O crescimento evangélico brasileiro não pode ser explicado por estereótipos: trata-se de um fenômeno religioso, social, econômico e político que nasceu da ausência do Estado, ganhou força nas periferias e hoje disputa o centro do poder nacional.
Introdução — a tese
Numa noite de quarta-feira, em uma periferia qualquer do Brasil, uma mulher chega cansada do trabalho, deixa a marmita lavada na pia, confere se os filhos fizeram a tarefa da escola e se arruma para ir ao culto. Ela não vai apenas “à igreja”. Vai encontrar gente que pergunta se ela está bem. Vai ouvir uma palavra que reorganiza o caos da semana. Vai pedir oração pelo filho desempregado. Vai saber se alguém conhece uma vaga de serviço. Vai contribuir com o pouco que tem e, muitas vezes, receber ajuda quando faltar gás, remédio ou alimento.
É nesse cotidiano simples, real e profundamente brasileiro que se deve começar qualquer análise séria sobre os evangélicos no país.
A tese deste artigo é direta: o universo evangélico brasileiro não é um bloco uniforme, nem pode ser reduzido à caricatura política construída no debate público. Ele é uma rede plural de fé, pertencimento, apoio comunitário e mobilização social que, nas últimas décadas, transformou-se também em uma das forças políticas mais influentes do Brasil contemporâneo.
Os dados mais recentes do Censo 2022 indicam que os evangélicos chegaram a 26,9% da população brasileira, enquanto os católicos seguem majoritários, com 56,7%, mas em trajetória de queda histórica. O IBGE também registra crescimento dos sem religião e das religiões afro-brasileiras, mostrando que o Brasil religioso está mais plural do que jamais foi.
Portanto, compreender os evangélicos é compreender o Brasil real: feminino, negro, periférico, trabalhador, vulnerável, empreendedor, conservador em certos valores, mas também atravessado por necessidades concretas de emprego, segurança, saúde, acolhimento e dignidade.
1. Das raízes protestantes ao pentecostalismo popular
O termo “evangélico” é amplo. Ele reúne denominações muito diferentes entre si. Há igrejas históricas, como luteranas, presbiterianas, metodistas, batistas e anglicanas, com raízes na Reforma Protestante do século XVI. Há também pentecostais e neopentecostais, cuja expansão no Brasil se deu com enorme força ao longo do século XX.
A Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero em 1517, rompeu com a centralidade institucional da Igreja Católica e afirmou princípios como a autoridade das Escrituras, a salvação pela fé e o sacerdócio universal dos crentes. Séculos depois, esses ramos chegaram ao Brasil, especialmente no século XIX, vinculados a fluxos migratórios, missões estrangeiras e formação de comunidades confessionais.
Mas o grande salto numérico dos evangélicos brasileiros não veio apenas dos protestantes históricos. Veio, sobretudo, do pentecostalismo.
A primeira grande onda pentecostal no Brasil tem como marco a fundação da Assembleia de Deus, em 1911. A segunda, entre os anos 1950 e 1960, fortaleceu igrejas centradas em cura, milagre e uso intenso do rádio. A terceira, a partir dos anos 1970, consolidou o neopentecostalismo, com destaque para a Igreja Universal do Reino de Deus e para a incorporação da teologia da prosperidade, da guerra espiritual e de uma linguagem empresarial da fé.
Ricardo Mariano mostra que o neopentecostalismo rompeu com parte do ascetismo protestante tradicional. Em vez de ver a riqueza com suspeita, passou a tratá-la como sinal possível de bênção, vitória e superação. Essa mudança não é pequena. Ela permitiu que a fé se aproximasse da linguagem do empreendedorismo, da autoconfiança e da mobilidade social (Mariano, 1999). A pesquisa de Mariano sobre teologia da prosperidade identifica essa doutrina como uma das transformações centrais do neopentecostalismo brasileiro.
2. A face real do evangélico brasileiro
O imaginário público costuma tratar os evangélicos como se fossem um grupo homogêneo, comandado de cima para baixo por pastores e automaticamente alinhado a uma agenda política conservadora. Essa leitura é pobre.
Segundo pesquisa Datafolha divulgada em 2020, a face típica do evangélico brasileiro era majoritariamente feminina e negra: mulheres correspondiam a 58% do grupo, e pretos e pardos somavam 59% dos fiéis.
Esse dado muda tudo. Quando se fala em “evangélicos”, não se está falando apenas de grandes lideranças midiáticas, deputados religiosos ou empresários da fé. Está-se falando de mulheres trabalhadoras, mães solo, jovens periféricos, pequenos comerciantes, diaristas, motoristas, agricultores, desempregados, famílias que vivem na fricção diária entre fé e sobrevivência.
O Censo 2022 reforça que os evangélicos continuam crescendo, embora em ritmo que exige análise cuidadosa. Eles passaram de 21,6% em 2010 para 26,9% em 2022. A Região Norte apresentou a maior proporção, com 36,8%, seguida pelo Centro-Oeste, com 31,4%. O Acre registrou a maior proporção estadual, 44,4%.
Aqui há uma chave sociológica importante: o crescimento evangélico acompanha regiões marcadas por urbanização acelerada, periferização, fragilidade de serviços públicos e busca por redes comunitárias de apoio.
3. A igreja como rede de proteção onde o Estado falha
Juliano Spyer argumenta que, para muitos brasileiros pobres, a igreja evangélica não é apenas espaço espiritual. É também rede de acolhimento, reconstrução moral, disciplina cotidiana, apoio emocional e possibilidade de reorganização da vida. Resenhas e apresentações de sua obra destacam que a conversão pode reforçar autoestima, afastar jovens do crime, apoiar dependentes químicos e estimular investimento familiar em educação e saúde.
Isso não significa romantizar igrejas. Significa enxergar sua função social concreta.
Onde o Estado chega tarde, a igreja chega à noite. Onde falta psicólogo, há aconselhamento. Onde falta assistência social, há cesta básica. Onde falta política pública de reinserção, há grupo de apoio. Onde falta rede profissional, há indicação de emprego. Onde falta reconhecimento, há pertencimento.
Esse é o ponto que parte da elite brasileira não compreende. Muitos olham para a igreja evangélica apenas como máquina eleitoral. Mas, para milhões de pessoas, ela é antes de tudo uma infraestrutura de sobrevivência.
É claro que essa infraestrutura pode ser usada politicamente. Pode constranger. Pode manipular. Pode pressionar. Mas também pode salvar vínculos, recuperar trajetórias e criar sentido para vidas marcadas por humilhação social.
Essa ambiguidade é o coração do fenômeno.
4. A tríade teológica: prosperidade, guerra espiritual e domínio
Três correntes ajudam a explicar a força contemporânea de parte do evangelicalismo brasileiro.
A primeira é a teologia da prosperidade. Ela associa fé, vitória, saúde, progresso material e superação. Seu apelo é forte porque conversa com a experiência de quem vive no limite. Para quem nunca teve estabilidade, a promessa de prosperar não é luxo. É esperança.
A segunda é a teologia da guerra espiritual. Nela, o mundo social passa a ser lido como batalha entre forças do bem e do mal. Problemas individuais, familiares, políticos e culturais podem ser interpretados como expressão de uma luta espiritual. Essa visão cria pertencimento, mas também pode estimular demonizações simbólicas de adversários, religiões e grupos sociais.
A terceira é a teologia do domínio, segundo a qual os cristãos deveriam ocupar espaços de poder para orientar a sociedade segundo valores bíblicos. Essa perspectiva ajuda a explicar a passagem do antigo lema “crente não se mete em política” para a lógica “irmão vota em irmão”.
Quando essas três dimensões se articulam, a igreja deixa de ser apenas espaço de culto. Torna-se escola de comportamento, rede econômica, instrumento de mobilização e projeto de poder.
5. A politização da fé
A presença evangélica na política não nasceu ontem. Mas ganhou nova escala a partir da redemocratização e, especialmente, da organização de bancadas parlamentares.
A Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional foi formalmente constituída em 2003 e reúne parlamentares de diferentes partidos. A própria Câmara dos Deputados mantém página oficial com seus membros, mostrando sua institucionalização no Legislativo.
A força da chamada bancada evangélica não depende apenas do número de parlamentares diretamente vinculados a igrejas. Depende de sua capacidade de articulação com outras bancadas, como as ligadas à segurança pública, ao agronegócio e ao liberalismo econômico.
Sua agenda pública costuma se organizar em quatro eixos: moralidade, ordem, economia e polarização.
Na moralidade, aparecem pautas contra o aborto, contra a educação sexual nas escolas e contra políticas de gênero. Na ordem, defende-se endurecimento penal e segurança pública ostensiva. Na economia, há aproximação com propostas de menor intervenção estatal. Na polarização, adversários políticos e religiosos podem ser apresentados como ameaça à família, à fé e à nação.
Ronaldo Almeida analisa esse campo como parte de um conservadorismo que combina moral religiosa, segurança, economia e disputa cultural. Não se trata apenas de religião invadindo a política. Trata-se de política aprendendo a usar a religião como linguagem de mobilização afetiva.
6. Bolsonaro, Lula e o voto evangélico
O voto evangélico tornou-se decisivo nas eleições recentes. Em 2018, levantamentos indicavam apoio expressivo de evangélicos a Jair Bolsonaro. Uma resenha acadêmica da obra de Amy Erica Smith registra que quase 70% dos evangélicos brasileiros declaravam intenção de voto em Bolsonaro em outubro de 2018.
Em 2022, o segmento continuou majoritariamente inclinado a Bolsonaro, embora Lula tenha vencido a eleição geral. Isso revela algo importante: o voto evangélico é forte, mas não é absoluto; é conservador em boa parte, mas não é unanimidade; é influenciado por lideranças, mas também por inflação, desemprego, renda, memória política, programas sociais e experiência cotidiana.
Amy Erica Smith, em Religion and Brazilian Democracy, analisa como igrejas podem funcionar como mecanismos de mobilização política, especialmente em temas de moralidade sexual e agendas conservadoras. Sua obra é referência para compreender a relação entre religião e democracia no Brasil contemporâneo.
O problema aparece quando a fé deixa de orientar valores e passa a operar como mecanismo de coerção eleitoral. Há relatos de fiéis que se sentiram constrangidos em comunidades religiosas por divergirem politicamente de suas lideranças. Esse é um ponto delicado. A liberdade religiosa é direito fundamental. Mas a liberdade política do fiel também é.
Nenhuma igreja deveria funcionar como curral eleitoral. Nenhum pastor deveria transformar púlpito em comitê. Nenhum partido deveria tratar fiéis como massa obediente. E nenhum analista sério deveria desprezar os evangélicos como se fossem incapazes de pensar.
7. O erro das caricaturas
Há dois erros comuns no debate público.
O primeiro é demonizar os evangélicos como se todos fossem autoritários, intolerantes ou manipulados. Essa leitura é preconceituosa e sociologicamente fraca.
O segundo é idealizar o movimento evangélico como se toda sua presença pública fosse expressão pura de fé e moralidade. Essa leitura ignora relações de poder, interesses econômicos, máquinas midiáticas, disputas institucionais e projetos políticos.
O fenômeno evangélico brasileiro precisa ser analisado em sua contradição.
Ele acolhe e disciplina. Liberta e controla. Dá pertencimento e pode produzir vigilância moral. Forma redes solidárias e pode gerar redes eleitorais. Ajuda pobres e, às vezes, legitima agendas econômicas que reduzem a proteção social dos próprios pobres. Defende família, mas pode silenciar violências dentro da família. Prega amor, mas algumas lideranças usam a fé como arma cultural.
É exatamente por isso que o tema exige maturidade intelectual.
8. A questão democrática
O crescimento evangélico em si não ameaça a democracia. Democracia pressupõe pluralidade religiosa, liberdade de culto e participação política de todos os grupos sociais.
O risco aparece quando qualquer grupo religioso, seja ele qual for, passa a defender que o Estado deve se submeter a uma única visão teológica. O Estado democrático de direito precisa proteger a liberdade religiosa justamente porque não pertence a uma religião específica.
Estado laico não é Estado antirreligioso. É o contrário. É o Estado que garante que evangélicos, católicos, espíritas, umbandistas, candomblecistas, judeus, muçulmanos, ateus e pessoas sem religião possam existir sem perseguição institucional.
Quando uma fé tenta capturar o Estado, ela enfraquece a liberdade das demais. E, no limite, enfraquece a si mesma, porque transforma espiritualidade em instrumento de governo.
Conclusão crítica
O Brasil evangélico é uma das maiores transformações sociais do país nas últimas décadas. Não nasceu apenas da pregação. Nasceu da ausência do Estado, da força das mulheres periféricas, da busca por dignidade, da dor cotidiana, da necessidade de pertencimento e da capacidade extraordinária das igrejas de criar comunidade onde havia abandono.
Mas essa mesma força social tornou-se potência política. E toda potência política precisa ser analisada criticamente.
O desafio brasileiro não é combater os evangélicos. É compreendê-los sem preconceito e sem ingenuidade. É reconhecer que há fé sincera, trabalho comunitário e reconstrução de vidas. Mas também há instrumentalização eleitoral, pressão moral, intolerância religiosa e projetos de poder.
O futuro da democracia brasileira passará, inevitavelmente, pelo diálogo com esse universo. Não um diálogo arrogante, feito de cima para baixo. Nem uma submissão oportunista, feita em época de eleição. Mas um diálogo republicano, capaz de separar fé de manipulação, comunidade de clientelismo, liberdade religiosa de domínio político.
O evangélico brasileiro não cabe na caricatura. Ele é mulher, é negro, é jovem, é trabalhador, é periférico, é pastor, é fiel, é eleitor, é cidadão. E, como cidadão, não deve ser tratado nem como massa de manobra nem como ameaça abstrata. Deve ser tratado como sujeito histórico de um Brasil que mudou — e que ainda está tentando entender o tamanho dessa mudança.
Referências
ALMEIDA, Ronaldo de. A onda quebrada: evangélicos e conservadorismo. Cadernos Pagu, Campinas, 2017.
IBGE. Censo 2022: católicos seguem em queda; evangélicos e sem religião crescem no país. Agência IBGE Notícias, Rio de Janeiro, 6 jun. 2025.
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999.
MARIANO, Ricardo. Os neopentecostais e a teologia da prosperidade. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 44, p. 24-44, 1996.
SMITH, Amy Erica. Religion and Brazilian Democracy: Mobilizing the People of God. Cambridge: Cambridge University Press, 2019.
SPYER, Juliano. Povo de Deus: quem são os evangélicos e por que eles importam. São Paulo: Geração Editorial, 2020.
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