segunda-feira, 18 de maio de 2026

Petismo, lulismo e antipetismo: a longa travessia do PT entre a esperança social, o pragmatismo do poder e a rejeição moral

De partido dos trabalhadores a eixo central da política brasileira, o PT construiu uma das identidades políticas mais duradouras do país — mas também uma das rejeições mais intensas.



Introdução — a tese

Numa manhã comum de segunda-feira, em uma padaria de bairro, dois homens discutem política enquanto tomam café. Um deles diz: “Eu não sou petista, sou Lula”. O outro responde: “Para mim é tudo a mesma coisa”. A frase parece simples, quase banal, mas carrega uma das chaves para compreender o Brasil contemporâneo: petismo e lulismo se tocam, mas não são idênticos.

A tese deste artigo é direta: a força histórica do PT nasceu de sua capacidade de representar trabalhadores, pobres, movimentos sociais e setores progressistas; sua longevidade eleitoral veio da transformação desse projeto em lulismo, isto é, um reformismo popular, pragmático e conciliador; e sua rejeição cresceu justamente quando a promessa ética original encontrou as contradições do poder institucional.

O PT foi fundado em 10 de fevereiro de 1980, no contexto da redemocratização, do novo sindicalismo, das Comunidades Eclesiais de Base, dos intelectuais de esquerda e dos movimentos sociais que buscavam uma alternativa à política tradicional brasileira. O Manifesto de Fundação do partido, aprovado no Colégio Sion, em São Paulo, afirmava a intenção de construir um partido enraizado nas lutas sociais e na participação política dos trabalhadores.  

Mas o partido que nasceu com vocação socialista, classista e militante tornou-se, ao longo das décadas, uma grande força institucional de centro-esquerda. Essa mudança não foi apenas ideológica; foi sociológica, eleitoral e moral. O PT precisou aprender a governar um país desigual, conservador em muitos costumes, dependente de coalizões parlamentares e atravessado por elites econômicas resistentes a reformas profundas.


1. O PT das origens: quando política ainda parecia sinônimo de esperança

O PT surgiu como uma novidade na política brasileira porque não nasceu de cima para baixo. Diferentemente de muitos partidos organizados em torno de lideranças tradicionais, máquinas regionais ou acordos parlamentares, o PT nasceu de uma convergência entre sindicalismo urbano, movimentos populares, setores da Igreja progressista e intelectuais de esquerda.

Rachel Meneguello mostra que a formação do PT entre 1979 e 1982 representou uma tentativa singular de construir um partido de massas, com base social organizada e forte discurso de autonomia em relação às elites políticas tradicionais (Meneguello, 1989). Não era apenas mais uma legenda. Era uma promessa de renovação moral e democrática.

Essa origem explica parte do encanto e parte da cobrança posterior. O PT não se apresentou apenas como um partido melhor; apresentou-se como um partido diferente. Prometeu fazer política sem repetir os vícios da política brasileira. Prometeu ética, participação, democracia interna, compromisso popular e ruptura com práticas clientelistas.

Essa promessa foi sua força. Mas também se tornaria sua armadilha.

Quando um partido se constrói como alternativa moral ao sistema, qualquer concessão pragmática parece traição. O que em outros partidos seria lido como “realismo político”, no PT passou a ser visto por muitos como abandono de identidade. A régua moral que o partido ajudou a levantar voltou-se contra ele quando chegou ao poder.


2. Da radicalidade ao pragmatismo: a travessia entre 1989 e 2002

A campanha presidencial de 1989 simbolizou o PT combativo, crítico ao capital financeiro internacional e defensor de mudanças estruturais. Lula disputava a Presidência como expressão de uma esquerda ainda marcada por linguagem classista, sindical e socialista.

Já em 2002, o cenário era outro. A famosa Carta ao Povo Brasileiro buscou acalmar mercados, empresários e setores médios. O documento sinalizava compromisso com contratos, estabilidade econômica e responsabilidade fiscal. Era o PT dizendo ao país: “queremos mudar, mas não romperemos a mesa”.  

Esse movimento foi decisivo. Sem ele, talvez Lula não tivesse vencido em 2002. Mas, com ele, o PT ingressou definitivamente na lógica do reformismo institucional. Sabrina Fernandes interpreta esse processo como parte da institucionalização da esquerda brasileira, marcada por ganhos eleitorais, mas também por perda de capacidade de mobilização radical e enfraquecimento de horizontes transformadores mais profundos (Fernandes, 2019).

A questão central é: o PT abandonou o socialismo ou apenas revelou que seu socialismo sempre foi mediado pela realidade brasileira?

A resposta talvez esteja no próprio funcionamento do Estado brasileiro. Governar o Brasil exige coalizões amplas, negociação permanente com o Congresso, respeito a limites fiscais, articulação com elites econômicas e concessões constantes. O PT descobriu, no poder, que a política não é uma reta; é um labirinto.

E nesse labirinto nasceu o lulismo.


3. Lulismo não é apenas petismo: é pacto social popular

André Singer formulou uma das interpretações mais influentes sobre esse fenômeno. Para ele, o lulismo consolidado a partir de 2006 expressa uma combinação específica: inclusão social dos mais pobres, redução da pobreza, valorização do salário mínimo, expansão do consumo popular e preservação da ordem econômica geral. É reforma gradual com pacto conservador (Singer, 2012). A obra Os sentidos do lulismo é descrita precisamente como análise desse “reformismo fraco”, capaz de produzir rupturas sociais importantes sem confronto direto com o grande capital.  

Aqui está a diferença essencial: o petista histórico vota no partido por identidade política; o lulista vota em Lula por reconhecimento material, memória social e gratidão política.

O petismo nasceu mais urbano, sindical, universitário, militante e ideológico. O lulismo ampliou-se entre os mais pobres, especialmente em regiões historicamente abandonadas pelo Estado. O Bolsa Família, a valorização real do salário mínimo, a expansão do crédito, o acesso ao ensino superior e a sensação de dignidade social criaram uma nova relação entre liderança e povo.

Não se tratava apenas de renda. Era pertencimento. Para milhões de brasileiros, Lula simbolizou a entrada de gente pobre em lugares antes interditados: universidade, aeroporto, consumo, política, autoestima nacional.

Mas o lulismo também produziu dependência simbólica excessiva da figura de Lula. O PT tornou-se maior com Lula, mas também menor sem ele. Essa é uma contradição decisiva: o partido mais institucionalizado da esquerda brasileira permanece, em grande medida, preso ao carisma de seu principal líder.


4. O conservadorismo popular: quando a esquerda social encontra a direita dos costumes

Uma das maiores ilusões da análise política superficial é imaginar que todo eleitor pobre seja progressista em costumes. O Brasil popular é profundamente heterogêneo. Pode defender programas sociais, valorização salarial e presença do Estado, mas manter posições conservadoras sobre religião, família, aborto, drogas e sexualidade.

Esse ponto é fundamental para entender o lulismo. O eleitor lulista não é necessariamente um militante de esquerda cultural. Muitas vezes, é um trabalhador religioso, conservador nos costumes, mas favorável a políticas de proteção social.

Essa tensão explica parte dos limites do PT. Quando o partido fala apenas para a classe média progressista das capitais, perde conexão com sua base popular. Quando se aproxima demais do conservadorismo social, desagrada setores progressistas que ajudaram a fundá-lo. O PT vive, portanto, em permanente equilíbrio instável.

Scott Mainwaring, Rachel Meneguello e Timothy Power mostram que os partidos nas novas democracias enfrentam desafios específicos de enraizamento social, personalismo e institucionalização (Mainwaring; Meneguello; Power, 2000). No caso brasileiro, esse desafio é agravado pela fragmentação partidária e pela baixa identificação orgânica da população com partidos.

Por isso, o lulismo funcionou tão bem: ele traduziu política em melhoria concreta de vida. Menos ideologia abstrata, mais comida na mesa. Menos manifesto, mais salário. Menos doutrina, mais reconhecimento.

A força disso é enorme. Mas seu limite também.


5. O antipetismo: quando a oposição vira identidade

O antipetismo não é simples discordância programática. Ele se tornou uma identidade política. Para muitos brasileiros, ser contra o PT passou a ser tão importante quanto ser a favor de qualquer outro projeto.

Essa rejeição tem raízes múltiplas. O primeiro grande marco foi o Mensalão, revelado em 2005, que atingiu profundamente a imagem ética do partido. O caso envolveu denúncias de compra de apoio parlamentar e marcou a perda simbólica do monopólio petista da moralidade pública.  

O segundo marco foram as manifestações de Junho de 2013. Elas começaram com forte presença de pautas urbanas e movimentos à esquerda, mas rapidamente se tornaram um grande canal de insatisfação difusa contra partidos, governos, serviços públicos e representação política. A partir dali, setores de direita passaram a ocupar as ruas com intensidade crescente.  

O terceiro marco foi a crise econômica e política do governo Dilma Rousseff, culminando no impeachment de 2016. O processo ocorreu sob acusação de irregularidades fiscais, em meio a recessão, perda de base parlamentar e forte mobilização social.  

O quarto marco foi a Operação Lava Jato, que colocou a corrupção no centro absoluto do debate público e culminou na prisão de Lula em 2018. Posteriormente, o STF confirmou a anulação das condenações de Lula na Lava Jato, e também houve decisão sobre a suspeição do então juiz Sergio Moro no caso do tríplex.  

Esses eventos alimentaram uma narrativa moral poderosa: o PT teria traído sua promessa ética. Para seus críticos, o partido teria se tornado aquilo que dizia combater. Para seus defensores, o partido foi transformado em bode expiatório de vícios estruturais de todo o sistema político brasileiro.

As duas leituras existem. A análise madura precisa reconhecer ambas: houve erros reais, contradições reais e escândalos reais; mas também houve seletividade discursiva, moralismo midiático e instrumentalização política da corrupção.

Jessé Souza argumenta que a Lava Jato deve ser compreendida dentro de uma estrutura mais ampla de disputa de classes, moralismo seletivo e criminalização de determinados projetos políticos (Souza, 2017). Já Jairo Nicolau mostra que a eleição de 2018 representou uma inflexão à direita no sistema político brasileiro, impulsionada por antipetismo, crise econômica, insegurança pública e colapso de confiança nas instituições tradicionais (Nicolau, 2020).


6. O PT entre bode expiatório e autocrítica necessária

É insuficiente dizer que o PT foi apenas vítima. Também é insuficiente dizer que foi o único culpado. A política brasileira é mais complexa do que slogans.

O PT foi, sim, alvo de uma rejeição desproporcional em certos momentos, sobretudo quando problemas históricos do sistema político brasileiro foram concentrados simbolicamente em uma única legenda. A corrupção, o fisiologismo, o financiamento opaco de campanhas e as alianças contraditórias não nasceram com o PT.

Mas o PT também não pode fugir da autocrítica. Ao prometer ser diferente, assumiu responsabilidade histórica maior. Quando aderiu a alianças tradicionais, quando normalizou práticas que antes denunciava e quando confundiu governabilidade com acomodação excessiva, enfraqueceu sua própria autoridade moral.

Esse é o ponto mais difícil: o PT foi grande porque prometeu esperança; foi atacado porque ameaçou interesses; mas também se desgastou porque aceitou práticas que diminuíram a potência ética dessa esperança.

A história do partido é, portanto, uma história de grandeza e contradição. Como quase tudo na política real.


7. O futuro do petismo: depois de Lula, o quê?

A pergunta decisiva não é apenas se o PT continuará forte. A pergunta é: o PT conseguirá sobreviver politicamente para além de Lula?

Dados recentes de preferência partidária indicam que o PT continua sendo a sigla mais lembrada pelos brasileiros, mantendo liderança histórica desde o fim dos anos 1990, embora em um cenário de alta rejeição partidária e crescimento de forças de direita, especialmente o PL. Levantamento Datafolha divulgado em dezembro de 2025 apontou o PT como partido preferido de 24% dos eleitores, enquanto 46% declararam não ter preferência por nenhum partido.  

Esse dado mostra força e limite. Força porque nenhuma outra legenda brasileira mantém identificação semelhante por tanto tempo. Limite porque quase metade do eleitorado não se reconhece em partido algum. A democracia brasileira vive uma crise de representação, e o PT, apesar de sua relevância, não está fora dela.

O partido precisa responder a três desafios.

Primeiro, renovar lideranças sem negar sua história. Segundo, reconectar pauta social e linguagem popular sem cair no academicismo progressista que fala apenas para convertidos. Terceiro, reconstruir credibilidade ética sem tratar toda crítica como perseguição.

O lulismo provou que é possível reduzir pobreza sem ruptura revolucionária. Mas também mostrou que inclusão pelo consumo não basta para alterar estruturas profundas de desigualdade, dependência econômica e concentração de poder.


Conclusão — a política como espelho das contradições brasileiras

Ser petista, hoje, não é apenas apoiar um partido. É carregar uma memória histórica: greves, redemocratização, sindicalismo, esperança popular, inclusão social, escândalos, derrotas, vitórias, perseguições, erros e sobrevivência.

O PT é uma das maiores experiências políticas da história brasileira porque conseguiu organizar trabalhadores, vencer eleições presidenciais, governar o país, reduzir pobreza e criar identidade duradoura. Mas também é uma das experiências mais contraditórias porque precisou adaptar-se ao sistema que prometia transformar.

O lulismo foi sua solução política mais eficiente: um pacto entre pobres e Estado, mediado por uma liderança carismática, capaz de produzir inclusão sem ruptura. Mas essa solução cobrou preço alto: moderação, dependência personalista e dificuldades para sustentar um projeto de esquerda mais profundo.

O antipetismo, por sua vez, não pode ser explicado apenas pela corrupção nem apenas pela manipulação midiática. Ele nasceu da combinação entre escândalos reais, frustração moral, crise econômica, medo social, disputa de classes, conservadorismo cultural e reorganização da direita brasileira.

No fim, o PT continua sendo um espelho do Brasil. Um país que deseja justiça social, mas teme rupturas. Que exige ética, mas tolera fisiologismo quando lhe convém. Que ama líderes populares, mas desconfia de partidos. Que pede mudança, mas se assusta quando os pobres entram pela porta da frente.

A pergunta que permanece não é apenas “o que é ser petista?”. A pergunta mais profunda é: que tipo de democracia o Brasil consegue construir quando seus principais projetos políticos são amados por uns e odiados por outros com a mesma intensidade?


Referências

FERNANDES, Sabrina. Sintomas mórbidos: a encruzilhada da esquerda brasileira. São Paulo: Autonomia Literária, 2019.

MAINWARING, Scott; MENEGUELLO, Rachel; POWER, Timothy J. Partidos políticos nas novas democracias: Brasil, Argentina e Uruguai. Rio de Janeiro: FGV, 2000.

MENEGUELLO, Rachel. PT: a formação de um partido político, 1979-1982. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

NICOLAU, Jairo. O Brasil dobrou à direita: uma radiografia da eleição de Bolsonaro em 2018. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

PARTIDO DOS TRABALHADORES. Manifesto de Fundação do Partido dos Trabalhadores. São Paulo, 1980. Disponível em: site oficial do PT. Acesso em: 17 maio 2026.

SINGER, André. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.


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