A leitura de Oliver Stuenkel sobre a política externa de Donald Trump e o risco histórico de confundir vitória militar com legitimidade política
A política externa de Donald Trump voltou a operar, em 2026, com uma lógica brutalmente simples: derrubar, enquadrar e anunciar vitória. O problema é que a história raramente obedece a esse roteiro. A análise de Oliver Stuenkel ajuda a iluminar precisamente esse ponto. Seu argumento central, em diferentes intervenções públicas recentes, é que a Casa Branca parece ter tratado a captura de Nicolás Maduro como prova de que mudança de regime, pressão militar e tutela geopolítica poderiam ser reaplicadas em série — primeiro como troféu hemisférico, depois como método exportável. O perigo dessa leitura está em confundir êxito operacional com estabilidade duradoura, coerção com legitimidade e obediência momentânea com ordem política sustentável.
Lide
O eixo interpretativo proposto por Oliver Stuenkel é claro: a aposta de Trump em Venezuela, Cuba e Irã não pode ser lida apenas como política externa agressiva, mas como tentativa de restaurar uma gramática imperial baseada em superioridade militar, controle de recursos estratégicos e submissão política de governos periféricos. O problema, contudo, é que a própria sequência dos fatos recentes sugere o limite dessa estratégia. Na Venezuela, o sucesso tático abriu uma nova forma de tutela; em Cuba, a retórica do “próximo alvo” recoloca a ilha no horizonte da coerção; no Irã, o mesmo método esbarrou em uma realidade muito mais complexa, radicalizando o conflito e reforçando o risco de efeitos contrários aos pretendidos.
1. Venezuela: o laboratório do triunfo tático
A captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026 tornou-se o principal símbolo do novo voluntarismo geopolítico de Trump. Reuters informou que, menos de três meses depois da operação, os Estados Unidos reabriram formalmente sua embaixada em Caracas e passaram a se engajar com um governo interino liderado por Delcy Rodríguez, antiga aliada de Maduro. A mesma cobertura aponta que Washington passou a articular acordos para vender petróleo venezuelano e emitiu dispensas de sanções para estimular investimento americano, dentro de um plano apresentado como estabilização, recuperação econômica e posterior transição política.
Esse conjunto de medidas é o dado empírico mais importante para compreender a leitura de Stuenkel. O ponto não é apenas a remoção de um governante hostil. O ponto é o tipo de arranjo que surge depois. Em publicação recente, Stuenkel sustenta que o plano de Trump para controlar a produção, a venda e a destinação das receitas do petróleo venezuelano remete a precedentes históricos de tutela americana na América Latina e no Caribe. Segundo ele, trata-se menos de inovação e mais de reedição de mecanismos pelos quais a soberania formal permanece de pé enquanto a autonomia real é comprimida por supervisão externa de recursos estratégicos.
Aqui está uma das chaves do artigo. A política externa de Trump parece operar como um engenheiro que se deslumbra com a demolição e não pergunta como ficará o edifício depois da explosão. O sucesso imediato da operação na Venezuela gerou, em Washington, a sensação de que o poder militar americano poderia reordenar a política regional rapidamente. Reuters registra, inclusive, que Trump passou a citar a deposição de Maduro como modelo para a guerra contra o Irã. Essa passagem é decisiva, porque mostra a conversão da Venezuela em doutrina: o caso deixa de ser exceção e passa a funcionar como paradigma.
Mas toda tutela geopolítica contém uma contradição estrutural. Ela promete ordem enquanto semeia ressentimento. Ela promete governabilidade enquanto corrói legitimidade. E é justamente nesse ponto que a advertência de Stuenkel ganha força: arranjos impostos de fora podem produzir obediência administrativa de curto prazo, mas carregam em si a possibilidade de novas explosões nacionalistas no médio prazo. A história latino-americana conhece esse ciclo com intimidade.
2. Cuba: o próximo troféu da vitrine imperial
Em 27 de março de 2026, Trump declarou em Miami: “Cuba is next”. Reuters relatou que a fala ocorreu em um discurso no qual o presidente exaltava os supostos êxitos militares americanos na Venezuela e no Irã. A mesma reportagem acrescenta que seu governo abriu negociações com setores da liderança cubana e que o próprio Trump vinha insinuando que ação “cinética” poderia ser possível.
A frase é curta, mas politicamente carregada. Ela devolve Cuba ao centro do imaginário da intervenção hemisférica. Não como tema diplomático complexo, mas como peça de uma dramaturgia de poder. Cuba aparece, nessa lógica, como o próximo palco onde Washington poderia demonstrar força, enfraquecer um regime adversário e colher dividendos políticos internos.
Esse aspecto eleitoral não é secundário. Ao apresentar intervenções ou pressões de mudança de regime como troféus, Trump reconstrói a política externa como espetáculo doméstico. O tabuleiro internacional deixa de ser apenas espaço de disputa estratégica e torna-se também palco de marketing de autoridade. A linguagem da vitória rápida, da força decisiva e da submissão do adversário serve, ao mesmo tempo, para disciplinar inimigos externos e alimentar narrativas de liderança perante o eleitorado americano. A fala sobre Cuba precisa ser lida nesse enquadramento.
Há ainda outra camada. Reuters associou a nova pressão sobre Havana ao fato de que a mudança ocorrida na Venezuela cortou uma importante fonte de petróleo para Cuba. Em outras palavras, Venezuela e Cuba não aparecem como capítulos isolados, mas como peças conectadas de uma mesma engenharia regional de coerção. Primeiro, reorganiza-se Caracas. Depois, usa-se o novo cenário energético e político para elevar a pressão sobre Havana. A política externa, aqui, funciona como pinça: desloca um vértice para apertar outro.
A advertência de Stuenkel, nesse contexto, é historicamente plausível: regimes sem legitimidade social, sustentados por tutela ou pressão externa, podem até durar algum tempo, mas frequentemente produzem novos ciclos de resistência. O século XX latino-americano oferece numerosos exemplos de intervenções que prometeram estabilidade e entregaram memória traumática, polarização e reações nacionalistas.
3. Irã: onde a doutrina do atalho encontrou seu limite
O caso iraniano é o ponto em que a lógica do “sucesso fácil” parece ter colidido com a realidade. Reuters informou que os Estados Unidos e Israel lançaram em 28 de fevereiro de 2026 a mais ambiciosa ofensiva contra alvos iranianos em décadas, e que o líder supremo Ali Khamenei foi morto nos ataques. A agência também registra que Trump descreveu a operação como uma resposta a ameaças iminentes e a enquadrou como um grande movimento para impedir o avanço nuclear iraniano, ao mesmo tempo em que conclamava os iranianos a derrubarem o próprio governo.
É aqui que a formulação de Oliver Stuenkel se torna especialmente precisa: “o Irã não é a Venezuela”. Em postagem recente, ele afirma que a supremacia militar americana continua inquestionável, mas acrescenta que, em um mundo multipolar, a supremacia de influência não decorre automaticamente dela. O poder duro, escreve Stuenkel, entrega resultados táticos; a legitimidade exige alinhamento. Trata-se de uma distinção central. Bombardear é uma coisa; reorganizar politicamente uma sociedade de quase 90 milhões de habitantes, marcada por nacionalismo histórico, aparato estatal robusto e projeção regional, é outra completamente diferente.
Reuters mostrou que, logo após a morte de Khamenei, autoridades americanas já se mostravam céticas quanto à possibilidade de mudança de regime no curto prazo. Segundo a agência, avaliações de inteligência lançavam dúvida sobre a capacidade da oposição iraniana de derrubar o sistema teocrático, mesmo após perdas severas de pessoal e desgaste político anterior. A ideia de colapso rápido, portanto, não era consenso nem mesmo dentro do aparato de segurança americano.
Mais do que isso: a sequência posterior sugere que o ataque pode ter fortalecido precisamente os setores mais duros do regime. Reuters relatou fissuras na elite iraniana entre facções pragmáticas e hardliners, aumento do peso da Guarda Revolucionária e aceleração do processo de escolha de um novo líder supremo. A agência também apontou Mojtaba Khamenei como nome forte, apoiado pela Guarda, embora controverso entre moderados. Em vez de uma transição domesticada, o que apareceu foi um sistema sob bombardeio tendendo a militarizar ainda mais sua sobrevivência.
Essa é uma velha ironia da história estratégica. Potências externas frequentemente imaginam que um regime impopular cairá assim que sofrer um golpe suficientemente duro. Mas muitas vezes ocorre o oposto: a agressão externa reorganiza o campo interno, sufoca nuances, marginaliza moderados e transforma a sobrevivência estatal em causa nacional. A bomba que deveria abrir a porta da mudança fecha, na prática, a janela da moderação.
4. Bombardeio, nacionalismo e o erro recorrente da mudança de regime
A contribuição mais relevante de Stuenkel talvez esteja justamente em recolocar a história no centro da análise. Em sua reflexão sobre o Irã, ele retoma uma lição clássica dos estudos estratégicos: campanhas de bombardeio raramente produzem, sozinhas, mudança de regime favorável a quem ataca. Podem destruir infraestrutura, matar lideranças, desorganizar cadeias militares e produzir choque. Mas isso não significa converter a sociedade atingida em aliada do agressor. Ao contrário, agressões externas tendem a aproximar governo e sociedade em torno da defesa nacional, ainda que de modo temporário e contraditório.
Essa observação vale para além do caso iraniano. Ela funciona como crítica estrutural a toda política externa que acredita no atalho militar como substituto da legitimidade. O bombardeio pode até parecer um martelo definitivo, mas sociedades não são pregos. Elas têm memória, orgulho, humilhações acumuladas, traumas, disputas internas e capacidade de rearticulação. A política que ignora isso pode vencer a batalha da imagem e perder a guerra do sentido.
Trump parece apostar exatamente nessa confusão. Sua estratégia sugere que a remoção de um líder, o controle de um recurso estratégico e a instalação de um governo cooperativo bastariam para converter força em ordem. Oliver Stuenkel aponta, contudo, que essa equação falha porque opera com uma visão antiquada do poder. Em uma ordem mais fragmentada e multipolar, impor preferências pela força já não garante liderança legítima; pode, ao contrário, ampliar percepções de dominação, acelerar rivalidades e alimentar novos ciclos de contestação.
5. O retorno de uma gramática imperial
A força do diagnóstico de Stuenkel está em mostrar que o problema não é apenas Trump ser agressivo. O problema é o tipo de imaginação estratégica que volta a ganhar forma: uma imaginação tutelar, hierárquica e imperial, na qual certos países devem ser “arrumados” por Washington, desde que seus governos estejam desalinhados ou seus recursos sejam considerados estratégicos. A Venezuela surge, nesse quadro, como laboratório. Cuba aparece como próxima peça. O Irã, por sua vez, revela o custo de tentar aplicar a mesma lógica a uma potência regional com densidade histórica, territorial e militar incomparavelmente maior.
Quando Trump afirma que “Cuba é a próxima”, não está apenas ameaçando Havana. Está sinalizando uma visão de mundo. Quando transforma a Venezuela em modelo, não está apenas celebrando uma operação. Está naturalizando a ideia de que mudanças de regime podem ser instrumentalizadas como ferramenta normal de ordenamento regional. E quando convoca iranianos a “retomarem seu país” sob bombardeio externo, revela o limite moral e político dessa gramática: a liberdade passa a ser invocada pela mesma mão que destrói.
Conclusão
A melhor contribuição da análise de Oliver Stuenkel é desfazer a ilusão de que poder militar e poder político são sinônimos. Não são. A captura de Maduro deu a Trump um triunfo tático e uma poderosa narrativa doméstica. A ameaça a Cuba prolonga esse gesto como espetáculo de força hemisférica. Mas o caso iraniano mostra que a história não se curva tão facilmente ao desejo de repetição. Sociedades complexas não são réplicas estratégicas. Regimes atacados externamente não caem necessariamente como peças de dominó. E a tutela estrangeira, ainda que eficiente no curtíssimo prazo, costuma carregar o germe de futuras reações nacionalistas, autoritárias ou anti-imperiais.
Por isso, o problema central não é apenas o que Trump faz, mas o que sua política externa presume sobre o mundo. Ela presume que a força basta. Presume que a vitória militar produz alinhamento. Presume que recursos estratégicos podem ser controlados sem custo histórico duradouro. Presume, enfim, que o século XXI ainda aceita sem grandes resistências uma pedagogia imperial baseada em intervenção, tutela e disciplinamento. A leitura de Stuenkel aponta exatamente o contrário: num mundo fragmentado, a superioridade bélica continua capaz de destruir, mas cada vez menos capaz de convencer. E é nesse descompasso entre destruir e convencer que a política externa de Trump revela sua aparência mais poderosa e, ao mesmo tempo, sua fragilidade mais profunda.
Referências
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REUTERS. US formally reopens Caracas embassy as ties with Venezuela warm. Reuters, 30 mar. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/us-resumes-embassy-operations-venezuela-2026-03-30/. Acesso em: 3 abr. 2026.
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REUTERS. US officials skeptical of regime change in Tehran after Khamenei killing, say sources. Reuters, 2 mar. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/us-officials-skeptical-regime-change-tehran-after-khamenei-killing-say-sources-2026-03-02/. Acesso em: 3 abr. 2026.
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STUENKEL, Oliver. Bombardeios no Irã: lições históricas e os riscos de apostar em mudança de regime. LinkedIn, 2026. Disponível em: https://pt.linkedin.com/posts/oliver-stuenkel_bombardeios-no-ir%C3%A3-li%C3%A7%C3%B5es-hist%C3%B3ricas-e-os-activity-7433549040392237056-Kwqb. Acesso em: 3 abr. 2026.
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