Multipolaridade, China, Rússia e a disputa pelo controle da nova arquitetura mundial
Lide
A ordem liberal internacional não está simplesmente acabando. O que está chegando ao fim é o monopólio ocidental — especialmente norte-americano — sobre a definição das regras do mundo. Criado após 1945, esse sistema organizou instituições, mercados, moedas, alianças militares e narrativas morais em torno da liderança dos Estados Unidos. Mas a globalização que fortaleceu essa ordem também criou seus principais desafios: a ascensão da China, o retorno geopolítico da Rússia, a crise social interna do Ocidente e a emergência de um Sul Global mais autônomo. O século XXI não será definido apenas pela oposição entre democracia e autoritarismo, mas pela disputa entre diferentes projetos de organização da ordem mundial.
Introdução — O mundo que parecia definitivo começou a mudar
Era uma manhã comum em São Paulo. Em uma cafeteria próxima à Avenida Paulista, dois executivos discutiam o preço da soja, a guerra na Ucrânia e as restrições americanas contra chips avançados destinados à China. Na mesa ao lado, um estudante assistia no celular a um vídeo sobre inteligência artificial chinesa competindo com empresas do Vale do Silício. Mais adiante, uma televisão transmitia notícias sobre a expansão dos BRICS, a guerra comercial entre grandes potências e a possibilidade de acordos internacionais fora do dólar.
À primeira vista, tudo parecia desconectado. Mas não estava.
A soja brasileira, os semicondutores de Taiwan, a guerra na Ucrânia, a inteligência artificial, os BRICS, o dólar, a OTAN, a China e os Estados Unidos fazem parte de uma mesma transformação histórica: a reorganização do sistema internacional.
Durante décadas, acreditou-se que o modelo liberal ocidental havia vencido definitivamente. A queda da União Soviética, em 1991, produziu a sensação de que democracia liberal, livre mercado, globalização e liderança norte-americana seriam o destino natural da humanidade. Francis Fukuyama sintetizou esse espírito ao falar no “fim da história”, expressão que não significava o fim dos acontecimentos, mas a suposta vitória final da democracia liberal como forma superior de organização política (Fukuyama, 1992).
Mas a história não acabou.
Ela apenas mudou de fase.
A tese central deste artigo é que a ordem liberal internacional não está desaparecendo como quem assiste a um prédio ruir. Ela continua existindo, mas deixou de ser exclusivamente ocidental. O que está em crise não é apenas um conjunto de instituições, mas o poder de um pequeno grupo de países — liderado pelos Estados Unidos — de definir sozinho as regras, os valores, as punições, as moedas, os padrões tecnológicos e os limites da legitimidade mundial.
A ordem liberal internacional, predominante desde 1945, vem sendo contestada com intensidade inédita, como reconhecem análises recentes sobre a fragmentação da ordem global liderada pelos EUA.
1. Como funciona o sistema internacional
Para compreender essa crise, é preciso explicar primeiro como funciona o sistema internacional.
Diferentemente de um Estado nacional, o sistema internacional não possui um governo central acima de todos os países. No Brasil, por exemplo, há Constituição, Poder Executivo, Legislativo, Judiciário, Forças Armadas, tribunais, polícia, orçamento público e instituições que organizam a vida coletiva. No plano internacional, não existe um “governo mundial” com autoridade plena sobre todos os Estados.
Por isso, as Relações Internacionais costumam dizer que o sistema internacional é “anárquico”. A palavra não significa bagunça absoluta, mas ausência de uma autoridade superior universal. Cada Estado é formalmente soberano. Em tese, Brasil, Estados Unidos, China, Rússia, França, Angola ou Paraguai possuem igualdade jurídica. Na prática, porém, são profundamente desiguais.
A desigualdade aparece em várias dimensões.
A primeira é o poder militar. Países com grandes Forças Armadas, armas nucleares, bases militares, satélites, mísseis, submarinos e alianças estratégicas possuem capacidade de impor custos aos adversários. Estados Unidos, Rússia e China são exemplos claros dessa dimensão.
A segunda é o poder econômico. Tamanho do PIB, controle de mercados, capacidade de investimento, moeda forte, bancos influentes, reservas internacionais e domínio sobre cadeias produtivas definem a margem de ação de cada país.
A terceira é o poder institucional. Alguns países têm mais influência em organismos como ONU, FMI, Banco Mundial, OMC, OTAN, G7, G20 e bancos regionais. Quem ocupa cargos, financia instituições e escreve regras também molda comportamentos.
A quarta é o poder tecnológico. No século XXI, não basta ter território e população. É preciso dominar semicondutores, inteligência artificial, computação em nuvem, biotecnologia, satélites, energia, cabos submarinos, plataformas digitais e centros de dados.
A quinta é o poder simbólico. Nenhuma ordem mundial se sustenta apenas pela força. Ela precisa convencer. Precisa parecer legítima. Precisa dizer ao mundo: “este sistema é justo, racional, moderno e inevitável”.
Durante boa parte do pós-guerra, os Estados Unidos reuniram essas cinco dimensões de forma excepcional. Tinham força militar, economia gigantesca, moeda dominante, universidades de ponta, indústria cultural, empresas tecnológicas e capacidade de organizar instituições globais.
É isso que chamamos de hegemonia.
Hegemonia não é apenas mandar. É fazer com que os outros aceitem determinada liderança como natural, necessária ou benéfica.
2. O nascimento da ordem liberal internacional após 1945
Ao final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como a maior potência econômica, militar e industrial do planeta. A Europa estava devastada. O Japão destruído. A União Soviética havia vencido militarmente, mas ao custo de enorme desgaste humano e material.
Nesse cenário, Washington liderou a construção de uma nova arquitetura internacional baseada em instituições multilaterais, estabilidade financeira, reconstrução econômica, contenção do comunismo e expansão do capitalismo liberal.
Em 1944, antes mesmo do fim oficial da guerra, ocorreu a Conferência de Bretton Woods. Dela nasceram o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. O objetivo formal era estabilizar o sistema financeiro internacional e financiar a reconstrução. Mas, na prática, Bretton Woods também consolidou a centralidade dos Estados Unidos no capitalismo global. O Banco Mundial reconhece Bretton Woods como marco fundador de sua própria história institucional.
O dólar tornou-se a principal moeda internacional. Inicialmente vinculado ao ouro, passou a ocupar posição central nas trocas comerciais, nas reservas financeiras e nos contratos internacionais. Isso deu aos Estados Unidos uma vantagem extraordinária: o país podia financiar déficits, projetar poder e influenciar fluxos globais por meio da moeda.
Em 1945, nasceu a Organização das Nações Unidas. Seu objetivo era evitar novas guerras globais e criar um espaço permanente de negociação. Contudo, a própria estrutura do Conselho de Segurança refletia a realidade do poder no pós-guerra: Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido, França e China receberam assentos permanentes com poder de veto.
Em 1949, foi criada a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a OTAN, aliança militar liderada pelos Estados Unidos para organizar a defesa do bloco ocidental diante da União Soviética.
No comércio, o GATT e, posteriormente, a Organização Mundial do Comércio, ajudaram a estruturar regras multilaterais de redução de barreiras comerciais. A OMC preserva em sua própria memória institucional a centralidade do GATT na construção do sistema multilateral de comércio do pós-guerra.
Assim nasceu a chamada ordem liberal internacional.
Ela combinava mercados abertos, instituições multilaterais, cooperação internacional, democracia liberal, direitos humanos, segurança coletiva e liderança americana. Mas essa combinação tinha uma tensão interna: apresentava-se como universal, embora dependesse fortemente da hegemonia dos Estados Unidos.
3. A contradição original: universalismo liberal e hegemonia americana
A ordem liberal sempre carregou uma contradição estrutural.
Ela dizia falar em nome da humanidade, mas foi desenhada sob liderança ocidental. Falava em regras globais, mas quem tinha mais poder para escrever, interpretar e aplicar essas regras eram os Estados Unidos e seus aliados.
Essa crítica não significa negar suas conquistas. Seria intelectualmente desonesto ignorar que a ordem liberal contribuiu para a reconstrução europeia, a expansão do comércio, a criação de instituições diplomáticas e a redução de algumas barreiras econômicas. O problema é outro: a ordem liberal prometia igualdade jurídica, mas funcionava sobre uma desigualdade material profunda.
Países periféricos muitas vezes experimentaram essa ordem não como liberdade, mas como dependência financeira, ajuste fiscal, abertura econômica assimétrica, reprimarização produtiva e vulnerabilidade externa.
A promessa era “mercados abertos”. A experiência concreta, para muitos, foi concorrência desigual.
A promessa era “cooperação internacional”. A experiência concreta, para muitos, foi pressão diplomática.
A promessa era “ordem baseada em regras”. A experiência concreta, para muitos, foi seletividade: regras rígidas para adversários, flexíveis para aliados.
Essa contradição explica por que a crise atual não pode ser entendida apenas como resultado da ambição chinesa ou da agressividade russa. A ordem liberal também entrou em crise porque perdeu parte de sua legitimidade aos olhos de sociedades ocidentais, países periféricos e potências emergentes.
John Mearsheimer, numa crítica realista, argumenta que a ordem liberal do pós-Guerra Fria estava fadada a enfrentar dificuldades porque buscava universalizar uma arquitetura liberal num mundo ainda estruturado por nacionalismos, competição de grandes potências e preocupações de segurança. O próprio autor sustenta que a ordem liberal ajudou a acelerar a ascensão chinesa e, com isso, contribuiu para a passagem de um sistema unipolar para um sistema multipolar.
4. O momento unipolar e a ilusão do fim da história
A queda da União Soviética, em 1991, produziu algo raro na história: uma potência sem rival equivalente.
Os Estados Unidos passaram a ocupar posição militar, financeira, diplomática e tecnológica sem precedentes modernos. A OTAN permaneceu. O capitalismo financeiro se expandiu. Países do antigo bloco soviético adotaram reformas de mercado. A internet começou a conectar empresas, bancos, governos e indivíduos numa velocidade inédita.
Foi o chamado “momento unipolar”.
Naquele contexto, parecia plausível imaginar que a democracia liberal havia vencido definitivamente. Fukuyama captou esse clima intelectual ao afirmar que a democracia liberal poderia representar o ponto final da evolução político-ideológica da humanidade (Fukuyama, 1992).
Mas havia um erro nessa leitura.
O liberalismo parecia universal porque seus principais adversários estavam enfraquecidos. A Rússia estava em crise. A China ainda não havia se tornado potência global. O Sul Global enfrentava dívida, dependência e ajuste estrutural. A Europa vivia otimismo integracionista. Os Estados Unidos estavam no auge.
A história parecia resolvida porque a correlação de forças era excepcionalmente favorável ao Ocidente.
Mas correlações de força mudam.
E mudaram.
5. A globalização criou o maior rival dos Estados Unidos
A maior ironia da globalização liberal é que ela ajudou a criar o principal rival estratégico dos Estados Unidos: a China.
A transformação chinesa começou no final dos anos 1970, com Deng Xiaoping. A China iniciou reformas econômicas orientadas para industrialização, exportação, atração de investimentos e modernização produtiva. Mas fez isso sem abandonar o controle político do Partido Comunista Chinês.
O Ocidente interpretou esse processo como oportunidade. Empresas americanas e europeias enxergaram mão de obra barata, mercado consumidor gigantesco e ganhos de escala.
A aposta ocidental era simples: ao enriquecer, a China se liberalizaria politicamente.
Essa aposta não se confirmou.
A entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001, acelerou sua integração produtiva ao mundo. A China tornou-se a grande fábrica global. Cadeias produtivas foram transferidas para seu território. Multinacionais ampliaram lucros. Consumidores ocidentais passaram a comprar produtos mais baratos. Mas, ao mesmo tempo, a base industrial de muitos países ocidentais foi enfraquecida.
O Banco Mundial registra que, desde as reformas iniciadas em 1978, a China apresentou crescimento médio superior a 9% ao ano durante décadas e retirou cerca de 800 milhões de pessoas da extrema pobreza, transformando-se de país de baixa renda em país de renda média-alta.
Esse é um dos maiores processos de transformação econômica da história moderna.
A China deixou de ser apenas fornecedora de mão de obra barata. Tornou-se potência industrial, tecnológica, comercial e financeira. Hoje disputa liderança em energia solar, veículos elétricos, baterias, telecomunicações, inteligência artificial, drones, infraestrutura e comércio digital.
Dados recentes do Banco Mundial indicam que o PIB chinês alcançou US$ 18,74 trilhões em 2024, consolidando o país como uma das maiores economias do planeta.
A globalização, portanto, não destruiu a China. Ela fortaleceu a China.
E a China não quer destruir completamente a globalização. Quer reorganizá-la.
6. Belt and Road Initiative: infraestrutura como poder
A Belt and Road Initiative, lançada por Xi Jinping em 2013, é uma das expressões mais claras da nova estratégia chinesa.
Trata-se de uma iniciativa que combina infraestrutura, comércio, financiamento, logística, energia, telecomunicações, portos, ferrovias, rodovias e corredores econômicos. A China investe em rotas físicas e digitais para ampliar sua presença na Ásia, África, Europa, Oriente Médio e América Latina.
Um porto não é apenas um porto.
Uma ferrovia não é apenas uma ferrovia.
Um cabo submarino não é apenas um cabo.
Cada infraestrutura cria dependência, influência, fluxo econômico, vínculo financeiro e presença estratégica.
Estudos recentes destacam que a BRI deve ser compreendida como estratégia global de desenvolvimento e expansão de influência chinesa, com impactos diretos sobre negócios internacionais, infraestrutura e política econômica.
O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos também observa que a BRI aprofundou relações chinesas com países em desenvolvimento e serviu a ambições de Pequim em desenvolvimento regional, comércio internacional e influência geopolítica.
Aqui está uma diferença importante entre o poder chinês e o poder ocidental tradicional. O Ocidente frequentemente ofereceu aos países em desenvolvimento reformas institucionais, recomendações econômicas, empréstimos condicionados e discursos normativos. A China oferece infraestrutura.
Isso não significa que a proposta chinesa seja altruísta. Nenhuma grande potência age por pura generosidade. A China busca interesses próprios, amplia dependências e projeta poder. Mas muitos países do Sul Global olham para essa oferta de modo pragmático: quem financia estrada, porto, energia e ferrovia ganha atenção.
No mundo real, desenvolvimento não se faz apenas com discurso. Faz-se com infraestrutura, energia, logística, educação, tecnologia e crédito.
7. A crise começou dentro do próprio Ocidente
É confortável afirmar que a crise da ordem liberal foi provocada por China e Rússia. Mas isso é apenas parte da verdade.
A crise começou também dentro do próprio Ocidente.
A desindustrialização, a financeirização, a precarização do trabalho, a desigualdade crescente e a perda de confiança nas elites corroeram a legitimidade das democracias liberais.
Durante décadas, as elites políticas e econômicas prometeram que a globalização beneficiaria todos. Mas muitos trabalhadores viram fábricas fecharem, empregos desaparecerem, salários estagnarem e comunidades inteiras perderem futuro.
Quando uma fábrica fecha, não fecha apenas um CNPJ. Fecha uma rede social inteira: emprego, comércio local, autoestima, identidade coletiva, sindicato, escola, perspectivas para os filhos e horizonte de vida.
Thomas Piketty argumenta que o capitalismo contemporâneo intensificou mecanismos de concentração patrimonial e ampliou desigualdades, especialmente quando a rentabilidade do capital supera o crescimento da economia (Piketty, 2014).
Dani Rodrik também chama atenção para a tensão entre hiperglobalização, soberania nacional e democracia. Quanto mais os países se submetem a fluxos globais desregulados, menor tende a ser a capacidade democrática de definir políticas internas de acordo com interesses sociais nacionais (Rodrik, 2011).
O resultado político apareceu com força em 2016.
O Brexit expressou o ressentimento de parte da sociedade britânica contra a União Europeia, a imigração, a burocracia supranacional e a percepção de perda de soberania.
A eleição de Donald Trump expressou o ressentimento de setores americanos contra a globalização, a China, as elites cosmopolitas, a imigração e a perda de empregos industriais.
Brexit e Trump não foram acidentes. Foram sintomas.
A ordem liberal começou a perder legitimidade dentro de suas próprias sociedades.
8. Redes sociais, polarização e crise democrática
A crise econômica foi agravada por uma crise informacional.
A internet, inicialmente celebrada como espaço de democratização do conhecimento, tornou-se também ambiente de polarização, radicalização e manipulação política. Redes sociais passaram a organizar o debate público por meio de algoritmos que recompensam engajamento, indignação, medo e conflito.
A democracia liberal depende de instituições, imprensa livre, debate racional e confiança mínima entre adversários. Mas o ambiente digital fragmentou a esfera pública em bolhas emocionais.
A política passou a operar como guerra cultural permanente.
Nesse contexto, a ordem liberal sofreu por dentro. Não foi apenas contestada por potências externas. Foi corroída por desigualdade, ressentimento, desinformação e descrença institucional.
O paradoxo é evidente: o Ocidente defendia democracia liberal para o mundo, mas suas próprias democracias passaram a enfrentar crise de confiança, populismo, radicalização e erosão institucional.
9. Rússia, OTAN e o retorno da geopolítica clássica
A Rússia ocupa lugar diferente nessa crise.
Diferentemente da China, que cresceu dentro da globalização econômica, Moscou construiu sua contestação principalmente no campo da segurança, da soberania territorial e da resistência à expansão ocidental.
Após o fim da Guerra Fria, muitos imaginaram que a Rússia seria integrada à ordem liberal. Isso não aconteceu plenamente. A expansão da OTAN para o Leste Europeu foi interpretada por Moscou como ameaça estratégica.
Essa leitura não justifica agressões militares. A invasão da Ucrânia violou gravemente a soberania de um Estado independente. Mas compreender a visão russa é necessário para analisar a crise da ordem europeia.
Para a Rússia, a expansão da OTAN representou a continuidade de uma ordem unipolar liderada pelo Ocidente. Para o Ocidente, a expansão da OTAN representou a livre escolha de países do Leste Europeu que buscavam proteção contra Moscou.
Essas duas narrativas colidiram dramaticamente na Ucrânia.
A guerra recolocou no centro conceitos clássicos: soberania, equilíbrio de poder, zona de influência, segurança territorial e multipolaridade.
O vocabulário otimista dos anos 1990 — integração, globalização, interdependência, liberalização — passou a conviver novamente com o vocabulário duro da geopolítica.
A guerra na Ucrânia mostrou que a política de potência nunca desapareceu. Ela apenas ficou temporariamente encoberta pela supremacia americana.
10. O verdadeiro conflito do século XXI
O discurso ocidental costuma apresentar o mundo atual como uma disputa entre democracia e autoritarismo. Essa oposição existe e é relevante. Mas ela não explica tudo.
O conflito contemporâneo é mais profundo.
Trata-se de uma disputa entre diferentes modelos de organização da ordem global.
Os Estados Unidos defendem uma ordem liberal baseada em instituições, mercados, alianças militares, democracia representativa e liderança ocidental.
A China propõe uma globalização estatal, infraestrutural, tecnológica e pragmática, na qual desenvolvimento econômico, soberania nacional e controle político pesam mais que liberalização democrática.
A Rússia defende uma ordem multipolar centrada em soberania, equilíbrio de poder, segurança territorial e contenção da influência ocidental.
O Sul Global busca margem de manobra, autonomia, investimento, comércio e menor submissão a qualquer bloco.
Portanto, talvez o verdadeiro conflito do século XXI não seja apenas entre democracia e autoritarismo. Talvez seja entre diferentes projetos de organização da vida internacional.
Quem definirá as regras?
Quem controlará as moedas?
Quem dominará a inteligência artificial?
Quem fabricará os semicondutores?
Quem terá energia?
Quem controlará dados?
Quem financiará infraestrutura?
Quem definirá o que é legítimo e ilegítimo?
Essas perguntas estruturam a nova ordem mundial.
11. Tecnologia, inteligência artificial e soberania
A disputa mundial deixou de ser apenas militar.
Hoje, poder significa controlar tecnologia.
Semicondutores são essenciais para inteligência artificial, computadores, satélites, sistemas militares, carros elétricos, celulares, hospitais, telecomunicações e bancos.
Inteligência artificial depende de dados, chips, energia, centros de processamento, talentos científicos, infraestrutura de nuvem e capacidade de investimento.
Energia define a base material da economia digital. Data centers, IA, fábricas de chips e redes digitais consomem quantidades crescentes de eletricidade.
Cabos submarinos transportam dados financeiros, militares, diplomáticos e comerciais.
Satélites organizam comunicação, agricultura, defesa e logística.
Quem domina essas estruturas controla parte do futuro.
Por isso, os Estados Unidos restringem o acesso chinês a chips avançados. Por isso, a China busca autossuficiência tecnológica. Por isso, a Europa fala em soberania digital. Por isso, países emergentes começam a perceber que não existe soberania política sem soberania tecnológica.
A globalização não acabou. Ela foi securitizada.
Antes, falava-se em eficiência econômica. Agora, fala-se em segurança estratégica.
Antes, as empresas buscavam apenas menor custo. Agora, governos perguntam: podemos depender de um rival para fabricar aquilo que sustenta nossa economia e nossa defesa?
Essa mudança altera profundamente a ordem liberal.
O mundo dos mercados abertos dá lugar a um mundo de cadeias produtivas politizadas.
12. O Sul Global e a busca por autonomia
A multipolaridade abre espaço para países que antes tinham pouca margem de ação.
Brasil, Índia, África do Sul, Indonésia, Turquia, México, Arábia Saudita e outros países buscam ampliar autonomia. Não querem necessariamente escolher entre Washington e Pequim. Querem negociar com ambos.
Essa postura não é neutralidade passiva. É pragmatismo estratégico.
O Sul Global representa parcela expressiva da população, dos recursos naturais, da energia, dos minerais críticos, da biodiversidade, da produção agrícola e dos mercados consumidores emergentes. Análises recentes indicam que essa região vem ganhando relevância em fluxos de capital, comércio e energia, embora ainda enfrente limitações institucionais e financeiras.
A questão central é transformar potencial em poder.
Ter recursos naturais não basta. É preciso tecnologia.
Ter população não basta. É preciso educação.
Ter território não basta. É preciso infraestrutura.
Ter diplomacia não basta. É preciso projeto nacional.
A multipolaridade pode ampliar a margem dos países emergentes, mas também pode aumentar pressões. Países sem estratégia podem virar apenas território de disputa entre grandes potências.
13. O Brasil diante da nova ordem mundial
O Brasil ocupa posição estratégica.
É potência territorial, alimentar, ambiental, energética e diplomática. Possui água, biodiversidade, matriz energética relativamente limpa, agricultura competitiva, reservas minerais, mercado interno expressivo e tradição diplomática.
Mas potencial não é destino.
O Brasil pode ser ator relevante da multipolaridade ou fornecedor subordinado de commodities para projetos alheios.
A China é hoje parceira comercial fundamental para o Brasil. O agronegócio brasileiro depende fortemente do mercado chinês. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam relevantes em finanças, tecnologia, defesa, diplomacia, ciência e investimentos.
O erro seria escolher submissão automática a qualquer lado.
O interesse nacional brasileiro exige autonomia estratégica.
Isso significa dialogar com Estados Unidos, China, Europa, Rússia, Índia, África e América Latina sem transformar política externa em alinhamento ideológico cego.
A nova ordem exige do Brasil cinco prioridades.
Primeira: soberania tecnológica. Não haverá país soberano na era da inteligência artificial sem ciência, universidades fortes, formação técnica, infraestrutura digital e capacidade computacional.
Segunda: política industrial. Exportar soja, carne, minério e petróleo é importante, mas insuficiente. O Brasil precisa agregar valor, industrializar cadeias e dominar tecnologias associadas ao agro, à energia, à saúde, à defesa e à educação.
Terceira: diplomacia ativa. O país deve ampliar presença em fóruns internacionais, fortalecer os BRICS, dialogar com o G20, preservar relações com EUA e União Europeia e liderar agendas ambientais e alimentares.
Quarta: defesa ambiental soberana. A Amazônia será cada vez mais central na geopolítica global. O Brasil deve protegê-la não por submissão externa, mas por interesse nacional e responsabilidade civilizatória.
Quinta: educação. Nenhuma soberania se sustenta com baixa formação científica, escolas frágeis e desigualdade educacional. A competição do século XXI será também uma competição por conhecimento.
14. A nova ordem será multipolar, fragmentada e instável
O mundo que está surgindo será menos confortável que o imaginado pelos liberais dos anos 1990.
A crença de que a interdependência econômica eliminaria grandes conflitos mostrou-se ingênua. Estados continuam buscando poder. Grandes potências continuam defendendo zonas de influência. Tecnologia ampliou cooperação, mas também ampliou vigilância, guerra informacional e dependência.
A nova ordem será multipolar, porque haverá vários centros de poder.
Será fragmentada, porque cadeias globais serão reorganizadas por critérios políticos.
Será competitiva, porque tecnologia, energia, dados e infraestrutura serão disputados como recursos estratégicos.
Será menos universalista, porque diferentes civilizações, regimes e modelos econômicos disputarão legitimidade.
Mas multipolaridade não significa justiça automática.
Um mundo multipolar pode ser mais equilibrado, mas também mais instável. Pode abrir espaço para países emergentes, mas também multiplicar conflitos regionais. Pode reduzir o monopólio ocidental, mas não garante uma ordem mais democrática.
A questão decisiva será criar mecanismos de governança capazes de evitar que a competição entre grandes potências se transforme em guerra aberta, colapso climático, fragmentação tecnológica irreversível ou crise econômica permanente.
Conclusão — O fim de uma ilusão
A ordem liberal internacional não está simplesmente chegando ao fim. O que está chegando ao fim é a ilusão de que o Ocidente poderia organizar sozinho o destino do planeta.
A globalização criou interdependência, mas também criou novos competidores. A China usou os mecanismos do mercado global para se tornar potência industrial e tecnológica. A Rússia reagiu militarmente à expansão da ordem euro-atlântica. O Sul Global passou a exigir mais voz. E as próprias sociedades ocidentais começaram a questionar os custos sociais da globalização liberal.
Os Estados Unidos continuarão sendo potência central. O dólar continuará relevante. A OTAN continuará importante. A ONU, o FMI, o Banco Mundial e a OMC continuarão existindo. Mas nada disso terá o mesmo significado político de antes.
O mundo deixou de ser unipolar.
A China não quer apenas participar da ordem existente. Quer reorganizá-la.
A Rússia não quer apenas segurança. Quer reconhecimento como polo de poder.
O Sul Global não quer apenas ajuda. Quer autonomia, infraestrutura, tecnologia e voz.
O Brasil, nesse cenário, precisa escolher entre ser objeto da disputa ou sujeito da própria estratégia. Não basta repetir slogans sobre multipolaridade. É preciso construir capacidade nacional: ciência, indústria, educação, tecnologia, diplomacia, energia, defesa e coesão social.
A pergunta central do século XXI não é se haverá uma nova ordem mundial. Ela já está em formação.
A pergunta real é outra: quem terá poder para organizá-la?
E, mais importante ainda: com quais valores?
Se a nova ordem for apenas uma troca de hegemonias, o mundo substituirá um centro por outro. Mas se a multipolaridade abrir espaço para soberania, desenvolvimento, cooperação e justiça internacional, talvez a crise atual possa ser mais do que declínio. Talvez possa ser transição.
A história ainda está aberta.
Mas uma coisa já parece evidente: o planeta deixou de aceitar uma única voz como intérprete oficial do futuro.
A ordem mundial não desapareceu.
Ela está em disputa.
Referências bibliográficas
ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. São Paulo: Boitempo, 2008.
BANCO MUNDIAL. China. Washington, DC: World Bank, 2026. Disponível em: World Bank Data. Acesso em: 18 maio 2026.
CHATHAM HOUSE. Competing visions of international order: the fracturing of the US-led liberal international order. Londres: Chatham House, 2025.
FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
HELLEINER, Eric. Forgotten foundations of Bretton Woods: international development and the making of the postwar order. Ithaca: Cornell University Press, 2014.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
IKENBERRY, G. John. After victory: institutions, strategic restraint, and the rebuilding of order after major wars. Princeton: Princeton University Press, 2001.
IKENBERRY, G. John. Liberal leviathan: the origins, crisis, and transformation of the American world order. Princeton: Princeton University Press, 2011.
JUDT, Tony. Pós-guerra: uma história da Europa desde 1945. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
KISSINGER, Henry. Ordem mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
KRAUTHAMMER, Charles. The unipolar moment. Foreign Affairs, New York, v. 70, n. 1, p. 23-33, 1990.
LI, Jing et al. The Belt and Road Initiative and international business policy. Journal of International Business Policy, London, 2022.
MEARSHEIMER, John J. Bound to fail: the rise and fall of the liberal international order. International Security, Cambridge, v. 43, n. 4, p. 7-50, 2019.
MEARSHEIMER, John J. Why the Ukraine crisis is the West’s fault. Foreign Affairs, New York, v. 93, n. 5, p. 77-89, 2014.
PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
RODRIK, Dani. The globalization paradox: democracy and the future of the world economy. New York: W. W. Norton, 2011.
VOGEL, Ezra. Deng Xiaoping and the transformation of China. Cambridge: Harvard University Press, 2011.
WALLERSTEIN, Immanuel. O sistema mundial moderno. Porto: Afrontamento, 1990.
WORLD TRADE ORGANIZATION. The GATT years: from Havana to Marrakesh. Geneva: WTO, 2026.
ZAKARIA, Fareed. O mundo pós-americano. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Nenhum comentário:
Postar um comentário