A dimensão neurobiológica da ação coletiva nas decisões políticas
Introdução
A política não se decide apenas no campo das ideias. Decide-se também no corpo, no medo, na esperança, na memória, na identidade, na raiva, no ressentimento e no desejo profundo de pertencimento. Quando uma sociedade escolhe um presidente, ela não escolhe somente um programa de governo; escolhe também uma narrativa sobre si mesma. Escolhe quem deve ser protegido, quem deve ser temido, quem deve ser punido, quem deve ser ouvido e quem deve ser silenciado.
A tese deste artigo é direta: as decisões políticas em massa resultam da articulação entre psicologia coletiva, identificação afetiva com líderes, contágio simbólico, sincronização emocional e, na era digital, mecanismos neuroinformacionais capazes de modular comportamentos coletivos em larga escala.
Gustave Le Bon já havia percebido que a multidão organizada não funciona como simples soma de indivíduos, mas como uma unidade psicológica provisória, marcada por sugestão, contágio, simplificação e força das imagens. Freud aprofundou essa análise ao mostrar que a massa é sustentada por laços afetivos, identificação e relação simbólica com o líder. Miguel Nicolelis, por outro caminho, abre uma chave neurobiológica: cérebros podem formar redes cooperativas, sincronizar atividades e funcionar como sistemas coletivos de processamento. Estudos sobre Brainets indicam que cérebros de animais podem ser conectados para executar tarefas motoras e computacionais em conjunto.
A pergunta, então, é inevitável: se cérebros se sincronizam biologicamente em situações de cooperação, o que acontece quando sociedades inteiras são submetidas diariamente aos mesmos estímulos emocionais, às mesmas imagens, aos mesmos inimigos e às mesmas palavras de ordem?
1. A multidão não é apenas um ajuntamento: é uma forma de consciência coletiva
Le Bon distingue a multidão comum da multidão psicológica. Pessoas reunidas em uma praça não formam necessariamente uma massa. A massa surge quando há orientação comum dos sentimentos, das ideias e dos impulsos. Nesse momento, aparece uma espécie de “alma coletiva”, transitória, mas real em seus efeitos.
Essa observação é decisiva para entender eleições. Uma campanha presidencial não tenta apenas convencer indivíduos isolados. Ela tenta fabricar uma atmosfera coletiva. Cria símbolos, slogans, inimigos, heróis, medos e esperanças. O eleitor, nesse ambiente, passa a decidir não apenas com base em dados, mas com base no lugar emocional que ocupa dentro de uma comunidade política.
Por isso, uma multidão política não precisa estar fisicamente reunida. Hoje, ela pode existir no WhatsApp, no YouTube, no culto religioso, no sindicato, na universidade, no grupo familiar, na bolha algorítmica ou no comentário repetido milhares de vezes. A multidão contemporânea é distribuída, digital e emocionalmente sincronizada.
Le Bon já havia notado que o político que ignora a psicologia das multidões acaba governado por elas, porque as pessoas não são conduzidas apenas por prescrições da razão pura. Essa frase parece escrita para o Brasil contemporâneo. A democracia brasileira vive hoje menos uma disputa de projetos administrativos e mais uma disputa de afetos organizados.
2. Palavras, imagens e fórmulas: a matéria-prima da manipulação política
A política de massas trabalha com palavras carregadas. “Deus”, “pátria”, “família”, “corrupção”, “comunismo”, “fascismo”, “liberdade”, “democracia”, “ditadura”, “povo”, “elite”, “sistema”, “golpe”. Essas palavras não são neutras. Elas acionam memórias, medos, identidades e reações morais.
Le Bon dedica atenção especial às imagens, palavras e fórmulas como fatores imediatos das opiniões das multidões. Segundo ele, a multidão é mais impressionada por imagens fortes do que por argumentos longos. Na eleição, isso aparece com nitidez: um vídeo curto pode valer mais que um plano de governo; uma frase repetida pode destruir uma explicação técnica; uma mentira emocionalmente eficaz pode circular mais rápido do que uma verdade complexa.
A multidão não gosta da complexidade porque a complexidade exige pausa. E a política digital vive da velocidade. O algoritmo recompensa reação, não reflexão. Recompensa indignação, não ponderação. Recompensa pertencimento, não dúvida.
3. Freud: o líder como objeto de identificação
Freud corrige e aprofunda Le Bon. Para ele, a massa não se mantém apenas por contágio ou sugestão; ela se mantém por laços afetivos. O indivíduo se liga ao líder e, por meio dele, liga-se aos demais membros do grupo. A massa organizada depende de identificação.
É por isso que o líder político deixa de ser apenas gestor. Ele vira símbolo. Pode ser visto como pai, salvador, vingador, protetor, mártir, redentor ou representante dos humilhados. Quando isso acontece, a crítica ao líder passa a ser vivida como crítica ao próprio eleitor.
Freud observa que o ódio a uma pessoa ou instituição também pode ter efeito unificador, produzindo ligações afetivas semelhantes às ligações positivas. Esse ponto é fundamental para compreender a polarização brasileira. Muitas pessoas não votam apenas por amor a um candidato; votam por ódio ao outro. O antipetismo e o antibolsonarismo são exemplos claros de identificação negativa.
A política, nesse estágio, deixa de ser escolha racional entre alternativas e se transforma em defesa emocional de uma identidade.
4. Brainet: a hipótese neurobiológica da cooperação coletiva
Miguel Nicolelis introduz uma dimensão nova nessa discussão. Suas pesquisas sobre interfaces cérebro-máquina e cérebro-cérebro mostram que cérebros podem se conectar em redes cooperativas. Em experimentos com roedores e primatas, cérebros foram integrados para executar tarefas motoras ou computacionais coletivas.
A Brainet não deve ser confundida com metáfora vulgar. Trata-se de uma linha experimental em neurociência que investiga como múltiplos cérebros podem compartilhar sinais e produzir desempenho coletivo. Em outro campo, estudos sobre sincronização cortical entre macacos mostraram episódios de sincronização interbrain durante tarefas sociais.
A consequência filosófica é profunda: a inteligência não é apenas individual. Ela é também relacional, corporal, social e cooperativa.
Quando se transporta essa ideia para a política, com os devidos cuidados, surge uma hipótese poderosa: multidões políticas podem funcionar como redes emocionais sincronizadas. Não por conexão direta de eletrodos, mas por repetição simbólica, contágio afetivo, imitação, linguagem, mídia e algoritmos.
5. A política como Brainet simbólica
Uma eleição presidencial é uma disputa entre Brainets simbólicas. Cada campo cria sua rede de significados. A direita organiza certos afetos: ordem, segurança, tradição, religião, autoridade, propriedade, medo da desordem. A esquerda organiza outros: justiça social, igualdade, direitos, proteção dos vulneráveis, memória da exploração, esperança de reparação.
Não se trata de dizer que um lado é racional e o outro irracional. Isso seria intelectualmente pobre. Os dois lados têm racionalidades, afetos, ilusões, virtudes e cegueiras. A diferença está no tipo de emoção dominante.
A direita tende a se mobilizar mais fortemente pela ameaça: ameaça à família, à religião, à propriedade, à segurança, à ordem, à identidade nacional. A esquerda tende a se mobilizar mais fortemente pela injustiça: desigualdade, fome, exploração, racismo, exclusão, abandono social.
Em ambos os casos, a massa política busca coerência emocional. O eleitor quer sentir que pertence a um lado moralmente justificável.
6. Redes sociais: a industrialização da sugestão
O que Le Bon descreveu no século XIX como sugestão, repetição e contágio ganhou escala industrial no século XXI. As redes sociais transformaram a multidão em fluxo permanente.
Antes, a massa precisava do comício, da praça, do jornal, do rádio ou da televisão. Hoje, a massa cabe no bolso. O celular tornou-se uma praça pública portátil, emocionalmente manipulável e algoritmicamente dirigida.
Nicolelis alerta, em textos recentes, para o risco de “vírus informacionais” capazes de reprogramar Brainets humanas na era da pós-verdade. A expressão é forte, mas adequada. Uma fake news funciona como agente infeccioso simbólico: entra na rede, contamina interpretações, altera afetos, reorganiza comportamentos e se replica por identificação.
A mentira política eficiente não precisa parecer verdadeira para todos. Basta parecer emocionalmente necessária para o grupo que deseja acreditar nela.
7. Brasil: eleição presidencial como guerra de afetos
A eleição presidencial brasileira de 2022 foi a mais acirrada da história recente. Lula venceu Bolsonaro por 50,90% contra 49,10% dos votos válidos, após a totalização final. Esse resultado não revela apenas equilíbrio eleitoral. Revela uma sociedade dividida em duas grandes comunidades emocionais.
Para parte da esquerda, Lula simbolizava reconstrução democrática, memória popular, retorno das políticas sociais e derrota do autoritarismo. Para parte da direita, Bolsonaro simbolizava ordem, conservadorismo moral, antipetismo, enfrentamento ao sistema e defesa de valores religiosos e familiares.
O Brasil não votou apenas entre dois candidatos. Votou entre duas narrativas de país. Uma narrativa dizia: “é preciso reconstruir a justiça social e proteger a democracia”. A outra dizia: “é preciso defender a nação contra a ameaça moral, ideológica e institucional”.
A questão perigosa é que, quando essas narrativas se tornam absolutas, o adversário deixa de ser concorrente democrático e passa a ser inimigo existencial.
8. A diferença psicológica entre multidões de esquerda e direita
A multidão de direita, em sua forma mais conservadora, tende a buscar proteção contra a perda. Perda de autoridade, de identidade, de hierarquia, de religião, de segurança, de tradição. Seu afeto central é o medo de dissolução.
A multidão de esquerda, em sua forma mais popular e progressista, tende a buscar reparação contra a injustiça. Injustiça econômica, racial, social, trabalhista, educacional e histórica. Seu afeto central é a indignação contra a desigualdade.
Esses afetos podem produzir grandeza política. A direita pode preservar instituições, comunidades e vínculos simbólicos importantes. A esquerda pode ampliar direitos, reconhecer excluídos e combater desigualdades brutais.
Mas esses mesmos afetos também podem adoecer. A direita pode escorregar para autoritarismo, perseguição moral e culto à força. A esquerda pode escorregar para messianismo, ressentimento invertido e intolerância contra discordâncias internas.
A democracia exige que ambos os campos reconheçam sua própria sombra.
9. O perigo do líder total
Freud ajuda a entender por que líderes carismáticos são tão perigosos. Quando o líder ocupa o lugar do ideal do grupo, os membros da massa passam a medir a realidade pela fidelidade a ele. A dúvida vira traição. A crítica vira inimiga. O erro do líder vira invenção da mídia, do sistema ou dos adversários.
Le Bon já havia analisado o prestígio como força capaz de paralisar a crítica. Na política contemporânea, esse prestígio é fabricado por imagens, cortes de vídeo, performances, mitos de perseguição, narrativas religiosas e repetição algorítmica.
O líder total não precisa convencer todos. Ele precisa manter seu núcleo emocional em estado permanente de lealdade. Para isso, precisa de inimigos constantes.
10. Democracia ou hipnose coletiva?
A democracia pressupõe cidadãos capazes de julgar. Mas a política de massas tenta transformar cidadãos em torcedores. O torcedor não avalia; defende. Não examina; reage. Não pergunta; repete. Não admite erro do seu lado; denuncia apenas o erro do adversário.
A multidão democrática é necessária. Sem povo, não há democracia. Mas a multidão sem reflexão pode destruir a própria democracia em nome da vontade popular.
Esse é o paradoxo: a democracia depende das massas, mas pode ser destruída pela manipulação psicológica das massas.
Conclusão: recuperar o cidadão dentro da multidão
A grande batalha política do século XXI não será apenas entre esquerda e direita. Será entre autonomia crítica e sincronização manipulada. Entre cidadania e rebanho digital. Entre democracia deliberativa e Brainets emocionais capturadas por vírus informacionais.
Le Bon mostrou que a multidão pode ser sugestionada. Freud mostrou que ela se organiza por laços afetivos e identificação com líderes. Nicolelis sugere que a ação coletiva possui uma base neurobiológica mais profunda do que imaginávamos. A era digital juntou tudo isso em uma máquina poderosa: multidões conectadas, afetos sincronizados, líderes idealizados e algoritmos capazes de modular a atenção pública.
O Brasil precisa compreender esse fenômeno com urgência. Uma eleição presidencial não pode ser apenas guerra de medo contra medo, ódio contra ódio, mito contra mito. A democracia só amadurece quando o eleitor recupera a capacidade de pensar contra a própria tribo.
O maior desafio político do nosso tempo talvez seja este: salvar o cidadão da captura emocional da multidão.
Perguntas principais
1. A escolha política é racional?
Parcialmente. Ela envolve cálculo, memória, interesses e valores, mas também medo, esperança, identidade, ressentimento e pertencimento.
2. O que Le Bon ajuda a entender?
Ajuda a compreender sugestão, contágio, prestígio, repetição e força das palavras na formação da opinião das multidões.
3. O que Freud acrescenta?
Freud mostra que a massa é sustentada por laços afetivos, identificação e idealização do líder.
4. O que a Brainet de Nicolelis acrescenta ao debate?
Acrescenta a ideia de que cérebros podem operar cooperativamente em redes, abrindo caminho para pensar a ação coletiva também por uma dimensão neurobiológica.
5. Existe diferença psicológica entre esquerda e direita?
Sim, mas não de forma absoluta. A direita tende a se organizar mais por medo da perda e defesa da ordem; a esquerda, por indignação diante da injustiça e esperança de reparação.
Referências
ADORNO, Theodor W. Estudos sobre a personalidade autoritária. São Paulo: Unesp, 2019.
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
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FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
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KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. Niterói: Teodoro Editor, 2018.
MOSCOVICI, Serge. A era das multidões. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1985.
NICOLELIS, Miguel. Muito além do nosso eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
NICOLELIS, Miguel. O verdadeiro criador de tudo: como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. São Paulo: Planeta, 2020.
TARDE, Gabriel. A opinião e as massas. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
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