segunda-feira, 2 de março de 2026

Psicopolítica e Neonazismo Religioso

O autoritarismo “polido” que vira escolha — e a eleição de 2026 como teste de imunidade democrática



Índice

  1. A armadilha do “polido”: quando o perigo não tem cara de perigo
  2. Psicopolítica: governar pela liberdade, otimizar pela positividade
  3. Neonazismo religioso: não é fé — é captura moral e hierarquia humana
  4. A ponte: como a psicopolítica “embelezam” projetos extremistas
    4.1. Virtude performática e reputação como disciplina
    4.2. Guerra do bem vs. mal como produto emocional
    4.3. Transparência forçada e delação moral
    4.4. Exclusão “técnica”: o ban-óptico como política social
  5. Brasil em 2026: eleição sob modulação algorítmica
    5.1. Calendário eleitoral e a pré-campanha permanente
    5.2. IA, deepfakes e a crise da confiança
    5.3. Religiosidade política e a tentação do “Estado moral”
  6. O perigo das escolhas polidas
    6.1. Pequenas concessões, grande erosão
    6.2. A estética do “bem” como licença para a exceção
  7. Resistência democrática: negatividade, freios institucionais e alfabetização cívica
  8. Conclusão


O autoritarismo mais eficiente raramente entra pela porta da brutalidade; ele entra pela porta do bom senso. Ele se apresenta como “proteção”, “ordem”, “valores”, “cuidado com as crianças”, “salvação nacional”, “defesa da fé” — e, quando se percebe, o que era uma “escolha polida” se torna uma arquitetura de exclusão. A psicopolítica, como descreve Byung-Chul Han, ajuda a explicar esse mecanismo: trata-se de um poder que captura a psique pela liberdade, pela positividade e pela sedução, convertendo participação e comunicação em dispositivos de controle. Em 2026, ano de eleição presidencial no Brasil, a combinação entre hipercomunicação, IA generativa, microsegmentação e moralização religiosa cria um ambiente ideal para extremismos se apresentarem como virtude.


1. A armadilha do “polido”: quando o perigo não tem cara de perigo


Há um erro recorrente no senso comum: imaginar que o autoritarismo sempre virá com estética agressiva, símbolos explícitos e discurso abertamente violento. O mundo real costuma ser mais perverso: movimentos e agendas de viés supremacista ou antidemocrático podem se apresentar em linguagem educada, com terno e gravata, com “citações bíblicas”, com “apelo à família”, com “defesa da moral” e com promessas de “reconciliação nacional”.


O “polido” não é detalhe; é técnica. Ele reduz a resistência social, torna o discurso aceitável nos ambientes comuns (família, escola, trabalho, igreja), e desloca o debate: quem questiona passa a ser visto como “radical”, “imoral”, “inimigo da ordem”. Esse é o terreno em que a psicopolítica opera com máxima eficiência: o poder não precisa se impor; basta organizar o ambiente para que as pessoas queiram o que as conduz.


2. Psicopolítica: governar pela liberdade, otimizar pela positividade


Em Psicopolítica, Han sustenta que o neoliberalismo atual não domina prioritariamente pela coerção física (modelo disciplinar), mas por um poder “inteligente”, que explora a liberdade como mecanismo de sujeição: o indivíduo acredita que escolhe, enquanto o ambiente digital-econômico desenha as opções, premia certos afetos e pune outros por invisibilização. (Han, 2018).


A gramática desse poder é positiva: em vez de “não pode”, diz “você consegue”; em vez de punição explícita, oferece recompensa simbólica; em vez de censura, incentiva hiperexpressão; em vez de silêncio imposto, cria ruído contínuo. É por isso que plataformas e política se encaixam tão bem: a governança por engajamento é uma política sem aparência de política — e, por isso, mais difícil de ser contestada.


3. Neonazismo religioso: não é fé — é captura moral e hierarquia humana


“Neonazismo religioso”, aqui, não nomeia uma religião, nem uma tradição de fé específica. Nomeia a instrumentalização política de linguagens religiosas (pureza, guerra espiritual, missão, povo eleito, inimigo demonizado) para justificar hierarquias humanas, exclusões e perseguições — frequentemente em sintonia com supremacismos, conspiracionismos e moralismos autoritários.


No Brasil, o crescimento e a organização de grupos neonazistas e correlatos têm sido objeto de alerta institucional e de relatórios apresentados a organismos internacionais, com ênfase na atuação em redes e na capilarização digital.  O elemento “religioso” entra como dispositivo de legitimação moral: transforma política em cruzada e desacordo em blasfêmia.


O ponto decisivo é este: quando a política vira religião civil, o adversário deixa de ser um concorrente legítimo e passa a ser um “inimigo do bem”. E quando o “bem” reivindica pureza, o passo seguinte costuma ser a exceção: restringir direitos “em nome de um valor superior”.


4. A ponte: como a psicopolítica “embelezam” projetos extremistas


4.1. Virtude performática e reputação como disciplina


No ambiente digital, reputação é métrica. “Ser do bem” vira performance pública. O “curtir”, o compartilhar e o atacar são recompensas de pertencimento. Em termos psicopolíticos, o sujeito não precisa ser coagido: ele se autoalinha para preservar posição no grupo, audiência e reconhecimento. (Han, 2018).

O extremismo se beneficia disso porque cria códigos simples: frases-chave, sinais identitários, inimigos fixos. A pessoa participa para ser aceita; e, participando, reforça a máquina.


4.2. Guerra do bem vs. mal como produto emocional


A psicopolítica favorece narrativas de alta carga emocional, baixa complexidade e alta transmissibilidade. A estrutura “bem vs. mal” é perfeita para o ecossistema de engajamento: dispensa argumentação, mobiliza medo e indignação, e produz coesão grupal.

Resultado: políticas públicas, economia e instituições viram cenário de uma guerra moral. A decisão eleitoral deixa de ser comparação de projetos; vira “prova de fé”.


4.3. Transparência forçada e delação moral


Han descreve a sociedade da transparência como um ambiente em que opacidade e silêncio são tratados como culpa. (Han, 2018). Em política, isso aparece como coerção social: “se você não se posicionar, você é cúmplice”; “quem não compartilha, protege o inimigo”.

Esse mecanismo é especialmente perigoso quando acoplado a moral religiosa: a exigência de alinhamento torna-se espiritualizada. A esfera pública perde o direito à hesitação, ao meio-termo, à dúvida — isto é, perde uma condição básica da democracia.


4.4. Exclusão “técnica”: o ban-óptico como política social


Uma das faces mais corrosivas do autoritarismo “polido” é a exclusão com linguagem técnica: score, risco, perfil, merecimento. Em vez de dizer “não quero você”, diz-se “você não se adequa”; “não é compatível”; “não atende aos critérios”.

Na era de dados, essa exclusão pode ser automatizada e naturalizada, parecendo neutra. O que se produz é um tipo de “banimento” social que não precisa de discurso explicitamente odioso para funcionar: basta reduzir acesso, visibilidade, crédito, oportunidade.



5. Brasil em 2026: eleição sob modulação algorítmica


5.1. Calendário eleitoral e a pré-campanha permanente


O calendário formal importa, mas a campanha real começa muito antes. O TSE informa que o 1º turno das Eleições Gerais de 2026 está marcado para 4 de outubro, e que o fechamento do cadastro eleitoral ocorre em 6 de maio de 2026. 

Entre o formal e o real, há a pré-campanha permanente: lives, cortes, influenciadores, grupos de mensageria e ecossistemas de páginas que constroem “verdades emocionais” antes que a disputa institucional consiga enquadrar o debate.


5.2. IA, deepfakes e a crise da confiança


O TSE já enfrentou o tema em 2024/2025, com regras sobre propaganda e menções explícitas à proibição de deepfakes e à exigência de aviso sobre uso de IA em conteúdos. 

Em 2026, o próprio TSE segue aprovando resoluções para reger o pleito. 

Isso importa porque a psicopolítica opera melhor quando o ambiente informacional é instável: quando a confiança é corroída, as pessoas recorrem mais à identidade do grupo do que a critérios de realidade. A eleição vira plebiscito de pertencimento.


5.3. Religiosidade política e a tentação do “Estado moral”


Pesquisas comparativas internacionais indicam que nacionalismo religioso (a ideia de que a tradição religiosa dominante deve guiar leis e identidade nacional) existe em graus variados e pode ser medido por atitudes específicas. No recorte do Pew Research Center, o Brasil aparece com proporções relevantes nesse espectro, o que ajuda a entender por que a linguagem religiosa tem poder de mobilização política. 

O risco, em contexto polarizado, é a transição do “valor pessoal” para a “lei moral imposta”: quando uma ética de grupo reivindica o Estado como instrumento de salvação.



6. O perigo das escolhas polidas


6.1. Pequenas concessões, grande erosão


O autoritarismo raramente começa com o grande ato. Ele começa com concessões pequenas, “razoáveis”, “temporárias”, “necessárias”:

  • restringir direitos “para proteger”,
  • deslegitimar imprensa “para evitar manipulação”,
  • atacar universidades “para combater doutrinação”,
  • fragilizar controles “para destravar o país”.


Cada gesto parece isolado. No conjunto, cria-se um regime em que pluralismo vira ameaça.


6.2. A estética do “bem” como licença para a exceção


Quando a política se apresenta como missão moral absoluta, qualquer limite institucional vira obstáculo. A exceção passa a ser justificável: “o país está em guerra”; “o inimigo é interno”; “Deus acima de tudo”; “não dá para negociar com o mal”.

É assim que escolhas polidas — votar “pela família”, “pela fé”, “pela ordem” — podem se tornar escolhas que corroem a democracia por dentro, sem que o eleitor se perceba antidemocrático. A psicopolítica trabalha justamente nesse ponto: ela transforma coerção em desejo e violência simbólica em virtude.


7. Resistência democrática: negatividade, freios institucionais e alfabetização cívica


Em Han, a resistência passa por recuperar negatividade: silêncio, demora, opacidade legítima — o direito de não performar e de não se submeter à coação de comunicar-se o tempo todo. (Han, 2018).

No Brasil de 2026, isso se traduz em medidas cívicas objetivas:

  1. Suspender reação emocional como regra.
  2. Exigir procedência e contexto, especialmente para conteúdo “perfeito demais”.
  3. Tratar cruzadas morais como alerta institucional (não como virtude automática).
  4. Defender limites ao poder mesmo quando o poder parece “do lado certo”.
  5. Recolocar o debate em critérios públicos: direitos, legalidade, pluralismo, proteção a minorias, alternância e freios.


Conclusão


A psicopolítica ajuda a enxergar o perigo mais difícil de nomear: o autoritarismo que não tem aparência autoritária. Quando extremismos se revestem de linguagem religiosa e de estética de “bons costumes”, eles se tornam politicamente eficazes porque deslocam a discussão da esfera pública para o tribunal moral do pertencimento. Em 2026, com campanha permanente e tecnologias de persuasão em escala (IA, microsegmentação, manipulações audiovisuais), a democracia brasileira enfrenta um teste que não é apenas eleitoral: é psicológico e cultural. O risco não é só votar mal; é votar “bem” — no sentido estético — por razões que naturalizam exclusão e pedem exceção. A escolha polida pode ser a mais perigosa quando ela carrega, escondida, a ideia de que certos brasileiros pertencem mais do que outros. A democracia, por definição, começa onde termina a fantasia da pureza: ela exige limites, convivência, conflito regulado e respeito à diferença. Sem isso, resta apenas a administração da psique — e, então, a política vira técnica de dominação com rosto de virtude.


Referências essenciais


AGÊNCIA BRASIL. Conselho leva à ONU alerta sobre avanço do neonazismo no Brasil. Agência Brasil, Brasília, DF, 9 abr. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-04/conselho-leva-onu-alerta-sobre-avanco-do-neonazismo-no-brasil. Acesso em: 1 mar. 2026. 


AGÊNCIA BRASIL. Brasil envia alerta de crescimento de grupos neonazistas para ONU. Agência Brasil, Brasília, DF, 10 abr. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2024-04/brasil-envia-alerta-de-crescimento-de-grupos-neonazistas-para-onu. Acesso em: 1 mar. 2026. 


BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Resolução nº 23.732, de 27 de fevereiro de 2024. Altera a Res.-TSE nº 23.610/2019 (propaganda eleitoral). Brasília, DF: TSE, 2024. Disponível em: https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2024/resolucao-no-23-732-de-27-de-fevereiro-de-2024. Acesso em: 1 mar. 2026. 


BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. TSE proíbe uso de inteligência artificial para criar e propagar conteúdos falsos nas eleições. TSE, Brasília, DF, 28 fev. 2024 (atual. 22 fev. 2025). Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2024/Fevereiro/tse-proibe-uso-de-inteligencia-artificial-para-criar-e-propagar-conteudos-falsos-nas-eleicoes. Acesso em: 1 mar. 2026. 


BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Eleições 2026: TSE aprova sete resoluções que vigorarão no pleito. TSE, Brasília, DF, 26 fev. 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Fevereiro/eleicoes-2026-tse-aprova-sete-resolucoes-que-vigorarao-no-pleito. Acesso em: 1 mar. 2026. 


BRASIL. Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Eleições 2026: confira as principais datas e regras do pleito. TRE-SP, São Paulo, 7 jan. 2026 (atual. 13 fev. 2026). Disponível em: https://www.tre-sp.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Janeiro/eleicoes-2026-confira-as-principais-datas-e-regras-do-pleito. Acesso em: 1 mar. 2026. 


BRASIL. Tribunal Regional Eleitoral de Goiás. Prazo para tirar o título de eleitor vai até 6 de maio. TRE-GO, Goiânia, 7 jan. 2026. Disponível em: https://www.tre-go.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Janeiro/prazo-para-tirar-o-titulo-de-eleitor-vai-ate-6-de-maio. Acesso em: 1 mar. 2026. 


HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Âyiné, 2018.


INSTITUTO DEMOCRACIA E SUSTENTABILIDADE (IDS). TSE approves resolution regulating the use of AI and prohibiting deepfakes during elections. IDS, 2024. Disponível em: https://ids.org.br/en/news-post/tse-approves-resolution-regulating-the-use-of-ai-and-prohibiting-deepfakes-during-elections/. Acesso em: 1 mar. 2026. 


PEW RESEARCH CENTER. Comparing Levels of Religious Nationalism Around the World. Washington, DC: Pew Research Center, 28 jan. 2025. Disponível em: https://www.pewresearch.org/global/2025/01/28/comparing-levels-of-religious-nationalism-around-the-world/. Acesso em: 1 mar. 2026. 


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