sábado, 2 de maio de 2026

A China é capitalista ou comunista?

A pergunta simples que exige uma resposta histórica, econômica e política


Um amigo me abordou hoje com uma pergunta direta, dessas que parecem simples, mas carregam um mundo inteiro dentro delas:

A China é capitalista ou comunista?

A resposta mais honesta é: a China não é simplesmente capitalista, nem vive o comunismo pleno. Ela se define como um Estado socialista dirigido pelo Partido Comunista, com uma economia de mercado subordinada ao planejamento estatal.

A própria Constituição chinesa afirma que a República Popular da China é um Estado socialista e que a liderança do Partido Comunista é a característica definidora do “socialismo com características chinesas”.  

1. O erro está na pergunta: capitalismo ou comunismo?

A pergunta costuma vir montada como uma oposição binária: ou a China é capitalista, porque tem empresas privadas, bilionários, comércio exterior e mercado; ou é comunista, porque é governada pelo Partido Comunista.

Mas, teoricamente, comunismo seria uma sociedade sem classes sociais, sem Estado coercitivo e sem propriedade privada dos meios fundamentais de produção. A China não afirma ter chegado a esse estágio. Ela se apresenta como uma sociedade em construção socialista.

Por isso, a resposta tecnicamente mais adequada é: a China é uma economia socialista de mercado sob direção política comunista.

2. O socialismo chinês como transição

Na tradição marxista, o socialismo é compreendido como uma etapa histórica de transição entre o capitalismo e o comunismo. A China interpreta sua própria experiência dentro dessa lógica: não como comunismo realizado, mas como uma longa construção histórica de desenvolvimento, modernização produtiva e fortalecimento nacional.

A expressão oficial mais usada é “socialismo com características chinesas”. Ela permite à China combinar planejamento estatal, propriedade pública estratégica, mercado, empresas privadas, investimento estrangeiro e forte controle político do Partido Comunista.

3. O mercado existe, mas não manda sozinho

A grande confusão nasce daqui: a China usa mecanismos capitalistas? Sim. Há lucro, concorrência, exportações, bilionários, empresas privadas e bolsas de valores.

Mas a questão decisiva é outra: quem comanda o sentido geral da economia?

No capitalismo liberal clássico, o Estado costuma atuar como regulador, garantidor da propriedade privada e mediador dos interesses do capital. Na China, a lógica é diferente: o capital privado existe, mas é politicamente subordinado ao projeto nacional definido pelo Estado e pelo Partido.

A Lei das Companhias chinesa prevê a existência de organizações do Partido Comunista nas empresas, que devem ter condições para desenvolver suas atividades.  

4. O Estado controla os setores estratégicos

A China não entregou seu coração econômico ao mercado. Energia, finanças, infraestrutura, telecomunicações, transporte, defesa, grandes bancos e conglomerados industriais permanecem sob forte presença estatal.

Segundo a SASAC, órgão estatal que supervisiona grandes empresas públicas centrais, os ativos das empresas estatais centrais chinesas ultrapassaram 90 trilhões de yuans em 2024.  

Esse dado é essencial: a China aceita o mercado, mas conserva o comando estratégico sobre os instrumentos fundamentais do desenvolvimento nacional.

5. O sistema financeiro como instrumento produtivo

Outro ponto decisivo: na China, o sistema financeiro não opera apenas como mecanismo de rentismo e especulação. Ele é fortemente orientado pelo Estado para financiar infraestrutura, indústria, inovação, tecnologia, urbanização e cadeias produtivas.

Essa diferença é profunda. Em muitos países capitalistas periféricos, o setor financeiro se autonomiza e passa a capturar o Estado. Na China, ao menos em sua arquitetura institucional, o Estado busca capturar o sistema financeiro para subordiná-lo a metas nacionais.

6. Capital privado existe, mas não governa

A China permitiu o crescimento de empresários privados porque compreendeu que o mercado poderia acelerar a produção de bens, inovação tecnológica e integração global. Mas isso não significa que o empresariado privado controle o poder político.

Essa é uma diferença estrutural. Na China, um bilionário pode enriquecer, mas não pode se tornar maior do que o Partido. O capital privado é tolerado, estimulado e usado, desde que não ameace a soberania política do Estado.

7. Então a China é capitalista?

Depende do critério usado.

Se o critério for a existência de mercado, lucro e empresas privadas, alguém poderia dizer que há fortes elementos capitalistas.

Mas, se o critério for quem controla o Estado, os setores estratégicos, o sistema financeiro, o planejamento nacional e o projeto de desenvolvimento, a China não cabe bem na definição simples de capitalismo liberal.

Por isso, chamá-la apenas de capitalista é reducionista.

8. Então a China é comunista?

Também não, no sentido teórico pleno. A China é governada por um Partido Comunista, mas não vive uma sociedade comunista acabada.

Há desigualdade social, propriedade privada, mercado, hierarquias salariais, consumo de massa, acumulação de riqueza e competição empresarial. Esses elementos não correspondem ao ideal comunista clássico.

Logo, a China é comunista no comando político-partidário, mas não comunista como estágio final de sociedade.

9. A melhor resposta: socialismo de mercado sob direção estatal

A formulação mais precisa é:

A China é um Estado socialista de partido único, dirigido pelo Partido Comunista, que utiliza mecanismos de mercado e capital privado como instrumentos subordinados a um projeto nacional de desenvolvimento.

É uma combinação singular: mercado sem liberalismo político; propriedade privada sem supremacia política do capital; planejamento estatal sem eliminação completa da concorrência; socialismo sem abandono da eficiência econômica.

Conclusão

Quando meu amigo perguntou se a China é capitalista ou comunista, a resposta mais curta seria: a China é socialista, com mercado, sob direção do Partido Comunista.

Mas a resposta mais profunda é esta: a China desafia as categorias tradicionais do século XX. Ela não é uma economia capitalista liberal, porque o capital não governa livremente o Estado. Também não é uma sociedade comunista realizada, porque mantém mercado, desigualdades e propriedade privada. Trata-se de uma experiência histórica própria: um socialismo de mercado, planejado, nacional-desenvolvimentista e politicamente centralizado.

A China talvez seja, hoje, o maior exemplo de que o mundo real é mais complexo do que os rótulos simples permitem enxergar.

Referências essenciais

CHINA. Constitution of the People’s Republic of China. Beijing: The State Council, 2019.

CHINA. Company Law of the People’s Republic of China. Beijing: National People’s Congress, 2024.

SASAC. Profits of China’s Central SOEs Reach 2.6 Trln Yuan in 2024. Beijing, 2025.


sexta-feira, 1 de maio de 2026

O Brasil no centro do tabuleiro: Trump, China e a nova geopolítica do “fiel da balança”

Quando a hegemonia dos Estados Unidos já não organiza sozinha o mundo


A fala do professor Leonardo Trevisan, na entrevista a Cesar Calejon, (https://youtu.be/1f71kJXxQS0?si=rKDEw9IXM5nSmr9v) tem uma força especial porque não se perde na espuma dos acontecimentos. Ele não olha apenas para Trump, para a China, para o Irã ou para o Brasil como peças isoladas. Ele enxerga o tabuleiro. E, nesse tabuleiro, a tese central é direta: os Estados Unidos continuam poderosos, mas já não conseguem organizar sozinhos a ordem mundial.

Essa é a grande mudança histórica. Durante décadas, Washington funcionou como eixo político, militar, financeiro e simbólico do sistema internacional. O dólar, a OTAN, Wall Street, o Vale do Silício, Hollywood, as bases militares e as instituições multilaterais davam aos Estados Unidos uma autoridade quase automática. Mas a história raramente termina onde os impérios imaginam. A hegemonia norte-americana não acabou, mas está sendo corroída por dentro e pressionada por fora.

Donald Trump é menos a causa dessa crise e mais o sintoma dela. Sua política externa agressiva, comercialmente protecionista e diplomaticamente errática expressa a tentativa de um império de recuperar, no grito, uma centralidade que já não se sustenta apenas pela força. Quando Trevisan fala do isolamento de Trump, inclusive diante de aliados europeus, ele está dizendo algo profundo: a liderança norte-americana deixou de ser consenso até entre aqueles que tradicionalmente orbitavam Washington.

A China não grita: ela controla gargalos

Um dos pontos mais importantes levantados por Trevisan é o papel das terras raras. A China não domina apenas fábricas, exportações e infraestrutura. Ela domina partes decisivas da cadeia material da tecnologia contemporânea.

Segundo a Agência Internacional de Energia, a China responde por cerca de 60% da produção minerada global de terras raras magnéticas, por mais de 90% do refino e por quase 95% da produção de ímãs permanentes. Esses materiais são fundamentais para veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, sistemas digitais e equipamentos militares.  

Aqui está o coração da nova geopolítica: o poder do século XXI não está apenas no míssil, no porta-aviões ou no discurso presidencial. Está no mineral crítico, no semicondutor, no fertilizante, no porto, na rota marítima, no cabo submarino e na capacidade de transformar matéria-prima em dependência estratégica.

A China entendeu isso com antecedência. Enquanto parte do Ocidente ainda falava de globalização como se fosse apenas livre mercado, Pequim tratava cadeias produtivas como instrumentos de soberania. Isso não significa romantizar a China, nem ignorar seus interesses de potência. Significa reconhecer o óbvio: ela joga xadrez geoeconômico com paciência histórica.

Energia, fertilizantes e inflação: a guerra chega ao prato

Trevisan também chama atenção para os impactos econômicos das tensões no Oriente Médio. Esse ponto é essencial porque muitos ainda tratam geopolítica como algo distante, quase abstrato. Mas uma crise no Estreito de Ormuz aparece rapidamente no preço do petróleo, do gás, do frete, do fertilizante, do alimento e, por fim, no bolso do trabalhador.

O Banco Mundial projetou, no relatório Commodity Markets Outlook de abril de 2026, alta de 16% nos preços globais de commodities em 2026, puxada por energia, fertilizantes e metais. A instituição também projetou aumento de 24% nos preços de energia no ano, em razão do choque provocado pela guerra no Oriente Médio.  

Esse dado confirma a intuição de Trevisan: ninguém sai ileso quando a cadeia produtiva global entra em desorganização. Talvez empresas petrolíferas lucrem no curto prazo, mas sociedades inteiras pagam a conta. Energia cara significa produção cara. Produção cara significa alimento caro. Alimento caro significa inflação. Inflação significa perda de renda, instabilidade social e pressão política.

A Reuters noticiou, em 1º de maio de 2026, que a crise energética provocada pela guerra com o Irã afetou o mercado global de gás natural liquefeito, com forte alta de preços na Europa e na Ásia.   O Guardian, por sua vez, registrou a disparada do petróleo diante do agravamento das tensões envolvendo o Estreito de Ormuz.  

É nesse ponto que a geopolítica deixa de ser mapa e vira supermercado.

O Brasil como fiel da balança

A parte mais provocadora da fala de Trevisan é a leitura sobre o Brasil. Ele afirma que o país vive uma espécie de “sorte histórica”. Eu diria de outro modo: o Brasil está diante de uma janela rara, mas janela não é destino. Pode ser oportunidade ou desperdício.

O Brasil tem alimentos, água, energia, biodiversidade, território, mercado interno, minérios estratégicos, capacidade diplomática e posição geográfica relevante. Em um mundo fragmentado, esses ativos deixam de ser apenas vantagens naturais e passam a ser instrumentos de negociação internacional.

A participação brasileira como país parceiro da Hannover Messe 2026 reforça essa percepção. A própria feira apresentou o Brasil como força da transformação industrial sustentável e maior economia da América Latina.   A ApexBrasil informou que o Pavilhão Brasil reuniu empresas, instituições e governo em uma área de 2.660 m², distribuída em seis halls, com o objetivo de gerar negócios e fortalecer a imagem internacional do país.  

Isso é mais do que vitrine. É sinal de reposicionamento. A Europa olha para o Brasil não apenas como exportador de soja, minério e carne, mas como parceiro potencial em energia limpa, indústria verde, biotecnologia, alimentos, minerais críticos e cadeias produtivas menos dependentes da Ásia.

Mercosul-União Europeia: pragmatismo e disputa

Outro ponto decisivo é o acordo Mercosul-União Europeia. A Comissão Europeia informou que o acordo comercial passou a ser aplicado provisoriamente em 1º de maio de 2026 e cria uma zona comercial de aproximadamente 700 milhões de pessoas.  

Esse acordo não é neutro. Há críticas ambientais, receios de agricultores europeus, disputas regulatórias e assimetrias produtivas. Mas, do ponto de vista geopolítico, ele sinaliza algo muito claro: Europa e América do Sul procuram alternativas diante de um mundo mais protecionista, instável e marcado pela rivalidade entre Estados Unidos e China.

Para o Brasil, o acordo pode ser uma chance de ampliar mercados, atrair investimentos e sofisticar sua inserção internacional. Mas também pode aprofundar uma armadilha antiga: exportar produtos primários e importar bens tecnológicos de maior valor agregado. Por isso, o debate não pode ser ingênuo. O Brasil não deve celebrar acordos apenas pela fotografia diplomática. Deve perguntar: isso fortalece nossa indústria? Amplia nossa capacidade tecnológica? Gera emprego qualificado? Aumenta nossa soberania?

Chancay, ferrovias e a geopolítica dos caminhos

Trevisan menciona o Porto de Chancay, no Peru, como exemplo da estratégia chinesa na América do Sul. Esse ponto é brilhante porque mostra que a disputa global não ocorre apenas em capitais, cúpulas e discursos. Ela ocorre nas rotas.

A Reuters informou que o porto chinês de Guangzhou iniciou, em 2025, uma rota direta para o Porto de Chancay, com expectativa de reduzir custos logísticos em cerca de 20%.   Outras análises apontam que Chancay pode reduzir significativamente o tempo de transporte entre América do Sul e Ásia.  

Isso muda o mapa mental da América do Sul. Durante muito tempo, nossa infraestrutura foi desenhada para olhar para o Atlântico, para a Europa e para os Estados Unidos. Agora, a China tenta redesenhar corredores para o Pacífico. Quem controla os caminhos, controla parte do comércio. Quem financia os portos, influencia as rotas. Quem encurta o tempo de viagem, muda a economia.

O Brasil precisa observar isso com realismo. Não se trata de rejeitar a China, nem de aderir cegamente a ela. Trata-se de compreender que infraestrutura é poder. Porto, ferrovia, hidrovia, energia e telecomunicações não são apenas obras: são instrumentos de soberania nacional.

Diplomacia profissional e interesse nacional

Trevisan elogia o Itamaraty, e esse elogio é justo. Em um país frequentemente capturado por paixões eleitorais de curto prazo, a diplomacia profissional brasileira é uma das poucas instituições que ainda pensa o Estado em escala histórica.

O Brasil precisa conversar com a China sem romper com os Estados Unidos. Precisa negociar com a Europa sem aceitar tutela moral seletiva. Precisa fortalecer o Mercosul sem abandonar sua projeção global. Precisa defender a Amazônia sem permitir que a pauta ambiental seja usada como instrumento de bloqueio comercial. Precisa vender commodities, mas também industrializar, inovar e agregar valor.

Essa é a diferença entre diplomacia adulta e alinhamento automático. O país que se comporta como satélite não formula destino próprio. Apenas gira em torno do projeto dos outros.

Minha leitura: o Brasil não pode desperdiçar a história

A entrevista de Trevisan me parece importante porque ajuda a romper com duas ilusões comuns no debate público brasileiro.

A primeira ilusão é achar que o mundo continua igual, como se os Estados Unidos ainda fossem o centro incontestável da ordem global. Não são. Continuam imensamente poderosos, mas enfrentam concorrência econômica, tecnológica, diplomática e logística.

A segunda ilusão é imaginar que o Brasil é pequeno demais para influenciar o tabuleiro. Não é. O Brasil é grande, mas muitas vezes pensa pequeno. Tem escala continental, mas age com mentalidade provinciana. Tem ativos estratégicos, mas frequentemente os entrega sem projeto nacional. Tem diplomacia competente, mas nem sempre tem elite política à altura.

O Brasil pode ser fiel da balança, sim. Mas, para isso, precisa saber o que quer. Não basta estar no lugar certo da história. É preciso ter estratégia, Estado, ciência, indústria, educação, infraestrutura e soberania.

O mundo que nasce diante de nós será menos confortável, menos previsível e mais duro. Nele, países desorganizados serão pressionados por todos os lados. Países estratégicos, porém, poderão negociar melhor. O Brasil tem condições de estar no segundo grupo.

Mas isso exige uma escolha: deixar de ser apenas fornecedor de matéria-prima e tornar-se uma potência produtiva, científica, energética, alimentar e diplomática. A fala de Leonardo Trevisan aponta justamente para isso. O Brasil não está fora do jogo. Está no centro de uma disputa que talvez ainda não tenha compreendido plenamente.

Referências

BANCO MUNDIAL. Commodity Markets Outlook. Washington, 2026.

COMISSÃO EUROPEIA. The EU-Mercosur trade agreement. Bruxelas, 2026.

HANNOVER MESSE. Brazil: Partner Country 2026. Hannover, 2026.

INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Rare Earth Elements: pathways to secure and diversified supply chains. Paris, 2026.

REUTERS. China’s Guangzhou port starts shipping route to Peru. 2025.

THE GUARDIAN. Oil price tops $126 a barrel after Trump warns Iran blockade could last months. 2026.


O progresso que cobra vidas: capitalismo, escravidão e o mito sacrificial da modernidade

Quando a eficiência econômica transforma seres humanos em combustível da história


Introdução

Há uma pergunta incômoda que atravessa a história moderna: quem pagou a conta do chamado progresso? A narrativa tradicional costuma apresentar a modernidade como uma marcha luminosa da razão, da ciência, da técnica, da indústria e da liberdade. Nessa versão, a Revolução Industrial aparece como resultado quase natural da criatividade europeia, do espírito empreendedor, da inovação tecnológica e da organização racional da produção. Mas essa história, contada apenas pelo ponto de vista dos vencedores, deixa nas sombras uma engrenagem decisiva: a acumulação de capital produzida pela escravidão, pelo colonialismo, pelo tráfico transatlântico e pela exploração brutal de povos considerados “inferiores”.

É justamente contra essa narrativa confortável que autores como Eric Williams, Aimé Césaire, Enrique Dussel e Walter Benjamin oferecem instrumentos críticos fundamentais. Cada um, a seu modo, desmonta a ilusão de que o progresso moderno foi moralmente neutro. Williams mostra que capitalismo e escravidão não são fenômenos separados, mas historicamente articulados. Césaire denuncia o colonialismo como processo de coisificação do ser humano. Dussel revela o mito sacrificial da modernidade, isto é, a lógica segundo a qual a dor do outro é aceita como preço inevitável do avanço histórico. Benjamin, por sua vez, alerta que todo monumento de civilização também carrega marcas de barbárie.

O ponto central é duro: a modernidade não pode ser compreendida apenas por suas fábricas, máquinas, universidades, parlamentos e descobertas científicas. Ela também precisa ser lida a partir dos navios negreiros, das plantations, da pilhagem colonial, dos corpos explorados, dos territórios destruídos e das vidas descartadas em nome da riqueza. Quando essa dimensão é ignorada, o progresso vira mito. E o mito, quando não é criticado, transforma injustiça em destino.

1. Eric Williams e a economia política da escravidão

Eric Williams, em Capitalismo e escravidão, realiza uma das intervenções mais importantes para compreender a relação entre escravidão atlântica e desenvolvimento capitalista. Sua tese central é que a escravidão não foi um acidente moral dentro da modernidade econômica, nem um resíduo arcaico incompatível com o capitalismo. Ao contrário, ela foi parte constitutiva do processo de acumulação que permitiu a expansão comercial, financeira e industrial da Europa moderna (Williams, 2012).

A importância dessa leitura está em deslocar o debate. A escravidão deixa de ser vista apenas como uma tragédia humanitária — embora tenha sido isso também — e passa a ser compreendida como uma instituição econômica central para a formação do mundo moderno. O tráfico transatlântico, a produção de açúcar, algodão, tabaco e outros produtos coloniais, os seguros marítimos, os bancos, as companhias comerciais e os portos europeus formaram uma rede de acumulação profundamente ligada ao trabalho escravizado.

A Revolução Industrial inglesa, frequentemente celebrada como símbolo do gênio técnico europeu, não pode ser separada desse contexto. O algodão produzido por mãos escravizadas alimentou a indústria têxtil. O comércio colonial movimentou capitais. Os lucros do sistema escravista fortaleceram bancos, companhias mercantis, infraestrutura portuária e capacidade de investimento. Portanto, falar de industrialização sem falar de escravidão é como descrever uma árvore ignorando suas raízes.

Williams não afirma apenas que a escravidão gerou riqueza. Ele mostra que essa riqueza foi historicamente funcional ao capitalismo nascente. A escravidão foi lucrativa enquanto serviu à expansão econômica; depois, quando deixou de ser tão conveniente para certos setores do capital britânico, passou a ser combatida também por razões econômicas, e não apenas humanitárias (Williams, 2012). Essa é uma tese desconfortável, pois retira da abolição o verniz puramente moral e mostra que os interesses econômicos continuaram operando por trás das grandes decisões políticas.

Essa leitura é essencial para o presente. Ainda hoje, muitos discursos econômicos tentam separar riqueza e violência, crescimento e exploração, mercado e desigualdade. Mas Williams ensina que é preciso investigar a origem histórica da riqueza. Nem toda prosperidade nasce da inovação limpa, do mérito individual ou da eficiência produtiva. Muitas vezes, ela nasce da expropriação.

2. Aimé Césaire e a coisificação colonial do ser humano

Aimé Césaire aprofunda a crítica ao mostrar que o colonialismo não foi apenas um sistema de exploração econômica, mas também uma máquina de desumanização. Em Discurso sobre o colonialismo, Césaire argumenta que colonizar significa coisificar: transformar pessoas em objetos, culturas em obstáculos, territórios em propriedades e povos inteiros em instrumentos de enriquecimento (Césaire, 2010).

Essa ideia é decisiva. O colonialismo não dominou apenas pela força militar. Ele precisou produzir uma justificativa moral, cultural e racial para a dominação. Para explorar, foi necessário primeiro negar a humanidade plena do outro. O colonizado foi descrito como atrasado, bárbaro, infantil, incapaz de governar a si mesmo. Assim, a violência colonial pôde ser apresentada como missão civilizatória.

Esse mecanismo permanece atual. Sempre que um grupo social é tratado como “mão de obra barata”, “população excedente”, “custo trabalhista”, “massa improdutiva” ou “entrave ao crescimento”, a linguagem econômica pode estar repetindo, em nova roupagem, a antiga coisificação colonial. A pessoa desaparece; fica apenas sua utilidade para o sistema.

Césaire também mostra que o colonialismo brutaliza o próprio colonizador. Ao aceitar a violência contra outros povos como normal, a sociedade colonizadora deteriora sua própria consciência moral. A barbárie praticada nas colônias retorna ao centro sob outras formas. Por isso, para Césaire, não é possível separar a violência colonial da crise ética da própria Europa moderna (Césaire, 2010).

A força de Césaire está em afirmar que o colonialismo não foi uma falha ocasional da civilização ocidental. Ele foi uma de suas faces constitutivas. A mesma modernidade que falava em liberdade, razão e humanidade universal aceitava o massacre, a pilhagem e a escravidão de povos inteiros. Essa contradição não é detalhe histórico; é o núcleo do problema.

3. Enrique Dussel e o mito sacrificial da modernidade

Enrique Dussel amplia a crítica ao deslocar o nascimento da modernidade para o encontro violento entre Europa e América. Em 1492: o encobrimento do outro, ele argumenta que a modernidade europeia se constituiu não apenas pela descoberta do mundo, mas pelo encobrimento do outro. A Europa não encontrou simplesmente povos diferentes; ela os reinterpretou a partir de sua própria superioridade presumida (Dussel, 1993).

Para Dussel, a modernidade construiu uma narrativa na qual a Europa aparece como portadora da razão, da civilização e do progresso. O outro — indígena, africano, colonizado — aparece como atraso a ser superado. Desse modo, a violência colonial é convertida em pedagogia histórica: mata-se, domina-se e explora-se em nome de um futuro supostamente superior.

É aí que surge o mito sacrificial da modernidade. O sofrimento do outro passa a ser visto como sacrifício necessário. A modernização exige vítimas. A expansão econômica exige destruição. O desenvolvimento exige que alguns sejam esmagados para que outros avancem. Essa lógica é profundamente perversa porque transforma injustiça em necessidade histórica.

Dussel ajuda a compreender que o problema da modernidade não é apenas econômico, mas também epistemológico. A Europa moderna não apenas explorou o outro; ela se colocou como medida universal da humanidade. O conhecimento europeu passou a ser apresentado como conhecimento universal. As experiências dos povos colonizados foram inferiorizadas, silenciadas ou tratadas como folclore.

Essa crítica é extremamente atual. Quando organismos econômicos, governos ou elites empresariais afirmam que determinadas populações precisam “pagar o preço” da austeridade, da flexibilização trabalhista, da informalidade ou da precarização, estamos diante de uma versão contemporânea do mito sacrificial. A linguagem mudou, mas a lógica permanece: alguns devem sofrer para que o sistema continue funcionando.

4. Walter Benjamin e a crítica à história dos vencedores

Walter Benjamin, em “Sobre o conceito de história”, oferece uma chave essencial para interpretar a ideia de progresso. Para ele, a história não deve ser lida como uma sequência linear de avanços inevitáveis. A visão triunfalista do progresso costuma ser a visão dos vencedores. Ela celebra conquistas, monumentos, impérios e revoluções técnicas, mas esquece os vencidos, os explorados e os mortos (Benjamin, 1987).

A famosa tese benjaminiana de que todo documento de cultura é também documento de barbárie ajuda a compreender o centro deste debate. Uma ferrovia, uma fábrica, um palácio, uma universidade ou uma fortuna nacional podem representar civilização. Mas também podem carregar, em sua origem, trabalho forçado, expropriação, violência e silenciamento.

Benjamin rompe com a ideia de que a história caminha automaticamente para melhor. Para ele, o progresso pode ser uma tempestade que empurra a humanidade para frente enquanto acumula ruínas pelo caminho. Essa imagem é poderosa porque nos obriga a olhar para aquilo que a narrativa oficial tenta esconder: os custos humanos do desenvolvimento.

Aplicada ao colonialismo e ao capitalismo, essa leitura impede qualquer celebração ingênua da modernidade. Não basta perguntar o que foi construído. É preciso perguntar quem construiu, sob quais condições, com quais perdas e para benefício de quem. A história crítica começa quando os vencidos deixam de ser estatística e voltam a ser sujeitos.

5. Eficiência econômica e dignidade humana

O problema não está apenas no passado escravista ou colonial. O perigo maior está na permanência da mesma lógica em estruturas contemporâneas de exploração.

Hoje, a linguagem dominante raramente fala em colonização. Fala em produtividade, competitividade, eficiência, flexibilização, redução de custos, modernização, ajuste fiscal, inovação disruptiva e racionalização. Muitas dessas palavras podem ter usos legítimos. O problema começa quando elas passam a justificar a degradação da vida humana.

Quando trabalhadores são tratados como peças substituíveis, quando populações pobres são vistas como obstáculos ao crescimento, quando direitos sociais são apresentados como entraves econômicos, quando a educação pública é tratada como despesa e não como emancipação, a lógica sacrificial retorna. O altar já não é colonial no sentido clássico, mas continua exigindo vítimas.

A precarização do trabalho é um exemplo evidente. O trabalhador contemporâneo muitas vezes aparece como “empreendedor de si mesmo”, mas, na prática, assume riscos sem proteção, trabalha mais, recebe menos, vive inseguro e ainda é responsabilizado individualmente por sua própria vulnerabilidade. A exploração se torna mais sofisticada porque vem acompanhada de um discurso de liberdade.

O racismo estrutural também é continuidade histórica dessa lógica. As populações negras, indígenas e periféricas continuam ocupando, de forma desproporcional, os lugares sociais mais precarizados. O passado escravista não desapareceu; ele foi reorganizado nas desigualdades urbanas, educacionais, salariais, penais e territoriais. A abolição formal não produziu automaticamente justiça substantiva.

6. O falso dilema entre desenvolvimento e justiça social

Um dos argumentos mais perigosos da política econômica contemporânea é a ideia de que primeiro é preciso crescer para depois distribuir. Esse raciocínio parece pragmático, mas muitas vezes serve para adiar indefinidamente a justiça. A promessa é sempre a mesma: suportem agora, sacrifiquem-se agora, aceitem perdas agora, porque no futuro todos serão beneficiados.

Esse é o núcleo do mito sacrificial. O futuro é usado para justificar a dor presente. A dignidade concreta das pessoas é sacrificada em nome de uma abstração chamada crescimento. Mas que crescimento é esse? Crescimento para quem? Produzido por quem? Apropriado por quem?

Desenvolvimento verdadeiro não pode ser medido apenas pelo Produto Interno Bruto, pela balança comercial ou pela produtividade média. Ele precisa ser avaliado pela capacidade de ampliar a vida humana, reduzir desigualdades, proteger direitos, democratizar oportunidades e respeitar a dignidade dos grupos historicamente explorados.

Nesse sentido, a crítica de Williams, Césaire, Dussel e Benjamin converge para uma mesma exigência ética: nenhuma sociedade deve chamar de progresso aquilo que depende da degradação de seres humanos.

7. A atualidade política dessa crítica

A leitura dessas referências também tem implicações diretas para o debate político. Em tempos de crise econômica, é comum que discursos autoritários reapareçam prometendo ordem, eficiência e crescimento. Muitas vezes, esses discursos elegem inimigos internos: pobres, imigrantes, servidores públicos, professores, minorias, movimentos sociais ou populações periféricas.

A lógica é antiga: para salvar a nação, alguém precisa ser sacrificado. Para restaurar a economia, alguém precisa perder direitos. Para garantir a ordem, alguém precisa ser silenciado. Para proteger o desenvolvimento, alguém precisa ser descartado.

É nesse ponto que a crítica histórica se torna instrumento de vigilância democrática. A modernidade já mostrou que discursos de progresso podem conviver com práticas brutais. A técnica pode servir à emancipação, mas também pode servir ao controle. A economia pode organizar a vida social, mas também pode naturalizar a desigualdade. O Estado pode proteger direitos, mas também pode legitimar exclusões.

Por isso, a memória histórica não é luxo acadêmico. É defesa civilizatória. Conhecer a relação entre capitalismo, escravidão e colonialismo ajuda a perceber quando a linguagem do progresso está sendo usada para esconder violência social.

Conclusão

Não existe progresso verdadeiro quando a vida humana é convertida em custo, combustível ou resíduo do desenvolvimento. A partir de Eric Williams, compreende-se que a modernidade capitalista foi alimentada por circuitos de acumulação ligados à escravidão e ao tráfico transatlântico. Com Aimé Césaire, percebe-se que o colonialismo não apenas explorou corpos e territórios, mas produziu uma brutal coisificação do ser humano. Com Enrique Dussel, evidencia-se que a modernidade criou um mito sacrificial, no qual a dor dos povos colonizados foi tratada como preço inevitável do avanço histórico. Com Walter Benjamin, aprende-se que toda narrativa triunfal do progresso precisa ser confrontada com as ruínas deixadas pelo caminho.

A grande lição é que a história não pode ser contada apenas pelas máquinas, pelas fábricas, pelos impérios, pelas descobertas e pelos indicadores econômicos. Ela precisa ser contada também pelos corpos explorados, pelas vozes silenciadas e pelas vidas sacrificadas. Quando a eficiência econômica se torna valor absoluto, a sociedade corre o risco de repetir, em nova linguagem, a velha lógica colonial.

A verdadeira evolução não está em produzir mais a qualquer custo. Está em construir uma civilização na qual a técnica esteja subordinada à ética, a economia esteja subordinada à dignidade e o desenvolvimento seja medido não pela riqueza de poucos, mas pela humanidade garantida a todos.

Referências

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. v. 1.

CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2010.

DUSSEL, Enrique. 1492: o encobrimento do outro: a origem do mito da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1993.

WILLIAMS, Eric. Capitalismo e escravidão. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.