Por que a defesa da soberania virou o novo campo de batalha da liberdade
Introdução — a democracia não morre apenas quando tanques ocupam as ruas
Imagine uma pequena cidade em que todos se conhecem. Durante anos, os moradores confiaram no relógio da praça, no sino da igreja, no professor da escola, no jornal local e na palavra dada em público. Um dia, porém, começam a circular mensagens dizendo que o relógio mente, que o professor doutrina, que o jornal conspira, que o juiz é inimigo do povo e que só um líder, apenas um, sabe a verdadeira vontade da cidade. No começo, parece exagero. Depois, vira costume. Por fim, a mentira se transforma em método.
É nesse ponto que a democracia começa a adoecer.
A tese deste artigo é clara: Lula tem se apresentado, no cenário internacional, como uma das principais vozes de defesa da democracia liberal, da soberania nacional e do multilateralismo, tentando ocupar o espaço simbólico de estadista global diante de uma época marcada por populismos autoritários, desinformação, unilateralismo e corrosão institucional.
Essa postura aparece com força em suas falas recentes sobre Donald Trump. Em entrevista publicada pela Reuters com base no Washington Post, Lula afirmou que deseja construir uma relação pessoal com Trump para atrair investimentos, evitar novas tarifas e sanções e assegurar respeito à democracia brasileira. Ao mesmo tempo, disse discordar de Trump sobre Irã, Venezuela e Palestina, mas separou divergência política de relação institucional entre chefes de Estado.
Essa é a chave do problema: negociar sem se submeter; dialogar sem abdicar da soberania; reconhecer o adversário sem aceitar interferência externa.
Yascha Mounk, em O povo contra a democracia, ajuda a compreender o tamanho desse desafio. Para ele, a crise contemporânea nasce do divórcio entre dois elementos que sustentaram o Ocidente democrático: a vontade popular e os direitos liberais. Quando há democracia sem direitos, surge a democracia iliberal; quando há direitos sem participação popular efetiva, surge o liberalismo antidemocrático (Mounk, 2019). Estudos brasileiros sobre sua obra também destacam que a democracia liberal depende da união entre eleições livres, Estado de Direito, separação de poderes e proteção das liberdades fundamentais.
1. Como funciona o sistema: democracia liberal, democracia iliberal e liberalismo antidemocrático
Para entender o debate, é preciso separar três conceitos.
Democracia liberal não é apenas votar. Ela combina soberania popular, eleições, direitos fundamentais, liberdade de imprensa, independência judicial, alternância de poder e limites constitucionais. Sem esse conjunto, a eleição pode existir, mas a liberdade desaparece.
Democracia iliberal é o regime em que o governante chega ao poder pelo voto, mas passa a atacar imprensa, Judiciário, universidades, minorias, oposição e órgãos de controle. O líder diz falar em nome do povo, mas transforma o povo em escudo contra qualquer crítica.
Liberalismo antidemocrático é o outro lado da crise: decisões importantes ficam concentradas em elites econômicas, organismos técnicos, mercados e burocracias distantes da população. O cidadão vota, mas sente que não decide nada.
Mounk afirma que o populismo se caracteriza pela pretensão de representação exclusiva do povo. O populista não diz apenas “eu represento uma parte da sociedade”; ele diz “só eu represento o povo verdadeiro”. Por isso, tende a tratar opositores como inimigos ilegítimos e instituições independentes como obstáculos.
É aqui que a fala de Lula ganha densidade política. Quando ele afirma que Trump deve tratar o Brasil com respeito porque ele é o presidente democraticamente eleito, Lula não está apenas defendendo sua biografia. Está defendendo uma regra: a soberania democrática brasileira não pode ser substituída pela vontade de outro país, por pressão econômica, por sanção externa ou por articulação de grupos derrotados eleitoralmente.
2. Lula diante de Trump: a diplomacia como defesa da democracia
Após encontro com Trump em 7 de maio de 2026, Lula declarou que Brasil e Estados Unidos são as duas maiores democracias do hemisfério e que uma boa relação entre os dois países poderia servir de exemplo ao mundo. A fala é diplomática, mas não é neutra. Ela reposiciona a relação bilateral no campo da legitimidade democrática, não da submissão geopolítica.
Na entrevista ao El País, Lula foi mais direto: disse que um chefe de Estado deve sentar-se à mesa pensando nos interesses de seu país, que prefere ser um líder respeitado, não temido, e que nenhum governante deve ameaçar outro país ao acordar pela manhã. Também defendeu mais negociação, democracia e multilateralismo.
Esse ponto é decisivo. O estadista não é aquele que grita mais alto. É aquele que compreende a correlação de forças, protege os interesses nacionais e evita transformar divergência em aventura. A política externa, quando madura, é menos espetáculo e mais arquitetura: constrói pontes sem abrir mão dos pilares.
Lula tenta se apresentar exatamente nesse registro: como líder capaz de falar com Trump sem aderir ao trumpismo; conversar com os Estados Unidos sem aceitar tutela; defender comércio e investimento sem vender a soberania; disputar a narrativa internacional sem romper canais institucionais.
3. O povo, a soberania e o perigo da falsa representação popular
A palavra “povo” é uma das mais belas e perigosas da política.
Ela é bela porque nenhuma democracia existe sem povo. Mas é perigosa porque líderes autoritários também a utilizam. Em nome do povo, atacam juízes. Em nome do povo, ameaçam jornalistas. Em nome do povo, desprezam minorias. Em nome do povo, tentam transformar derrota eleitoral em conspiração.
Mounk alerta exatamente para isso. O populismo se fortalece quando um líder afirma representar sozinho a vontade popular. Nesse momento, toda instituição que limita seu poder passa a ser apresentada como inimiga da nação. A imprensa vira “mentirosa”; o Judiciário vira “perseguidor”; a oposição vira “traidora”; a universidade vira “doutrinadora”.
Lula faz outro movimento retórico. Ao dizer que o povo brasileiro é quem decide as eleições, ele não usa “povo” contra as instituições, mas dentro delas. O povo decide pelo voto, dentro da Constituição, com regras públicas, Justiça Eleitoral, liberdade de imprensa e respeito ao resultado.
Essa diferença é essencial. Há um “povo” democrático e há um “povo” manipulado como instrumento autoritário. O primeiro vota, fiscaliza, participa e respeita regras. O segundo é convocado para destruir as regras quando o resultado desagrada ao líder.
4. O estadista e o populista: duas formas opostas de liderança
O populista precisa de inimigos permanentes. O estadista precisa de soluções duradouras.
O populista vive da ruptura. O estadista trabalha com continuidade institucional.
O populista transforma política externa em palanque. O estadista transforma divergência em negociação.
É nesse contraste que Lula tenta se colocar como estadista global. Não porque seja imune a críticas — nenhum líder democrático é —, mas porque sua estratégia recente tem buscado associar sua imagem a quatro elementos: democracia, soberania, multilateralismo e combate à desigualdade.
Na entrevista ao El País, Lula afirmou que a democracia precisa demonstrar concretamente que melhora a vida do povo: trabalhar melhor, ganhar mais, comer melhor, ter acesso à cultura e à educação. Essa frase se conecta diretamente a Mounk. A democracia entra em crise quando deixa de entregar esperança material e simbólica.
A democracia não sobrevive apenas com discurso jurídico. Ela precisa ser sentida na mesa, no emprego, na escola, no hospital, no transporte, na segurança e na dignidade cotidiana. Quando a democracia não chega à vida real, o autoritarismo oferece atalhos emocionais.
5. Trump como símbolo do unilateralismo contemporâneo
Donald Trump representa, para muitos analistas, uma forma de política baseada no personalismo, no nacionalismo econômico, na confrontação permanente e na desconfiança das instituições multilaterais. Lula, ao criticá-lo, não mira apenas uma pessoa. Mira um método.
Na fala ao El País, Lula afirmou que Trump parte da premissa de que a força econômica, militar e tecnológica dos Estados Unidos determina as regras do jogo. Para Lula, esse comportamento produz instabilidade e ameaça a soberania de outros países.
Aqui aparece a conexão mais profunda com Mounk: quando a política deixa de ser mediada por instituições e passa a depender da vontade de líderes fortes, a democracia liberal perde seus mecanismos de contenção. No plano interno, isso ameaça direitos. No plano internacional, ameaça soberanias.
O unilateralismo é, em certa medida, o populismo aplicado às relações internacionais. Ele diz: “meu país primeiro, minhas regras primeiro, meus interesses primeiro”. O problema é que, em um mundo interdependente, essa lógica transforma comércio, clima, guerra, migração e tecnologia em campos de chantagem.
Conclusão — a liberdade precisa de povo, instituições e coragem
A grande lição de Yascha Mounk é que a democracia não morre apenas quando soldados ocupam palácios. Ela também morre quando o povo perde confiança nas instituições, quando líderes mentem em escala industrial, quando a verdade vira opinião descartável e quando a soberania popular é sequestrada por quem diz falar sozinho em nome dela.
As falas recentes de Lula sobre Trump devem ser lidas nesse cenário. Elas não tratam apenas de diplomacia bilateral. Tratam de uma disputa maior: quem define o destino de uma democracia? O povo, por meio de instituições legítimas, ou pressões externas, algoritmos, sanções, mentiras e líderes que se dizem donos da vontade popular?
Ao se apresentar como defensor da democracia, da soberania e do multilateralismo, Lula busca ocupar o lugar de estadista em uma época carente de estadistas. Sua força discursiva está em afirmar que o Brasil conversa com todos, mas não se curva; negocia com potências, mas não entrega sua autonomia; respeita chefes de Estado, mas exige respeito ao voto brasileiro.
Essa é a fronteira ética do nosso tempo. Democracia não é apenas vencer eleição. Democracia é aceitar limites, respeitar instituições, proteger direitos, entregar dignidade e impedir que o povo seja usado contra si mesmo.
Referências
MOUNK, Yascha. O povo contra a democracia: por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
OBALDIA, Bruna Andrade; NASCIMENTO, Valéria Ribas do. Democracia liberal e(m) crise: a dupla face do problema na ascensão do liberalismo antidemocrático e da democracia iliberal. Revista da Faculdade de Direito do Sul de Minas, Pouso Alegre, v. 38, n. 1, p. 68-82, 2022.
PODER360. Leia a íntegra da entrevista de Lula pós-reunião com Trump. Poder360, 8 maio 2026.
REUTERS. Brazil’s Lula aims to develop relationship with Trump, Washington Post reports. Reuters, 17 maio 2026.
EL PAÍS. Lula: “Trump no tiene derecho a levantarse por la mañana y amenazar a un país”. El País, 16 abr. 2026.
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