destrói um projeto político; ao contrário, impede que ele se transforme em culto. O problema não está em divergir, mas em substituir o debate por obediência. Quando partidos passam a exigir lealdade incondicional, deixam de funcionar como instrumentos públicos de representação e começam a operar como estruturas fechadas de autopreservação.
Jürgen Habermas ajuda a compreender esse ponto ao defender a importância da esfera pública como espaço de formação racional da opinião, no qual os cidadãos discutem temas coletivos para além da lógica fechada dos aparelhos institucionais (Habermas, 1997). A democracia, nesse sentido, depende de debate, contestação, publicidade e argumentação. Quando a crítica é tratada como ameaça, a esfera pública enfraquece e a política se converte em administração de conveniências.
Mas há uma tensão importante. Chantal Mouffe critica a ideia de que a democracia possa ser reduzida ao consenso racional. Para ela, o conflito é constitutivo da política; tentar apagá-lo em nome de uma harmonia artificial pode fortalecer ressentimentos e abrir espaço para formas autoritárias de mobilização (Mouffe, 2005). Em outras palavras: a divergência não é defeito da democracia. É sua matéria-prima.
O erro de muitos agrupamentos partidários é confundir unidade estratégica com silêncio moral. Unidade pode ser necessária em determinados momentos, especialmente diante de ameaças institucionais graves. Mas unidade não pode significar cheque em branco. Um partido que não aceita crítica deixa de formar cidadãos e passa a formar seguidores.
Norberto Bobbio, ao discutir direita e esquerda, lembra que essas categorias continuam relevantes quando expressam posições distintas diante da igualdade, da liberdade e da justiça social (Bobbio, 1995). Isso significa que os campos políticos precisam ser julgados não apenas por seus discursos, mas por sua coerência prática. Um partido não é progressista porque se declara progressista; precisa demonstrar isso nas políticas públicas, na relação com os pobres, na defesa dos direitos, na transparência administrativa e na disposição de enfrentar privilégios.
O mesmo raciocínio vale para partidos conservadores, liberais, sociais-democratas, trabalhistas, cristãos, nacionalistas ou verdes. A pergunta fundamental deve ser sempre a mesma: há coerência entre o que se promete e o que se realiza? O partido governa para a sociedade ou apenas para sua máquina interna? O mandato serve ao eleitor ou ao cálculo eleitoral permanente?
Há autores que ajudam a sustentar a defesa da crítica como elemento democrático. Hannah Arendt, por exemplo, entende a política como espaço de ação e palavra em comum, não como obediência passiva. Paulo Freire, em outro campo, defende a consciência crítica como condição da libertação humana. Sem leitura crítica da realidade, o cidadão vira objeto de manipulação. Já Pierre Bourdieu mostra que os campos políticos tendem a criar linguagens, hierarquias e mecanismos de autoproteção que afastam o cidadão comum da decisão pública.
Mas também existem autores que relativizam essa visão. Joseph Schumpeter, por exemplo, apresenta uma concepção mais competitiva e elitista da democracia: o método democrático seria, sobretudo, um arranjo institucional pelo qual lideranças disputam o voto para governar (Schumpeter, 2017). Nessa perspectiva, a participação popular tende a ser mais limitada, concentrando-se na escolha entre elites concorrentes.
Essa visão tem força descritiva: de fato, muitas democracias funcionam assim. O eleitor vota, os partidos competem, as elites decidem e a sociedade acompanha de longe. Mas é justamente esse modelo que precisa ser criticado. Quando a política se reduz à competição entre profissionais do poder, o povo vira plateia. E quando o povo vira plateia, a frustração social procura atalhos: messianismo, antipolítica, autoritarismo, moralismo barato e discursos de ódio.
Não existe vazio político. Quando partidos não debatem salário, moradia, saúde, educação, trabalho, transporte, segurança pública, endividamento das famílias, juventude, tecnologia e desigualdade, alguém ocupará esse espaço. Muitas vezes, quem ocupa não oferece projeto; oferece culpados. Não apresenta política pública; apresenta inimigos. Não explica a complexidade; vende simplificação.
Por isso, a crítica não deve ser privilégio de um campo ideológico. Todo partido precisa ser criticável. Todo governo precisa ser cobrado. Todo parlamentar precisa prestar contas. Toda liderança precisa aceitar que representação não é propriedade privada do mandato. A democracia amadurece quando o eleitor deixa de ser torcedor e passa a ser fiscal.
A lealdade mais nobre não é ao partido, ao líder ou ao governo. É ao povo, à Constituição, à justiça social e ao interesse público. Quando uma legenda erra, criticá-la não é fortalecer o adversário; é impedir que o erro seja naturalizado. Quando um governo se afasta de suas promessas, apontar a contradição não é sabotagem; é responsabilidade democrática. Quando uma liderança se acomoda no poder, questioná-la não é traição; é higiene republicana.
O silêncio diante dos próprios aliados pode até parecer estratégia no curto prazo. Mas, no longo prazo, cobra um preço alto: desmobiliza a base, empobrece o pensamento, afasta os setores populares e entrega o debate público aos oportunistas. A política que não suporta crítica termina cercada de bajuladores. E governos cercados de bajuladores perdem contato com a realidade.
A democracia precisa de partidos fortes, mas partidos fortes não são partidos imunes à crítica. São partidos capazes de ouvir, corrigir, justificar, deliberar e mudar. A crítica responsável não destrói a política. O que destrói a política é a transformação da militância em obediência, do eleitor em fã e do partido em seita.
A verdadeira maturidade democrática começa quando se compreende que nenhum campo político possui monopólio da virtude. A boa política não nasce do silêncio, mas do confronto honesto entre promessa e realidade. Afinal, quando a crítica desaparece, a política não fica mais forte; ela apenas fica mais cega.
Referências
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.
BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Editora Unesp, 1995.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.
MOUFFE, Chantal. Por um modelo agonístico de democracia. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, n. 25, p. 11-23, 2005.
SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, socialismo e democracia. São Paulo: Editora Unesp, 2017.
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